sábado, 30 de setembro de 2017

Bonuns Rex ou Rex Inutilis. As Periferias e o Centro. Redes de Poder no reinado de Sancho II (1223-1248). José Varandas. «Mal se pode desculpar el-rei Sancho, nem nós o queremos livrar, nem ainda podemos, pois anda incerta no corpo do direito canónico a bula de sua deposição»

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Sancho II de Portugal. Fr. António Brandão (1632)
«(…) Outro aspecto, a que recorrentemente, a historiografia portuguesa volta, quando aborda o reinado de Sancho II, é o que diz respeito às notícias de agravos e desmandos que o rei de Portugal, por intermédio dos seus oficiais e validos, fazia às liberdades eclesiásticas. Como muitas outras, também estas informações já encontram lugar na narrativa de António Brandão. Contudo, a sua perspectiva volta-se para o facto de os desmandos de que a Igreja se queixava serem perpetrados por elementos ligados à coroa, mas sem conhecimento ou autorização do rei. As reacções da hierarquia eclesiástica são abordadas e indicadas as várias bulas papais com que o clero admoestava o rei português, procurando com isso levá-lo a tomar uma atitude mais firme sobre os seus homens. Responde o monge de Cister com o relato de obras pias, fundações de casas religiosas e generosas dotações fundiárias a ordens militares, bispados e abadias, um pouco por todo o país, o que contrastava abundantemente com as informações suspiradas pelas crónicas do passado, que davam conta apenas da incapacidade e insensibilidade do rei para com as coisas do clero. Por exemplo, podemos citar: mando se dê para as obras dos frades pregadores de Santarém trezentos maravedis e se reparta com eles da minha madeira de Lisboa e de outros lugares meus, a que lhes for necessária. Aliás, Franciscanos e Dominicanos foram largamente apoiados e financiados por Sancho, e Brandão não se cansa de dar exemplos dessa intensa ligação entre o soberano e aquelas ordens. Vastas páginas tratam da questão da deposição do rei em 1245, e como a ela recorreremos incessantemente, aqui deixamos o que nos parecem ser as principais opiniões de fr. António Brandão: não há dúvida que foram mui urgentes as causas que obrigaram ao Sumo Pontífice privar a el-rei Sancho do governo do reino, e a mandar em seu lugar o infante Afonso. Mal se pode desculpar el-rei Sancho, nem nós o queremos livrar, nem ainda podemos, pois anda incerta no corpo do direito canónico a bula de sua deposição em que vêem apontadas as cousas que moveram ao papa a fazer um extremo tão grande, como foi excluir a um rei do governo e administração de seu reino.
Resume, desta forma, o facto incontestável de que o rei foi deposto. Cita as diversas queixas formuladas junto da Santa Sé e a inevitabilidade política dessa mesma deposição. Curiosamente cita dois governantes de grande poder na Europa daquele tempo, e que estarão para sempre ligados, de maneiras diferentes, à deposição do seu congénere português. São eles, Frederico II, o imperador deposto no Concílio de Lyon, uma semana antes de Sancho e Luís IX, rei de França, patrono de Afonso de Bolonha e protector do papado. Voltaremos a falar deles. Lá estão, em Lyon, em plena actividade conciliar, os prelados portugueses mais envolvidos do que nunca na conjura para deporem o seu rei. Nomeia-os a todos: João, o arcebispo de Braga, Pedro, o bispo do Porto, Tibúrcio, bispo de Coimbra e junta-lhes laicos. Estes são nobres e vêem de Portugal, supostamente como embaixadores nomeados pelo rei, atitude que Brandão considera cínica. São eles Rui Gomes de Briteiros, infanção e mais tarde rico-homem do rei Afonso III e Gomes Viegas [Portocarreiro]. Importante é para Brandão o entendimento que o Bolonhês estabelece com aqueles prelados portugueses no coração do reino francês. Em Paris, e sob os auspícios do rei de França, Afonso de Bolonha, jura perante diversas testemunhas e pelos Evangelhos, o seguinte, que Brandão não resistiu em transcrever: eu, Afonso, conde de Bolonha, filho de Afonso de ilustre memória, rei de Portugal, prometo e juro sobre estes Santos Evangelhos de Deus, que por qualquer título que alcançar o reino de Portugal, guardarei e farei guardar a todas as comunidades, conselhos, cavaleiros e aos povos, aos religiosos e clero do dito reino todos os bons costumes e foros escritos e não escritos que tiveram em tempo de meu avô e de meu bisavô; e farei que se tirem todos os maus costumes e abusos introduzidos por qualquer ocasião ou por qualquer pessoa, em tempo de meu pai e irmão, e particularmente, quando se cometer homicídio, que se não leve dinheiro aos vizinhos do morto, mormente quando é manifesto quem foi o matador…» In José Varandas, Bonuns Rex ou Rex Inutilis, As Periferias e o Centro, Redes de Poder no reinado de Sancho II (1223-1248), U. de Lisboa, Faculdade de Letras, Departamento de História, Tese de Doutoramento em História Medieval, 2003.

Cortesia da FLUP/JDACT

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

A Música dos Números Primos. Marcus Sautoy. «Estarão cientes de que os matemáticos se têm esforçado durante séculos para conceber um modo de fazer o que John e Michael faziam espontaneamente: gerar e reconhecer números primos?»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Alguns filósofos podem discordar de uma visão de mundo tão platónica, essa crença numa realidade absoluta e eterna além da existência humana, mas acredito que é isso o que os torna filósofos, e não matemáticos. No livro Conversations on Mind, Matter and Mathematics, há um diálogo fascinante entre Alain Connes, o matemático citado no e-mail de Bombieri, e o neurobiólogo Jean-Pierre Changeux. Durante a conversa, nota-se um momento muito tenso quando o matemático defende a existência da matemática como algo externo à mente, enquanto o neurologista está determinado a refutar essa ideia: por que não veríamos π = 3,1416 escrito em letras douradas no céu, ou 6,02 × 1023 surgindo nas reflexões de uma bola de cristal? Changeux manifesta a sua frustração com a insistência de Connes de que, independentemente da mente humana, existe uma realidade matemática crua e imutável, e no centro desse mundo encontramos a lista imutável de primos. A matemática, declara Connes, é inquestionavelmente a única linguagem universal. Podemos imaginar a existência de diferentes químicas ou biologias do outro lado do Universo, mas os números primos continuarão sendo primos em qualquer galáxia em que os contemos.
No romance clássico de Carl Sagan, Contacto, os alienígenas usam números primos para fazer contacto com a vida na terra. Ellie Arroway, a heroína do livro, trabalha no programa Seti, sigla em inglês para Busca por inteligência extraterrestre, escutando as crepitações do cosmo. Certa noite, quando são apontados em direcção a Vega, os radiotelescópios subitamente captam pulsos estranhos sobrepostos ao ruído de fundo. Ellie reconhece imediatamente o ritmo desse sinal de rádio. Dois pulsos seguidos por uma pausa, então três pulsos, cinco, sete, onze e assim por diante, seguindo por todos os números primos até 907. Então a sequência recomeça. Esse tambor cósmico tocava uma música que os terráqueos não deixariam de reconhecer. Ellie tinha a certeza de que somente uma forma de vida inteligente poderia gerar esse ritmo: é difícil imaginar algum plasma radioactivo emitindo uma série regular de sinais matemáticos como esses. Os números primos foram escolhidos para chamar a nossa atenção. Se a cultura extraterrestre houvesse transmitido os números vencedores da lotaria alienígena dos últimos dez anos, Ellie não teria sido capaz de distingui-los do ruído de fundo. Embora a série de primos pareça ser tão aleatória quanto uma lista de bilhetes vencedores, a sua constância universal determinou a escolha de cada número nessa transmissão alienígena. Essa é a estrutura que Ellie reconhece como o sinal de vida inteligente.
A comunicação através de números primos não se restringe à ficção científica. No livro O homem que confundiu a sua mulher com um chapéu, Oliver Sacks relata o caso de dois irmãos gêmeos de 26 anos de idade, John e Michael, cuja forma mais profunda de comunicação consistia num intercâmbio de números primos de seis algarismos. Sacks descreve a primeira vez em que os encontrou trocando números secretamente no canto de uma sala: a princípio, pareciam dois sommeliers experientes, compartilhando sabores exóticos, apreciações subtis. Inicialmente, Sacks não consegue entender o que os gémeos estão fazendo. Porém, assim que decifra o código, memoriza alguns primos com oito algarismos e revela-os furtivamente durante a conversa da manhã seguinte. A surpresa dos gémeos é seguida por um momento de concentração profunda, que se transforma em júbilo quando reconhecem outro número primo.
Embora Sacks houvesse recorrido a tabelas de primos para descobrir os seus números, o modo como os gémeos geravam os seus primos é um enigma impenetrável. Será possível que esses autistas-génios conhecessem alguma fórmula secreta que passou despercebida por gerações de matemáticos? A história dos gémeos é uma das favoritas de Bombieri. Para mim, é difícil ouvi-la e não ficar pasmo e deslumbrado com o funcionamento do cérebro, mas não sei se os meus amigos não-matemáticos reagem da mesma maneira. Terão eles alguma ideia da natureza bizarra e fantástica, quase sobrenatural, desse talento singular que os gémeos manifestavam tão naturalmente? Estarão cientes de que os matemáticos se têm esforçado durante séculos para conceber um modo de fazer o que John e Michael faziam espontaneamente: gerar e reconhecer números primos?
Antes que alguém conseguisse descobrir o segredo dos gémeos, os médicos separam-os, aos 37 anos de idade, por acreditarem que essa linguagem numerológica privada estaria prejudicando o seu desenvolvimento. Se houvessem escutado as conversas abstrusas que circulam pelos departamentos universitários de matemática, esses médicos possivelmente também recomendariam interditá-los. É provável que os gémeos estivessem utilizando um truque baseado no que é chamado de pequeno teorema de Fermat para testar se um número é primo. O teste é semelhante ao método que os autistas-génios utilizam para determinar rapidamente que o dia 13 de Abril de 1922, por exemplo, foi uma quinta-feira, façanha que esses gémeos demonstravam regularmente em programas de TV. Ambos os truques dependem de algo conhecido como aritmética do relógio ou modular. Mesmo que não tivessem uma fórmula mágica para encontrar os primos, a sua habilidade era extraordinária. Antes de serem separados, já haviam chegado ao números de 20 algarismos, muito além dos valores atingidos pelas tabelas de primos de Sacks». In Marcus Sautoy, A Música dos Números Primos, 2003, 2004 (Harper Perennial), Edições Zahar, 2007, ISBN 978-853-780-037-9.

Cortesia de EZahar/JDACT

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

A Pedra da Luz. Christian Jacq. «Essa aldeia tinha um nome extraordinário: o Lugar de Verdade, em egípcio set Maet, ou seja, o lugar onde a deusa Maet se revelava na rectidão, na exactidão e na harmonia»

Cortesia de wikipedia e jdact

Néfer. O Silencioso
«O mundo inteiro admira as obras-primas da arte egípcia, quer se tratem de pirâmides, templos, túmulos, esculturas ou pinturas. Mas quem criou essas maravilhas cuja força espiritual e mágica nos toca o coração? Em caso algum hordas de escravos ou trabalhadores explorados, mas sim confrarias cujos membros, em número restrito, eram simultaneamente sacerdotes e artesãos. Sem separarem o espírito da mão, formavam uma verdadeira elite que dependia directamente do Faraó. Por sorte, possuímos uma abundante documentação sobre uma dessas confrarias que, durante cerca de cinco séculos, de 1550 a 1070 a.C., viveu numa aldeia do Alto Egipto interdita aos profanos. Essa aldeia tinha um nome extraordinário: o Lugar de Verdade, em egípcio set Maet, ou seja, o lugar onde a deusa Maet se revelava na rectidão, na exactidão e na harmonia da obra que gerações de Servidores do Lugar de Verdade realizavam. Implantada no deserto, não longe dos campos de cultura, a aldeia era rodeada por altos muros, possuía o seu próprio tribunal, o seu próprio templo e a sua própria necrópole: os artesãos viviam ali em família e gozavam de um estatuto especial, devido à importância da sua primordial missão: criar as Moradas de Eternidade dos faraós no Vale dos Reis. Ainda hoje se podem descobrir os vestígios do Lugar de Verdade visitando a localidade de Deir el-Medina, a oeste de Tebas; as partes de baixo das casas estão intactas e podem percorrer-se as ruelas por onde andaram os mestres-de-obras, os pintores, os escultores e as sacerdotisas da deusa Hátor. Santuários, zonas de confraria, túmulos admiravelmente decorados assinalavam o carácter sagrado do lugar, igualmente provido de reservas de água, de celeiros, de oficinas e mesmo de uma escola. Tentei fazer reviver esses seres de excepção, as suas aventuras, a sua vida quotidiana, a sua procura da beleza e da espiritualidade, num mundo que se mostrava por vezes hostil e invejoso. Salvaguardar a própria existência do Lugar de Verdade nem sempre foi fácil e não faltaram as mais variadas armadilhas, principalmente durante o período conturbado em que se desenrola esta narrativa. Que este romance seja dedicado a todos os artesãos do Lugar de Verdade que foram depositários dos segredos da Morada do Ouro e conseguiram transmiti-los nas suas obras.
Por volta da meia-noite, nove artesãos guiados pelo seu chefe de equipa saíram do Lugar de Verdade e começaram a subir por um carreiro estreito iluminado pela lua. Oculto por trás de um bloco de calcário, no cimo de uma colina que dominava o Lugar de Verdade, a aldeia dos construtores do Faraó instalada no deserto e rodeada por muros que preservavam os seus segredos, Méhi conteve um grito de alegria. Há vários meses que o tenente de transportes tentava apanhar informações sobre aquela confraria encarregada de escavar e decorar os túmulos do Vale dos Reis e das Rainhas. Mas ninguém sabia nada, com excepção de Ramsés o Grande, protector do Lugar de Verdade onde mestres-de-obras, talhadores de pedra, escultores e pintores eram iniciados nas suas funções essenciais para a sobrevivência do Estado. A aldeia dos artesãos tinha o seu próprio governo, a sua própria justiça e dependia directamente do rei e do seu primeiro-ministro, o vizir. Méhi só se deveria preocupar com a sua carreira militar que se anunciava brilhante; mas como esquecer que tinha solicitado a admissão na confraria e que a candidatura tinha sido rejeitada? Não se ofendia assim um nobre da sua categoria. Despeitado, Méhi orientara-se para a arma de elite, os transportes, onde o seu talento se impusera. Não tardaria portanto a ocupar um lugar importante na hierarquia. O ódio nascera no seu coração, um ódio cada dia mais forte em relação a essa maldita confraria que o humilhara e cuja simples existência o impedia de sentir uma felicidade perfeita. O oficial tomara portanto uma decisão: ou descobria todos os segredos do Lugar de Verdade e os utilizava em seu proveito, ou destruiria aquela ilhota aparentemente inacessível e tão orgulhosa dos seus privilégios. Para o conseguir, Méhi não podia dar nenhum passo em falso nem despertar qualquer suspeita. Naqueles últimos dias tinha duvidado. Os Servidores do Lugar de Verdade, segundo a designação oficial, não seriam miseráveis fanfarrões cujos pretensos poderes não passavam de miragens e ilusões? E o Vale dos Reis, tão bem guardado, não preservaria apenas cadáveres de monarcas hirtos na imobilidade da morte?» In Christian Jacq, A Pedra da Luz, Néfer. O Silencioso, Bertrand Editora, 2000, ISBN 978-972-251-135-3.

Cortesia de BertrandE/JDACT

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

A Música dos Números Primos. Marcus Sautoy. «É difícil imaginar uma fórmula que seja capaz de gerar esse tipo de padrão. De facto, essa procissão dos primos se assemelha muito mais a uma sucessão de números aleatórios que a um belo padrão ordenado»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Ainda assim, apesar da sua aparente simplicidade e do seu carácter essencial, os números primos perduram como os objectos mais misteriosos já estudados pelos matemáticos. Numa disciplina dedicada a encontrar padrões e ordem, os primos representam o desafio supremo. Observe uma lista de números primos, e descobrirá que é impossível prever quando surgirá o próximo deles. A lista parece caótica, aleatória, não nos fornece qualquer pista sobre como determinar o próximo número. A sequência de primos é a pulsação da matemática, mas é uma pulsação tonificada por um forte cocktail de cafeína:

Os primos até ao número 100, a pulsação irregular da matemática

 Consegue encontrar uma fórmula que gere os números dessa lista, alguma regra mágica que lhe diga qual será o 100º número primo? A questão tem atormentado as mentes matemáticas de todas as épocas. Depois de mais de dois mil anos de esforços, os primos parecem resistir a qualquer tentativa de encaixá-los num padrão reconhecível. O tambor dos primos tem tocado a sua sequência de números ao longo de gerações: duas batidas, seguidas por três batidas, cinco, sete, onze. O ritmo segue em frente, e torna-se fácil acreditar que seja causado por ruído branco aleatório, sem qualquer lógica interna. No centro da matemática, que é a busca pela ordem, só escutávamos o som do caos. Os matemáticos não suportam admitir a possibilidade de que talvez não exista uma explicação para o modo como a natureza escolheu os primos. Se a matemática não tivesse uma estrutura, uma simplicidade bela, não valeria a pena estudá-la. Escutar ruído branco nunca foi um passatempo muito apreciado. Nas palavras do matemático francês Henri Poincaré, o cientista não estuda a natureza pela sua utilidade; ele o faz porque se deleita com ela, e esse deleite vem da sua beleza. Se a natureza não fosse bela, não valeria a pena conhecê-la, e se não valesse a pena conhecê-la, não haveria por que viver esta vida.
Poderíamos imaginar que a pulsação dos números primos se acalmasse após um início agitado. Não é bem assim, as coisas só parecem piorar à medida que a contagem aumenta. Estes são os primos que existem entre os 100 números anteriores e posteriores a 10.000.000; primeiro, os que antecedem 10.000.000:


Agora veja como há poucos primos entre os primeiros 100 números posteriores a 10.000.000: 10 000 019, 10 000 079. 
É difícil imaginar uma fórmula que seja capaz de gerar esse tipo de padrão. De facto, essa procissão dos primos se assemelha muito mais a uma sucessão de números aleatórios que a um belo padrão ordenado. Da mesma forma que saber os resultados das primeiras 99 vezes que jogamos uma moeda não ajuda muito na previsão do 100 lance, os primos também parecem desafiar qualquer previsão. Os números primos representam para os matemáticos um dos dilemas mais estranhos da sua disciplina. Por um lado, cada número é ou não é primo. Lançar uma moeda não faz com que um número se torne subitamente divisível por outro número menor. Ainda assim, não se pode negar que a lista de primos parece ser uma sequência de números escolhidos aleatoriamente. Os físicos se acostumaram à ideia de que um dado quântico decide o destino do Universo, escolhendo aleatoriamente, em cada lance, o lugar onde os cientistas poderão encontrar matéria. Porém, é um pouco desconcertante ter de admitir que a natureza jogou uma moeda para determinar esses números fundamentais nos quais a matemática se baseia, decidindo lance a lance o destino de cada número. A aleatoriedade e o caos são anátemas para o matemático. Apesar de sua aleatoriedade, os números primos, mais que qualquer outra parte de nossa herança matemática, têm um carácter atemporal, universal. Os primos existiriam mesmo que não houvéssemos evoluído o suficiente para reconhecê-los. Como disse o matemático de Cambridge GH Hardy, 317 é um primo não porque pensemos que o seja, ou porque as nossas mentes estejam moldadas desta ou daquela maneira, mas porque é assim, porque a realidade matemática é construída dessa forma». In Marcus Sautoy, A Música dos Números Primos, 2003, 2004 (Harper Perennial), Edições Zahar, 2007, ISBN 978-853-780-037-9.

Cortesia de EZahar/JDACT

A Música dos Números Primos. Marcus Sautoy. «Uma lista dos primos é a tabela periódica do matemático. Os números 2, 3 e 5 são como o hidrogénio, o hélio e o lítio no laboratório do matemático»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Connes é membro do Institut des Hautes Études Scientifiques de Paris, a resposta francesa ao Instituto de Princeton. Desde a sua chegada, em 1979, o matemático criou uma linguagem completamente nova para a compreensão da geometria. Ele não vê problemas em levar o assunto aos extremos da abstracção. Embora os matemáticos em geral se sintam bastante à vontade com o modo altamente conceitual com que a sua disciplina tende a enxergar o mundo, a maior parte deles recusou-se a acompanhar a revolução abstrata proposta por Connes. Ainda assim, essa nova linguagem geométrica revela muitos indícios sobre o funcionamento do mundo real da física quântica, como Connes se encarregou de demonstrar àqueles que questionam a necessidade de uma teoria tão inóspita. Se isso semeou o terror nos corações das massas matemáticas, que assim seja. Connes provocou surpresa e até espanto por acreditar que a sua nova geometria poderia não só desmascarar o mundo da física quântica como também explicar a hipótese de Riemann, o maior mistério existente sobre os números. A sua audácia em penetrar no coração da teoria dos números e confrontar abertamente o mais difícil dos problemas pendentes da matemática revela a sua falta de respeito pelas fronteiras convencionais. Desde que surgiu em cena, no meio da década de 1990, tem havido uma expectativa no ar, pois se há alguém capaz de dominar esse problema notoriamente difícil, esse alguém é Alain Connes.
Aparentemente, porém, a última peça do complexo quebra-cabeça não havia sido colocada por Connes. Bombieri continuava a carta contando que um jovem físico da plateia vira, num relance, como utilizar o seu mundo bizarro de sistemas fermiónicos-bosónicos supersimétricos para atacar a hipótese de Riemann. Não há muitos matemáticos familiarizados com esse conjunto de palavras estranhas, mas Bombieri explicou que ele descrevia a física correspondente ao agrupamento próximo ao zero absoluto de uma mistura de anions e trouxons com spins opostos. Ainda parecia bastante obscuro, mas vale lembrar que essa era a resposta para o problema mais difícil da história da matemática, portanto ninguém esperava uma solução simples. Segundo Bombieri, após seis dias de trabalho ininterrupto, e com a ajuda de uma nova linguagem de computador chamada Mispar, o jovem físico havia finalmente decifrado o pior problema matemático. Bombieri concluía o e-mail com as palavras: caramba! Difundam esta notícia o máximo possível. Embora a prova da hipótese de Riemann por um jovem físico fosse um facto extraordinário, não constituiu uma grande surpresa. Nas últimas décadas, boa parte da matemática tem estado entrelaçada com a física. Apesar de ser um problema ancorado na teoria dos números, há alguns anos a hipótese de Riemann vem apresentando ressonâncias inesperadas com questões da física de partículas.
Os matemáticos começaram a alterar os seus planos de viagem para poder ir a Princeton e presenciar o grande momento. Ainda havia memórias recentes da emoção sentida alguns anos antes, quando um matemático inglês, Andrew Wiles, anunciara uma prova do último teorema de Fermat numa palestra realizada em Cambridge, em Junho de 1993. Wiles provou que Fermat estava certo ao afirmar que a equação xn + yn = zn não tem soluções quando n é maior que 2. Quando Wiles largou o pedaço de giz ao final da palestra, estouraram garrafas de champanhe, e máquinas fotográficas dispararam os seus flashes. Contudo, os matemáticos sabiam que a prova da hipótese de Riemann teria um significado muito maior para o futuro da matemática do que saber que a equação de Fermat não tem soluções. Como Bombieri aprendera nos seus tenros 15 anos, a hipótese de Riemann tenta compreender os objectos mais fundamentais da matemática, os números primos.
Esses números são os próprios átomos da aritmética. São os números indivisíveis, que não podem ser representados pela multiplicação de dois números menores. Os números 13 e 17 são primos, ao contrário de 15, que pode ser expresso como 3 vezes 5. Os primos são as pérolas que adornam a vastidão infinita do universo de números que os matemáticos exploraram ao longo dos séculos. Eles despertam a admiração dos matemáticos: 2, 3, 5, 7, 11, 13, 17, 19, 23…, números eternos que existem numa espécie de mundo independente de nossa realidade física. São um presente da natureza para o matemático. A importância matemática dos primos deve-se à sua capacidade de gerar todos os demais números. Todo o número não primo pode ser formado pela multiplicação desses blocos de construção primos. Cada uma das moléculas do mundo físico pode ser composta por átomos da tabela periódica de elementos químicos. Uma lista dos primos é a tabela periódica do matemático. Os números 2, 3 e 5 são como o hidrogénio, o hélio e o lítio no laboratório do matemático. Ao dominar esses blocos de construção, o matemático tem a esperança de descobrir novos caminhos através da grande complexidade do mundo da matemática». In Marcus Sautoy, A Música dos Números Primos, 2003, 2004 (Harper Perennial), Edições Zahar, 2007, ISBN 978-853-780-037-9.

Cortesia de EZahar/JDACT

A Música dos Números Primos. Marcus Sautoy. «Em 7 de Abril de 1997, os computadores de todo o mundo matemático (…) anunciavam que o “Cálice Sagrado” da matemática fora finalmente encontrado»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Numa manhã quente e húmida de Agosto de 1900, o professor David Hilbert, da Universidade de Gottingen, postou-se frente aos cientistas que lotavam a sala de conferências do Congresso Internacional de Matemáticos, realizado na Sorbonne, em Paris. Hilbert já era considerado um dos maiores matemáticos da época e havia preparado uma palestra ousada. Falaria sobre o desconhecido, e não sobre o que já fora provado. Essa abordagem era contrária a todas as convenções habituais, e a plateia pôde notar o nervosismo na voz de Hilbert quando ele começou a esboçar a sua visão sobre o futuro da matemática. Quem de nós não gostaria de levantar o véu que esconde o futuro, vislumbrando os próximos avanços da nossa ciência e os segredos do seu desenvolvimento nos séculos que virão? Para anunciar o novo século, Hilbert desafiou a plateia com uma lista de 23 problemas que, segundo ele, ditariam o rumo dos exploradores matemáticos do século XX. Durante as décadas seguintes encontraram-se respostas para muitos desses problemas, e os seus descobridores passaram a integrar um ilustre grupo de matemáticos chamado de classe de honra, que inclui nomes como Kurt Godel e Henri Poincaré, ao lado de muitos outros pioneiros cujas ideias transformaram o panorama da matemática. Porém, um dos problemas, o oitavo da lista de Hilbert, parecia disposto a atravessar o século sem um vencedor: a hipótese de Riemann.
De todos os desafios lançados por Hilbert, o oitavo tinha algo de especial. Há um mito alemão sobre Frederico Barba-Ruiva, um imperador muito querido que morreu durante a Terceira Cruzada. Segundo a lenda, Barba-Ruiva ainda estaria vivo, adormecido numa caverna nas montanhas Ky ffhauser, e só despertaria quando a Alemanha precisasse dele. Conta-se que alguém perguntou a Hilbert: e se, como Barba-Ruiva, pudesse acordar após 500 anos, o que faria? Hilbert respondeu: eu lhe perguntaria, alguém conseguiu provar a hipótese de Riemann? Quando o final do século XX se aproximava, a maioria dos matemáticos haviam-se resignado à ideia de que essa pérola entre os demais problemas de Hilbert não sobreviveria apenas ao século, talvez continuasse sem resposta quando Hilbert despertasse de seu sono de 500 anos. Ele havia chocado a plateia do primeiro Congresso Internacional do século XX com a sua palestra revolucionária, rica de desconhecido. Porém, uma nova surpresa aguardava os matemáticos que planeavam participar no último congresso do século.
Em 7 de Abril de 1997, os computadores de todo o mundo matemático divulgaram uma notícia extraordinária. A página virtual do Congresso Internacional de Matemáticos, marcado para o ano seguinte em Berlim, anunciou que o Cálice Sagrado da matemática fora finalmente encontrado. A hipótese de Riemann havia sido provada. Essa notícia teria importantes efeitos, pois a hipótese de Riemann era um problema fundamental para toda a matemática. Os matemáticos liam o seu correio eletrónico entusiasmados com a perspectiva de entender um dos maiores mistérios da sua disciplina. O anúncio não poderia ter vindo de fonte mais confiável e respeitada, uma carta do professor Enrico Bombieri, um dos guardiões da hipótese de Riemann e membro do prestigiado Instituto de Estudos Avançados de Princeton, por onde já haviam passado Einstein e Godel. O seu discurso é sereno, mas os matemáticos sempre escutam atentamente o que ele tem a dizer.
Bombieri cresceu na Itália, onde os prósperos vinhedos da família o ensinaram a apreciar as boas coisas da vida. Os seus colegas chamam-no carinhosamente de aristocrata matemático. Quando jovem, cultivava uma imagem arrojada nas conferências europeias das quais participava, muitas vezes chegando em extravagantes carros desportivos, e gostava de espalhar o boato de que teria certa vez ficado em sexto lugar num rali de 24 horas na Itália. Seus êxitos no circuito matemático foram mais concretos e, nos anos 1970, renderam- lhe um convite para ir a Princeton, onde se estabeleceu desde então. Bombieri trocou o seu entusiasmo por ralis por uma paixão pela pintura, em particular por retratos. Porém, o que realmente o fascina é a arte criativa da matemática, em especial o desafio da hipótese de Riemann. Bombieri é obcecado pela hipótese desde a primeira vez que leu a seu respeito, com apenas 15 anos de idade. As propriedades dos números já o fascinavam na época em que vasculhava os livros de matemática que o seu pai, um economista, coleccionava numa extensa biblioteca. Bombieri descobriu que a hipótese de Riemann era considerada o problema mais profundo e fundamental da teoria dos números. A sua paixão pela questão cresceu ainda mais quando o seu pai lhe prometeu comprar um Ferrari se conseguisse resolver o problema, o pai de Enrico tentava desesperadamente fazer com que o rapaz parasse de pedir o seu carro emprestado.
De acordo com o seu e-mail, Bombieri perdera a disputa pelo prémio. A palestra de Alain Connes no IEA, na última quarta-feira, gerou um desenvolvimento fantástico, começava Bombieri. Vários anos antes, o mundo matemático ficara em alerta ao ouvir a notícia de que Alain Connes havia decidido dedicar-se à solução da hipótese de Riemann. Connes é um dos revolucionários desse tema, um Robespierre benigno da matemática frente ao Luís XVI representado por Bombieri. É uma figura extremamente carismática, cujo estilo apaixonado destoa muito da imagem do matemático sério e canhestro. Tem a motivação de um fanático que está convencido da sua visão do mundo, e as suas palestras são arrebatadoras. Seus seguidores praticamente o idolatram, adoram unir-se em barricadas matemáticas para defender o seu herói frente a qualquer contra-ofensiva das posições entrincheiradas do Antigo Regime». In Marcus Sautoy, A Música dos Números Primos, 2003, 2004 (Harper Perennial), Edições Zahar, 2007, ISBN 978-853-780-037-9.

Cortesia de EZahar/JDACT

domingo, 24 de setembro de 2017

O Pecado Espanhol. Carlota Joaquina. «O embaixador português, especialmente designado pela rainha dona Maria para se ocupar das negociações matrimoniais, talvez tenha sentido que esta boda era a coroação da sua carreira»

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«(…) A 15 de Março, quase um ano depois da data estabelecida obrigatoriamente, os portugueses ratificaram o contrato de matrimónio de Carlota com o infante João, e a 17 de Março o marquês de Louriçal entrou em Madrid para a assinatura definitiva das cláusulas matrimoniais, a qual teve lugar no Salão dos Reinos do Palácio Real dessa cidade, acabado de inaugurar. Era a primeira vez que muitos nobres entravam naquele edifício de estilo italiano, que para os gostos de uma nobreza castelhana tradicionalmente austera era excessivamente grande e com demasiados dourados. À noite, Henrique Menezes, marquês de Louriçal, ofereceu um banquete para toda a corte no palácio da Rua Hortaleza, no velho Centro de Madrid, onde tinha a sua residência. Cerca de duas mil pessoas assistiram a uma festa na qual os bailes duraram até de madrugada. O embaixador português, especialmente designado pela rainha dona Maria para se ocupar das negociações matrimoniais, talvez tenha sentido que esta boda era a coroação da sua carreira e quis festejar efusivamente. Tinha toda a razão, se considerarmos que os trâmites para casar o infante João tinham durado uns extenuantes oito anos e os problemas surgidos durante a negociação tinham-lhe custado a debilitação da sua saúde, coisa pouca para quem se orgulhava de descender de uma antiga linhagem leonesa, estabelecida em Portugal desde a época da rainha Teresa e do conde Henrique de Borgonha.
Como muitos membros da mais antiga nobreza lusa, o marquês não deixava de sentir uma certa nostalgia pelos tempos passados. Curiosamente, a um ramo muito próximo da sua família tinha pertencido Leonor Teles Menezes, a mãe da infanta portuguesa cujo matrimónio com um rei castelhano por vontade daquela tinha sido causa da invasão de Portugal e o final da primeira dinastia ali reinante, tendo Leonor acabado os seus dias exilada em Tordesilhas. Alguns anos depois da boda de dona Carlota, um novo embaixador francês respeitado em Lisboa comentaria, em relação ao orgulho que sentia Henrique Menezes por ter sido o artífice do matrimónio de Carlota Joaquina com o infante português, que, no futuro, o povo português também não esqueceria a responsabilidade de Louriçal nesta questão..., para o censurar.
Cerimónias semelhantes às realizadas em Madrid para festejar a boda da infanta com João tiveram lugar a 11 de Abril em Lisboa, quando o conde de Fernán-Núñez, embaixador espanhol, entrou na cidade para a celebração do matrimónio por procuração da infanta dona Maria Ana, irmã de João, com o infante Gabriel, filho do rei Carlos III e tio de Carlota. A 11 de Maio de 1785, Carlota Joaquina deixou definitivamente o Palácio de Aranjuez, no qual é possível que tenha nascido, com destino a Vila Viçosa, onde, poucos dias depois, se realizou a tradicional troca de noivas. Os cortesãos do séquito espanhol ficaram encantados quando viram que a infanta Maria Ana era uma jovem de porte elegante, que aos mais anciãos recordava a sua bisavó, Isabel de Farnésio. Alguns portugueses foram, por seu turno, menos complacentes com a infanta espanhola. Possivelmente devido às palavras de Louriçal, que a tinha descrito num despacho como alta, muito bem feita de corpo, comentaram que, na realidade, Portugal tinha saído a perder com a troca, uma vez que enquanto os portugueses tinham entregado uma pescada, os espanhóis tinham-lhes dado uma sardinha.

Os caprichos de uma Infanta (1785-1790)
O retrato de Carlota Joaquina que Maella acabou de pintar antes da partida desta para Portugal, actualmente no Museu do Prado, mostra uma menina bastante alta para os 10 anos que tinha então a infanta, e portanto, pelo menos nisso, diferente do que foi descrito com ironia por alguns quando chegou ao seu reino de destino. Mas o que mais surpreende a quem o vê hoje pela primeira vez é a elegância do porte e a distinção que parecem emanar do modelo». In Marsilio Cassotti, Carlota Joaquina, O Pecado Espanhol, tradução de João Boléo, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2009, ISBN 978-989-626-170-2.

Cortesia EdosLivros/JDACT

sábado, 23 de setembro de 2017

Tudo Começou com Maquiavel. Luciano Gruppi. «… este é o fundamento liberal, sem dúvida progressista, do pensamento de John Locke. O Estado não recebe a sua soberania de nenhuma outra autoridade»

Cortesia de wikipedia e jdact

John Locke, (1632-1704)
«(…) Locke observa que o homem no estado natural está plenamente livre, mas sente a necessidade de colocar limites à sua própria liberdade. Por quê? A fim de garantir a sua propriedade. Até que os homens sejam completamente livres, existe entre eles uma luta que não garante a propriedade e, por conseguinte; tampouco uma liberdade durável. Locke afirma que os homens se juntam em sociedades políticas e submetem-se a um governo com a finalidade principal de conservarem as suas propriedades. O estado natural (isto é, a falta de um Estado) não garante a propriedade. É necessário constituir um Estado que garanta o exercício da propriedade, a segurança da propriedade. Visando isso, estabelece-se entre os homens um contrato que origina tanto a sociedade, como também o Estado (para Locke, as duas coisas vão juntas). Fica evidente a base burguesa dessa concepção. Já estamos numa sociedade em que nasceu o mercado, onde a relação entre os homens se dá entre os indivíduos que estabelecem entre si contratos de compra e de venda, de transferência de propriedades, etc. Esta realidade individualista da sociedade burguesa, alicerçada nas relações mercantis e de contrato, expressa-se na ideologia política, na concepção do Estado.
O Estado também aí surge de um contrato. Para Hobbes, porém, esse contrato gera um Estado absoluto, enquanto para Locke o Estado pode ser feito e desfeito como qualquer contrato. Isto é, se o Estado ou o governo não respeitar o contrato, este vai ser desfeito. Portanto, o governo deve garantir determinadas liberdades: a propriedade, e também aquela margem de liberdade política e de segurança pessoal sem o que fica impossível o exercício da propriedade e a própria defesa da liberdade. Já estão implícitos, aqui, os fundamentos de algumas liberdades políticas que devem ser garantidas: a de assembleia, a da palavra, etc. Mas, em primeiro lugar, a liberdade de iniciativa económica. É o típico individualismo burguês, no sentido de que o indivíduo humano pré-existiria ao Estado, de que os homens partiriam de uma condição natural em que são indivíduos soltos (para Marx, pelo contrário, o homem é um ser social e só se torna homem na medida em que vive e trabalha em sociedade; de outra forma seria um animal, um bruto).
Segundo esses pensadores, o indivíduo existiu antes da sociedade humana e esta nasceria pelo contrato entre indivíduos pré-existentes. Ora, do ponto de vista histórico, isso é pura fantasia, pois o homem só se torna homem vivendo em sociedade com outros homens, só organizando socialmente a sua própria vida. Imaginar que um indivíduo possa ser homem antes de organizar-se em sociedade não passa de uma típica projecção ideológica do individualismo burguês. É no modo de produção burguês que cada um individualmente se põe em relação com outro indivíduo, sem ter consciência do carácter social dessas relações económicas. O Estado é soberano, mas a sua autoridade vem somente do contrato que o faz nascer: este é o fundamento liberal, sem dúvida progressista, do pensamento de John Locke. O Estado não recebe a sua soberania de nenhuma outra autoridade.
Ao contrário do que se poderia pensar, o liberal Locke não polemiza contra o absolutismo de Hobbes, mas sim contra outro autor inglês: Robert Filmei (1588-1653), segundo o qual o poder estatal se originaria do poder divino. Locke entra em polémica contra Filmei justamente para defender a plena autonomia, a absoluta soberania do Estado moderno, assim como pensava também Hobbes. A relação entre propriedade e liberdade é extremamente evidente: o poder supremo não pode tirar do homem uma parte de suas propriedades sem o seu consentimento. Pois a finalidade de um governo e de todos os que entram em sociedade é a conservação da propriedade. Isso pressupõe e exige que o povo tenha uma propriedade, sem o que deveríamos concluir que, ao entrar na sociedade, perde-se justamente aquilo que constituí o objectivo desse contrato.
O Estado não pode tirar de ninguém o poder supremo sobre sua propriedade. Não é possível nenhum acto arbitrário do Estado que viole a propriedade: por exemplo, os impostos devem ser aprovados pelo Parlamento, o monarca não pode decretar impostos sem o consentimento do Parlamento, conforme tradição que já estava consolidada na Inglaterra, e assim por diante. É realmente estrita essa conexão entre propriedade e liberdade: a liberdade está em função da propriedade e esta é o alicerce da liberdade burguesa, que nessa época era progressista. Repito, é a visão burguesa que está na base dessa concepção. No entanto, é interessante observar que para Locke já existe uma distinção entre sociedade política (o Estado) e a sociedade civil (isto é, aquilo que no século XVIII passará a chamar-se de sociedade civil); por conseguinte, entre público e privado. Em que sentido nasce esta distinção?» In Luciano Gruppi, Tudo Começou com Maquiavel, L&PM Editores, 1980, ISBN 978-852-540-500-5.

Cortesia de L&PME/JDACT

Tudo Começou com Maquiavel. Luciano Gruppi. «O habeas corpus estabelece algumas garantias que transformam o súdito num cidadão. Nasce assim o cidadão, justamente na Inglaterra, e John Locke é o seu teórico»


Cortesia de wikipedia e jdact

Thomas Robbes (1588-1679)
«(…) Começam assim a surgir os fundamentos da teoria moderna do Estado, que posteriormente receberá uma formulação mais completa nos séculos XVII e XVIII pelo filósofo inglês Thomas Hobbes. Este assistiu à revolução democrática inglesa de 1648, dirigida pelos puritanos de Oliver Cromwell (1599-1658), opondo-se a ela a partir de um ponto de vista aristocrata. A teoria do Estado de Hobbes é a seguinte: quando os homens primitivos vivem no estado natural, como animais, eles jogam-se uns contra os outros pelo desejo de poder, de riquezas, de propriedades. É o impulso à propriedade burguesa que se desenvolve na Inglaterra: honro homini lupus, cada homem é um lobo para o seu próximo. Mas como, dessa forma, os homens destroem-se uns aos outros, eles percebem a necessidade de estabelecerem entre eles um acordo, um contrato. Um contrato para constituírem um Estado que refreie os lobos, que impeça o desencadear dos egoísmos e a destruição mútua. Esse contrato cria um Estado absoluto, de poder absoluto (Hobbes apresenta nuanças que lembram Maquiavel). A noção do Estado como contrato revela o carácter mercantil, comercial das relações sociais burguesas. Os homens, por sua natureza, não seriam propensos a criarem um Estado que limitasse a sua liberdade; eles estabelecem as restrições em que vivem dentro do Estado, segundo Hobbes, com a finalidade de obter dessa forma a sua própria conservação e uma vida mais confortável. Isto é, para saírem da miserável condição de guerra permanente que é a consequência necessária das paixões naturais.
Mas os pactos, sem espadas, não passam de palavras sem força; por isso o pacto social, a fim de permitir aos homens a vida em sociedade e a superação dos seus egoísmos, deve produzir um Estado absoluto, duríssimo no seu poder. J J. Rousseau, posteriormente, vai opor a Hobbes uma brilhante objecção: ao dizer que o homem, no estado natural, é um lobo para os seus semelhantes Hobbes não descreve a natureza do homem mas sim os homens da própria época. Rousseau não chega a dizer que Hobbes descreve os burgueses da sua época; mas, na realidade, Hobbes descreve o surgimento da burguesia, a formação do mercado, a luta e a crueldade que o caracterizam.

John Locke, (1632-1704)
Não devemos esquecer que a Inglaterra se transformou num império mercantil a partir da segunda metade do século XVI, na época da grande rainha Elizabeth I. Portanto é uma concepção tipicamente burguesa a de John Locke, fundador do empirismo filosófico moderno e teórico da revolução liberal inglesa. Não se trata aqui da revolução de 1648, mas da segunda revolução, que se concluiu em 1689. Foi uma revolução de tipo liberal, que assinalou um acordo entre a monarquia e a aristocracia, por um lado, e a burguesia, pelo outro. Isso ocasionou o surgimento de normas parlamentares, bem como uma condução do Estado fundada numa declaração dos direitos do parlamento, que foi definida em 1689. Na década anterior, surgira o habeas corpus (que tenhas o teu corpo), dispositivo que dificulta as prisões arbitrárias, sem uma denúncia bem definida. O habeas corpus estabelece algumas garantias que transformam o súdito num cidadão. Nasce assim o cidadão, justamente na Inglaterra, e John Locke é o seu teórico». In Luciano Gruppi, Tudo Começou com Maquiavel, L&PM Editores, 1980, ISBN 978-852-540-500-5.

Cortesia de L&PME/JDACT

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Guerreiro Escravo. Michelle Willingham. «Iseult sentiu um peso súbito no coração. Davin merecia uma mulher melhor que ela. Ela fizera tudo ao seu alcance para salvar a sua reputação, mas os mexericos não haviam diminuído mesmo passados três anos»

Cortesia de wikipedia e jdact

Irlanda. 1102
«Ele vai morrer, não vai?, perguntou Iseult MacFergus enquanto baixava os olhos para o corpo ferido do escravo. As costas do homem estavam cobertas por marcas de chicotadas ainda em carne viva. Estava pálido e com as costelas ressaltadas, como se não comesse adequadamente há muitas luas. Iseult estremeceu só de pensar no tormento pelo qual ele devia ter passado. Não sei, disse Davin Ó Falvey, passando uma bacia de água fria para Iseult. Acho que desperdicei um bom punhado de prata. Usando uma esponja, Iseult começou a enxugar o sangue nas costas do homem. Davin, não precisamos de um escravo para nossa casa. Não devia tê-lo comprado. A aquisição de escravos vinha-se tornando uma prática menos comum nas tribos. A própria família de Iseult jamais tivera condições de possuir escravos, facto que a fez recordar dolorosamente de que pertencia a uma casta inferior. Se não o tivesse comprado, outra pessoa teria. Davin chegou por trás dela e pousou as mãos nos seus ombros. Ele estava sofrendo muito, Iseult. Quase não sobreviveu aos espancamentos sofridos durante o leilão. Iseult cobriu as mãos de Davin com as suas. O seu noivo jamais conseguira deixar um homem sofrer se pudesse fazer algo para intervir. Esse era um dos motivos pelos quais Davin era o seu amigo mais querido e o homem com quem concordara em casar.
Iseult sentiu um peso súbito no coração. Davin merecia uma mulher melhor que ela. Ela fizera tudo ao seu alcance para salvar a sua reputação, mas os mexericos não haviam diminuído mesmo passados três anos. Iseult não sabia por que Davin a pedira em casamento, mas sua família ficara muito feliz com a oportunidade oferecida pela aliança. Não era todo o dia que a filha de um ferreiro se casava com o filho de um chefe. Deixe a curandeira cuidar dele, disse Davin. Iseult reconheceu o tom na voz do noivo, juntamente com o convite subjacente. Venha comigo, Iseult. Passamos uma semana inteira sem nos ver. Senti saudades. Iseult sentiu um arrepio, mas forçou um sorriso. Vá com ele, comandou a sua mente. Embora Davin nunca a houvesse culpado pelos seus pecados, ela se sentia indigna de seu amor. Depois de chamar a curandeira, Davin segurou a mão de Iseult e a conduziu para fora, onde a lua deitava uma sombra sobre o seu rosto. Com cabelos claros e penetrantes olhos azuis, Davin era o homem mais bonito que Iseult já vira. Ele conduziu a mão de Iseult até à sua face barbada. Uma pontada de temor trespassou o seu coração, porque ela sentiu que ele estava prestes a beijá-la. Iseult aceitou o seu abraço, desejando que pudesse sentir o mesmo ardor que ele sentia por ela. Dê tempo ao tempo, disse a si mesma. Contudo, mesmo enquanto se entregava ao beijo, Iseult teve a sensação de que estava fora de seu corpo, uma observadora em vez de uma participante. Ele abraçou-a forte, sussurrando no seu ouvido: sei que não quer tornar-se minha amante antes do Beltane. Mas eu seria um estúpido se não tentasse convencê-la. Ela o empurrou, baixando os olhos. Não posso.
O seu rosto reluzia com vergonha. O simples pensamento de se deitar com um homem, qualquer homem, suscitava lembranças dolorosas. O rosto de Davin transpareceu tensão, mas ele não a pressionou mais. Jamais a obrigaria a fazer nada que não quisesse, ele garantiu-lhe. E isso simplesmente fazia com que ela se sentisse ainda mais culpada. Não queria deitar com ele, mas, se não o fizesse, que espécie de mulher seria? Anos atrás ela rendera-se a um momento de paixão e pagara o preço. Mas agora que um homem a amava e queria casar com ela, Iseult não conseguia esquecer as lembranças ruins. Pousando uma das mãos no seu ombro, Davin beijou-lhe a testa. Esperarei até que esteja pronta. De mãos dadas com Iseult, Davin a conduziu de volta até à sua casa dentro do forte circular. Quando, chegado à cabana, Iseult parou ao lado da moldura de madeira da porta, como se fosse um escudo. O que vai fazer com o escravo? Não sei. Talvez ele possa ajudar com a colheita ou cuidar dos cavalos. Falarei com o escravo quando ele acordar. Bem, eu a verei amanhã de manhã, disse Davin, arrependimento pesando no seu tom de voz. Ele a beijou novamente. Faça o que puder para manter nosso escravo vivo. Iseult fez que sim com a cabeça, curvando-se para entrar na casa. Por um momento ficou parada na entrada, organizando os seus pensamentos. Por que não conseguia sentir a chama da paixão da qual as mulheres falavam tanto? Os beijos e o afecto de Davin não evocavam nada nela além de vazio. O que havia de errado com ela? Davin, de todos os homens, merecia ser amado. Davin a tratava como um tesouro precioso, oferecendo-lhe tudo que ela queria. Ela não se sentia merecedora dele. Com o coração pesado, foi-se reunir aos outros Muirne estava com a sua família, preparando comida para o jantar. Embora não fossem seus parentes, os O’Falveys haviam aberto as portas para ela, concedendo-lhe total hospitalidade. Graças a eles, Iseult tinha um lugar onde ficar enquanto se acostumava à nova tribo». In Michelle Willingham, Guerreiro Escravo, 2008, Harlequin Histórico, 70, 2009, ISBN 978-857-687920-6.

Cortesia de Harlequin/JDACT

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Tudo Começou com Maquiavel. Luciano Gruppi. «Maquiavel retoma aqui um tema que já foi de Aristóteles: a política é a arte do possível, é a arte da realidade que pode ser efectivada»

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A Concepção do Estado em Marx e Engels
«(…) Dessa forma, Maquiavel retoma aqui um tema que já foi de Aristóteles: a política é a arte do possível, é a arte da realidade que pode ser efectivada, a qual leva em conta como as coisas estão e não como elas deveriam estar. Existe aqui uma distinção nítida entre política e moral, pois esta última é que se ocupa do que deveria ser. A política leva em consideração uma natureza dos homens que, para Maquiavel, é imutável: assim a história teria altos e baixos, mas seria sempre a mesma, da mesma forma que a técnica da política (o que não corresponde à verdade). Maquiavel afirma: há uma dúvida se é melhor sermos amados do que temidos, ou vice-versa. Deve-se responder que gostaríamos de ter ambas as coisas, sermos amados e temidos; mas, como é difícil juntar as duas coisas, se tivermos que renunciar a uma delas, é muito mais seguro sermos temidos do que amados... pois dos homens, em geral, podemos dizer o seguinte: eles são ingratos, volúveis, simuladores e dissimuladores; eles furtam-se aos perigos e são ávidos de lucrar. Enquanto fizer o bem para eles, são todos teus, oferecem-te o seu próprio sangue, as suas posses, as suas vidas, os seus filhos. Isso tudo até ao momento que não tem necessidade. Mas, quando precisar, eles viram as costas.
E o príncipe que esperar gratidão por ter sido bondoso com os seus súbditos, pelo contrário, será derrotado: os homens têm menos escrúpulo de ofender quem se faz amar do que quem se faz temer. Pois o amor depende de uma vinculação moral que os homens, sendo malvados, rompem; mas o temor é mantido por um medo de castigo que não nos abandona nunca. Por conseguinte, deve-se estabelecer o terror; o poder do Estado, o Estado moderno, funda-se no terror. Com isso, Maquiavel contradiz profundamente o que ele próprio havia escrito nos Discursos sobre a primeira década de Tito Lívio: isto é, que o poder baseia-se na democracia, no consentimento do povo, entendendo-se como povo a burguesia do seu tempo. Mas agora Maquiavel pensa na construção de um Estado unitário e moderno, portanto do Estado absoluto, e descreve o que será o processo real da formação dos Estados unitários. Maquiavel não se ocupa de moral, ele trata da política e estuda as leis específicas da política, começa a fundamentar a ciência política. Na verdade, como observou Hegel e, posteriormente, fizeram-no De Sanctis e Gramsci, Maquiavel funda uma nova moral que é a do cidadão, do homem que constrói o Estado; uma moral imanente, mundana, que vive no relacionamento entre os homens. Não é mais a moral da alma individual, que deveria apresentar-se ao julgamento divino formosa e limpa.

Jean Bodin (1530-1596)
Maquiavel fornece-nos uma teoria realista, é o primeiro que considera a política de maneira científica, crítica e experimental. Porém ele não fornece uma teoria do Estado moderno, mas sim de como se constrói um Estado. Uma reflexão sobre o que é o Estado moderno aparece mais tarde na França, com Jean Bodin (ou Bodinus, à latina). Nos seus seis tomos Sobre a República (1576), Bodin polemizou contra Maquiavel. Gramsci afirma que Maquiavel pretendia construir um Estado, projectá-lo, enquanto Bodin teorizava um Estado unitário que já existia, o da França; por conseguinte, ele colocava principalmente o problema do consenso, da hegemonia. Bodin, pela primeira vez, começa a teorizar a autonomia e soberania do Estado moderno, o sentido que o monarca interpreta as leis divinas, obedece a elas, mas de forma autónoma. Ele não precisa receber pelo papa a investidura do seu poder. O Estado é constituído essencialmente pelo poder: nem o território, nem o povo definem o Estado tanto quanto o poder. Bodin afirma: é a soberania o verdadeiro alicerce, a pedra angular de toda a estrutura do Estado, da qual dependem os magistrados, as leis, as ordenações; essa soberania é a única ligação que transforma num único corpo perfeito (o Estado) as famílias, os indivíduos, os grupos separados. O Estado, para Bodin, é poder absoluto, é a coesão de todos os elementos da sociedade». In Luciano Gruppi, Tudo Começou com Maquiavel, L&PM Editores, 1980, ISBN 978-852-540-500-5.

Cortesia de L&PME/JDACT

Tudo Começou com Maquiavel. Luciano Gruppi. «… de escrever coisa útil para quem a entender, julguei mais conveniente acompanhar a realidade efectiva do que a imaginação sobre esta»

Cortesia de wikipedia e jdact

A Concepção do Estado em Marx e Engels
«(…) Por conseguinte, desde o seu nascimento, o Estado moderno apresenta dois elementos que diferem dos Estados do passado, que não existiam, por exemplo, nos Estados antigos dos gregos e dos romanos. A primeira característica do Estado moderno é essa autonomia, essa plena soberania do Estado, o qual não permite que a sua autoridade dependa de nenhuma outra autoridade. A segunda característica é a distinção entre Estado e sociedade civil, que vai evidenciar-se no século XVII, principalmente na Inglaterra, com o ascenso da burguesia. O Estado se torna uma organização distinta da sociedade civil, embora seja expressão desta. Uma terceira característica diferencia o Estado moderno em relação àquele da Idade Média. O Estado medieval é propriedade do senhor, é um Estado patrimonial: é património do monarca, do marquês, do conde, do barão, etc. O senhor é dono do território, bem como de tudo o que nele se encontra (homens e bens); pode vendê-lo, dá-lo de presente, cedê-lo em qualquer momento, como se fosse uma área de caça reservada.
No Estado moderno, pelo contrário, existe uma identificação absoluta entre o Estado e o monarca, o qual representa a soberania estatal. Mais tarde, em fins de 1600, o rei francês Luís XIV afirmava L'État c'est moi (o Estado sou eu), no sentido de que ele detinha o poder absoluto; mas também de que ele identificava-se completamente no Estado.

Os pensadores políticos desde N. Maquiavel até G.W.F. Hegel
Nicolau Maquiavel (1469-1527)
Maquiavel, ao reflectir sobre a realidade de sua época, elaborou não uma teoria do Estado moderno, mas sim uma teoria de como se formam os Estados, de como na verdade se constitui o Estado moderno. Isso é o começo da ciência política; ou, se quisermos, da teoria e da técnica da política entendida como uma disciplina autónoma, separada da moral e da religião. O Estado, para Maquiavel, não tem mais a função de assegurar a felicidade e a virtude, segundo afirmava Aristóteles. Também não é, como para os pensadores da Idade Média, uma preparação dos homens ao Reino de Deus. Para Maquiavel o Estado passa a ter as suas próprias características, faz política, segue a sua técnica e as suas próprias leis. Logo no começo de O príncipe, Maquiavel escreve: como a minha finalidade é a de escrever coisa útil para quem a entender, julguei mais conveniente acompanhar a realidade efectiva do que a imaginação sobre esta. Trata-se já da linha do pensamento experimental, na mesma senda de Leonardo da Vinci: as coisas como elas são, a realidade política e social como ela é, a verdade efectiva.
Maquiavel acrescenta: muitos imaginam repúblicas e principados que nunca foram vistos nem conhecidos realmente; isto é, muitos imaginam Estados ideais, que no entanto não existem, tais como a República de Platão. Pois grande é a diferença entre a maneira em que se vive e aquela em que se deveria viver; assim, quem deixar de fazer o que é de costume para fazer o que deveria ser feito encaminha-se mais para a ruína do que para a sua salvação. Porque quem quiser comportar-se em todas as circunstâncias como um homem bom vai ter que perecer entre tantos que não são bons. Isso significa que devemos estudar as coisas como elas são e devemos observar o que se pode e é necessário fazer, não aquilo que seria certo fazer; pois quem quiser ser bom entre os maus fica arruinado. Enfim, é necessário levar em consideração a natureza do homem e actuar na realidade efectiva». In Luciano Gruppi, Tudo Começou com Maquiavel, L&PM Editores, 1980, ISBN 978-852-540-500-5.

Cortesia de L&PME/JDACT

O Mundo da Transgressão Social. Educar. «Nos registos de ocorrências da Guarda Real da Polícia dos inícios de oitocentes é possível encontrar por repetidas vezes, a necessidade de prender ou actuar contra soldados…»

Cortesia de wikipedia

Os Protagonistas
O Criminoso
«(…) Em 1877, o periódico Gajo dedicaria a sua atenção aos trambulhões do operário, incapaz de providenciar o necessário à manutenção do seu agregado familiar, nas condições normais em que se encontrava. Calculada em 13$000 a remuneração mensal média de um operário, as despesas correntes de uma família de três pessoas orçavam 13$800, sem contar com extras mais ou menos imprevistos. Perante este deficit, quais as opções? Quais as possibilidades perante esta situação, para quem pretendesse manter um nível de vida nos limiares da dignidade? Quais e como podem ser as suas rotinas? ... o pobre homem faz a barba de oito em oito dias, paga décimo, tem montepio, por causa de que padece de moléstia do horror instintivo ao hospital, onde estaria muito melhor do que na sua pocilga; tem o mau gosto de querer andar calçado, e o ainda pior de gostar de vestir camisa lavada de vez em quando, assim como o ainda mais repugnante de prezar a honestidade do filho ou da mulher. Falta-lhe trabalho, pede-o, roga-o, implora-o.
Não há que fazer!, dizem-lhe. Pede fiado, ora essa!, dizem-lhe. Vae esmollar; prohibe-lhe a policia! Vê a mulher que estima, vê-se a elle próprio com as dores da fome. Rouba uma insignificância. É pois ladrão depois de ter sido homem de bem durante a sua vida inteira. O ciclo de inexorável descida ao mundo da marginalidade é, em muitos casos, praticamente inevitável. Se a sua mulher ou o seu filho vão trabalhar a remuneração é cerca de metade da sua mas, por outro lado, eles irão ocupar o lugar de outro operário adulto, que assim se vê privado, em muitas indústrias, do seu posto de trabalho. O sistema de trabalho fabril da sociedade industrial encerra engrenagens e mecanismos que não se compadecem com os dilemas individuais e, em virtude dessa insensibilidade, expele muitos do que usa temporariamente para uma encruzilhada entre a total indigência ou a via do crime, duas faces de um mesmo mundo marginal, que os poderes apresentam como uma espécie de anti-sociedade. Os bairros populares, de vias estreitas, pequenas casas de escassas condições, pouca limpeza, escuras como breu logo que a noite cai, tornam-se palco, na maioria dos espíritos, dos acontecimentos mais tenebrosos e couto das mais misteriosas personagens.
Contudo, quem povoa o universo do crime dificilmente se pode reduzir a uma redutora e conveniente estereotipia. Os seus tipos são vários e, por vezes, inesperados. Aliás, uma primeira e curiosa permanência na análise dos problemas de ordem pública pode ser exactamente a presença dos chamados agentes da ordem em situações que dificilmente deveriam ser compatíveis com esse estatuto, antes surgindo com regularidade como prevaricadores e como agentes de perturbação dessa ordem que deveriam ajudar a preservar. Embora a amostra recolhida seja muito rarefeita e com uma malha muito pouco apertada, não necessariamente generalizável de forma linear, é possível encontrar uma activa participação de soldados, polícias, milicianos ou guardas de diversa origem nos mais vários desacatos registados desde os inícios do século XIX até idêntico período deste século. Nos registos de ocorrências da Guarda Real da Polícia dos inícios de oitocentes é possível encontrar por repetidas vezes, a necessidade de prender ou actuar contra soldados, marinheiros e elementos de várias milícias da época, por se envolverem em conflitos vários com a população ou entre si. No mesmo período, é também motivo recorrente a ofensa de agentes da guarda como forma de protesto quer de prostitutas, como de desordeiros, indivíduos cujas mercadorias são apreendidas, frequentadores de tabernas encerradas ou mesmo populares que, sem motivo aparente, decidem lançar impropérios à passagem das rondas. A categoria de ameaças e insultos do registo de ocorrências da Guarda Real da Polícia está repleta de casos destes, que ainda surgem em muitas outras situações. Em Janeiro de 1809, são presos diversos indivíduos por ofensas à autoridade no exercício da sua função: um arrais que passara a noite com uma mulher, ofende um alferes da Guarda e ameaça-o com um cajado no dia 2, um caixeiro insulta uma patrulha que andava em averiguações no dia seguinte e a 4 é a vez de um marujo que ameaça de morte com uma pistola um polícia. Alguns dias depois é a vez de abundante presença feminina; uma mulata insulta a patrulha que acudira a uma desordem provocada pelo seu marido (dia 12), uma mulher de mau porte insulta um oficial de justiça do Bairro do Mocambo (dia 16) e uma peixeira provoca um motim, no sítio do Chafariz de Dentro, contra a Guarda que a tenta impedir de vender peixe (dia 20); os protestos de comerciantes continuam a 21 com um outro peixeiro a insultar o Comandante da Guarda do Chafariz de Dentro e um moço de fretes a insultar o feitor da Mesa das Carnes. O desrespeito pelas autoridades é quase tão frequente como o comportamento incorrecto dessas mesmas autoridades. Entre as desordens e agressões registadas nesse mesmo mês de Janeiro, a participação de soldados, guardas, polícias e/ou milicianos é abundante, quer em motins com a população quer em conflitos entre si, e apenas se pode destacar uma pequena porção do total: no dia 3, o comandante da Guarda da Ribeira apresenta queixa de um oficial da Marinha que por duas vezes tentara atacar a Guarda, uma semana depois uma patrulha da Guarda das Necessidades é insultada e perseguida por um outro grupo de soldados da Guarda. No dia 15 um marujo é preso por ter partido a cabeça a um barbeiro da Rua dos Remoladores, a 23 é um soldado de Cavalaria da Guarda Real da Polícia que inicia uma desordem com dois rapazes que se estende ao ponto dos moradores do Distrito se verem obrigados a fechar as portas, a 24 é um soldado do Regimento de Infantaria 4 que esfaqueia um sapateiro, enquanto a 27 é a vez de um seu colega de Infantaria 10 ser preso por desordem. E a lista poderia continuar». In Educar, O Mundo da Transgressão Social, Criminosos, boémios, prostitutas e outros marginais,
 Wordpress, Boémia, Wikipédia, 2007.

Cortesia de Wikipédia/Educar/JDACT

terça-feira, 19 de setembro de 2017

O Mundo da Transgressão Social. Educar. «No entanto, a instalação de todas estas gentes levantaria muitos problemas do ponto de vista social: a absorção de toda esta força de trabalho era difícil e o seu crescimento constante, desvalorizava o seu valor perante os potenciais empregadores»

Cortesia de wikipedia

Criminosos, boémios, prostitutas e outros marginais
«(…) A mitologia da criminalidade, da boémia, dos mundos do fado, da prostituição e da marginalidade é construída pelos seus detractores com mais vigor do que pelos seus próprios agentes. Exagerando o perigo, desmesurando os seus potenciais efeitos, justificava-se a necessidade de amplos meios para os prevenir e reprimir. O discurso, muitas vezes inebriado no seu próprio estilo, cria um universo colorido e sedutor, de tão sombrios que se traçam os seus contornos. Não deixa de ser significativo que os primeiros passos de todo este processo surjam no momento em que se afirma entre nós um tardio romantismo literário. E que, mais tarde, a descrição e análise destes fenómenos se torne um recurso comum na literatura com pretensões realistas e naturalistas, lado a lado com o desenvolvimento do entusiasmo estatístico na caracterização dos protagonistas e dos comportamentos presentes na sociedade. Resta-nos, agora, tentar reencontrar os protagonistas desse mundo, e espaços e momentos em que era possível encontrá-los em acção, sempre na convicção que muitas das imagens que é possível recolher se encontram diversamente distorcidas pelos olhares lançados sobre a realidade, tantas vezes enleados em todos os preconceitos e juízos de valor que previamente os condicionavam.

Os Protagonistas
Quem eram então os protagonistas desse mundo marginal, com regras de conduta alternativas ao da sociedade burguesa ideal? Os criminosos e as prostitutas eram as figuras mais conhecidas, mas na mesma categoria poderiam ser incluídos os boémios, de todas as origens sociais, assim como os indigentes, os vadios e todos os outros que não se enquadravam numa representação harmoniosa do mundo. De todos eles vinha o perigo, mesmo quando a sua condição resultava das circunstâncias de vida da sociedade que os excluía.

O Criminoso
Um dos maiores receios burgueses no século XIX prendia-se com o comportamento das classes populares que, incapazes de gerar riqueza e atingir um nível de vida que se pudesse considerar razoável e respeitável, insuficientemente desenvolvidas do ponto de vista moral, optavam em muitas situações pela via do crime, pelos atentados à propriedade alheia, pela desordem e pelo desacato. No século XIX a associação que se estabelece entre as camadas populares e o crime é muito rápida e parece óbvia, em especial quando se recorre à estatística para fundamentar as teorias sociológicas que tentam estabelecer tipologias para os agentes da desordem. A nova sociedade industrial, se a muitos permite insuspeitadas possibilidades de ascensão social, não deixa de lançar muitos outros para as fronteiras da marginalidade.
O grosso dos indivíduos que constituíam as fileiras das hordas da transgressão, do crime, da decadência moral, dos comportamentos desviantes, provinha das massas populares, em particular nas grandes cidades que cresceriam descontroladamente no século XIX, sem plano e sem a criação das estruturas mínimas para o acolhimento das dezenas de milhar de famílias em debandada dos campos, à procura de um mundo novo de oportunidades nas cidades onde se encontravam os pólos de desenvolvimento industrial. No entanto, a instalação de todas estas gentes levantaria muitos problemas do ponto de vista social: a absorção de toda esta força de trabalho era difícil e o seu crescimento constante, desvalorizava o seu valor perante os potenciais empregadores. Desta maneira, largas fatias do proletariado urbano, que se fixava nas periferias das cidades, não conseguiria alcançar níveis satisfatórios de subsistência e teria de recorrer aos mais diversos expedientes para sobreviver». In Educar, O Mundo da Transgressão Social, Criminosos, boémios, prostitutas e outros marginais,
 Wordpress, Boémia, Wikipédia, 2007.

Cortesia de Wikipédia/Educar/JDACT

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

O Mundo da Transgressão Social. Educar. «À luz do dia em que se passeiam os senhores, senhoras, meninas e meninos da boa sociedade, opõem-se as trevas da noite onde se movem boémios, prostitutas e outros marginais»

Cortesia de wikipedia

Criminosos, boémios, prostitutas e outros marginais
«Como qualquer outra época, o século XIX foi povoado por personagens que de modo mais ou menos sistemático desafiaram as suas regras de boa convivência social. Com rituais, espaços e horários relativamente específicos, ora claramente distintos dos da população comum, ora em intersecção com eles, estes eram indivíduos ou grupos em situações que, de algum modo, entravam em ruptura com os valores da sociedade estabelecida, mesmo quando dela faziam parte integrante. A sociedade burguesa que caracteriza o século XIX no mundo ocidental, construiu uma representação moralista do seu mundo ideal que estava em choque com muitas das condições do quotidiano de grande parte das populações que então habitavam os campos e cidades das nações ocidentais. As severas regras de conduta propostas pela nova elite politico económica, se eram adequadas ao modelo de vida de uma estreita faixa da sociedade, familiar, sóbrio, racional, avesso à desordem, ao excesso e ao protesto, revelavam-se claramente desenquadradas das condições concretas de existência de muitos indivíduos das mais diversas origens. Os comportamentos alternativos ao modelo ideal que necessariamente se verificavam, podiam com ele entrar em mais ou menos frontal confronto. Os que de forma mais evidente chocavam com as propostas burguesas seriam associados a um universo comum de transgressão e marginalidade. Se na representação burguesa da sociedade oitocentista se reconhece a facilidade e rapidez com que procedia à catalogação dos fenómenos sociais e na caracterização de tipos, não é menos verdade que muitos deles eram remetidos, em conjunto, para uma amálgama comum de comportamentos associados a uma patologia social, de contornos vastos e protagonistas variados. No seu interior podiam mover-se prostitutas profissionais ou ocasionais, perigosos criminosos de delito comum reincidentes ou pequenos larápios de circunstância, velhos boémios em permanente busca de novas experiências ou jovens burgueses em iniciação nos prazeres da vida, marialvas, fadistas, operários em busca de diversão, que todos eram identificados com um universo comum que era essencial circunscrever, já que se verificaria ser impossível erradicar por completo.
Se estes fenómenos e indivíduos já tinham uma natural tendência para ocorrerem e se moverem em espaços e horários próprios da vida das comunidades, a sociedade burguesa não deixaria de vincar e reforçar todos os sinais de diferenciação entre o seu mundo, o da Ordem, e o de todos que cediam à tentação na queda no abismo da desordem. As elites políticas, um pouco por todo o lado, como em Portugal, quando estabilizam o seu modo de vida, nascido da quase generalizada vitória da ideologia liberal burguesa e do seu modo de vida específico, procuram ordenar o mundo onde vivem. Ordenar os indivíduos, depois de uma prolongada época de convulsão (em virtude das sequelas de 1789), refrear-lhes os excessos, atribuir-lhes uma função útil na sociedade, que se não é tão firmemente ditada pelo nascimento como nos tempos do absolutismo de origem feudal, não deixa de obedecer a um desejo de harmonia e estabilidade social, abertamente avessa a manifestações de contestação.
De acordo com este sistema de valores, a criminalidade, a prostituição, a boémia seriam crescentemente apresentadas como protagonizadas por indivíduos à margem dos valores da nascente cultura burguesa, oitocentista e, mais tarde por afinidade, dita vitoriana, em virtude da cristalização dos seus fundamentos verificada na sociedade britânica da segunda metade do século. As chamadas classes perigosas viriam a ser objecto, durante o século XIX, de sucessivos esforços de marginalização compulsiva, na tentativa do seu afastamento dos circuitos onde circulavam as classes abastadas e elegantes. Esses grupos viviam quotidianos alternativos ao ideal, que entravam em colisão com as regras da sociedade liberal que sobre eles exercia o seu poder e autoridade, tentando afastá-los dos seus itinerários correntes, para o que lhes procurava determinar espaços e horários próprios, simétricos aos seus, num sistema dicotómico, redutor e que nunca corresponderia verdadeiramente a uma realidade que se tentava, esforçadamente, enquadrar em tipologias.
Embora associassem à irracionalidade, à desordem e ao caos a amálgama de comportamentos dos grupos sobre os quais consideravam necessário um firme exercício da autoridade, por viverem quotidianos alternativos, criminais e perigosos para a ordem social, os analistas da sociedade oitocentista esforçavam-se insistentemente por categorizá-los e idealizá-los quase tanto como a (falsa) harmonia em que imaginavam viver as camadas dominantes de sucesso. Num quadro mental extremamente maniqueísta tudo se parece desenvolver em oposições simples de compreender: à respeitável família burguesa em que os progenitores fazem uma divisão de carácter sexual das respectivas funções no emprego e no lar, reunindo-se placidamente ao fim do dia para um serão em comum com os filhos obedientes, opõem-se núcleos familiares irregulares, lares desfeitos, crianças abandonadas, produtos e agentes de muitos dos comportamentos desviantes detectáveis na sociedade. Às ocupações profissionais de sucesso, (re)produtoras de riqueza, opõem-se as artes duvidosas do crime, em que se vive à custa de expedientes e do alheio. À luz do dia em que se passeiam os senhores, senhoras, meninas e meninos da boa sociedade, opõem-se as trevas da noite onde se movem boémios, prostitutas e outros marginais. Em Lisboa, às artérias da cidade elegante, do Rossio, ao Chiado, ao Passeio Público, antes, e à Avenida, depois, aos jardins da Estrela e de S. Pedro de Alcântara, onde a iluminação pública começava a avançar opõem-se os becos e vielas dos mais velhos bairros da cidade (Alfama, Mouraria, Madragoa), onde se amontoam, em emaranhados sujos, escuros e labirínticos, as tabernas, bordéis, hospedarias e habitações de duvidosa frequência». In Educar, O Mundo da Transgressão Social, Criminosos, boémios, prostitutas e outros marginais,
 Wordpress, Boémia, Wikipédia, 2007.

Cortesia de Wikipédia/Educar/JDACT