sábado, 31 de dezembro de 2016

O Substituto no 31. Philippa Gregory. «Ele não sabia onde estava ou quem o mantinha cativo. Não sabia que acusação enfrentaria. Não sabia qual seria a punição. Não sabia se seria espancado, torturado ou morto»


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Castelo Sant’Angelo. Roma. 1453
«As batidas na porta o fizeram despertar, como se uma arma disparasse à sua frente. Atrapalhado, o jovem pegou a adaga, por baixo do travesseiro, os pés descalços tocando o chão de pedra gelada. Sonhara com os pais, com seu antigo lar, e cerrou os dentes tentando suprimir o doloroso desejo de recuperar tudo que havia perdido: a casa de fazenda, a mãe, a antiga vida. A batida forte soou outra vez, e ele escondeu a adaga nas costas enquanto destrancava a porta e abria uma fresta, com cuidado. Uma figura encapuçada estava parada do lado de fora, flanqueada por dois homens corpulentos que carregavam archotes acesos. Um deles levantou a tocha para iluminar o jovem magro, nu da cintura para cima, vestindo apenas calções, piscando os olhos castanhos sob a franja de cabelos escuros. Aparentava ter 17 anos, o rosto doce de um menino, mas o corpo de um homem, forjado pelo trabalho árduo. Luca Vero? Sim. Deve vir comigo. Eles perceberam sua hesitação. Não seja tolo. Nós somos três, e você é apenas um; a adaga que esconde nas costas não nos impedirá. É uma ordem, disse o outro homem, rispidamente. Não um pedido. E jurou obediência. Luca tinha jurado obediência ao mosteiro, não a esses estranhos, mas fora expulso de lá e agora parecia que devia obediência a qualquer um que gritasse uma ordem. Ele foi até à cama e se sentou para calçar as botas, colocando a adaga numa bainha escondida dentro do couro macio. Então vestiu uma camisa de linho e jogou a esfarrapada capa de lã sobre os ombros. Quem são vocês?, perguntou, aproximando-se da porta, receoso. O homem não respondeu, apenas se virou e começou a andar enquanto os dois guardas no corredor esperaram Luca sair da cela e segui-los. Aonde estão me levando? Os dois guardas o acompanharam sem responder. Luca queria perguntar se estava sendo preso, se seria conduzido à execução sumária, mas não se atreveu. Apavorado com a própria pergunta, percebeu que temia a resposta. Sentia que transpirava de medo por baixo da capa de lã, embora o ar estivesse gelado e as paredes de pedra, frias e húmidas. Percebia que os problemas eram graves, os piores que tivera em sua jovem vida. Ainda no dia anterior, quatro homens encapuçados o haviam tirado do mosteiro e levado para aquela prisão sem qualquer explicação. Ele não sabia onde estava ou quem o mantinha cativo. Não sabia que acusação enfrentaria. Não sabia qual seria a punição. Não sabia se seria espancado, torturado ou morto. Insisto em ver um padre, quero-me confessar..., tentou.
Eles não lhe deram atenção, apenas o forçaram a seguir pela estreita galeria lajeada de pedras; estava silenciosa, as portas das celas laterais, fechadas. Luca não sabia se aquilo era uma prisão ou um mosteiro, mas era um local muito frio e tranquilo. Passava um pouco da meia-noite, e o lugar parecia imerso em escuridão e no mais absoluto silêncio. Os guias de Luca não fizeram ruído ao atravessar a galeria, descendo as escadas de pedra e passando por um salão para, logo em seguida, descer uma curta escada em espiral, adentrando uma escuridão cada vez mais negra, onde o ar era cada vez mais frio. Exijo saber para onde estão me levando!, insistiu Luca, embora a voz tremesse de medo. Ninguém respondeu, mas o guarda atrás dele se aproximou um pouco. No final da escada, Luca podia ver uma entrada em arco, fechada por uma pesada porta de madeira, que o homem da frente abriu com uma chave tirada do bolso, gesticulando para Luca passar. Quando percebeu sua hesitação, um dos guardas atrás dele apenas se aproximou até que o volume ameaçador de seu corpo impelisse Luca a avançar. Insisto..., sussurrou Luca. Um forte empurrão o fez atravessar a porta, e ele ofegou ao ser atirado na beira de um cais alto e estreito. Um barco se balançava no rio lá em baixo, e a margem oposta era um borrão escuro. Luca se afastou rapidamente da beira, com uma súbita vertigem ao perceber que poderiam atirá-lo dali, para as pedras, com a mesma facilidade com que o levariam pela escada até ao barco. O primeiro homem desceu a escadaria húmida com passos suaves, entrou no barco e disse uma palavra ao barqueiro na proa, que sustentava a embarcação contra a corrente com movimentos habilidosos de um único remo. Depois, voltou o olhar para o belo jovem pálido. Venha, ordenou. Não havia como resistir à ordem, e Luca o seguiu pela escada sebosa, entrou no barco e se sentou na proa. O barqueiro não esperou pelos guardas e levou a embarcação até o meio do rio, deixando que a correnteza os conduzisse ao redor da muralha da cidade. Luca olhou para a água escura. Se ele se jogasse do barco, seria levado pela jusante e, talvez, conseguisse nadar contra a corrente, chegar ao outro lado e escapar. Mas a água passava tão rápido que era mais provável que ele se afogasse, isso se não o seguissem com o barco e o imobilizassem com o remo. Meu senhor, disse, apelando à dignidade. Agora posso saber aonde vamos? Logo saberá. Foi a resposta ríspida». In Philippa Gregory, O Substituto, 2012, Editora Galera Record, colecção Ordem da Escuridão, 2015, ISBN 978-850-140-319-3.

Cortesia de EGRecord/JDACT

No 31. O Diabo é um Homem Bom. Ana Miranda. «O prazer, essa felicidade imediata que consome o tempo, o dinheiro e a alma, só cria dependentes. E o que não estamos nós dispostos a fazer pelo prazer!»

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«(…) Ao lado de Jean, a semente germinou, secreta como seiva, perante as extremas injustiças maquinadas pelas elites mundiais e diariamente relatadas. No fundo, a minha história é fruto de um puzzle cujas peças são acontecimentos aleatórios dos dias vividos. Não, não venho aqui contar-vos os factos, palavra que perdeu a virgindade primária. Venho partilhar a minha percepção do mundo, dos acasos que o regram ou desregram e a forma como tudo isso fez de mim aquilo que fui, e sobretudo aquilo que sou, neste preciso instante em que escrevo, uma velha, um ser humano em fim de vida, num mundo em permanente estado de urgência. Tudo começaria com este correio electrónico:
Querida amiga, deixa-me falar-te do meu desespero. A terra está cheia de demónios, mas que são, afinal, os mesmos que povoam o nosso próprio inferno. Sempre detestei a mer… da violência e a mer… da guerra. Desculpa a minha fúria. Estamos todos metidos no mesmo atoleiro. Este mundo é a nossa pocilga, Laura. Se a guerra existe é porque há quem a sirva. Os soldados servem os generais que servem os governos que servem os ditadores que se servem de todos nós. A guerra é o trabalho dos homens-soldados. São eles a engrenagem da máquina infernal. É assim que eles governam as suas vidas, alimentam as suas famílias. Em troca de dinheiro, esses pobres tipos servem os senhores da guerra que arrotam de proveito e ejaculam de gozo o bem que lhes sabe todo o mal dos outros. É claro que não me iludo. Mesmo se não houvesse homens-soldados, nem homens-generais haveria sempre guerra. Mas, o que não posso aceitar é que haja Estados a organizar matanças, a escravizar pessoas e a fomentar ódios. Chego a acreditar que os que detêm o poder estão pactuados com o maléfico. Achas que será possível, um dia, alterar este estado de coisas? A fúria e o desespero não são bons aliados, eu sei. Mas gostava de compreender o que faz de nós carrascos uns dos outros. O mal, Laura, conjuga-se na primeira pessoa e dissimula-se no colectivo. No fundo, somos todos malditos. O mal como estratégia de poder é um trágico absurdo, é o que te digo. Não tenhas dúvidas, este é o tempo do maligno, a hora do caos, porque o caminho foi assim preparado por cada um de nós. O inferno é aqui. O diabo existe, Laura, sou eu, és tu, é a tua irmã ou o teu vizinho. Combatê-lo é combater a vida e exterminar tudo ou apenas uma parte, não sei. Extingui-lo exige uma solução final, disso estou certo. É preciso um homem novo, uma raça superior se queremos evitar a nossa perda. Poder-se-á combater o mal pelo mal, afinal, é a dose que faz o veneno. Haverá para isso alguma fórmula? Fico com as minhas cogitações. Espero ansiosamente pelo encontro de amanhã, o momento em que te conhecerei, enfim. Sinto que temos muitas coisas para partilhar, querida Laura. Sempre teu, Jean.
O encontro fora previsto para uma hora tardia. Meia-noite. O momento em que um dia termina e outro começa.Se o mundo teve uma hora precisa de concepção foi decerto essa. Escolhi o local ao acaso, ou talvez não. Seria melhor um sítio com algumas pessoas em redor que um antro deserto ou um bar perdido num bairro sujo de Paris. Na verdade, as decisões tomadas nesses últimos tempos não obedeciam a nenhuma regra. O passado surgia-me com profunda nostalgia e uma nítida sensação de perda. Perda de inocência, perda de coisas e de pessoas que amei, perda de tempo e de vida. Com o andar dos anos, as pessoas fundem-se com as coisas e deixamos de saber se amamos as pessoas pelas coisas ou o inverso. Não há dúvida que podemos amar as coisas e as pessoas em simultâneo. Tanto faz. O mundo tornou-se demasiado complexo e incompreensível à força de querer compreendê-lo.
Tudo querer saber é pura intoxicação. O excesso de informação deforma e pode induzir a um estado de desânimo altamente explosivo ou vegetativo depende, talvez, da fase da Lua. No dia em que decidi responder ao anúncio de Jean, morria de tédio. O tédio das grandes cidades, que tem o poder de reduzir qualquer um a uma existência bruta e insignificante, como um banco de jardim ou um automóvel estacionado no parque do Carrefour. Nem a última filha da putice engendrada contra mim, pelo maralhal da empresa, que outrora me teria atirado para o divã do psiquiatra mais próximo, me estimulava os neurónios. Nada. Nem ódio, nem cólera, nem desejo, nem nada. Devo dizer-vos que faço parte de uma geração que tudo conquista e nada tem.
O prazer, essa felicidade imediata que consome o tempo, o dinheiro e a alma, só cria dependentes. E o que não estamos nós dispostos a fazer pelo prazer! Sou de um tempo em que a felicidade é uma meta, um objectivo de vida, sem no entanto saber que aspecto tem, ou como e onde a encontrar». ». In Ana Miranda, O Diabo é um Homem Bom, Editora Chiado, colecção Viagens na Ficção, 2012, ISBN 978-989-697-552-4.

Cortesia de EChiado/JDACT

O Perfume no 31. Patrick Suskind. «O camponês cheirava tão mal como o padre, o operário como a mulher do mestre artesão, a nobreza tresandava em todas as suas camadas…»

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«No século XVIII viveu em França um homem que se inseriu entre as personagens mais geniais e mais abomináveis desta época que, porém, não escasseou em personagens geniais e abomináveis. É a sua história que será contada nestas páginas. Chamava-se Jean-Baptiste Grenouille e se o seu nome, contrariamente aos de outros grandes facínoras de génio, como, por exemplo, Sade, Saint-Juste, Fouché, Bonaparte, etc., caiu hoje em dia no esquecimento, tal não se deve por certo a que Grenouille fosse menos arrogante, menos inimigo da Humanidade, menos imoral, em resumo, menos perverso do que os patifes mais famosos, mas ao facto de o seu génio e a sua única ambição se cingirem a um domínio que não deixa traços na História: ao reino fugaz dos odores. Na época a que nos referimos dominava nas cidades um fedor dificilmente imaginável para o homem dos tempos modernos. As ruas tresandavam a lixo, os saguões tresandavam a urina, as escadas das casas tresandavam a madeira bolorenta e a caganitas de rato e as cozinhas a couve podre e a gordura de carneiro; as divisões mal arejadas tresandavam a mofo, os quartos de dormir tresandavam a reposteiros gordurosos, a colchas bafientas e ao cheiro acre dos bacios. As chaminés cuspiam fedor a enxofre, as fábricas de curtumes cuspiam o fedor dos seus banhos corrosivos e os matadouros o fedor a sangue coalhado. As pessoas tresandavam a suor e a roupa por lavar; as bocas tresandavam a dentes podres, os estômagos tresandavam a cebola e os corpos, ao perderem a juventude, tresandavam a queijo rançoso, leite azedo e tumores em evolução. Os rios tresandavam, as praças tresandavam, as igrejas tresandavam e o mesmo acontecia debaixo das pontes e nos palácios. O camponês cheirava tão mal como o padre, o operário como a mulher do mestre artesão, a nobreza tresandava em todas as suas camadas, o próprio rei cheirava tão mal como um animal selvagem e a rainha como uma cabra velha, quer de Verão quer de Inverno. Isto porque neste século XVIII a actividade destrutiva das bactérias ainda não encontrara fronteiras e não existia, assim, qualquer actividade humana, quer fosse construtiva ou destrutiva, qualquer manifestação da vida em germe ou em declínio, que estivesse isenta da companhia do fedor. E era, naturalmente, em Paris, que o fedor atingia o índice mais elevado, na medida em que Paris era a maior cidade da França. E no seio da capital existia um lugar onde o fedor reinava de uma forma particularmente infernal, entre a Rua aux Fers e a Rua de La Ferronerie, na realidade, o Cemitério dos Inocentes. Durante oitocentos anos, tinham-se transportado para lá os mortos do Hotel-Dieu e os das paróquias vizinhas; durante oitocentos anos havia-se trazido até ali, dia após dia, em carroças, os cadáveres que eram atirados às dúzias para fundas valas; durante oitocentos anos, havia-se acumulado camadas sucessivas de ossos nas carneiras e ossuários. E foi só mais tarde, em vésperas da Revolução Francesa, quando algumas destas valas comuns se abateram perigosamente e o fedor deste cemitério a abarrotar desencadeou entre os habitantes das margens do rio não apenas protestos mas verdadeiros motins, que acabaram por encerrá-lo e esvaziá-lo, tendo sido os milhões de ossos e crânios empurrados à pá na direcção das catacumbas de Montmartre e construído um mercado, em sua substituição, neste local. Aqui, no sítio mais fedorento de todo o reino, nasceu Jean-Baptiste Grenouille, a 17 de Julho de 1738. Foi um dos dias mais quentes do ano. O calor pesava como chumbo sobre o cemitério, projectando nas ruelas vizinhas o seu bafo pestilento, onde se misturava o cheiro a melões apodrecidos e a trigo queimado. Quando começou com as dores de parto, a mãe de Grenouille encontrava-se de pé, atrás de uma banca, na Rua aux Fers, a escamar as carpas que acabava de estripar. Os peixes, supostamente pescados no Sena nessa mesma manhã, já cheiravam pior do que um cadáver. A mãe de Grenouille não distinguia, no entanto, entre o cheiro a peixe e o de um cadáver, na medida em que o seu olfacto era extraordinariamente insensível aos cheiros, e, além disso, a dor que lhe apunhalava o ventre eliminava toda a sensibilidade às sensações exteriores. Apenas desejava que a dor parasse; desejava pôr termo o mais rapidamente possível a este repugnante parto. Era o seu quinto. Todos os outros se haviam verificado atrás desta banca de peixe e sempre se tratara de nados-mortos, ou quase, porque a carne sanguinolenta que dela se escapava não se diferençava grandemente das miudezas de peixe que juncavam o solo, e também não possuía, além disso, muito tempo de vida; à noite, tudo era varrido a trouxe-mouxe e levado nas carroças, em direcção ao cemitério ou ao rio. Era o que deveria passar-se, uma vez mais, naquele dia e a mãe de Grenouille, que ainda era jovem, vinte e cinco anos feitos, que ainda era bonita, que conservava quase todos os dentes e tinha ainda cabelos e que, independentemente da gota, da sífilis, e de uma leve tuberculose não sofria de qualquer doença grave, que esperava viver ainda muito tempo, talvez cinco ou dez anos, e talvez até mesmo casar um dia e ter verdadeiros filhos na qualidade de respeitável esposa de um artesão viúvo (por exemplo)..., a mãe de Grenouille desejava que tudo já tivesse acabado. E quando as dores de parto se fixaram, agachou-se, deu à luz debaixo da sua banca de peixe tal como das vezes anteriores e cortou com a faca de peixe o cordão umbilical do recém-nascido. Em seguida, porém, e devido ao calor e ao mau cheiro que ela não apercebia como tal mas como algo de insuportável e estonteante, um campo de lírios ou uma divisão demasiado pequena a transbordar de junquilhos, desmaiou e caiu para o lado e rolou debaixo da banca até ao meio da rua, onde ficou estiraçada com a faca na mão. Gritos, correrias, a multidão de basbaques à roda e alguém que vai chamar a Polícia. A mulher mantém-se prostrada no chão com a faca na mão e volta lentamente a si. Perguntam-lhe o que se passou. Nada. E o que faz ali com a faca?» In Patrick Suskind, O Perfume, 1986, Editorial Presença, Grandes Narrativas, nº 12, 1991/1999, ISBN 978-972-231-448-0.

Cortesia de EPresença/JDACT

No 31. Canção do Cuco. Frances Hardinge. «Mãe, por favor, me ajuda, está tudo esquisito, tudo errado, e parece que a minha cabeça é feita de pedaços e alguns estão faltando…»

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«(…) Triss fez que sim, lentamente. Não tinha mais ninguém rindo dentro da cabeça dela. Havia ainda um delicado farfalhar, mas bastou olhar para o outro lado do cómodo, para a janela oposta, para facilmente deduzir quem era o culpado. Um galho mais baixo estava prensado no batente, pesado devido aos montes de maçãs verdes, suas folhas afagando o vidro toda vez que o vento o chacoalhava. A luz entrava entrecortada, vacilante, partida em mosaico pela folhagem. O cómodo em si estava tão verde quanto as folhas. Coberta verde sobre a cama, paredes verdes cheias de pequenos diamantes cor de creme, toalhas quadradas de um verde espalhafatoso sobre as mesas de madeira escura. Não havia gás aceso; as lamparinas brancas redondas da parede não mostravam sinal de vida. E foi somente então que, ao olhar em redor com mais minúcia, que a garota percebeu que havia uma quinta pessoa no quarto, espreitando junto à porta. Era outra menina, mais nova que Triss, cabelo escuro frisado, quase uma versão em miniatura da mãe. Contudo, havia algo de muito especial em seus olhos, frios e rígidos como os de um sapo. Ela segurava a maçaneta da porta como se quisesse girá-la, e o maxilar estreito não parava no lugar, fazendo ranger os dentes. A mãe olhou para trás, para acompanhar o olhar de Triss. Ah, olha, a Penny veio ver-te. Pobre Pen… Não comeu quase nada desde que ficaste doente, de tanta preocupação. Entre, Pen, vem aqui sentar perto da sua irmã… Não!, gritou Penny, tão subitamente que todos deram um pulo de susto. Ela está fingindo! Não veem? É fingimento! Ninguém vê a diferença? O olhar da menina estava fixo no rosto de Triss com uma expressão de estilhaçar rocha. Pen. Havia um tom de admoestação na voz do pai. Entre aqui agora e… NÃO! Pen parecia estar louca, desesperada, os olhos escancarados como se estivesse pronta para morder alguém. Saiu às pressas porta fora. Os passos rápidos foram ecoando, sumindo na distância. Não vá atrás, sugeriu o pai gentilmente à mãe, que começara a levantar-se. Assim você a recompensa dando atenção, lembra do que disseram? A mãe suspirou, cansada, mas tornou a sentar-se, obediente. Notou que Triss apoiara-se nos cotovelos, quase tampando os ouvidos, fitando a porta aberta. Não liga p’ra ela, disse gentilmente, acariciando a mão da filha. Sabe como ela é. Sei mesmo? Sei como ela é? É a minha irmã, Penny. Pen. Tem nove anos. Costumava ter amigdalite. O primeiro dente de leite caiu quando ela foi morder alguém. Teve um periquito, mas esqueceu de limpar a gaiola, e ele morreu. Ela mente. Ela rouba. Ela grita e atira coisas. E…, e ela me odeia. Odeia de verdade. Posso ver nos olhos dela. E não sei por quê. Por um momento, a mãe ficou ao lado da cama e fez Triss ajudá-la a cortar moldes para um vestido com uma enorme tesoura de cabo de casco de tartaruga que retirara de uma caixa de costura que insistia em trazer nas férias. As tesouras deslizavam com um barulhinho baixo e gutural, como se apreciassem cada centímetro. Triss sabia que adorava aplicar padrões ao tecido, cortá-lo para então ver os pedaços de fazenda lentamente comporem uma forma, eriçados de alfinete e guarnecidos de bainhas de beirada irregular. Os modelos vinham com fotos de moças em tom pastel, algumas de casaco comprido e chapéus de belo formato, outras com turbantes e vestidos longos que caíam rectos feito pendões. Todas jaziam lânguidas, como se fossem bocejar do modo mais elegante possível. Sabia que era um regalo poder ajudar a mãe na costura. Era a diversão usual, notara, para quando ficava doente. Naquele dia, contudo, as suas mãos estavam bobas e estabanadas. As grandes tesouras pareciam impossivelmente pesadas e vacilavam na mão dela, quase como se dançassem, rebeldes, entre os seus dedos. Depois da segunda vez em que quase pegara os próprios nós dos dedos entre as lâminas. Ainda não está muito bem, não é, querida? Por que não lê uma revistinha? Havia cópias intactas de Sunbeam e Golden Penny na mesa de cabeceira. Entretanto, Triss não conseguiu concentrar-se nas páginas à sua frente. Ficara doente outras vezes, sabia disso. Muitas, muitas vezes. Porém sabia que jamais acordara com essa terrível vagueza. O que tem de errado com as minhas mãos? O que tem de errado com a minha cabeça? Ela queria gritar alto. Mãe, me ajuda, por favor, me ajuda, está tudo esquisito, tudo errado, e parece que a minha cabeça é feita de pedaços e alguns estão faltando…» In Frances Hardinge, Canção do Cuco, 2014, Novo Século Editora, Le Livros, 2015, EISBN 978-854-280-633-5.

Cortesia LeLivros/NSéculoE/JDACT

Olga no 31. Fernando Morais. «No momento em que o juiz Vogt recebia os repórteres em Berlim, o casal encontrava-se dentro de um comboio, na fronteira da Polónia com a Rússia…»

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«(…) Não tínhamos a intenção de ferir ninguém... Se houvesse alguma reacção por parte dos fascistas de Moabit, certamente a esta hora estaríamos pensando em libertar, além do professor Braun, nossos companheiros que invadiram a prisão. A verdade é que um bando de garotos com armas descarregadas colocou de joelhos os fascistas que mantêm na prisão milhares de trabalhadores alemães... Às onze horas da noite, uma tropa de choque invadiu a cervejaria Muller e evacuou o salão a golpes de cassetete. Do seu quarto, Olga podia ver o alvoroço que a escaramuça provocou na rua Zieten. Ao seu lado, Otto dormia, indiferente à excitação que tomava conta da companheira. O noticiário do rádio ligado em volume quase inaudível aumentou a insónia da moça: todos os programas da madrugada comentavam o facto do dia, a invasão da prisão de Moabit. Mas tanto os jornais como o rádio transmitiam uma certeza tranquilizadora: de todos os participantes da acção, só ela fora identificada pela polícia. Sobre os outros havia, no máximo, vagas descrições físicas. Assim, Rudi Kõnig era apresentado como um moreno forte, de cabelo escovinha, que agarrou o escrivão pela garganta; Margot Ring era uma ruiva gordinha, de 15 anos no máximo; aquele que as testemunhas identificavam como o grandalhão de cabelos longos que deu a coronhada na cabeça do secretário da Justiça era o doce Erich Jazosch; um funcionário do tribunal que se encontrava à porta da prisão na hora da fuga descrevera Erik Bombach como uma criança de um metro e meio de altura, carregando uma pistola em cada mão ; a magrela Klara Seleheim, por causa do cabelo aparado rente, era tratada como alguém que não sabemos se é uma mocinha ou um rapaz, como dizia um locutor. Se a polícia desconhecia a identidade daqueles jovens, sobre Olga e Otto sabia tudo. Por isso, as semanas seguintes foram de grande tensão para os dois. O cerco policial apertava e, por maior que fosse a solidariedade das famílias operárias de Neuktilln, aumentavam também os riscos de prisão. Pacatas casas de metalúrgicos e padeiros eram transformadas em aparelhos para que os jovens pudessem esconder-se por quatro, cinco dias. A segurança deles ficou a cargo do Departamento de Ordem, uma secção geheim, secreta, e semimilitarizada da Juventude Comunista. Experimentados em proteger a organização contra ataques terroristas de direita ou da polícia, o Departamento de Ordem funcionava como uma célula clandestina dentro da Juventude Comunista legal.
Eram os seus membros que se encarregavam de arranjar sempre novos aparelhos e de transferir Olga e Otto de uma casa para outra, quando pressentiam a aproximação da polícia. As sessões de cinema em Berlim passaram a ser precedidas, assim que as luzes se apagavam, da exibição de um slide reproduzindo o cartaz com as fotos de Olga e Otto e a oferta de mil marcos a quem informasse sobre o paradeiro deles. O público, invariavelmente, explodia em aplausos para os dois jovens, e, invariavelmente, acendiam-se as luzes e o cinema era ocupado por grupos de policiais armados. Quando a escuridão retornava, começavam as vaias, os assobios e as bolas de papel voando. O que mais intrigava a polícia é que ninguém apareceu para candidatar-se a uma recompensa equivalente a dois anos de salário de um trabalhador.
Nos primeiros dias de Julho, o juiz Franz Vogt, do Supremo Tribunal Federal, convocou a imprensa no seu gabinete, ao lado do salão de audiências que havia sido invadido três meses antes, para apresentar um novo cartaz comunicado, assinado pelo promotor superior de Justiça da Alemanha. Nele, o Poder Judiciário retirava a recompensa de 5 mil marcos, pois, segundo informações fornecidas pela polícia, as citada pessoas conseguiram fugir, dirigindo-se para o exterior. Desta vez a polícia acertara: dias antes, Olga e Otto haviam viajado de carro, acompanhados por membros do Departamento de Ordem da Juventude, até a cidade de Stettin, na fronteira com a Polónia. De lá embarcaram num comboio rumo a Moscovo. No momento em que o juiz Vogt recebia os repórteres em Berlim, o casal encontrava-se dentro de um comboio, na fronteira da Polónia com a Rússia, exibindo passaportes falsos a um jovem soldado russo de traços orientais, que ostentava um capacete branco com a estrela vermelha. Emocionada por estar a entrar em território proletário, Olga não resistiu à tentação de um aceno carinhoso para aquele soldado do povo. Para sua tristeza, o soldado fingiu que não viu. O trem arrancou lentamente em direção a Moscovo». In Fernando Morais, Olga, 1985, Editora Ómega, 1993/1994, Companhia das Letras, 1985/1999, epub, 2014, ISBN 978-857-164-250-8.

Cortesia de CdasLetras/JDACT

No 31. A Ira de Deus sobre a Europa. J. Rentes de Carvalho. «Pessoalmente, talvez me proponha um objectivo mais modesto, como o de viajar em 50 linhas de caminho-de-ferro, ou o de percorrer toda a costa da Noruega»

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«Quando, depois de cumprida a penitência que me espera no Purgatório, o Altíssimo mandar os seus acólitos informar-se do meu desejo sobre a próxima reencarnação, vou requerer que me mandem de novo para a Holanda. Desta vez, porém, não como estrangeiro, pois, mesmo renascido, não me vejo capaz de suportar outros 50 anos, como os que agora passei, a observar um povo cujo comportamento me perturba o entendimento e me mantém num estado de permanente transtorno, muito semelhante às inquietas mudanças do clima do seu território. Desejo, pois, renascer holandês, pouco se me dando de vir de novo a ver a luz em Groningen ou no Limburgo, já que a experiência prova que nem todos os moradores do Norte são soturnos, nem a generalidade dos que se encostam à Bélgica demonstra uma permanente alegria de viver. Quero, sim, renascer mediano. Não na postura, pois nessa me agradará o metro e noventa, mas nos desejos e nas inclinações. Espero ver-me conformista, respeitador da lei, com ideias sérias sobre a religião, a minha e a alheia, e, quando conveniente, saber mostrar que me interessa a política, me preocupam as crises parlamentares, que sofro com as desigualdades e as misérias do mundo. Também quero praticar um desporto, de preferência um dos que requerem uniforme e equipamento. Talvez o ciclismo. Porque sempre me enternece a vista dos ciclistas que, de camisolas garridas e calções reluzentes a apertar-lhes as coxas, elmos aerodinâmicos, luvas e bidons, pedalam desenfreados no pólder, imaginando-se no Tour.
Espero ainda que a natação e a patinagem no gelo se me tornem uma segunda natureza e, quando em companhia, mesmo sem mais informação que a de um ou outro folheto, debite opiniões definitivas sobre a arte, a cultura e os vinhos. Passadas as febres da juventude, na minha actual existência tenho-me mostrado singularmente sedentário. Daí a esperança de que, como bom e mediano holandês, na futura reencarnação viaje mais. Talvez seja mesmo o que eu de verdade apreciaria, não somente para ver e visitar, mas impulsionado por uma finalidade concreta. Pouco depois da minha chegada aqui, já noutra oportunidade o relatei, conheci um holandês que, ao gosto pelas viagens, acrescentava o propósito de bater o recorde estabelecido pelo seu progenitor, o qual, com documentos, provava ter dançado em 22 países. Em meados de Janeiro de 1989 os jornais relatavam a façanha de um Roel Hendriks que, pelo gosto de contactar com as populações locais e conhecer as respectivas culturas, tinha atravessado a nado nada menos de 39 rios, cada um mais imponente do que o anterior: o Amazonas, o Orinoco, o Ganges, o Volga, o Tigre, o Zaire, o Iang-Tsé, o Mississípi... Recentemente li sobre uma jovem que igualmente viaja pelo interesse de contactar outras culturas, e a esse louvável objectivo acrescenta o de querer ver in loco como são as duzentas e tal nações do Planeta.
Pessoalmente, talvez me proponha um objectivo mais modesto, como o de viajar em 50 linhas de caminho-de-ferro, ou o de percorrer toda a costa da Noruega. Seja como for, viajarei com um fim e não, como até agora, sem plano nem objectivo, e sempre a temer as multidões que atravancam os monumentos e os museus. Também me quero diferente no fascínio pelas iguarias. Sem ser o que se chama um gastrónomo, tenho certamente dedicado um tempo excessivo aos prazeres da mesa e arregalam-se-me os olhos à perspectiva de uma lagosta à l’armoricaine, de uma choucroute, do dourado de um bacalhau com natas. Tenho, mea culpa, feito viagens com o único propósito de saborear um arroz de pato. Desses pecados me arrependo e desde já prometo melhoras. Sobriamente me contentarei com um hutspot. Comerei muito pão, beberei muito leite e cerveja, os meus destemperos ficarão por uma piza de vez em quando». In J. Rentes de Carvalho, A Ira de Deus sobre a Europa, Quetzal Editores, 2016, ISBN-978-989-722-338-9.

Cortesia de QuetzalE/JDACT

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

As Palavras do Corpo Maria Teresa Horta. «Dou voz liberta aos sentidos, tiro vendas. Ponho o grito, escrevo o corpo, mostro o gosto, dou a ver o infinito»


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Ambiguidade
«Não me acordes
se de acordo já estou morta

Não me dispas
se de pedra já me visto

Não me beijes
se de bruços já me mordes

Não insistas
se de sono já desisto

Não detenhas o gesto
no sentido
se a mão afaga o corpo já despido»

O Nó
«Que manso e cego
o nó da tua voz!

Se desatá-lo pudesse
dos meus lábios…

Se apunhalá-lo pudesse
ou não custasse
adormecer e acordar
com ele em face»

A Voz
«Da tua voz
o corpo
o tempo já vencido

os dedos
que me vogam
nos cabelos

e os lábios a roçar-me a boca
nesta mansa tontura
de nunca tê-los

Meu amor
nos quartos na memória
não ocupamos nós
se não partimos…

Mas porque assim te invento
e já te troco as horas
vou passando dos teus braços que não sei

para o vácuo em que me deixas
se demoras
nesta mansa certeza que não vens»

Poemas de Maria Teresa Horta, in “As Palavras do Corpo

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O Último Papa. Luís Miguel Rocha. «É quase hora de fechar, mas ele não se constrange e continua a contemplar, quase sem pestanejar, a obra de Diego Velázquez, As Meninas, a pérola do museu»

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Anno Domini MMVI
«(…) As coisas não correram tão mal: só havia se passado meia hora e Sarah já estava dentro do táxi, fora do Terminal Dois, pronta para ir para casa. Belgrave Road, please, seguido do número que não divulgaremos por razões de privacidade, tão boas quanto outra qualquer. Mais meia hora ou quarenta minutos, dependendo do trânsito, e poderá tomar o tão desejado banho de espuma com a banheira quase transbordando, sais balsâmicos para perfumar o ambiente, morango e baunilha, uma mistura poderosa que relaxa os músculos e tranquiliza o espírito, se é que ele alguma vez se inquieta. Contorna a Victoria Station, sempre cheia de gente, e entra mais à frente na Belgrave Road, repleta de hotéis baratos, de um lado e do outro, e com muita gente carregando malas em ambas as calçadas. Uma rua tipicamente londrina; quase todas as casas com duas colunas sustentando o pórtico frontal, uma de cada lado, algumas trabalhadas, outras lisas, dependendo do gosto do construtor ou do proprietário. Casas centenárias, vitorianas, sem dúvida, mas sem mácula nas pinturas recentes, naquelas fachadas não é de ladrilho acastanhado. O táxi vai praticamente até o final da rua. Perto da sua porta, o motorista se vê obrigado a travar bruscamente, fazendo com que Sarah quase choque contra as protecções de vidro do veículo, destinadas a separar o taxista de clientes perniciosos. Um carro negro, de vidros escuros, colocara-se de repente à frente deles e permanecia parado, pouco se importando com quem estava atrás. O homem do emblemático carro de aluguel londrino aperta a buzina, enrubescido pela fúria. Move on!, grita ele para o da frente, que continua imóvel. Get the fuck out of the way! A fila de carros fica cada vez maior. Ouvem-se mais buzinas e queixas de motoristas apressados. O condutor do carro da frente baixa o vidro e coloca a cabeça para fora, na direcção do taxista inglês, profere um Sorry, mate e segue viagem.
Segundos depois o táxi pára em frente à porta de Sarah Monteiro, e o taxista é gentil o bastante para lhe tirar a mala. Depois de recebidas as libras devidas, ele parte em direcção a outros clientes, outros desejos, outras libras esterlinas. Ao entrar em casa, Sarah depara logo com um monte de correspondência espalhada no chão. Postais de colegas, contas para pagar e, claro, propaganda de todos os tipos, e mais coisas para as quais não tem paciência nesse momento. Leva a mala até ao quarto, no primeiro andar, vai encher a banheira e relaxa; afinal de contas, é a sua casa. Precisa de algumas coisas da mala e a abre, encontrando-a sem a chave. Nota esse facto; as fechaduras estão todas abertas, e ela se lembra de as ter fechado. Até se recorda onde, a que horas, o que mais estava fazendo, com quem falava e o que dizia quando as fechou. Dentro, a roupa está revirada; alguém tinha aberto sua mala entre o Aeroporto da Portela e o de Heathrow. O melhor é ir lá, o que fará amanhã de manhã. Só lhe faltava essa! Tenta ver se falta alguma coisa na mala, mas, apesar de estar remexida, nada lhe parece a menos, tampouco a mais. Dois minutos depois, está na banheira, desfrutando da bendita espuma e dos benditos sais, e mel em vez de baunilha, porque este acabara; mas o efeito é o mesmo: relaxante, repousante, calmante. Já nem se lembra da mala nem do mal-humorado funcionário do aeroporto. Mais tarde, no meio de toda a pilha de correspondência, consegue abrir um envelope e vê o nome do remetente: Valdemar Firenzi.

Muito se poderia dizer do quadro para onde esse homem olha. A infanta Margarita, ao meio, e Isabel Velasco e Agustina Sarmiento, de ambos os lados; dois anões, do lado direito de quem vê, que fique bem claro; María Barbola e Nicolas Pertusato, este último com um pé em cima de um cão que dormitava. Atrás, nas sombras, Duenna Marcela de Ulloa com um homem não identificado, coisa difícil de acreditar, pois os pintores não são homens capazes de colocar objectos não identificáveis nas telas. Tudo tem o seu significado, e, se não se sabe quem é, assim quis o artista, também ele auto-retratado na própria pintura, à esquerda, exercendo o seu ofício para a posteridade: pintar as magnânimas figuras de Filipe IV e de dona Mariana reflectidas num espelho por trás dele, pois de outra forma não conseguiríamos ver o reflexo do seu trabalho, já que a tela está de costas para nós. Para terminar, o contramestre da rainha, José Nieto Velázquez, que está à porta, de saída. Belíssimo quadro, sem dúvida, mas não é ele que nos interessa, mas o homem que para ele olha. Convém esclarecer o local onde esse homem observa o quadro: é a sala número três do Museo Nacional del Prado, em Madrid. É quase hora de fechar, mas ele não se constrange e continua a contemplar, quase sem pestanejar, a obra de Diego Velázquez, As Meninas, a pérola do museu.
Señor, está na hora de fechar. Por favor, encaminhe-se para a saída, adverte educadamente um jovem segurança, porque há que respeitar os homens de idade, como esse que olha para o quadro que bem sabemos. O segurança é zeloso e quer se certificar de que sua ordem, proferida em forma de pedido, seja cumprida. Conhece-o de vista, dali, daquele mesmo local, onde o vê quase todos os dias olhando interminavelmente para o quadro, durante horas e horas; os turistas passando e ele, ali, como um quadro a olhar para outro. Alguma vez admirou esta pintura?, pergunta o homem. O segurança olha ao redor: não há mais ninguém ali, então a pergunta deve ser para ele. Está falando comigo? O homem o ignora e continua a fitar o quadro. Alguma vez admirou esta pintura?, repetiu. Mas é claro! Este quadro é como a Mona Lisa no Louvre. Tolice. Diga-me o que vê. O segurança se acanha. O homem aparenta ter uma cultura acima da média, se é que essas coisas se veem assim a olho nu; falar demais só provocará embaraço». In Luís Miguel Rocha, O Último Papa, Saída de Emergência, 2006, ISBN 978-972-883-969-7.

Cortesia SEmergência/JDACT

O Último Papa. Luís Miguel Rocha. «Não consigo desligar esse alarme e não entendo por quê. Deixe-me ver. O homem vê os dados que aparecem no computador e tecla algo nele…»

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Anno Domini MMVI
«(…) Para Sarah Monteiro, nada se equipara à cidade metropolitana de Londres, que agora sobrevoa de volta à sua casa em Belgrave Road. O avião vem de Portugal, Lisboa, e lança-se à pista em infindáveis manobras há cerca de meia hora. Mas, para Sarah Monteiro, tudo aquilo era um prazer, depois de quinze dias de férias na casa dos pais, um capitão do exército e uma professora inglesa; daí o "h" que acompanha o belo nome Sara, influência da origem britânica materna, bem como do gosto por tudo que é britânico. Não que não goste de Portugal, longe disso: é um país lindo e fantástico, mas com longo caminho a trilhar em termos de personalidade. Apesar da idade avançada de suas fronteiras, as revoluções foram muitas e as renovações, poucas. À parte tudo isso, para Sarah, Portugal é paragem obrigatória, duas a três vezes ao ano, mais os natais, pois os pais fixaram residência no Alentejo, numa área rural perto de Beja, e respirar aquele ar do campo, muito diferente do da capital britânica, é algo sem o qual já não consegue viver. O avião aterra de maneira suave, embora a mais suave das aterragens carregue sempre uma dose de solavancos e sacudidelas. Apesar do longo caminho até a área de desembarque, uns bons vinte minutos, todos se levantam e se acotovelam para serem os primeiros a pegar as bagagens de mão e a sair do avião. Acabamos de aterrar no aeroporto de Heathrow. São seis e meia da tarde, mesmo horário de Lisboa. Na capital britânica faz vinte e um graus centígrados. Permaneçam sentados e com os cintos apertados até a parada total da aeronave. Obrigado por voarem pela nossa Companhia, declara a hospedeira de bordo, mas quem lhe presta atenção? Apenas duas ou três pessoas, Sarah entre elas, que está acostumada ao entra-e-sai de aviões, se não para ir a Portugal ver os pais, para outros destinos, outras capitais e cidades; ossos do ofício de uma correspondente de vários jornais e emissoras da Europa, em Londres. Facto interessante os estrangeiros lhe pagarem para dar notícias da sua cidade. Tem mais dois dias de férias antes de voltar às redacções, ao corre-corre da notícia, à busca incessante por algo bombástico, sangrento, anómalo.
Agora, sim, o avião parou, e os passageiros se apressam a sair pela porta da frente. É hora de pegar seu notebook e sua valise e sair. Pelo caminho, liga para os pais e diz que chegou bem; mais tarde falarão pela internet, quando chegar em casa. Percorre os longos corredores em verde e preto e coloca-se na fila da imigração. São os procedimentos legais que cada terra soberana inventa para si mesma; porém todos acabam se entendendo, ou não seriam as viagens possíveis para lado nenhum, por fecharem as portas uns aos outros, o que às vezes acontece. Cidadãos da União Europeia, da Suíça e dos Estados Unidos para um lado, cidadãos de outras nacionalidades para outro, todos com o passaporte na mão. Sarah é a próxima e aguarda junto à linha amarela, para não invadir o espaço do senhor de óculos que está à frente ou para não confundir o funcionário sentado atrás de um balcão. Next, please. O próximo, por favor. A expressão no semblante do homem é de poucos amigos; bem podia ter escolhido outro guichê; a funcionária ao lado parece bem mais simpática, o sorriso não engana, mas o que está feito, está feito. Estende-lhe o passaporte e oferece-lhe seu melhor sorriso. É bom estar de volta. Como tem estado o tempo?, Pergunta circunstancial, apenas para iniciar conversa. Não consigo vê-lo daqui, responde o homem. Não acordou bem, com certeza, ou a desavença com a patroa, se é que existe, foi feia. Caso contrário, o problema dele é a falta de patroa, facto por que o mau humor deve ser constante. Há alguma coisa errada com o seu passaporte. Desculpe? Como assim? Um problema com o passaporte? Podia mostrar a identidade... Mas nunca dera problema, então por que razão daria agora? Porcaria de computadores! O telefone do guichê toca, e o funcionário mal-encarado atende. Horatio, o nome do funcionário, a julgar pelo crachá de identificação cravado no casaco, ouve o interlocutor. Sim, mas o passaporte não passa. Volta a ouvir e depois desliga o telefone. Agora está tudo bem. Pode passar. Obrigada.
Estranho, o infeliz do homem mexeu mesmo com seus nervos; agora só falta encontrar um taxista do mesmo tipo para a noite acabar bem. Ainda faltava ir buscar a mala, mais uma hora, isso se não houvesse extravios. Na sala de comando central, em algum lugar dentro do aeroporto, um computador dá um alarme. O funcionário, um jovem na casa dos vinte, para sermos precisos teríamos de lhe perguntar, coisa que não parece de bom-tom, tendo em vista que se encontra pronto para responder a um alarme que começou a piscar no computador. O pão nosso de cada dia, nesse caso, o pão dele, são coisas que estão sempre acontecendo. O jovem está vestido com camisa branca e calça preta; o volume dos ombros o denuncia como um agente da polícia que está neste momento descobrindo a origem do alarme que ainda pisca, vermelho. Foi um passaporte que o accionou, possivelmente adulterado ou inválido, ou caducado. Ele observa a câmera de segurança: uma mulher bonita, na casa dos trinta, está em frente ao guichê número onze, o de Horatio, um viúvo chato, embora escrupuloso; nada passará por ele se não estiver bem. Portanto, o que o jovem tem a fazer é anular o alarme e deixar o funcionário fazer o resto. Mas o procedimento de cancelamento do aviso não funciona. Isso nunca lhe havia acontecido. O melhor é chamar o superior. Senhor? Um homem de cabelos grisalhos, na faixa dos cinquenta anos, aproxima-se dele e inclina-se sobre o computador. Sim, John. Chama-se John o nosso jovem. Nunca poderíamos ter adivinhado nome tão corriqueiro. Não consigo desligar esse alarme e não entendo por quê. Deixe-me ver. O homem vê os dados que aparecem no computador e tecla algo nele, o que faz aparecer algumas informações, como o nome de Sarah Monteiro e alguns dados que passam muito depressa. Não se preocupe, John. Tratarei disso. O homem dirige-se ao telefone e o pega. Olá, Horatio, é o Steve. Deixe-a entrar. Sim, não se preocupe, deixe-a entrar, está tudo sob controle. Coloca o dedo no botão que cessa a chamada e, sem pousar o telefone, faz outra. Ela acaba de chegar». In Luís Miguel Rocha, O Último Papa, Saída de Emergência, 2006, ISBN 978-972-883-969-7.

Cortesia SEmergência/JDACT

Mil Noites de Paixão. Madeline Hunter. «Sou Melissa, uma cortesã, disse ela, naturalmente. Asseguro-te que não sou uma prostituta. É por isso que estou aqui»

Cortesia de wikipedia e jdact

1357
«(…) Ele olhou para cima, surpreso, quando passou rapidamente ao lado dele, e correu o tecido que fazia de porta. Ela rezou para que o homem que procurava estivesse dentro, e que esses outros não a seguissem. Porque então, por tudo o que ela sabia, ele poderia simplesmente dar com os ombros e deixar que os soldados a levassem. O tecido branco da tenda criava uma luz difusa e suave, e levou um momento para adaptar seus olhos. Ela procurou pela cama, a mesa e o baú que havia na tenda. Uma armadura polida brilhava no chão a alguns passos dela. Não se ouvia um único som. E então uma sombra se moveu. A de um homem levantando do tamborete onde ele tinha estado sentado com suas costas apoiadas contra o poste central da tenda. O que está fazendo aqui?, ele bruscamente perguntou. Ela só o olhou fixamente. Ela observou esse homem tão alto como uma torre. Ele era mais alto que a maioria dos homens. Mas ela era mais baixa que a maioria das mulheres, e a diferença marcante em seus tamanhos de repente a fez estar intensamente consciente de sua vulnerabilidade. O que ela não tinha podido ver, olhando a partir da torre, era como ele era bonito. As grossas sobrancelhas suavizavam suas feições e lhe davam um marco escuro, contrastando com seus olhos que pareciam com um céu claro, cheio de luz. Ossos agudos e definidos no seu rosto e boca. O cabelo escuro caindo até seus ombros, sustentado por um tecido atado ao redor de sua fronte. Ele só vestia um par de calças camponesas soltas, cortado em cima dos joelhos. Essas pernas estavam bem formadas, todos os músculos alargados e avultados. A mesma magreza atlética formava seus ombros largos e seu tórax esculpido. Com seu primitivo modo de vestir, lhe fez recordar dos antigos guerreiros sobre os quais ela tinha lido nos livros de Robert. Ele era o inimigo, mas igualmente a respiração dela ficou entrecortada. Magnífico. Assustador. Era uma desgraça que ela tivesse que matá-lo. Ele caminhou em direcção a ela. Deu a seu vestido, a seu cabelo e a suas bochechas avermelhadas uma fria avaliação enquanto tirava a franja de sua fronte e passou uma mão por seu cabelo. Ela esperava que ele não pudera ver seu rubor, porque a mulher que interpretava esse dia nunca se sentiria desconcertada pelo exame de um homem, sem importar quão atractivo ele pudesse ser. Sua expressão se iluminou, e ele levantou uma sobrancelha especulativamente. Ele deduziu a única coisa que ele precisava saber. Sorriu. Meu Deus, que sorriso! Lábios rectos, curvados apenas nos extremos. Absolutamente encantadores, subtilmente sugestivos, vagamente irónicos. Formavam umas atractivas e pequenas rugas a um e outro lado de sua boca. Transformando o bonito rosto, antes distante e indecifrável, num sensual e amigável semblante. Mas ela viu algo mais quando ele a olhou. Ela viu na posição confiante de seu corpo, no reflexo em seus olhos e até no sorriso propriamente dito: vaidade; arrogância; orgulho; uma inabalável confiança em si mesmo. Ela notou que ele era consciente do efeito que seu rosto, seu corpo, causavam. Em todas as mulheres.  Ela tinha conhecido esse tipo de homens antes. A casa de seu pai tinha estado cheia deles. Talvez, afinal, não lhe importasse tanto matá-lo. O que está fazendo aqui?, ele repetiu. Ela recuperou sua compostura. Fui chamada pela cidade de Bewton. A cidade enviou alguém a Glasgow para me contratar. A gente da cidade queria estar segura que seu presente ia agradar te, sir Morvan. Presente? Está dizendo que a cidade contratou uma prostituta... Sou Melissa, uma cortesã, disse ela, naturalmente. Asseguro-te que não sou uma prostituta. É por isso que estou aqui. A cidade não confiava em suas mulheres para esta tarefa. E qual é o propósito deste presente? Eles esperam que se está agradado não atacará à cidade com seu exército. E você veio para me persuadir disso?, ele caminhou ao redor dela, examinando-a como um animal posto à venda. Ela esperava que ele bocejasse e lhe anunciasse que ela não serviria para esse propósito. Um cavalheiro que dê essa ordem a seus homens teria que estar muito agradado, por certo. E qual é o propósito de conquistar se não haver nenhum butim (segundo o Houaiss, é o conjunto de bens materiais e de escravos, ou prisioneiros, que se toma ao inimigo no curso de um ataque, de uma batalha, de uma guerra; pode ser o produto de roubo ou de pilhagem; no uso formal é o produto de caça ou pesca, e, informal, é o proveito, lucro; como espólio de guerra, era divido de acordo com a eficiência de cada um nos campos de batalha), nenhum lucro? A cidade pagará seu tributo. Haverá perdas sem dúvida. Mas é a selvageria, o saque e as violações, os estupros o que eles desejam evitar. Ele estendeu sua mão e acariciou seu cabelo, levantando uma mecha, deixando que seu olhar e seus dedos percorressem sua considerável extensão. Qual é mesmo o seu nome? Melissa. Não pode ter ouvido falar de mim, mas eu fui treinada pela famosa Dionysia». In Madeline Hunter, Mil Noites de Paixão, Edições ASA, 2012, ISBN-978-989-231-672-7.

Cortesia EASA/JDACT

Mil Noites de Paixão. Madeline Hunter. «Ela sabia tudo sobre soldados ingleses, e o que aconteceria se seus homens tivessem êxito em romper os muros. As descrições das atrocidades inglesas tinham sido repetidas por gerações»

Cortesia de wikipedia e jdact

1357
«Assegure-se que ele beba o vinho antes que tire suas roupas. A instrução era simplesmente a última de uma longa ladainha de advertências que Reyna ouviu enquanto silenciosamente andava pelo túnel cavernoso. Ela apertou a mão da mulher maternal que a acompanhava. Cuidarei de fazer isto como planeamos, Alice. Eles parecem um grupo bastante destemido, e este assédio deve ser muito aborrecido. Ele deveria estar contente com esta diversão. Há uma só diversão que a maioria dos homens está interessada, criatura. Esse é o perigo, não é verdade? Não se preocupe com isso. A escuridão total no túnel assustou Reyna, então ela moveu-se depressa, uma mão segurava com firmeza a de Alice e a outra estava sobre a parede. Sons ressoaram pela pedra sob a sua palma da mão. Os invasores tinham começado a cavar o seu próprio túnel não longe deste, onde ela estava. Ao longo dos meses, ela tinha vindo a essa saída escondida, com uma tocha nas mãos, e escutava os ruídos, julgando o seu progresso. Ela não se preocupou em princípio, porque certamente a ajuda chegaria antes que eles completassem seu trabalho. Não era grande o exército que cercava a torre, e uma força pequena de qualquer lugar, mesmo que fosse de Harclow ou Clivedale, poderiam facilmente conseguir interceptar o assalto à fortaleza. Mas nenhuma ajuda chegou, e agora os homens do exército estavam a dias de alcançar o muro circundante. Até mais inquietante tinha sido a segunda escavação que progredia no lado sul da fortaleza.  Elas alcançaram uma curva fechada à direita. Um feixe de luz chegava pela entrada estreita escavada por trás de uma formação rochosa. Um arbusto denso mais adiante escondia a entrada de ser visível, e só alguém que examinasse cuidadosamente todo o terreno teria a oportunidade de encontrá-la. Esse exército não tinha explorado tão longe por esse terreno, e Reyna sorriu ante a ironia de todos os homens escavando quando essa entrada só estava a metros de distância. Saberá pela manhã se tiver tido êxito, Alice. Observe da torre e alerte sir Thomas e Reginald. Reyna tomou a cesta que Alice carregava, tentando soar valente e tranquila. Eu irei primeiro até minha mãe, e logo depois a Edimburgh. Informarei quando estiver segura lá, e você poderá se reunir a mim. Alice a abraçou. É um plano valente, mas precipitado o que tem, criatura, sir Robert não o teria aprovado se estivesse vivo. Se Robert estivesse vivo, eu não teria que fazer isto. A mulher mais velha sacudiu a cabeça com resignação. Deus te acompanhe, então. Reyna forçou a entrada e permaneceu dentro do matagal escuro. Cinquenta metros mais adiante estavam os acampamentos que cercavam a torre. Não era um grande exército, mas era suficientemente grande para assegurar que ninguém saísse e nenhuma provisão chegasse. Não tinha havido nenhuma tomada por assalto, nenhum muro tinha sido escalado, nenhuma máquina de guerra tinha lançado fogo e pedras. Nem sequer tinha havido negociações. Só dois meses de cerco inexorável. Homens movendo-se pelo acampamento, seus movimentos lentos e preguiçosos pelo calor do Verão. Eles não usavam muitas roupas, e seus corpos se bronzearam com o sol. Uns poucos tinham adoptado os refrescantes kilts escoceses. Mas estes homens não eram escoceses. Eram ingleses, ela pensou com desgosto, e essa noção renovou sua resolução. Os ingleses tinham sido monstros desde a sua infância e inimigos desde a sua adolescência. Seu rei escocês podia ter aceito a derrota às mãos do rei Edward da Inglaterra dez anos atrás, mas nenhum escocês, especialmente aqueles nas fronteiras da Cumbria e Northumberland, submeteram-se prontamente à autoridade que os ingleses reivindicavam. Ela sabia tudo sobre soldados ingleses, e o que aconteceria se seus homens tivessem êxito em romper os muros. As descrições das atrocidades inglesas tinham sido repetidas por gerações. Ela se forçou a visualizar as pessoas que conhecia sendo assassinadas e torturadas, e procurou força naquelas imagens horríveis. Não estava em sua natureza fazer o que ela estava planeando agora, mas não via nenhuma alternativa. Esperava que Deus a ajudasse, e logo a perdoasse. Ela saiu apressadamente do matagal e caminhou numa direcção que parecesse que ela chegava de um dos caminhos do norte. Os homens a examinaram, avaliando o significado de seu cabelo solto e o seu vestido de seda. Ela seguiu caminhando, circulando pelo lado oeste do acampamento e para a grande tenda ao centro. Quando esta apareceu diante de seus olhos, ela diminuiu a velocidade. Uma vez que ela entrasse, não haveria como voltar atrás. Um assobio lascivo chamou sua atenção. Dois cavalheiros sorriram entre si e começaram a caminhar em direcção a ela, fazendo sons obscenos com suas bocas, provocando-a. Sua pele se arrepiou, e ela correu os últimos poucos metros para a grande tenda com estandartes verdes e brancos. Um escudeiro estava sentado perto da entrada limpando armas». In Madeline Hunter, Mil Noites de Paixão, Edições ASA, 2012, ISBN-978-989-231-672-7.

Cortesia EASA/JDACT

Ambas as Mãos sobre o Corpo. Maria Teresa Horta. «Estende o braço: a ventoinha, num ruído áspero, metálico, veloz, desprende uma frescura boa, salutar, que lhe faz cerrar os olhos e lhe atira os cabelos para trás»

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A Noite
«(…) Passeia os dedos pelos braços transpirados. O calor redobrou para a noite. Mole, peganhento, agarra-se, molda-se a tudo, pega, adere. Até aos olhos. Inclinada na varanda, tenta distinguir qualquer coisa. O suor colou-lhe os cabelos à pele branda do pescoço; e às pernas altas, a camisa de noite. Até mover as mãos na balaustrada morna de mármore é penoso. A luz do quarto projecta-se no chão, um risco duro, vibrante, a tocar-lhe os pés descalços. Até mover os pés no chão tépido de mármore é penoso. Move-se devagar, dificilmente: os braços caídos, tombados, a boca seca, a língua grossa. O calor intensificou-se para a noite, rebola-se, desloca-se devagar, cola-lhe os cabelos à pele branda do pescoço e a camisa de noite às coxas. Nem os dedos ergue para limpar o suor que lhe marca o lábio superior, mole, apática, até o respirar lhe é penoso. Sem um mínimo pensamento, sem qualquer vontade, ela move-se devagar com a camisa de noite pegada às pernas, os braços tombados, a boca entreaberta. No limiar do quarto os movimentos tornam-se mais lentos e, lá dentro, olha com indiferença para a cama, sobre a qual se deixa cair de qualquer maneira. No tecto, pintadas, as duas cabeças de anjo que parecem dormir tentam capturar-lhe a atenção, como sempre.

O Odor
O seu perfume estende-se por toda a casa. Não o perfume exterior, fictício, que dentro dos pequenos frascos se detém, se concentra, ou que nos grandes se dilui, se subtiliza, antes um odor forte, intenso: um perfume inconfundível, obcecante. Ergue a cabeça, move os braços, as pernas, e ele solta-se, devagar, envolvente, macio. Escapava-se-lhe da pele, da vagina, para se enroscar nos outros, nas coisas, para invadir a casa, aveludado, tenso, vibrante. A mulher tira da caixa transparente um colar de pedras azuis, depois um branco, outro cor-de-rosa de contas redondas, enormes, ergue os braços e prende um após outro no pescoço, a caírem sobre o peito, nos ombros, sobre a pele, pesados. Frágil, dá ideia de não lhes poder aguentar o peso, ou o excesso de cor que se lhe alastra até aos pulsos enquanto ergue com ambas as mãos os cabelos e se olha, absorta, reflectida no espelho antigo que lhe decora o quarto. Afinal apenas sente a fricção aderente da combinação de renda, única coisa que consegue aquentar sobre o corpo na atmosfera peganhenta, doce. Descalça, vai até à janela e encosta a testa à persiana. Todos os seus movimentos são inúteis, movimentos de ócio, sem qualquer fim, sem qualquer futuro; gastam-se, consomem-se mal os completa, desfazem-se mal ela os repete. Frágil, de uma magreza, de uma palidez frágil, repete se na mesma apatia de sempre, quotidianamente, sem passado, indiferente e raivosa. Percorre o quarto arrastando os pés na alcatifa. O seu perfume estende-se por toda a parte. Um odor acre, interno, rasgado a partir do momento em que se desprende dela: rasgado, dilacerado, seco. Mexe as pernas, os cabelos caem-lhe agora sobre os ombros. Arranca os colares um por um, a combinação desce-lhe, fá-la escorregar pelos quadris num só movimento de libertação. Estende o braço: a ventoinha, num ruído áspero, metálico, veloz, desprende uma frescura boa, salutar, que lhe faz cerrar os olhos e lhe atira os cabelos para trás numa espécie de bailado suspenso». In Maria Teresa Horta, Ambas as Mãos sobre o Corpo, 1970, Publicações Europa América, Colecção Século XX, 1984, ISBN 978-972-100-090-2.

Cortesia PEAmérica/JDACT

O Desejo de Lady Cassandra. Madeline Hunter. «Emma olhou para a amiga no espelho. Está à espera de ser ignorada por alguém? Foi por essa razão que só ontem veio da cidade?»

Cortesia de wikipedia e jdact

Agosto de 1798
«A cada minuto que passa, fico mais aliviada por ser um casamento pequeno, admitiu Emma. Fitou o espelho enquanto a sua criada pessoal lhe colocava mais um adorno na coroa ouro velho. Eu, pelo contrário, a cada minuto que passa, gostaria que fosse maior, declarou Cassandra. Acenou à criada que se afastasse e assumiu o arranjo do toucado. Forrado a seda branca e ornado com pérolas minúsculas e uma discreta pena branca, o adereço era vistoso, mas sem espalhafato, tal como convinha a uma noiva já de idade madura, e não acabada de cursar a sua primeira temporada. A idade de Emma era uma das razões para a dimensão da cerimónia. As outras eram a localização no campo, a dispersão da alta sociedade por todo o reino em Agosto e talvez um certo desejo da parte de Emma de não ser o centro de uma assembleia. Num casamento grande conseguimos evitar as pessoas que desejamos evitar sem sermos óbvias, notou Cassandra ao mesmo tempo que prendia dois ganchos. Claro que você, sendo a noiva, não tem hipóteses de o fazer, mas os convidados sim. Emma olhou para a amiga no espelho. Está à espera de ser ignorada por alguém? Foi por essa razão que só ontem veio da cidade? Por sinal, estava a pensar que provavelmente eu é que terei vontade de evitar alguns dos convidados, desabafou Cassandra com uma gargalhada. Atrasei-me porque o meu irmão insistiu em fazer-me uma visita. É uma boa amiga, por se preocupar com a forma como a sociedade irá receber-me, mas inquieta-se em vão. Os parentes e os amigos do Southwaite nunca o insultariam, nem a si, dessa forma.
Desejou poder partilhar com Emma a razão real que a levara a atrasar a saída de Londres. A amiga tinha muito bom senso e poderia aconselhá-la sobre a melhor forma de lidar com as ameaças que Gerald, o irmão, conde de Barrowmore, tinha feito a respeito da tia Sophie. Há um ano, Emma teria com toda a probabilidade encontrado forma de lhe emprestar o dinheiro que, tão abruptamente, se tornara imprescindível para frustrar os planos nefastos de Gerald. Contudo, seria egoísta da sua parte ensombrar o dia de casamento de uma amiga com histórias infelizes. Emma estava prestes a tornar-se a mais recente condessa de Southwaite e a liberdade que teria para ajudar uma amiga encontrava-se condicionada por deveres maiores. Assim como por um marido que não simpatizava por aí além com a dita amiga. Emma voltou-se para trás. A expressão do rosto sugeria que pressentia o tumulto interior de Cassandra. Puxou a amiga para si e abraçou-a, encostando a cabeça ao seu corpo. Obrigada por ter vindo, mesmo mais tarde do que o planeado. Se não o tivesse feito, teria de me arranjar completamente sozinha, apenas com a criada, e sem ninguém com quem me rir para acalmar os nervos. Cassandra fez-lhe uma festa na cabeça, deslizando a mão pelos caracóis que lhe caíam sobre os ombros. Emma tinha vinte e cinco anos, mais dois do que ela, mas, no que respeitava às coisas mundanas, não era raro Cassandra pensar nela como uma irmã mais nova. Saboreou o abraço, especialmente porque, caso não obtivesse meios para colocar a tia Sophie a salvo de Gerald, não haveria muitos mais.
É a minha melhor amiga, Emma, e que amiga excepcional. Entre as qualidades mais notáveis de Emma constavam a capacidade de discordar sem censurar e de aceitar as escolhas das amigas sem exigir explicações. Não faltaria por nada neste mundo. Pegou na bolsa dela, que tinha pousado em cima da cadeira. E agora, um pouco de cor nos lábios e nas maçãs do rosto. Sabe que não uso pinturas. É só um bocadinho, Emma. Só desta vez, para não ficar com esse ar de fantasma assustado. Emma fez uma careta quando se espreitou no espelho. Estou um bocadinho pálida, não estou? Pareço mesmo um bocadinho assustada? Um bocadinho, é dizer pouco. Além do mais, sem razão nenhuma. Não é que a espere um grande mistério quando forem para o quarto. Ele tem-se comportado como um cavalheiro, esta semana, e mantido as distâncias, para não se dar o caso de sair da sua cama directamente para a cerimónia? Emma corou. Como é que adivinhou? Ele tem-se comportado com toda a discrição. Que desconsolo que não deve ter sido! O rosto de Emma ficou escarlate. Olharam uma para a outra e desataram a rir-se. Deve ser para a deixar ansiosa pela primeira vez oficial, provocou Cassandra. Julgo que a presença das tias e da irmã lhe refreou os ânimos. Passou a ser o paradigma da virtude no dia em que elas chegaram. Isso é porque as tias são umas coscuvilheiras implacáveis. Provavelmente presumem que a única justificação possível para este casamento é a Emma estar grávida. Não me chocaria nada ficar a saber que se revezavam para montar vigilância, à noite, para o apanhar a esgueirar-se para o seu quarto. Hortense deve ter trazido um monóculo especificamente para esse propósito, gracejou Emma com um risinho. Na verdade, é mais provável que Darius não quisesse escandalizar Lydia. Cassandra aplicou um pouco de pintura e espalhou-a pela face de Emma até obter um blush ligeiro. O conde de Southwaite, com quem Emma, dentro de uma hora, estaria casada, tratava a irmã Lydia como uma colegial, embora esta tivesse vinte e dois anos. De forma a preservar a inocência dela, proibira-a de fazer amizade com Cassandra, uma das razões pelas quais esta não nutria particular apreço por ele. Atendendo ao preconceito com que Southwaite a considerava, não esperara receber um convite para o casamento. Era óbvio que Emma levara a melhor. Apesar dos defeitos que tinha, ele amava-a desmesuradamente. Restaria saber se daí a alguns meses continuaria a fazer a vontade à mulher, caso Cassandra ficasse em Inglaterra. Não acreditava que nem uma coisa nem outra viessem a verificar-se. Por esse facto, os preparativos que vivia com Emma tinham algo de enternecedor. Prontinha». In Madeline Hunter, O Desejo de Lady Cassandra, Edições ASA, 2013, ISBN 978-989-233-534-6.

Cortesia de EASA/JDACT

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

A Traição Veneziana. Steve Berry. «Nada disso parecia animador. Ele precisava sair. O fedor começou a lhe revirar o estômago. A máquina parou de perambular e ele ouviu um novo som»

Cortesia de wikipedia e jdact

«O cheiro fez Cotton Malone retomar a consciência. Pungente, acre, com um toque de enxofre. E mais alguma coisa. Doce e enjoativa. Como a morte. Abriu os olhos. Deitado de bruços no chão, braços estendidos, palmas sobre a madeira que, logo notou, estava grudenta. O que aconteceu? Comparecera ao encontro de Abril da Sociedade Dinamarquesa de Livreiros Antiquários a algumas quadras a oeste de sua livraria, perto da animação do Tivoli. Gostava das reuniões mensais e esta não tinha sido excepção. Alguns drinques, amigos e muita conversa sobre livros. No dia seguinte, concordara em encontrar Cassiopeia Vitt. Sua ligação no dia anterior, para combinar o encontro, o surpreendera. Não recebia notícias dela desde o Natal, que passara em Copenhague. Ele estava voltando para casa de bicicleta, apreciando a noite agradável de Primavera, quando decidira verificar o local de encontro pouco usual que ela havia escolhido, o museu de Cultura Grecoromana, preparar-se era um hábito de sua antiga profissão. Cassiopeia raramente fazia algo por impulso, então, um pouco de cuidado não era má ideia. Encontrara o local, que ficava de frente para o canal Frederiksholms, e notou uma porta entreaberta para o interior totalmente escuro do prédio, uma porta que normalmente deveria estar trancada e com alarme. Parou a bicicleta. O mínimo que poderia fazer era fechar a porta e ligar para a polícia quando chegasse em casa. Mas a última coisa de que se lembrava era de ter segurado a maçaneta. Agora estava dentro do museu. Na iluminação ambiente que era filtrada pelas duas janelas de vidro laminado, viu um espaço decorado no estilo típico dinamarquês: uma mistura reluzente de aço, madeira, vidro e alumínio. O lado direito de sua cabeça latejou, ele passou a mão num galo recente. Balançou a cabeça para desanuviar o cérebro e se levantou. Visitara o museu uma vez e não se impressionara com o acervo de artefactos gregos e romanos. A penas uma das cem ou mais colecções particulares de Copenhague, com temas tão variados quanto a população da cidade. Apoiou-se contra uma vitrine de vidro. As pontas dos dedos mais uma vez ficaram grudentas e malcheirosas, com o mesmo odor enjoativo.
Notou que a camisa e a calça estavam húmidas, assim como o cabelo, o rosto e os braços. O que quer que revestisse o interior do museu, cobria-o também. Cambaleou na direcção da entrada e tentou abrir a porta. Trancada. Fechadura de cilindro duplo. Seria necessária uma chave para abrir a porta por dentro. Olhou de novo para o interior. O tecto tinha vertiginosos 9 metros. Uma escadaria de madeira e cromo levava ao segundo andar, que se, dissolvia em mais escuridão, o piso térreo estendendo-se abaixo. Encontrou um interruptor. Nada. Cambaleou até um telefone sobre a mesa. Sem sinal. Um barulho interrompeu o silêncio. Cliques e chiados, como os de engrenagens operando. Vindos do segundo andar. O treinamento para agente do Departamento de Justiça o prevenia a manter o silêncio, mas também o impulsionava a investigar. Então, subiu a escada sem fazer barulho. O corrimão cromado estava húmido, assim como todos os espelhos laminados da escada. Quinze degraus acima, mais vitrines de vidro e metal cromado espalhavam-se pelo piso de madeira de lei. Relevos em mármore e estátuas de bronze incompletas em pedestais assomavam como fantasmas. Um movimento entrou em seu campo de visão a 5 metros de onde estava. Um objecto rolando pelo chão. Talvez 60 centímetros de largura, com as laterais arredondadas, de cor apagada, junto ao chão, como os cortadores de grama robóticos que vira num anúncio. Quando se deparava com uma vitrine ou estátua, parava, recuava, depois disparava em outra direcção. Um bocal saía da parte superior e, a intervalos de alguns segundos, disparava um esguicho de aerossol. Aproximou-se. Todo movimento parou. Como se a coisa sentisse sua presença. O bocal virou de frente para ele. Uma nuvem de gotículas encharcou sua calça. O que era aquilo? A máquina pareceu perder o interesse e correu para dentro da escuridão, expelindo mais névoa perfumada pelo caminho. Ele olhou para o térreo por cima do corrimão e avistou mais uma geringonça estacionada ao lado de uma vitrine. Nada disso parecia animador. Ele precisava sair. O fedor começou a lhe revirar o estômago. A máquina parou de perambular e ele ouviu um novo som. Dois anos atrás, antes do divórcio, da aposentadoria do governo e da mudança abrupta para Copenhague, quando morava em Atlanta, gastara algumas centenas de dólares numa grelha de aço inoxidável. Vinha com um botão vermelho que, quando accionado, lançava uma chama de gás. Lembrava-se do som que a ignição fazia cada vez que o botão era bombeado. O mesmo clique que ele acabara de ouvir naquele instante. Faíscas estouraram. O chão ganhou vida com a explosão, primeiro amarelo vibrante, depois laranja queimado, finalmente assentando no azul pálido à medida que as chamas eram expelidas, consumindo a madeira do piso. Ao mesmo tempo, labaredas subiram pelas paredes com um estrondo». In Steve Berry, A Traição Veneziana, 2009, Publicações dom Quixote, Livros d’Hoje, 2013, ISBN 978-972-203-860-7.

Cortesia dom Quixote/JDACT

Um estranho amor. Elena Ferrante. «Perdia a paciência. Voltava rapidamente ao meu italiano, e ela acomodava-se no seu dialecto. Agora que estava morta…»

jdact

«(…) Sabe onde há uma farmácia?, perguntei, mas sem sequer olhar para ele, empenhada como estava num rápido afastamento que poderia abolir o contacto. No Corso Garibaldi, respondeu-me enquanto restabelecia um mínimo de distância entre a massa compacta do seu corpo ossudo e eu. Naquele momento estava como que colado, com a sua camisa branca e o casaco escuro, à fachada do Albergo dei Poveri. Vi-o pálido, bem barbeado, sem espanto no olhar, que não me agradou. Agradeci quase com a ponta dos lábios e corri na direcção que me tinha indicado. Ele seguiu-me com a voz, que transformou de cortês num sibilar insistente e cada vez mais ordinário. Fui atingida por um jorro de obscenidades em dialecto, um mórbido regato de sons que envolveu num misto de sémen, saliva, fezes, urina, dentro de orifícios de todo o género, eu, as minhas irmãs, a minha mãe. Voltei-me de repente, tanto mais estupefacta quanto os insultos não tinham razão. Mas o homem já lá não estava. Talvez tivesse atravessado a rua e se tivesse perdido entre os automóveis, talvez tivesse virado a esquina para Sant’Antonio Abate. Lentamente, deixei que as batidas do coração se regularizassem e desaparecesse uma desagradável pulsão homicida. Entrei na farmácia, comprei uma embalagem de tampões e voltei ao bar.
Cheguei de táxi ao cemitério, mesmo a tempo de ver o caixão descer a um tanque de pedra cinzenta, que foi depois cheio de terra. As minhas irmãs foram-se embora logo a seguir ao enterro, de automóvel, com os respectivos maridos e filhos. Não viam a hora de voltar para casa e esquecer. Abraçámo-nos e prometemos voltar a ver-nos em breve, mas sabíamos que tal não sucederia. Trocaríamos no máximo alguns telefonemas para avaliar de vez em quando a crescente taxa de recíproco afastamento. Há anos que vivíamos as três em cidades diferentes, cada uma com a sua vida e um passado comum que não nos agradava. As raras vezes que nos víamos, preferíamos calar tudo aquilo que tínhamos a dizer umas às outras. Depois de ficar só, pensei que o tio Filippo me convidaria para sua casa, onde tinha estado hospedada nos dias anteriores. Mas não o fez. Tinha-lhe dito de manhã que precisava de ir a casa da minha mãe, tirar os poucos objectos de valor afectivo, cancelar o contrato do aluguer, da luz, do gás, do telefone, e ele provavelmente pensara que era inútil convidar-me. Afastou-se sem me cumprimentar, curvado, em passo arrastado, consumido pela arteriosclerose e por aquele imprevisto enfarte de velhos rancores que lhe faziam vomitar insultos fantasiosos.
Fiquei assim esquecida na estrada. A multidão dos parentes refluíra para a periferia de onde tinha vindo. A minha mãe fora enterrada por coveiros mal-educados no fundo de uma cave que cheirava mal, a cera e a flores murchas. Eu tinha dores de rins e cólicas no ventre. Decidi-me de má vontade: segui ao longo do muro quente do Orto Botanico até à Piazza Cavour, num ar que se tornava mais pesado devido aos gases dos automóveis e ao zumbido de sons dialectais que eu decifrava contra a vontade. Era a língua da minha mãe, que tentara inutilmente esquecer junto com tantas outras coisas suas. Quando nos víamos em minha casa, ou eu vinha a Nápoles para visitas rapidíssimas de meio dia, ela esforçava-se por usar um trabalhoso italiano, eu resvalava com aborrecimento, só para a ajudar, no dialecto. Não um dialecto alegre ou nostálgico: um dialecto sem naturalidade, usado imprecisamente, pronunciado de maneira forçada como uma língua estrangeira mal sabida. Nos sons que eu articulava pouco à vontade, havia o eco das disputas violentas entre Amalia e o meu pai, entre o meu pai e os parentes dela, entre ela e os parentes do meu pai. Perdia a paciência. Voltava rapidamente ao meu italiano, e ela acomodava-se no seu dialecto. Agora que estava morta e que teria podido apagá-lo para sempre, junto com a memória que veiculava, senti-lo nos meus ouvidos causava-me ansiedade. Usei-o para comprar uma pizza frita recheada de requeijão. Comi com prazer, depois de dias de quase jejum, em pé, deambulando por jardins desfigurados por miseráveis loendros e vagueando com o olhar por entre os numerosos velhos em grupos. O vaivém obsessivo de pessoas e automóveis por trás dos jardins decidiu-me a ir a casa da minha mãe. O apartamento de Amalia ficava situado no terceiro andar de um velho edifício coberto com tubos de andaimes Innocenti». In Elena Ferrante, Um Estranho Amor, 1995, Publicações dom Quixote, Lisboa, 2005, ISBN 972-202-879-0.

Cortesia de PdomQuixote/JDACT