sábado, 30 de abril de 2016

O Fio do Tempo. João Paulo O. Costa. «Ao ouvir tais palavras, o coração de Álvaro alvoroçou-se e o jovem escudeiro começou a tremer, e não conseguiu evitar que as lágrimas lhe corressem pela face. Não vos apiedeis de mim. Ganhei a minha honra, e morro na companhia de um bravo»

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O primeiro voo
«(…) Foi a vez de Jerónimo gerar novo entusiasmo entre os invasores. O fidalgo jurara que havia de cravar o seu punhal nas portas de Ceuta, naquela manhã, e entendeu que era tempo de cumprir a sua estorvada intenção. Gritando por Santiago, começou a correr; logo Álvaro o perseguiu de montante em riste, e toda a hoste, incluindo os infantes, avançaram à desfilada contra a cidade, apesar de as ordens d'el-rei se resumirem à obrigação de tomarem a praia. Volteando o seu montante, Álvaro quase atingiu Jerónimo, porém, o choque com os mouros foi terrível. Comprimido entre a pressão dos que defendiam e a dos que atacavam, Álvaro limitou-se a evitar a queda; ainda se desequilibrou, mas usou o montante como um bordão. Jerónimo afastara-se, adiando a morte que lhe estava marcada. O ímpeto brutal dos assaltantes surpreendeu os defensores; Álvaro e os seus companheiros, incluindo os infantes, entraram em Ceuta envoltos pelos mouros, e Jerónimo cravou o seu punhal na porta da cidade. Centos de portugueses avançaram até à primeira praça, onde os oficiais deram ordem de paragem. Parecia um sonho, haviam entrado na cidade ao primeiro assalto. Os infantes, acompanhados pelo meio-irmão, o conde de Barcelos, reorganizavam a hoste. Vamos limpar esta cidade dos infiéis, rua a rua, gritou o conde.
O monarca Duarte I coordenava as forças e dividiu-as em vários grupos; Álvaro conseguiu colocar-se a par de Jerónimo; estava prestes a cumprir a sua vingança. Seguindo Martim Afonso Melo, o guarda-mor d'el-rei, Álvaro e Jerónimo penetraram no dédalo da urbe africana. Ambos integraram a cabeça da coluna que investia sobre defensores desnorteados e habitantes desesperados. Excitado pelo combate, entusiasmado com a vitória extraordinária que se avizinhava, Álvaro ocupou-se da luta selvagem contra o inimigo. Os golpes certeiros causavam admiração entre os companheiros que o seguiam. De repente, porém, uma nuvem de virotes caiu sobre os assaltantes ao dobrar de uma esquina: um peão caiu, contorcendo-se com um ferro espetado na orelha e Jerónimo vacilou, pois um projéctil passara pelas juntas da armadura no seu joelho e destruíra-lhe a rótula. A turba prosseguiu, imparável, passando por cima do peão moribundo, quando saíram dois mouros de lança em riste por uma porta que não fora aberta pelos assaltantes. Álvaro, que se detivera ao aperceber-se do ferimento do seu rival, sentiu uma lança contra a sua couraça, que porém, resistiu. Tombou com o impacto, e um inimigo caiu sobre ele, contudo, a ferocidade do Ataíde eliminou-o num ápice; o outro atacava Jerónimo, que, aturdido pela dor no joelho, não se defendeu, sendo trespassado pela arma inimiga. O grito de triunfo que o mouro soltou foi interrompido pelo golpe que lhe deceptou a cabeça. Coberto do sangue das suas vítimas, Álvaro acercou-se do fidalgo moribundo. Jerónimo chamou o companheiro de armas com um fio de voz. Ajudai-me, cavaleiro. Sou um simples escudeiro, disse Á1varo, embaraçado. Sois um bravo. Andamos juntos há horas e bem vi as vossas proezas. Um esgar de dor interrompeu as suas palavras, mas depois prosseguiu: são feridas de morte. Peço-vos que solteis a minha couraça.
Os combates prosseguiam noutras ruas, todavia, ali, a luta havia cessado. Restavam feridos gemendo, e a primeira vaga da soldadesca iniciava o esbulho. Indiferente ao que o rodeava, Álvaro teve dificuldade em realizar a operação sem tocar na haste que atravessava o abdómen de Jerónimo. Parte dos intestinos estavam na ponta da lança e Álvaro não conseguiu evitar o vómito. Quando soltou a couraça, chocado, viu no peito suado de Jerónimo a imagem de Santa Catarina de Sena que ele oferecera a Filipa Andrade no dia em que a tomara para si, em Outubro do ano anterior. Tomai este fio, por favor. Foi-me dado pela mulher que amo. O fidalgo respirava com mais dificuldade e um fio de sangue escorria-lhe pelo canto da boca. Conhecia-a na corte vai para quatro meses. e levei-a comigo.
Ao ouvir tais palavras, o coração de Álvaro alvoroçou-se e o jovem escudeiro começou a tremer, e não conseguiu evitar que as lágrimas lhe corressem pela face. Não vos apiedeis de mim. Ganhei a minha honra, e morro na companhia de um bravo. A minha amada pediu-me que perfilhasse o filho que já levava no ventre, e eu acedi. Álvaro ouvia-o, petrificado. Suplico-vos que ides, no final desta santa jornada, a Sátão, e que entregueis esta imagem a Filipa Andrade. Peço-vos ainda que sejais testemunha da minha paternidade, quando nascer a criança. A voz sumia-se e o sangue recrescia. Álvaro tomou o fio nas suas mãos. Como vos chamais, nobre companheiro? Álvaro respondeu instintivamente, sem reflectir, e, na verdade, sem querer afligir o homem que ainda há pouco tentava matar: sou Álvaro Ataíde». In João Paulo O. Costa, O Fio do Tempo, 2009, Temas e Debates, Círculo de Leitores, 2011, ISBN 978-989-644-135-7.

Cortesia CL/TDebates/JDACT