domingo, 20 de março de 2016

Joana. A Louca. Linda Carlino. «Seria paciente, pois o seu tempo chegaria. Um dia seria rainha, e de um país muito mais poderoso que a França. Levou um momento a acalmar-se e depois levantou-se»

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«(…) Portanto, aquele era o senhor e amo, a pessoa que Filipe serviria até à morte na busca do seu bem e para lhe prevenir o mal. Era um homem de quarenta anos, balofo e, se não fossem as roupas ricas, seria confundido com um mercado, talvez até um negociante. O nariz e o queixo eram bolbosos e a boca grande, aquela boca enorme que a beijara, tinha lábios grossos. O cabelo era fraco, esparso e recusava-se a encaracolar-se como exigia a moda. Provavelmente, era necessário agradecer ou mesmo recompensar muitos pelos seus esforços em fazer com que aquele monte de carne parecesse um rei. Bem-vinda, bem-vinda, nobre princesa. Esperamos que façais deste palácio o vosso lar durante muitos dias. Joana pensou que preferia que tal não acontecesse, apesar de ter sido muito bem-recebida na casa do seu conterrâneo, o conde de Cabra, onde estava alojada. Queria prosseguir viagem. Sua Majestade, a minha querida esposa, providenciará muitas diversões. Infelizmente, eu e o arquiduque temos de nos ocupar com os sérios fardos do Estado, com algum tempo, é claro, para o desporto e o divertimento. E lançou sobre ela o seu sorriso gordo e desagradável. Mas tendes de conhecer a rainha e a nossa princesinha. Duquesa, escoltai a princesa Joana.
Sentiu-se invadida pela ira. Mais uma vez era afastada. Que Filipe continuasse a atrever-se a discutir o que quer que fosse sem ela era ridículo. Com o olhar desafiou Filipe, mas este desviou o seu. Uma mão firme, a da duquesa, agarrou-a pelo cotovelo, dizendo-lhe que fora dispensada. Joana soltou-se, levando deliberadamente o seu tempo a fazer a vénia, antes de a seguir. Não se deixaria apressar! As paredes dos aposentos da rainha estavam cobertas com tecido de damasco branco e dourado. Havia pesados cortinados vermelhos e as cadeiras e bancos ostentavam almofadas de veludo verde. Ana da Bretanha, rainha de França, estava sentada na cadeira de Estado sob um dossel de veludo vermelho; as aias agrupavam-se de ambos os lados do trono. A cena fora preparada meticulosamente para fazer com que a visitante se sentisse rebaixada. Todavia, Joana tinha uma missão. A Espanha dependia dela. Avançou até ao estrado para fazer a mesma, como era exigido pelo protocolo, quando a mão da duquesa reapareceu, desta vez agarrando-a pelo antebraço e obrigando-a a ajoelhar-se, recordando-lhe que não passava da mulher de um vassalo. Joana respirou pausadamente. Seria paciente, pois o seu tempo chegaria. Um dia seria rainha, e de um país muito mais poderoso que a França. Levou um momento a acalmar-se e depois levantou-se. Não ia ser uma visita fácil. Como iria sobreviver aos próximos dias, ou sabia-se lá quanto tempo o marido ia decidir ficar ali? Iria sofrer a tormenta constante de suspeitar que Luís conspirava contra Espanha e que Filipe se mostraria ansioso por servir o amo, como um vulgar cão fiel. Entretanto, ela partilharia a companhia de damas que seriam profundamente entediantes ou buscariam as atenções do seu marido. Não iria sentir-se feliz. Levou involuntariamente a mão à testa.
Senhoras! A rainha bateu palmas. Antes que seja demasiado tarde, temos de trazer a nossa querida princesa Cláudia para conhecer a sua sogra. Joana enterrou as unhas nas palmas das mãos e forçou um sorriso. Trouxeram-lhe a criança, uma trouxa minúscula de saias de seda branca, cheias de fitas e laços, num esplendor de folhos e bordados, enfeitadas com amuletos. Aquela criaturinha era a causa da enorme disputa entre a Espanha, a Flandres e a Áustria. Aquela coisinha minúscula a seus pés, que fora prometida em contrato de casamento ao seu filho Carlos, dera origem a uma tremenda discussão entre ela e Filipe. Ao baixar o olhar sobre a inocente, incapaz de sentir por ela qualquer afeição, a criança lançou um grande uivo e começou a gritar e a berrar, escondendo o rostinho vermelho entre as saias da ama. Isto é muito inquietante. A princesa Cláudia nunca se portou assim. A rainha Ana, irada pelo facto de o seu momento de glória ter sido tão breve, apressou-se a mandar retirar a filha. A sua princesinha de exposição, destinada a tanta opulência e chave de grandes riquezas para a França, ficara reduzida a uma boca balbuciante, um nariz ranhoso e um rosto molhado. Joana ergueu as mãos, pedindo perdão pela infanta: não vos preocupeis, Senhora. Eu também tenho três filhos e compreendo muito bem estas coisas. Mas vejo que estais indisposta. Com a vossa permissão, retiro-me. E, sem esperar resposta, fez uma vénia e saiu da sala, agradecendo a Cláudia o ataque de choro imprevisto. Por momentos, chegou a gostar dela». In Linda Carlino, That Other Joana, 2007, Joana, a Louca, Editorial Presença, Lisboa, 2009, tradução de Isabel Nunes, ISBN 978-972-23-4231-5.

Cortesia de EPresença/JDACT