segunda-feira, 30 de novembro de 2015

A Mensagem dos Construtores de Catedrais. Christian Jacq. «A “cultura”, no sentido moderno da expressão, não lhe interessava. Saber para poder brilhar num salão mundano não era o objectivo dos estudiosos da Idade Média. Se os conhecimentos simbólicos dos Mestres de Obras»

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Do Tempo das Pirâmides ao Tempo das Catedrais. Viagens ou Comunhão de Espírito?
«(…) Não teria o próprio selo do Prestes João um profundo significado simbólico? Nele podia ver-se a mão de Deus rodeada pelo círculo das estrelas. Não seria isso um convite à viagem ao cosmos interior à busca de uma acção fundada sobre um modelo divino? Oriente geográfico, oriente do símbolo: o espírito da Idade Média não se deixava atrapalhar por demasiadas precisões. A geografia que contava era a da alma. Terras míticas, povos extraordinários que incarnavam virtudes ou vícios, animais fabulosos, tudo era descrito de forma a servir de suporte a uma meditação. Nos seus périplos longínquos, viajantes como Odoric e Porderone ou Jean Mandeville redescobriam a experiência vivida pelos grandes sábios, como Pitágoras ou Platão, que tinham partido em busca dos segredos da iniciação. Os caminhos do corpo eram menos importantes que os do espírito.

Despojar os egípcios dos seus tesouros
Só conseguiremos passar das trevas da ignorância à luz da ciência, afirmava Pierre Blois, se relermos com um amor redobrado as obras dos Antigos. Os cães podem ladrar e grunhir os porcos que não serei por isso menos defensor dos Antigos. Para eles serão todos os meus cuidados, e a alba todos os dias me há-de encontrar ocupado em estudá-los. Entre os Antigos que a Idade Média tanto apreciava, estavam Aristóteles, Platão, os escritos herméticos, Virgílio e tantos outros. A Idade Média estava bem consciente da sua herança. A cultura, no sentido moderno da expressão, não lhe interessava. Saber para poder brilhar num salão mundano não era o objectivo dos estudiosos da Idade Média. Se os conhecimentos simbólicos dos Mestres de Obras eram imensos, se os monges construtores estudavam em profundidade as tradições sagradas, isso acontecia por uma razão precisa, que Bernard Chartres explica de uma forma tão poética como clara. Somos, dizia ele, anões aos ombros de gigantes. Vemos mais e mais longe que eles, não porque a nossa vista seja mais aguda ou a nossa altura superior à sua mas porque eles nos suportam e nos elevam à sua altura gigantesca.


Os Egípcios estão em toda a parte
Foi o escritor Grégoire Tours quem utilizou o termo vago de sírios, para designar os numerosos orientais que se tinham instalado nas cidades francesas. Em 394, as Actas do Concílio de Nimes faziam referência a aqueles que, em grande número, vieram dos lugares mais recônditos do Oriente. No século VI, estes sírios constituíam uma minoria bem implantada, por exemplo em Paris ou Orleães. Os sírios estão em toda a parte!, exclamava já São Jerónimo, que morreu em 420. Perdoe-se-nos termos alterado as palavras do santo quando escrevemos egípcios, em vez de sírios, tendo em conta os diferentes pontos que iremos referir a seguir». In Christian Jacq, Le Message des Constructeurs de Cathédrales, Éditions du Rocher, 1980, A Mensagens dos Construtores de Catedrais, Instituto Piaget, Romance e Memória, Lisboa, 1999, ISBN 972-771-129-4.

Cortesia  de IPiaget/JDACT

domingo, 29 de novembro de 2015

Fogos. 1935. Prosas Líricas. Marguerite Yourcenar. «Apenas Patroclo resistia ao encanto, rompia-o como uma espada nua. Um grito de admiração de Deidamia designou-o à atenção de Aquiles que mergulhou contra essa espada brilhante…»

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«Solidão... Não creio como os outros crêem, não vivo como os outros vivem, não amo como os outros amam... Mas morrerei como todos morrem». In Marguerite Yourcenar

«(…) O abrigo feminino onde a sua mãe o fechava transformava-se, para aquele emboscado, numa sublime aventura; tratava-se de entrar, debaixo da protecção de um corpete ou de um vestido, nesse vasto continente inexplorado das mulheres, onde o homem não penetrou até agora senão como vencedor, à luz dos incêndios do amor. Trânsfuga do campo dos machos, Aquiles vinha arriscar aqui a oportunidade única de ser algo mais que ele próprio. Para os escravos, pertencia à raça assexuada dos amos; o pai de Deidamia levava a aberração até amar nele a virgem que ele não era; apenas as duas primas se recusavam a acreditar naquela rapariga demasiado parecida com a imagem ideal que um homem faz das mulheres. Aquele rapaz ignorante das realidades do amor começava no leito de Deidamia a aprendizagem das lutas, das agonias, dos subterfúgios; o seu desfalecimento sobre aquela tenra vítima servia de substituto a uma alegria mais terrível que ele não sabia onde ir buscar, de que ignorava o nome, e que não era senão a Morte. O amor de Deidamia, os ciúmes de Misandre, voltavam a fazer dele o duro contrário de uma rapariga. As paixões ondulavam na torre como écharpes atormentadas pela brisa: Aquiles e Deidamia odiavam-se como aqueles que se amam; Misandre e Aquiles amavam-se como aqueles que se odeiam. Essa inimiga musculada tornava-se para Aquiles no equivalente de um irmão; esse rival delicioso enternecia Misandre como uma espécie de irmã. Cada onda que passava sobre a ilha trazia mensagens: cadáveres gregos, arrastados para o mar alto por ventos inauditos, eram outras tantas embarcações da armada naufragada, por falta de socorro de Aquiles; projectores buscavam-no no céu sob um disfarce de astro.
A glória, a guerra, vagamente entrevistas nas brumas do futuro, faziam-lhe o efeito de amantes exigentes cuja posse o obrigaria a demasiados crimes: ele pensava escapar do fundo dessa prisão de mulheres por solicitação das suas vítimas futuras. Uma grande barca de reis deteve-se aos pés do farol extinto que não era senão mais um escolho: Ulisses, Patroclo, Tersites, advertidos por uma carta anónima, tinham anunciado a sua visita às princesas; Misandre, repentinamente complacente, ajudava Deidamia a pôr ganchos na cabeleira de Aquiles. As suas grandes mãos tremiam como se tivesse acabado de deixar fugir um segredo. As portas abertas de par em par deixaram entrar a noite, os reis, o vento, o céu cheio de sinais. Tersites soprava, fatigado pelas escadas de mil degraus, esfregando entre as mãos os joelhos pontiagudos de enfermo: tinha o ar de um rei que por avareza se tivesse tornado no seu próprio truão. Patroclo, hesitando diante desse furão escondido no interior das Damas, estendia ao acaso as mãos com luvas de ferro.
A cabeça de Ulisses fazia pensar numa moeda usada, gasta, enferrujada, onde se viam ainda os traços do rei de Ítaca: a mão em pala sobre os olhos, como no cimo de um mastro, examinava as princesas encostadas à parede como uma tripla estátua de mulher; e os cabelos curtos de Misandre, as suas grandes mãos que sacudiam as dos chefes, o seu à-vontade, fizeram-no tomá-la primeiro como o esconderijo de um macho. Os marinheiros da escolta abriam as caixas, desembalavam, misturadas com os espelhos, as jóias, os estojos de esmalte, as armas que Aquiles por certo se apressaria a brandir. Mas os cascos manuseados pelas seis mãos maquilhadas lembravam aqueles de que se serviam os cabeleireiros; os cinturões amolecidos transformavam-se em cintos; nos braços de Deidamia, um escudo redondo parecia um berço. Como se o disfarce fosse uma má sorte a que ninguém escapava na ilha, o ouro transformava-se em vermelho, os marinheiros em travestis, e os dois reis em vendedores ambulantes. Apenas Patroclo resistia ao encanto, rompia-o como uma espada nua. Um grito de admiração de Deidamia designou-o à atenção de Aquiles que mergulhou contra essa espada brilhante, tomou entre as mãos a dura cabeça ciselada, como o punho de um gládio, sem se aperceber que os seus véus, as suas pulseiras, os seus anéis, faziam do seu gesto um transporte de apaixonada. A lealdade, a amizade, o heroísmo deixavam de ser palavras que serviam para os hipócritas mascararem as suas almas; a lealdade, eram esses olhos que se tinham mantido límpidos diante daquele amontoado de mentiras; a amizade seria os seus corações; a glória o seu duplo futuro». In Marguerite Yourcenar, Feux, 1935, Éditions Galimard, 1974, Difel, Lisboa, 1995, ISBN 972-29-0315-2.

Cortesia Difel/JDACT

sábado, 28 de novembro de 2015

Inês de Castro. Da Tragédia ao Melodrama. Nair de Nazaré Soares. «Senhor, que estás nos Ceos e vês as almas, que cuidam, que propõem, que determinam, alumia minha alma, não se cegue no perigo em que está. Não sei que siga. Entre medo e conselho fico agora: Matar injustamente é grã crueza…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Inês de Castro: da tragédia ao melodrama
«(…) Notável é a dinâmica discursiva que o poeta imprime a este primeiro confronto entre o rei e os conselheiros que o IV acto prolonga e agudiza. Termina a cena com o recrudescimento da acção, provocado pela indecisão régia que, verdadeira analepse, conduzirá à morte de dona Inês: I-vos aparelhar, que em vós me salvo. A cena II é composta por um monólogo do rei, introduzido por uma invocação a Deus, bem ao gosto dos autores da literatura de Quinhentos:

Senhor, que estás nos Ceos e vês as almas,
que cuidam, que propõem, que determinam,
alumia minha alma, não se cegue
no perigo em que está. Não sei que siga.
Entre medo e conselho fico agora:
Matar injustamente é grã crueza,
Socorrer a mal publico é piedade.
Dua parte receo, mas doutra ouso…

E logo se seguem, neste monólogo do rei, reflexões que o coro, no final do acto, prolonga, à maneira senequiana, tema coral predilecto de Séneca, colhido nos poetas clássicos, designadamente Horácio e Virgílio, e que ecoam, num entretecido de reminiscências clássicas, o famoso O fortunatos nimium si bona norint/agricolas das Geórgicas do Mantuano:

Ó vida felicíssima a que vive
o pobre lavrador só no seu campo,
seguro da fortuna e descanso,
livre destes desastres que cá reinam!
Ninguém menos é rei que quem tem reino.
Ah, que não é isto estado, é cativeiro,
De muitos desejado, mas mal crido…

É este monólogo um dos trechos mais inspirados da Castro, pois combina a expressão lírica adequada à vivência individual de um rei, sobrecarregado com os deveres de ofício, com elementos que são referentes ideológicos e culturais da mentalidade de então: o encarecimento da aurea mediocritas, a denúncia dos vícios da uita aulica, o socratismo cristão que os versos finais traduzem:

...e me livra algum tempo, antes que moura,
de tanta obrigação pera que possa
conhecer-me melhor e a ti voar.

O acto II é o único em que, antes do êxodo, o Coro se não pronuncia no decurso da acção, mas tem dela um perfeito conhecimento e adquire saber político para entoar o canticum final. O Coro I, em estrofe sáfica, esquema métrico usado por Teive, na Ioannes princeps, considerada fonte da Castro, versa o tema dos trabalhos do rei, das responsabilidades do poder. O Coro II, numa sequência de versos de seis sílabas, retoma o tema da aurea mediocritas, canta a felicidade dos pequenos do mundo. O Acto III, em absoluto contraste com o locus amoenus, com a uisio poética do acto I, apresenta-nos a protagonista num cenário de pesadelo, o locus horrendus.

Nunca mais tarde pera mim que agora
amanheceu. O sol claro e fermoso,
como alegras os olhos, que esta noite
cuidaram não te ver! Ó noite triste
Ó noite escura, quão comprida foste...

Envolta agora numa atmosfera de tensão e de presságio, conta à ama o sonho triste, cheio de elementos simbólicos do ponto de vista poético e dramático. A própria paisagem se torna reveladora da mudança da fortuna, numa espécie de conivência entre a natureza e a fatalidade. Entre a esperança e o medo, spes et metus, dois elementos que, segundo a retórica, preparam o pathos, se confessa a Castro: Porque temo perder o bem que espero. A terminar esta cena inicial do acto III, Ferreira deixa no ar uma nota lírica de esperança, trazida pelas palavras da Ama, que são um convite à alegria e à confiança. Surge de novo o locus amoenus, onde Inês deveria desfrutar de todos os bens e gozar feliz os seus dias:

Ah, não te agoures mal, que melhor fado
o teu será, senhora! Quem tristeza
de sua vontade chama, mal a pode
lançar de si, que às vezes n’ alegria
entra tão furiosa que a destrui.

Mas esta abertura, esta clareira momentânea de novo se fecha, para ser ainda maior o efeito trágico da notícia da morte iminente da heroína, na cena seguinte. O dramaturgo quis assim, neste acto, criar e enriquecer a peripécia, ao fazer evoluir aceleradamente a acção para uma situação de infelicidade ou vice-versa, segundo os preceitos de Aristóteles». In Nair Nazaré Castro Soares, Inês de Castro, Da Tragédia ao Melodrama, Universidade de Coimbra, As Artes de Prometeu, homenagem a Ana Paula Quintela, Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 2009, ISBN 978-972-8932-42-8.

Cortesia da FLUPorto/JDACT

Um Jovem Poeta na Tessália. A Pítica X de Píndaro. Luísa Nazaré Ferreira. «Feliz Lacedemónia bem-aventurada Tessália! Reina sobre ambas a raça de um só pai, a raça de Héracles, o melhor no combate. Será esta exaltação inoportuna? Mas Pito e Pelineu chamam-me…»

Cortesia de wikipedia

Resumo
«Propõe-se neste artigo uma análise, seguida de tradução, da Pítica X, que é supostamente o epinício mais antigo do corpus de Píndaro. Pretende-se mostrar, principalmente, que esta ode de vitória, embora possa ter sido elaborada na juventude do poeta, exibe já as características formais e temáticas que distinguem a arte de compor do maior lírico grego».

«Um dos aspectos que caracterizam a actuação dos poetas gregos da Época Arcaica, em especial dos cultores de lírica coral, é a mobilidade, motivada principalmente pela participação nos numerosos festivais organizados por toda a Grécia e pelos muitos convites que recebiam dos patronos. Estes eram geralmente figuras políticas, elementos da aristocracia ou tiranos, como Periandro de Corinto, Polícrates de Samos, os Pisístratos de Atenas, os chefes da Tessália e os tiranos da Magna Grécia. Sobre esta questão, a Pítica X de Píndaro, que contém muitos outros pontos de interesse, constitui um excelente testemunho. Foi composta em honra de Hipócleas, jovem da aristocracia tessália, vencedor na corrida de duplo estádio na categoria de rapazes, no ano de 498 a.C., de acordo com a notícia dos escólios. A ser correcta esta informação, trata-se da ode mais antiga do corpus de Píndaro, que teria então cerca de vinte anos. Notável é também o facto de ter sido encomendada por Tórax, chefe de uma das famílias reais mais importantes da Tessália, os Alévadas da cidade de Larissa, que mais tarde combateriam ao lado de Mardónio na campanha de Plateias. Talvez esta opção política e militar explique por que razão não nos chegaram mais composições de Píndaro dedicadas a Tessálios, que acolheram outros poetas célebres, possivelmente Anacreonte de Teos, e decerto Simónides de Ceos, bem como o seu sobrinho Baquílides, sobretudo no período compreendido entre a expulsão de Hípias de Atenas, em 510 a.C., e o início das lutas contra os Persas em 490 a.C. Em 498 a.C., Simónides teria provavelmente mais de cinquenta anos. A Pítica X testemunha que o lírico de Tebas, com apenas vinte anos, era já suficientemente conhecido para despertar a atenção dos ricos e poderosos monarcas da Tessália.
A presente ode pode ter sido até um dos primeiros epinícios que Píndaro compôs a pedido de uma figura proeminente, pois quando o poeta elogia, na última antístrofe, a hospitalidade de Tórax, agradece também, em termos metafóricos, o incentivo que recebeu para elaborar o canto de vitória:

Tenho confiança na hospitalidade aprazível
de Tórax, aquele que zelando pela minha arte
atrelou esta quadriga das Piérides,
amando quem o ama, guiando quem de bom grado o guia.

Embora nem todos os estudiosos concordem com esta interpretação, julgamos que a metáfora quadriga das Piérides, inspirada no imaginário do atletismo, se refere às quatro tríades que compõem o canto de homenagem a Hipócleas. Ao contrário do que poderíamos pensar, se a juventude do poeta transparece, de facto, nalguns passos, designadamente no tratamento menos elaborado das reflexões morais e na construção da secção mitológica, e sobretudo no modo vivo como é exaltado o ideário aristocrático, no seu conjunto este epinício é tão extraordinário e singular como as obras da maturidade. De facto, já estão aqui presentes muitos dos traços formais e temáticos que distinguem o modo de compor de Píndaro. Um dos que nos parece mais interessante é o recurso a uma metáfora, neste caso a metáfora da viagem, que percorre toda a arquitectura da ode e estabelece a ligação entre os diversos elementos, ou seja, as referências ao destinatário, as reflexões morais e religiosas, as considerações sobre a arte do poeta e o mito. A este recurso alia-se um outro artifício expressivo, que seria retomado noutras odes com grande elaboração, como na Nemeia III. Trata-se da estratégia ficcional através da qual se anuncia o epinício como uma obra ainda em construção e que está presente neste epinício desde os primeiros versos:

Feliz Lacedemónia
bem-aventurada Tessália! Reina sobre ambas a raça de um só pai,
a raça de Héracles, o melhor no combate.
Será esta exaltação inoportuna? Mas Pito
e Pelineu chamam-me,
e os filhos de Alevas, que a Hipócleas desejam
levar o canto celebrativo e honroso dos homens.

O canto de vitória inicia-se em tom solene e exaltado, destacando-se, além da interrogação retórica, que chama a atenção para o modo enfático como o poeta toma a palavra, a escolha dos epítetos: chamar olbia, feliz, à Lacedemónia, e makaira, bem-aventurada, à Tessália, é aproximar estas terras do domínio do divino, ideia que se concretiza no momento seguinte, quando se evoca a ligação mítica que as unia, a figura de Héracles, que os Alévadas consideravam seu antepassado. Todavia, numa ode em que os valores aristocráticos estão muito presentes, a menção da Lacedemónia não pode ser alheia às afinidades políticas que aproximavam as duas regiões gregas». In Luísa Nazaré Ferreira, Um Jovem Poeta na Tessália, A Pítica X de Píndaro, Revista Humanitas, nº 63, Universidade de Coimbra, 2011.

Cortesia UCoimbra/RHumanitas/JDACT

Espelhos. Cartas e Guias Casamento. Espiritualidade na Península Ibérica. 1450-1700. Maria de Lurdes C. Fernandes. «… não apenas na linha desses aspectos fulcrais, mas em outros que tiveram desenvolvimentos posteriores e determinaram mesmo muitas das perspectivas sobre o casamento durante os séculos XVI e XVII»

Cortesia de wikipedia e jdact

Virgindade e casamento. Status religiosorum e status laicorum nos fins da Idade Média e primeira metade do século XVI
«(…) As frequentes reprovações e críticas, ainda durante o Outono da Idade Média, ao casamento e à vida matrimonial, olhados quase sempre do ponto de vista do modelo monástico de perfeição espiritual, logo, enquanto estados de vida não perfeitos, nos quais a aspiração à vida espiritual e à salvação da alma era olhada, por alguns, de um modo muito céptico, deverão ser compreendidas num contexto mais vasto de polémicas variadas, tanto de ordem religiosa ou literária, como de confronto de grupos sociais, em particular da aristocracia e do clero. Por outro lado, sendo tão frequentes quão pouco correctas algumas generalizações sobre o celibato e a condenação, num sentido vago, do casamento, convirá ter em conta, senão mesmo realçar, muitos matizes e perspectivas diferenciadas que, por toda a Europa cristã e, naturalmente, na Península Ibérica, se apresentam fundamentais para uma aproximação mais cautelosa ao problema, especialmente se se atender à origem social ou à proveniência cultural dessas críticas. Naturalmente, e antes de mais, não se poderão perder de vista tanto a importância e as repercussões, a diferentes níveis, da formação da doutrina clássica do casamento nos séculos XII e XIII como a momentânea ou demorada predominância doutrinária de um ou outro padre da Igreja, e, dentro desta, de uma ou outra obra, de um ou outro teólogo ou doutor, bem como a maior ou menor circulação dos textos, e qual o seu género literário, uma vez que poderão, todos ou cada um deles, determinar a focalização adoptada. Mesmo sem esquecer a omnipresença, por demais conhecida, da visão e dos conselhos paulinos em matéria matrimonial ao longo dos séculos e nos mais variados autores, lembremos a influência duradoira, cujos traços principais permanecerão, como veremos, em muitos textos até ao século XVII, de S. Jerónimo em relação à condição dos casados e, consequentemente, ao casamento, às suas cargas e, em especial, às segundas núpcias, bem como, por outro lado e numa perspectiva ligeiramente diferente deste, a de Santo Agostinho em relação aos problemas sexuais e aos fins do casamento. Mas, apesar da manifesta superioridade de ocorrências textuais destes padres, sobretudo na sua qualidade de autoridades, em muitos textos de finais da Idade Média, outros teólogos e doutores exerceram uma influência mais ou menos constante, não apenas na linha desses aspectos fulcrais, mas em outros que tiveram desenvolvimentos posteriores e determinaram mesmo muitas das perspectivas sobre o casamento durante os séculos XVI e XVII.
Assim se continuaram a ser evocadas autoridades tão díspares como Clemente Alexandria e Orígenes, Tertuliano, S. Cipriano e S. Ambrósio, que haviam expressado interpretações várias e, principalmente, exigentes do texto bíblico em relação ao casamento, a estes recorreu S. Jerónimo em apoio da sua defesa da superioridade da virgindade, também são visíveis as influências de S. João Crisóstomo e, muito mais tarde, de Santo Anselmo, S. Bernardo e S. Boaventura, que, com frequência, se mostrariam determinantes numa visão mais favorável do casamento, especialmente pelos matizes da interpretação e da orientação da doutrina e da moral matrimoniais. Mas não esqueçamos, por outro lado, o peso canónico duradoiro, sobretudo a partir da época carolíngia, de diversos teólogos e, em particular, de canonistas, entre eles Richard Worms e seus comentadores, Pedro Lombardo e Graciano, bem como de S. Tomás de Aquino, que, privilegiando a dimensão canónica da instituição matrimonial, contribuíram decisivamente não só para a formação da doutrina clássica do casamento cristão, mas também para as futuras orientações da moral conjugal (nomeadamente no plano sexual) e das imagens do casamento cristão. Obviamente, não podemos esquecer que muitos destes autores se basearam grandemente não só na matriz neo-testamentária, especialmente nas epístolas paulinas, mas também em muitos dos pontos de vista de autores clássicos gregos e latinos que, em muitos casos, os influenciaram definitivamente». In Maria de Lurdes Correia Fernandes, Espelhos, Cartas e Guias Casamento. Espiritualidade na Península Ibérica 1450-1700, Instituto de Cultura Portuguesa, Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 1995, Porto, ISBN: 972-9350-17-5.

Cortesia de ICP/FLFP/JDACT

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Enigma dos Manuscritos do Mar Morto. Qumrân. Eliette Abécassis. «Ou então os que ali estavam não o disseram. Ou então, a noite do seu enterro foi simplesmente como o dia: o céu não estava nem mais claro nem mais escuro; nenhuma luz o iluminava, como um sinal prodigioso»

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«(…) O aeroporto de Ben-Gu-ri-on estava repleto de hassidim de todos os países que tinham tomado o avião precipitadamente, de Nova lorque, Paris ou Londres. Quando os discípulos saíram da casa, foram assaltados pelos que queriam aproximar-se do rabi uma última vez. Iniciaram a procissão em direcção ao cemitério, seguidos por uma multidão negra e recolhida, como uma gigantesca viúva de cabeça coberta e véu, percorrida de soluços. Em seguida o cortejo iniciou a ascensão para o cemitério de Jerusalém, empoleirado no monte das Oliveiras. Lentamente, silenciosamente, transportaram-no até à pedra que indicava o lugar onde desde há trezentos anos repousavam os anteriores rabinos da mesma linhagem. Aí enterraram o seu corpo nu, envolto num sudário. Os três secretários do rabi pronunciaram o Kadish. Todos recitaram as orações da praxe. Depois, o discípulo favorito do rabi, aquele que ele amava entre todos, tomou a palavra e exprimiu-se assim: irmãos e irmãs!, disse ele. Jerusalém, a porta dos povos, foi destruída hoje, as suas muralhas foram derrubadas e as torres demolidas, o pó raspado: e eis que se assemelha a uma pedra seca. O rabi, nosso mestre, já não está connosco como dantes. Somos órfãos nesta terra, as nossas moradas estão desoladas, a nossa alma abatida, as lágrimas são o nosso pão, consomem-se-nos os olhos e secam-se-nos as gargantas. Mas o povo que avança nas trevas em breve verá uma grande luz, Olhem à vossa volta! A cavalaria de Deus conta-se aos vinte mil, às dezenas de milhar. Por todo o lado, as pessoas preparam-se; cada um segundo o seu ritmo e as suas crenças, mas todos se armam e unem nas grandes colmeias dos novos tempos. À nossa volta, o mundo desintegra-se no caos. Os nossos bairros são armaduras que nos protegem contra as torpezas sem conta das cidades tentaculares, Sodoma e Gomorra de rostos de aço e Plexiglas. Fechamos os olhos à depravação, ao estupro e à luxúria, às dinastias malditas de homens destroçados, animais descarnados que uivam ao luar, vagueiam pelas ruas desertas e, de olho exorbitado e cabelo comprido, colado à nuca mole, matam sem razão a presa fácil, a criança indefesa e a mulher só. Fora das nossas casas, a doença propaga-se e invade todos os continentes. Como uma nova lepra, isola os homens uns dos outros e fecha os doentes nos hospitais, últimos templos mortuários onde, mais do que a cura, contra a Redenção, longe da Ressurreição, se oficia a espera do fim, profética, irrevogavelmente anunciada pelos padres de bata branca. Em volta, a terra maldita, lixeira nauseabunda, devastada pela técnica e os seus resíduos, ressequida, queimada pelo sol, invadida pelo deserto, desertada pelas águas, a terra vomita e cospe, em convulsões doentias, os ossos enterrados à toa e o sangue ainda fresco da última guerra, massacre ou genocídio. Não vêem? O fumo sobe, a flor cai, a erva seca. Em breve, esta terra será o reino do mocho e do ouriço, da coruja e do corvo, Meus irmãos, estamos num tempo outro, estamos no fim do tempo.
O dia fala ao outro dia, a noite murmura à madrugada, as gotas de orvalho fremem ao vento novo e trazem a notícia: eis o rabi, eis o Messias que acorda do seu sono secular e se levanta, e ressuscita os mortos para salvar o mundo, E já se prepara para afinar e purificar a prata. E já se aproxima de nós para nos julgar. Eis que chega o dia, ardente como uma fornalha, e todos os orgulhosos e todos os que praticam o mal serão como o restolho, e esse dia que chega incendiá-los-á com o seu fogo inextinguível. E sobre aqueles que temem o seu nome, levantar-se-á o sol da justiça, e os seus olhos vê-lo-ão e dirão: o Eterno foi glorificado. E os que não vêem serão demolidos pela imensa vingança do Eterno, e assim o seu nome será glorificado. Então os parentes do rabi saíram do cemitério a fim de darem lugar as miríades de fiéis que esperavam à porta e que aí se sucederam até, muito tarde na noite sem sombra, nessa noite escura como todas as outras noites. Talvez ele tivesse que escapulir-se da sepultura para subir aos céus, mas ninguém viu tal. Ou então os que ali estavam não o disseram. Ou então, a noite do seu enterro foi simplesmente como o dia: o céu não estava nem mais claro nem mais escuro; nenhuma luz o iluminava, como um sinal prodigioso. A lua, escondida por um nevoeiro espesso, não estava cheia nem vermelha. Umas nuvens acinzentadas, ligeiramente mais brancas pelo fundo negro, anunciavam uma chuva fina ou de pedra, que nunca chegou a vir refrescar a paisagem abafada e terrosa. Os céus não se desvaneceram como o fumo nem se enrolaram como um documento. A terra não se estilhaçou, não vacilou como um homem ébrio, nem abanou como uma cabana. O mar não estava agitado, e as ondas calmas não atiraram lodo nem espuma. As montanhas não desabaram nem fundiram sob o fogo. O Saron não era um deserto como a Arava, Basan e o Carmelo não estavam pelados. Nem novos céus, nem terra nova, reino algum: a terra aqui em baixo, nada. Quem se fechara, cativo nas grutas, quem se escondera aí durante quarenta dias para ler o documento selado? A jarra do oleiro não se quebrara em mil cacos, e os fragmentos não serviam para trazer o lume da lareira ou tirar água do charco. A jarra do oleiro estava cheia. Continha mil tesouros divinos e as escavações abundavam em cacos». In Eliette Abécassis, Qumrân, O Enigma dos Manuscritos do Mar Morto, 1996, tradução de Lúcia Muccznik, Edições Sicidea, colecção Enigmas da História, Espanha, 2006, ISBN 978-84-611-4996-4.

Cortesia de Sicidea/JDACT

Os Filipes. António Borges Coelho. «Prenderam a saboeira e condenaram-na à morte. A defesa alegou que Beatriz Gonçalves era mãe dum filho de António e, neste caso, podia esconder e embarcar o régio amante»

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Quem vos venceu
«(…) Aveiro fechou as portas ao rei António I mas, a 10 de Setembro, as suas tropas entraram na vila e saquearam-na. Quando chegou a Santarém a notícia da conquista de Aveiro e da aclamação de António em várias terras da Beira e do Norte, o povo revoltou-se e o duque de Alba teve de enviar duzentos soldados para acalmar a vila. E em Lisboa, no dia 5 de Outubro, mais de trinta homens armados correram as ruas gritando: Viva el-rei D. António. O Porto mudara para Filipe em 4 de Setembro. António avançou para a cidade com os seus 10 000 homens, em boa parte armados com paus e foices, e também com alguns portugueses que tinham chegado na armada da Índia. À aproximação do exército nacional e perante a agitação interna do povo miúdo, a cidade mudou outra vez de campo. Expropriaram-se os bens dos filipistas e obrigaram os mais ricos a pagar 100 000 cruzados. O bispo do Porto e o arcebispo de Braga, frei Bartolomeu dos Mártires, refugiaram-se na Galiza e Braga aclamou António. Em Lisboa, o duque de Alba mandou fortificar o castelo, guarneceu-o de soldados castelhanos e de artilharia e mudou para lá a residência. Agora, dominada a cidade, era preciso fazer jurar o rei Filipe nas cidades e vilas que, no norte e no centro, tomavam voz por António. E tentar capturá-lo, vivo ou morto.
A 22 de Setembro, o duque de Alba enviou para o Norte o general Sancho Ávila com 150 batedores, 3000 soldados de infantaria, 500 cavaleiros e um trem de artilharia. Uma semana depois juntaram-se-lhe mais 800 infantes. Na sua marcha, o general submeteu Loures, Torres Vedras, Aljubarrota, Leiria. No dia 7 de Outubro entregaram-se Pombal, Soure e Montemor-o-Velho; Coimbra no dia 8; Buarcos e Aveiro no dia 9. À notícia de que o exército de Sancho Ávila se aproximava do Porto, António mandou alguns coronéis a fazer gente. A mim me mandou a Barcelos e a todo o seu termo onde há grande número de companhias... enrolei alguns 4000, indo bem poucos ao Porto pela má vontade que tinham à guerra, e ao senhor dela, como vassalos do duque de Bragança. O que depois me houvera de custar a vida. O Porto rendia-se no dia 22 de Outubro. Os castelhanos saquearam o termo mas pouparam a cidade.
Onde para António? O duque de Alba escrevia a Filipe: Há poucos dias que não seja dito publicamente: Viva o rei António! E em Lisboa, na passagem de soldados da guarnição castelhana, um menino gritou: Viva o rei António! Levou um tiro na cabeça. O conde de Portalegre, Juan Silva, ex-embaixador de Filipe II em Lisboa, ferido e preso na batalha de Alcácer Quibir e agora integrado no exército de Sancho Ávila, perguntava ao rei: que morte reservariam ao fugitivo e aonde.

Caça ao rei D. António
Nas portas da cidade de Lisboa e por todo o reino afixaram-se cartas do rei de Castela: qualquer pessoa que denunciasse o paradeiro ou prendesse e matasse o prior António, receberia 20 000 cruzados e ser-lhe-ia perdoado qualquer delito; mas quem soubesse do rei fugitivo e não o denunciasse seria castigado. Muitos aventureiros castelhanos e muitos mais portugueses seguiam esta empresa de o prenderem. Do Porto, António seguiu para Viana da Foz do Lima. Aí mandou tomar dois pequenos navios estrangeiros carregados de bacalhau. Estando alguns dos seus já embarcados, avistaram a cavalaria inimiga. Passaram-se para a outra banda de Viana. Filipe mandara pôr guarda nos portos de mar e na fronteira terrestre. Viram o fugitivo na serra de Aire, em Alcanede, em Alenquer, em Vila Nova de Mil Fontes, em Lisboa, em Setúbal. Mas sendo tão grandes as promessas e tão grandes as ameaças, não houve nenhum, de milhares que o viram e conheceram, que o malsinasse e entregasse... Grandíssimo dom de lealdade e de honra tem Deus dado aos Portugueses.
Em Abril de 1581, no mesmo dia em que o rei Filipe entrou em Tomar, correu a notícia de que António estava escondido na igreja do Loreto, em Lisboa. Só apanharam o pároco. Um mancebo de Alfama, que vivia ao Chafariz dos Cavalos, fretou um navio para lhe dar a fuga. Mas no dia em que o Prior deveria embarcar na Trafaria, duas galés cercaram o barco. Apanharam Francisco Nunes, cavaleiro da Ordem de Cristo, Pedro Alpoim, lente da Universidade de Coimbra, e o traidor Duarte Castro, mas não o rei António. O Rei Prior encontrou o seu último refúgio em Setúbal na casa de Beatriz Gonçalves, saboeira muito rica, dona de marinhas. No princípio de Maio de 1581, Beatriz fê-lo embarcar para França numa urca de sal. Prenderam a saboeira e condenaram-na à morte. A defesa alegou que Beatriz Gonçalves era mãe dum filho de António e, neste caso, podia esconder e embarcar o régio amante. Mantiveram-na muitos anos presa». In António Borges Coelho, Os Filipes, Editorial Caminho, 2015, ISBN 978-972-212-740-0.

Cortesia de Caminho/JDACT

O Códice Secreto. Lev Grossman.«Uma equipa de operários vestindo fatos-macaco trabalhava arduamente para fazer descer um piano vertical branco por um lance de escadas até um apartamento na cave. Distraído a vê-los debaterem-se com o piano…»

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«Edward Wozny ficou parado, a olhar cie olhos semicerrados para o Sol, dificultando a passagem da multidão que se deslocava em ambas as direcções. Estava um dia quente e luminoso. Ele tinha vestido um fato cinzento, caro, feito por medida, e teve de rebuscar no que pareciam ser dúzias de pequenos bolsos exteriores e interiores, de vários tamanhos e feitios, até conseguir encontrar o bocado de papel que procurava. Virou-o nas mãos. Era de uma forma vagamente triangular, com um ângulo cortado a direito e outro rasgado, o canto de uma fotocópia recuperada do cesto de papel para reciclagem, no escritório. De um dos lados havia um fragmento de um memorando fotocopiado que começava com …na medida em que todos os participantes de qualquer fundo de capital… do outro lado estava escrito um nome e uma morada, a esferográfica azul. Dobrou-o cuidadosamente ao meio e voltou a guardá-lo no pequeno bolso-dentro-do bolso onde o tinha encontrado.
Edward olhou para o relógio e começou a subir a Madison Avenue, passando por cima de um sinal de estacionamento proibido arrancado do cimento, que jazia no passeio. Em frente da loja de vinhos da esquina, um homem regava com uma mangueira tabuleiros de couves, alfaces e beterrabas, enchendo o ar com um cheiro a hortaliça, fresco e húmido. Um delta formado por pequenos regatos dispersos e brilhantes corria para a valeta. Edward passou entre eles, contrariado, e virou a esquina para a 84 Avenida. Sentia-se bem, ou pelo menos estava a fazer os possíveis por se sentir bem. Estava de férias, a sua primeira folga desde que começara a trabalhar, há quatro anos, e já se tinha esquecido de como era. Estava livre para ir para onde quisesse, quando quisesse e, quando lá chegasse, podia fazer o que muito bem lhe apetecesse. Pensou que iria gostar da sensação, mas agora sentia-se indeciso e desorientado. Não sabia o que fazer consigo próprio, naquele interregno vazio e sem programa.
Na véspera, era um bancário do mercado de investimentos de Nova Iorque, muito empreendedor e muito bem remunerado e dentro de duas semanas seria um bancário do mercado de investimentos de Londres, muito empreendedor e muito bem remunerado. Neste momento era apenas Edward Wozny e não tinha bem a certeza do que isso significava. Trabalhar era a única coisa que sabia fazer e era a única coisa que se lembrava de jamais ter feito. O que é que as pessoas fariam quando não estavam a trabalhar? Jogavam? Quais eram as regras? E o que é que se ganhava? Suspirou e encolheu os ombros. Estava num quarteirão tranquilo, ladeado de casas luxuosas, construídas em pedra calcária. Uma das fachadas estava completamente coberta por uma única trepadeira fantástica, grossa como uma árvore e retorcida como uma corda. Uma equipa de operários vestindo fatos-macaco trabalhava arduamente para fazer descer um piano vertical branco por um lance de escadas até um apartamento na cave. Distraído a vê-los debaterem-se com o piano, Edward quase tropeçou numa mulher que estava acocorada no passeio.
Para tua informação, se estás a pensar em usar essa palavra comigo, disse ela rispidamente, é melhor que saibas o que significa. A mulher estava agachada sobre os quadris, com o vestido muito esticado entre as coxas, uma mão no chão para se equilibrar como um corredor a preparar-se para a partida. Um chapéu de aba larga, creme, encobria-lhe o rosto. Uns metros atrás, um homem de cabelos brancos, com um rosto afiado como uma faca (marido? pai?) esperava, ao lado de um carrinho cheio de baús e malas. Tinha as mãos cruzadas atrás das costas. Não sejas criança, respondeu ele. Ah, então agora sou criança? É isso que pensas?, retorquiu ela, exaltada. A sua pronúncia oscilava entre o inglês e o escocês. É verdade, é isso mesmo que tu és. A mulher levantou os olhos para Edward. Era mais velha do que ele, talvez trinta e cinco ou quarenta anos, a sua pele era clara e o cabelo negro, ondulado, de uma beleza que há muito tinha passado de moda, como uma rapariga de um filme mudo. Ele distinguia o contorno pálido dos seus seios aprisionados na renda branca do sutiã. Edward detestava este tipo de exibição em público, era como virar uma esquina e encontrar-se directamente dentro do quarto de alguém, e tentou passar pela mulher discretamente, mas os olhos dela fixaram os seus, antes que ele pudesse escapar. E você? Vai ficar aí, a olhar para o decote do meu vestido, ou vai ajudar-me a procurar o brinco?
Ele parou. Durante um momento crítico, não lhe ocorreu uma resposta simples e diplomática. Qualquer coisa servia, uma recusa elegante, uma boa saída com uma certa decência, um silêncio desdenhoso, mas bloqueou. Com certeza, murmurou. Lenta e desajeitadamente, acocorou-se ao lado da mulher. Ela retomou a troca de palavras com o companheiro (o marido, decidiu Edward) como se nada os tivesse interrompido. Pois bem, atirou ela, prefiro ser infantil, do que um velho rubicundo! Edward franziu o sobrolho, examinando o passeio de cimento reluzente e fingindo ter ficado subitamente surdo. Ele tinha aonde ir e os seus próprios assuntos para tratar. No entanto, não pôde deixar de reparar que o casal estava impecavelmente vestido. Edward tinha uma aptidão profissional para avaliar rendimentos e ali cheirava-lhe a dinheiro. O homem envergara um fato de Verão, de flanela, feito por medida e de excelente corte, e a mulher um vestido leve e elegante, de cor creme a condizer com o chapéu Ele era magro, um bocado estragado e tinha uma densa cabeleira branca: a sua pele era de um tom um pouco avermelhado, como se tivesse acabado de chegar de uma temporada nos trópicos». In Lev Grossman, O Códice Secreto, 2004, tradução de Maria Colares, Editorial Presença, 2005, Edição Sicidea, 2006, DLegal B-54693-2006.
                     
Cortesia de Sicidea/JDACT

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Poesia. Um jogo doce. Maria Teresa Horta. «Nem rei nem lei, nem paz nem guerra, define com perfil e ser este fulgor baço da terra que é Portugal a entristecer, brilho sem luz e sem arder, como o que o fogo-fátuo encerra»

jdact e wikipedia

As nossas madrugadas
«Desperta-me de noite
o teu desejo
na vaga dos teus dedos
com que vergas

O sono em que me deito
pois suspeitas
que com ele me visto
e me defendo

É raiva
então ciúme
a tua boca

É dor e não
queixume
a tua espada

É rede a tua língua
em sua teia
é vício as palavras
com que falas

E tomas-me à força
não o sendo
e deixo que o meu ventre
se trespasse

E queres-me de amor
e dás-me
o tempo

A trégua
A entrega
E o disfarce

Lembras os meus ombros docemente
na dobra do lençol que desfazes
na pressa de teres o que só sentes
e possuíres de mim o que não sabes

Despertas-me de noite
com o teu corpo

Tiras-me do sono
onde resvalo

E eu pouco a pouco
vou repelindo a noite

E tu dentro de mim
vais descobrindo vales»


Entre nós e o tempo
«Assim... meu amor
penetra o tempo

as ancas devagar
as pernas lentas

o charco dos teus olhos
e a laranja
a palpitar dentro do meu ventre

Assim... meu amor
penetra o tempo

a boca devagar
os dedos lentos

a raiva do punhal que enterras
no sol pastoso
do meu ventre

Assim... meu amor
penetra o tempo

os rins devagar
o espasmo lento»
Poemas de Maria Teresa Horta, in ‘As Palavras do Corpo

In Maria Teresa Horta, As Palavras do Corpo, 2012, Publicações dom Quixote, 2014, ISBN 978-972-204-903-0.

Villas-Boas, que estejas na paz!

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As Filhas do Graal. Elizabeth Chadwick. «Sobrinha, eu ficaria mais feliz se te deixasses ficar pelas montanhas. Há demasiados olhos à espreita nas vilas da planície. Não, respondeu Bridget resolutamente. Ainda não é tempo para isso. Se me retirar agora do mundo…»

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As Montanhas Negras do Alto Languedoc. Verão de 1207
«(…) À entrada da caverna, ouviu vozes masculinas levantarem-se entre a tempestade. Uma era rica, profunda e confiante. A outra voz, mais ligeira, continha os tons exóticos do Outremer (além-mar, os estados cruzados na Terra Santa). Ensopados até aos ossos, os dois homens pararam sob a saliência baixa à entrada da caverna e depois entraram. A conversa cessou assim que os seus olhos se detiveram sobre Bridget. O seu tio Chretien susteve a respiração quando o seu olhar a deixou para pousar na forma imóvel junto à fogueira. Que ela possa caminhar na Luz, disse ele com compaixão. Ela possuía um espírito perfeito. O seu companheiro, mais baixo e de barbas cinzentas, aproximou-se de Magda e agachou-se. A sua mão direita estava gravemente mutilada, faltando-lhe o polegar e mais dois dedos, e os cotos eram de um vermelho franzido e zangado. Tocou a brilhante trança negra de Magda com os dedos que lhe restavam. Era ainda tão jovem, disse ele numa voz que estava perto de se quebrar. Deviam ter-me levado antes a mim. - Ter-nos-iam levado a todos, se lhes dessem a oportunidade. Com um profundo cansaço nos olhos, Chretien abriu os braços para Bridget, que, soltando um pequeno grito ferido, correu para ele, sem se importar com as suas roupas molhadas pela tempestade. Ela sempre soubera que o caminho que percorria era solitário e perigoso, mas nunca antes o sentira tão intensamente como agora. Mais tarde, quando já tinha lavado e preparado o corpo da sua mãe para o túmulo, Bridget sentou-se em frente à fogueira, um copo de vinho forte entre as mãos, e olhou por entre o fumo para os dois homens que eram agora a sua única família, Matthias, o escriba, e Chretien, o irmão mais novo do seu pai. Durante seis anos, ela e a mãe tinham viajado com eles, visitando as aldeias para pregar a via cátara e oferecer cura e conforto aos doentes. A medida que a sua fama crescia, crescera também a hostilidade da Igreja Romana, para quem o catarismo era uma cancerígena heresia a extirpar a todo o custo. O pai dela fora de persuasão cátara. Morrera de uma febre quando Bridget tinha dez anos, mas ao menos morrera na sua cama e livre de perseguição. Na altura, os cátaros podiam movimentar-se abertamente, sem medo de ser assolados pela Igreja de Roma. Agora as coisas eram diferentes. O seu olhar voltou-se para o corpo da mãe, amortalhado num cobertor puído. Quando a ave canora desaparecia, tudo o que restava era uma gaiola vazia.
Quando a tempestade passar, temos de partir, disse ela aos homens. Não temos nada a fazer neste lugar. Chretien pareceu preocupado. Para onde iremos? Apenas os remotos lugares mais altos como Roquefixade e Montségur são seguros, hoje em dia. Quando ele disse Montségur, a visão de um castelo engolido pelo fogo tremeluziu no olho interior de Bridget. Ela viu um céu nocturno coroado de relâmpagos e ouviu os gritos de centenas de pessoas erguidos em sofrimento. Não, Montségur não, replicou ela com um breve abanar da cabeça. Ainda temos muitos amigos que nos darão abrigo e protecção. E eu preciso de obter pergaminhos frescos e penas, disse Matthias. Inconscientemente, esfregou a mão direita mutilada com os dedos da esquerda. Chretien acenou num sinal de concordância, mas continuava de sobrolho franzido. Sobrinha, eu ficaria mais feliz se te deixasses ficar pelas montanhas. Há demasiados olhos à espreita nas vilas da planície. Não, respondeu Bridget resolutamente. Ainda não é tempo para isso. Se me retirar agora do mundo, não encontrarei o pai da minha filha, e foi o desejo da minha mãe no seu leito de morte que eu tomasse um companheiro.
Chretien olhou para a fogueira sem uma palavra, embora o seu maxilar se contraísse. Bridget suspirou suavemente. Para cátaros como o seu tio, gerar uma criança era encurralar um espírito imortal em carne conspurcada. Para a mais antiga religião da mãe, era um sacramento. Ela sabia que, embora desaprovasse, Chretien não a pressionaria a mudar. Com um igual respeito, ela não procurava persuadi-lo da necessidade da sua causa. No silêncio que se gerou, outra imagem perpassou a sua mente, a de uma vigorosa e robusta mulher de meia-idade, de faces vermelhas, pesadas tranças de cabelo cinzento-ferro e um enorme sorriso. Iremos ao encontro de dona Geralda, em Lavaur, disse ela, com calma determinação. É uma cátara convicta e vai socorrer-nos neste momento. Chretien ergueu uma mão para aliviar o rosto quente do calor da fogueira. Se não vais para as montanhas, então Lavaur é provavelmente a segunda melhor alternativa, disse ele, com um relutante aceno de cabeça. Matthias? Bridget ouviu o hesitante acordo de Matthias e soube que, com ou sem a aprovação dos homens, ela ia para Lavaur. A cidade em si não era importante; ela não captara nada da sua essência na visão que tivera, mas a estrada que lá levava, sim. Experimentava uma sensação de aperto no seu âmago, revirando e contraindo os seus macios órgãos internos, como se a criança que a mãe desejara que ela concebesse estivesse já a pontapear o seu ventre. Quando levou a mão à barriga lisa, o sentimento desvaneceu-se, mas não a certeza de que as decisões que agora tomava eram essenciais para o futuro». In Elizabeth Chadwich, As Filhas do Graal, 1993, tradução de Ester Cortegano, Edições Chá das Cinco, 2013, ISBN 978-989-710-050-5.
                     
Cortesia de CdasCinco/JDACT

As Filhas do Graal. Elizabeth Chadwick. «As pestanas da mãe agitaram-se e ergueram-se. Tens muitos anos para viver, sussurrou, e um dever a cumprir; tu és a última da minha linhagem. A sua garganta moveu-se quando ela se esforçou por engolir»

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As Montanhas Negras do Alto Languedoc. Verão de 1207
« Bridget sabia que a mãe ia morrer. A dourada força de vida que devia irradiar continuamente de dentro e em volta do seu corpo não passava de um pálido bruxulear, e os seus ferimentos não reagiam à onda de energia curativa que saía das mãos de Bridget. Fora da caverna na montanha em que se abrigavam, uma tempestade de Verão varria todo o Alto Languedoc. Bridget sentia os relâmpagos dentro de si e via a sua luz ofuscante através das pálpebras quentes e cansadas. Ela nascera durante uma tempestade como aquela, e o poder dos relâmpagos estava nas suas veias. Era um sagrado dom de vida, uma manifestação das forças da Primeira Luz. Mas nessa noite viera para lhe levar a mãe. Não me abandones, sussurrou Bridget numa voz sufocada de lágrimas. Por favor, não te vás; tenho tanto medo. Inclinou o rosto sobre a mão da mãe. Os seus dedos estavam incrustados de sangue, apenas carne viva onde recentemente se viam bem aparadas unhas cor-de-rosa. Os pulsos finos ostentavam gotejantes pulseiras vermelhas no loca1 onde as grilhetas lhe tinham queimado a pele. Estas feridas teriam sarado com o tempo, mas não a que havia sobre a testa de Magda, onde os padres tinham gravado até ao osso com ferro quente a cruz que ela se recusara a beijar. Bruxa e herética, tinham-lhe chamado, imunda meretriz do demónio. A sua pobre mãe, que nunca fizera nem desejara mal a ninguém na sua vida. As pestanas da mãe agitaram-se e ergueram-se. Tens muitos anos para viver, sussurrou, e um dever a cumprir; tu és a última da minha linhagem. A sua garganta moveu-se quando ela se esforçou por engolir. Bridget ajudou-a a beber de um pequeno copo de madeira que enchera com água da nascente ao fundo da caverna.
Magda bebeu, embora a maior parte do líquido lhe escorresse pelo queixo. Os seus olhos cinzentos eram grandes e luminosos, toda a força de vida que lhe restava concentrada naquele olhar. Tens de encontrar um consorte, quando a Lua estiver no tempo certo, para semear o teu ventre. Esta é a maneira como sempre foi, desde que os grandes círculos de pedra foram erguidos, antes de o espinho sagrado ser plantado. Mas o tio Chretien..., começou Bridget a dizer, lançando um olhar involuntário por cima do ombro na direcção da escura boca da caverna. O teu tio não se intrometerá no teu caminho. Ele é um cátaro, e para os cátaros o celibato é necessário; mas ele sabe que não será assim para ti. Bridget procurou o som de passos lá fora, mas apenas ouviu o vento que assobiava por entre as definhadas árvores na encosta e as chibatadas da chuva. O seu tio Chretien e o companheiro Matthias tinham ido procurar abrigo para os cavalos. Não havia espaço na caverna, mas Matthias notara um abrigo de cabras em ruínas mais abaixo na ladeira. Embora ficasse mais perto da aldeia, não era provável que houvesse alguém fora de casa para os ver, com aquele tempo.
A fogueira que ela acendera anteriormente começava a fenecer e a mão da mãe pousada na sua estava gelada. Bridget pôs mais lenha sobre as brasas. Fechando os olhos, procurou dentro de si e extraiu a sua força vital sobre a forma de um fio brilhante como um relâmpago. As chamas surgiram por baixo da mão estendida que ela passou sobre a fogueira, saltando como que de uma mola ao seu comando. As estranhas figuras de animais pintadas nas paredes da caverna agitaram-se com uma ilusão de vida no clarão de luz e contraste de sombra. Bridget sabia que, se mergulhasse mais fundo no seu transe, veria pequenos homens de pele cor de azeitona a marcar as paredes com paus enegrecidos ao lume, pintando imagens das suas presas para invocar o sucesso na caçada. Ouviria os seus cânticos sagrados e provaria o sabor do fumo da sua fogueira, a arder onde ardia agora a dela. Chama sobre chama, ela sentiu a conexão antes de retirar a mão e se voltar novamente para a sua mãe.
É tão difícil de suportar, disse ela suavemente, e ouviu a própria voz ecoar pelas paredes com a nota desamparada de uma criança perdida. Magda estava mais imóvel do que as pinturas. Embora os lábios da mãe não se movessem, as palavras entraram na mente de Bridget com precisa claridade. O caminho da nossa linhagem nunca foi de outra maneira. Sempre encontrarás pedras lançadas no teu caminho, mas, se as desviares, encontrarás o amor e a coragem para continuar. Um tremendo raio de luz fendeu a noite, soltando rochas na montanha e lançando-as a ribombar pela encosta abaixo. Um trovão explodiu por cima delas e, enquanto os ecos se ouviam em volta da caverna, Bridget sentiu o calor de um beijo na sua face e depois na testa em terna bênção. Mãe! O angustiado grito de Bridget fundiu-se com a queda do trovão e sobreviveu-lhe, mas Magda não respondeu. O seu corpo maltratado e exausto estava inerte e sem vida: uma concha abandonada. Bridget chorou baixinho, e depois abafou o som por detrás de lábios comprimidos. A sua mãe estava agora com a Primeira Luz, estava livre de dores e perseguições. Só tinha razão para chorar por si própria. Beijou o rosto ferido e cavado e removeu cuidadosamente um amuleto de prata do pescoço da mãe, pendurando-o em volta do seu, onde tilintou suavemente contra outro idêntico, - um desenho gravado de uma estrela de seis pontas dentro da qual uma pomba se erguia de um cálice». In Elizabeth Chadwich, As Filhas do Graal, 1993, tradução de Ester Cortegano, Edições Chá das Cinco, 2013, ISBN 978-989-710-050-5.

Cortesia de CdasCinco/JDACT
 

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Os Filipes. António Borges Coelho. «… me vou rindo da zombaria que éramos, sem armas, sem munições, sem ordem, sem obediência, sem cavalos, e enfim sem nada do necessário…»

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Quem vos venceu
«(…) Nos dias que se seguiram à conquista de Lisboa, os espoliados tiveram de comprar aos saqueadores os mantimentos que lhes tinham roubado: o pão, o azeite, o gado. E também os escravos. Alguns até tiveram de comprar as suas mulheres e os filhos. No lote dos presos resgatados estavam o conde do Redondo João Coutinho e o inquisidor de Évora Lopo Soares Albergaria que, ao repicar dos sinos, acudia a cavalo, espingarda no arção da sela, acompanhado por um pajem, também a cavalo e com espingarda, e homens de pé com os seus piques. No princípio, os soldados do duque de Alba ficaram alojados fora da cidade, mas guardavam as portas e podiam entrar e sair. As gentes dos campos insultavam os soldados que ficavam para trás e enforcaram alguns.

Auto de (des)obediência
A 11 de Setembro de 1580, dezassete dias depois da batalha de Alcântara e com as tropas castelhanas no terreno, foi assinado pelos novos oficiais da Câmara de Lisboa, nas casas onde pousava o duque de Alba, o auto de obediência e de entrega da cidade a Filipe II de Castela. Assinaram o duque de Alba, Damião de Aguiar e os novos vereadores, o procurador Sebastião Lucena, Luís Francisco, ourives do ouro, António Nobre, barbeiro, Francisco Roiz, tosador, Gaspar Roiz, sapateiro, procuradores dos mesteres, e Salvador Roiz, alfaiate, juiz da Casa dos Vinte e Quatro. Na assinatura do auto, em nome da cidade e da Câmara, falou Damião de Aguiar, que tinha sido deposto pelo senhor António e se manterá na crista da onda até à morte do rei Habsburgo. Disse: a Filipe pertencia, justa e direitamente, a sucessão, propriedade e jurisdição dos reinos e senhorios de Portugal e do Algarve e de todas as coisas a eles pertencentes. E recebiam-no por rei e senhor natural. Em reconhecimento desse direito, entregavam-lhe, na pessoa do duque de Alba, a posse da cidade e do seu termo e juravam pela cruz e os Santos Evangelhos em que punham as mãos. Testemunharam o acto Paulo Afonso, Pedro Barbosa, que seria assassinado em Lisboa, tal como, anos mais tarde, o seu filho Miguel Vasconcelos, e Jerónimo Pereira Sá, todos do Conselho d'el-rei e seus desembargadores do Paço.
Dois dias depois a Câmara mandou apregoar: segunda-feira ninguém trabalhe e armem as ruas e as janelas. Não as queriam armar. À duas horas da tarde, os vereadores, a Casa dos 24, fidalgos, doutores e alguns cidadãos, poucos, sem mais ninguém, e as trombetas, atabales e charamelas, saíram com a bandeira da cidade, levada por um Tomé Silva. Gritava o Tomé: Real! Real! Por el-rei Filipe, rei de Portugal! Respondiam os acompanhantes sem haver mais homem, mulher nem menino que o quisesse dizer. Os que acompanhavam a bandeira diziam aos moços: Real! Eles respondiam, em altas vozes, que não gritavam. Por onde a bandeira passava, as mulheres e os homens choravam e lastimavam-se. António Cascais colocou por sua mão a bandeira filipina, com Castela ao centro, no alto dos Paços do Castelo. No rio, as galés dispararam. Na volta, o cortejo desceu pela Mouraria até à Rua Nova e voltou à Câmara. Em todo o caminho nenhum homem ou mulher ou menino os quis acompanhar nem dizer Real, cousa tão extraordinária entre moços e meninos que até neles houve o sentimento natural da perda de sua pátria e liberdade, havendo tal rancor de ódio, portugueses com castelhanos, que cada dia não deixava de haver na cidade mil brigas uns com outros.

Submissão do Centro e do Norte
Na sua fuga, após a batalha de Alcântara, o Prior do Crato parou em São João da Talha para curar os ferimentos sofridos e passou pela Azambuja a caminho de Santarém. Nesta vila havia novos vereadores que, reunidos com os seus apoiantes na igreja de Marvila, decidiram enviar procuradores ao duque de Alba e reconhecer o rei Filipe. António seguiu então por Tomar até Coimbra. Acompanhavam-no muita gente de pé e de cavalo e muitos negros dos que escaparam das mãos do inimigo. Em Coimbra, o corregedor e o conservador, acompanhados por 14 homens com espingardas, tentaram prender o meirinho que proclamara António. Acudiu muita gente ao Terreiro de Santa Cruz a travá-los e a gritar: Viva el-rei António! O corregedor ordenou aos espingardeiros que disparassem. Choveram pedradas. Corregedor e conservador salvaram-se na fuga e a multidão proclamou António na porta de Santiago. Na região de Coimbra, o rei Prior recrutou 5000 a 6000 homens. Entrou em Montemor-o-Velho e avançou para Aveiro. A vila aclamara-o em 4 de Julho mas, depois da derrota de Alcântara, proclamara Filipe.
António dispunha de uns 10 000 homens, mas nem entendia o estado em que estava, nem tinha dinheiro, nem soldados práticos. Os que tinha eram do povo, tirados das tendas e da lavoura, que não sabiam nenhuma milícia nem aprendido a perder o medo, como quem não vira nunca a guerra, tirando alguns bem poucos. Também sentiam que boa parte dos grandes fidalgos, dos bispos e dos arcebispos apoiavam, abertamente ou envergonhados, o rei Filipe I. Quando isto escrevo, diz João Castro, neto do homónimo vice-rei da Índia, me vou rindo da zombaria que éramos, sem armas, sem munições, sem ordem, sem obediência, sem cavalos, e enfim sem nada do necessário». In António Borges Coelho, Os Filipes, Editorial Caminho, 2015, ISBN 978-972-212-740-0.

Cortesia de Caminho/JDACT