sábado, 31 de janeiro de 2015

No 31. Setúbal. Sebastião da Gama. «Também aqui a leitura me deixou uma impressão profunda, em sobriedade e despojamento. David Mourão-Ferreira proporcionou um momento mágico aos seus alunos ao comunicar, o corpo sonoro e a medida de cada palavra…»

telmamaodeferro
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Elegia para uma gaivota
«Morreu no mar a gaivota mais esbelta,
a que morava mais alto e trespassava
de claridade as nuvens mais escuras com os olhos.

Flutuam quietas, sobre as águas, suas asas.
Agua salgada, benta de tantas mortes angustiosas' aspergiu-a.
E três pás de ar pesado para sempre as viagens lhe vedaram.

Eis que deixou de ser sonho apenas sonhado.
É finalmente sonho puro,
sonho que sonha finalmente, asa que dorme voos.

Cantos de pescadores, embalai-a!
Versos dos poetas, embalai-a!
Brisas, peixes, marés, rumor das velas, embalaia!

Há na manhã um gosto vago e doce de elegia,
tão misteriosamente, tão insistentemente,
sua presença morta em tudo se anuncia.

Ela vai, sereninha e muito branca.
E a sua morte simples e suavíssima
é a ordem-do-dia na praia e no mar alto».
Poema de Sebastião da Gama, in ‘Os Poemas da Minha Vida, VN Azeitão, 1924-1952


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No 31. Vitorino Nemésio. Mário Dionísio. «Esta é uma infância viva, que transforma o adulto em comparsa do jogo infantil, recuando a sua experiência e prolongando o seu percurso. Toca-nos a presença dos dois corpos, e descobre-se eco no eco de si em que reinveste»

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O futuro perfeito
«A neta explora-me os dentes,
penteia-me como quem carda.
Terra da sua experiência,
meu rosto diverte-a, parda
imagem dada à inocência.

Finjo que lhe como os dedos,
fura-me os olhos cansados,
íntima aos meus próprios medos
deixa-mos sossegados.

E tira, tira puxando
coisas de mim, divertida.
Assim me vai transformando
em tempo de sua vida».
Poema de Vitorino Nemésio, in ‘Os Poemas da Minha Vida, Praia da Vitória, Ilha Terceira, 1901-1978


A casa deserta
«Ah nada pior que a casa deserta,
sozinha, sozinha.

O fogão apagado e tudo sem interesse.
O mundo lá longe, para lá da floresta.
E o vento soprando
a chuva caindo
a casa deserta...

Ah nada pior que estes dias e dias,
de cachimbo aceso, com as mãos inertes,
com todas as estradas inteiramente barradas,
ouvindo a floresta.
Com tudo lá longe, na casa deserta,
o vento soprando
e a chuva caindo, na noite caindo...

Há uma cancela que range nos gonzos
um velho cão de guarda que ladra sem motivo
parece que é gente que vem a entrar...

E é só o vento soprando, soprando
e a chuva caindo...

Mudaram muita vez as folhas da floresta.
Os olhos do homem são olhos de doido.
Fogão apagado, aceso o cachimbo, o mundo lá longe.

E o vento soprando
a chuva caindo
a casa deserta...»
Poema de Mário Dionísio, in

Poema de Mário Dionísio, in ‘Os Poemas da Minha Vida, Lisboa, 1916-1993

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No 31. Memórias da Grande Guerra. Jaime Cortesão. «Pois até no período do nosso heroísmo, quando nos ocupava e se realizava a temerária empresa das Índias, o rei Manuel mandava cartas às suas vilas e cidades, explicando as vantagens de tais e tão perigosos empreendimentos»

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O Génio do Povo
Junho de 1916
«(…) 11 de Abril: tomada de Kionga. Era tempo para uma hora de agitação e desafogo. Em Maio a mobilização; e agora concentram-se e exercitam-se as tropas em Tancos. É pouco? O suficiente por agora para atiçar a fogueira e alimentar a grande labareda. Todavia há quem afirme e deseje ainda a vitória da Alemanha. A propaganda germanófila continua a fazer-se descaradamente. Antes da declaração da guerra vendiam-se em Portugal 30 000 exemplares por mês do A. B. C., revista germanófila da Espanha. Diz-se que a venda diminuiu. Será. Mas vêem-se ainda por aí às dúzias os velhos fregueses deliciando-se na sua leitura.
Alguém, um médico ilustre, neutro em matéria política, a crer nas suas afirmações, mas germanófilo a atentar-lhe nas palavras, revelou-me em conversa como quem enuncia uma hipótese as esperanças deles. À minha afirmação de que a vitória da Alemanha seria a nossa ruína e possivelmente a perda da independência: que não. À Alemanha também não convém que a Espanha realize uma hegemonia peninsular. Não. Ela vence. Restaura-se a Monarquia; colocam no trono um príncipe alemão; e nem ao menos nos tiram as colónias. Alguns cortes no mapa da Europa. Talvez profundos. Mas deixarão o suficiente para um príncipe germânico se criar uma ilusão de império. Sim. Deve ser a solução conjecturada. E esta gente não pára; não desanima. No escuro vão furando sempre. Há pequenas coisas denunciadoras.
E que faz o Governo? Por que não aproveita a primavera das almas para lançar a boa semente? Oh!, por mim não se dirá que não cumpro o meu dever. De combinação com o ministro da da Guerra escrevo a Cartilha do Povo para o soldado. Mas o plano fica em meio. Por minha culpa? Não. Mas como tenho um lugar no Parlamento, é ali que me cumpre falar. A 20 de Maio faço a minha interpelação sobre a política geral do Governo; e neste caso particular dirijo-me ao António José Almeida dizendo: Até agora não vejo que o Governo tratasse de fazer a propaganda dos nossos deveres militares. Dir-se-ia que Vexa está convencido de que uma única palavra sua, espécie de Fiat jeóvico, bastará para levar os nossos exércitos à guerra. Se nos convencemos de que o nosso povo está desde já resolvido a todos os sacrifícios pela Pátria, vivemos num engano. A ideia da nossa cooperação militar, em qualquer dos campos da batalha, como necessidade nacional, que de facto é, ainda não entrou completamente no espírito público. Dizia Michelet que nos povos uma ideia apenas se torna em força e actividade quando incubada pelo sentimento e fecundada pela força do coração. Dêem-se, pois, àquela ideia, por uma larga propaganda, todos os estímulos afectivos: explique-se ao povo que esse facto importa à nobreza do nosso nome, à dignidade nacional e que o exigem todas as necessidades materiais e morais. Enquanto o Governo se esquece de a fazer, faz-se por todo o Portugal a propaganda contrária. Sabe Vexa o que fizeram os outros países, quando entraram na guerra? Eu apontarei algumas das formas que ali tomou a propaganda do Governo. Na Inglaterra, o Governo de SM Britânica foi até à propaganda pelos cartazes ilustrados afixados nas paredes e o generalíssimo Roberts, a mais culminante figura de então no exército inglês, dirigiu às crianças das escolas de todo o Reino Unido uma mensagem em que lhes explicava as causas, as vantagens e a nobreza da guerra em que a sua Pátria ia entrar. Na França, o governo da República criava o Jornal dos Exércitos, para leitura dos soldados, e ao lado dos mais ilustres artistas franceses, os membros do Governo, com Viviani à frente, foram dos primeiros a escrever para os poilus gauleses palavras de confiança, de incitamento e carinho. E na Itália, Gabriel d’Anunzio, junto ao pedestal da estátua de Garibaldi, rodeado dos membros do governo italiano, pregava aos soldados o evangelho das altas virtudes cívicas e o seu verbo de fogo desdobrava ao vento os guiões da batalha. Aqui, onde não existe a mesma educação cívica, numa nação que ainda hoje sofre do esgotamento causado pelas espantosas empresas doutras eras, Vexa não começaram essa propaganda. Pois até no período do nosso heroísmo, quando nos ocupava e se realizava a temerária empresa das Índias, o rei Manuel mandava cartas às suas vilas e cidades, explicando as vantagens de tais e tão perigosos empreendimentos. Em todos os países e em todos os tempos foi necessário para boa marcha dos negócios públicos uma estreita solidariedade entre governantes e governados. Essa necessidade avulta nas democracias e torna-se indispensável para a realização de factos como aquele que hoje o nosso brio nos exige. Essa solidariedade deve estabelecer-se com mostras da mais carinhosa atenção por parte do Governo. Que o nosso soldado saiba por que motivos sagrados é que lhe exigem sacrifícios e que tenha também a certeza de que o seu Governo, enquanto ele combater, vela carinhosamente pelas suas famílias. Só assim se estabelecerá o estado de graça e de fé que nos leve à luta e à vitória. Sente-se essa necessidade. É mister desde já levar por toda a parte a bandeira que apenas alguns trazem nas mãos». In Jaime Cortesão, Memórias da Grande Guerra, Obras Completas, Portugália Editora, Lisboa, 1969.

Cortesia PortugáliaE./JDACT

No 31. Nuno Júdice. Pedro, lembrando Inês. Jazz. «Se o nosso espírito pudesse compreender a eternidade ou o infinito, saberíamos tudo. Até podermos entender esse facto, não podemos saber nada. O zero é a maior metáfora. O infinito a maior analogia. A existência o maior símbolo»

IM
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Estrelas
«Desfaço nas mãos os figos, os fios
Fugazes de Setembro, enquanto o seu leite
escorre pelas folhas verdes que
os envolvem. Esses figos, que me traziam
em cestos de vime, eram mel na boca
que os saboreava. Secos, iam parar
aos frascos fechados para o Inverno, de onde
os tirava para os meter no bolso,
antes de sair. O que tens aí?, perguntavas-me. E
eu passava-te para a mão um desses figos, e via
como o abrias, chupando os seus grânulos,
e passeando na boca a amêndoa que
o recheava. Onde estarás?, pergunto. Poderia
anda hoje partilhar, contigo, um
desses figos do Inverno? Ou o seu leite secou,
nos cantos dos lábios, roubando-te
as palavras, e o húmido murmúrio
do amor?»


Solidão
«Um mar rodeia o mundo de quem está só. É
o mar sem ondas do fim do mundo. A sua água
é negra; o seu horizonte não existe. Desenho
os contornos desse mar com um lápis de
névoa. Apago, sobre a sua superfície, todos
os pássaros. Vejo-os abrigarem-se da borracha
nas grutas do litoral: as aves assustadas da
solidão. É um mundo impenetrável, diz
quem está só. Senta-se na margem, olhando
o seu caso. Nada mais existe para além dele, até
esse branco amanhecer que o obriga a lembrar-se
que está vivo. Então, espera que a maré suba,
nesse mar sem marés, para tomar uma decisão».
Poemas de Nuno Júdice, in ‘Pedro, lembrando Inês

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No 31. O Vaticano contra Cristo. Religiões. Tradução de José A. Neto. I Millenari. «Logo ao alvorecer daquele frio Janeiro de 1991, a polícia identificou, com surpresa, um rudimentar carro armado verde, em posição de guerra, estacionado na Escola Pio IX na Via da Conciliazione, na circunstância barrada e vazia de alunos e professores»

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Os Pilares da Igreja
«(…) Ridiculariza-se a eslavofilia do papa Wojtyla e a polonização da Igreja, terminal do Vaticano, onde desembarca, à pressa, no interior da suprema cloaca sem purificador, material transportado pelo clero polaco. Chegados a Roma, os prelados polacos apostam decididamente na alavanca do poder, o mais atrevidos possível, fervorosamente recomendados e elogiados pelos prelados da corte com o objectivo de se tornarem gratos ao papa, seu conterrâneo. Só resta deixá-los cair no próximo render da guarda. Ficou célebre a partida do carro armado, na Via Conciliazione. Logo ao alvorecer daquele frio Janeiro de 1991, a polícia identificou, com surpresa, um rudimentar carro armado verde, em posição de guerra, estacionado na Escola Pio IX na Via da Conciliazione, na circunstância barrada e vazia de alunos e professores que foram mandados para casa, enquanto o tráfego era desviado para outra rua. Os pirotécnicos mais corajosos consultavam-se uns aos outros para a desactivação de uma eventual bomba relógio no interior daquele blindado. As forças da ordem, alertadas em toda a volta, esperavam o pior de um momento para o outro; porém nada acontecia. O perito escolhido inspeccionou com a máxima circunspecção o couraçado, que se revelou ser um montão de lâminas de alumínio soldadas umas às outras, apressadamente, em cima de um carro destruído. O facto pretendia significar uma surpresa ao monsenhor polaco que, à força de sagrados jantares à mesa papal, conseguiu em poucas palavras convencer o pontífice a criar também na Polónia o ordinarato castrense, oferecendo-se desinteressadamente como primeiro ordinário castrense, sem castração visível. Os amigos, galhofeiros, colocaram-no na berlinda demonstrando assim o seu desacordo por aquela provisão inútil.
A diplomacia do Estado do Vaticano, símbolo de uma sociedade particular em que o parecer é mais importante do que o ser, contagia a diplomacia dos outros Estados logo que entram em relação diplomática. De facto, no caso de certas decisões se tornarem melindrosas, passam a ser conservadas em naftalina arquivando-se os processos de modo que, conforme for necessário, se torne fácil ou difícil recuperá-las. Os mais experimentados vaticanistas esforçam-se por decifrar os sinais do sistema monárquico religioso-estatal, mas nem sempre o conseguem. Segundo o jornalista John Cornwell, monsenhor Paul Marcinkus definia esse Estado como uma aldeia de lavadeiras: lavam as roupas, batem-nas com as mãos, saltam em cima delas, extraem a sujidade; na vida normal as pessoas têm outros interesses; neste, quando as pessoas se encontram, percebem que se um conta uma história, o faz para o outro lhe contar uma outra a ele. Um lugar de todo não ocupado por pessoas honestas. A diplomacia vaticana, dizia o brilhante latinista Antonio Bacci, depois cardeal, nasceu numa tarde triste em Jerusalém, no átrio do sumo sacerdote, quando o apóstolo Pedro, aquecendo-se à fogueira, deparou com aquela criada que, de dedo apontado, perguntou: também tu és discípulo do Galileu, e Pedro, estremecendo, respondeu: não sei o que dizes! Resposta diplomática com a qual não comprometia nem a fé nem a moral.
A diplomacia deste pequeno Estado influencia, hoje, o comportamento dos outros Estados e, por isso, a importância e a hipocrisia tornam-se, simultaneamente, causa e efeito de sucesso recíproco, cimentando-se uma delicada competição de formas, com reacções em cadeia. Um concentrado de hipocrisia institucionalizada, um dos piores males ambientais, neste minúsculo Estado, apelidado de Minúsculo maior. O Vaticano é uma ilha onde coexistem, com igual honra e medida, a lógica do poder e o paroxismo patológico, a força do direito e o direito da força, a concordância entre a supremacia do bem sobre o mal e a prepotência do violento sobre o indefeso; onde é mais fácil distinguir o mal no bem do que o bem no mal; em resumo, uma amálgama de estranhas politiquices periodicamente reemergentes a partir de intrigas já distantes». In I Millenari, Via col vento in Vaticano, Kaos Edizioni, 1999, O Vaticano contra Cristo, tradução de José A. Neto, Religiões, Casa das Letras, 2005, ISBN 972-46-1170-1.

Cortesia Casa das Letras/JDACT

No 31. A Conquista de Lisboa. 1578 1583. Violência Militar. Comunidade Política. Rafael Valladares. «É certo que o duque [o espantalho] faz o que pode e o que é possível para um homem da sua idade, foi uma frase condescendente habitual na correspondência trocada entre a frente e o monarca em 1580»

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Violência
A escolha de Alba
«(…) Para tomar esta decisão, o rei teve de afastar os motivos nada desprezíveis que até aí o tinham feito pender para o contrário. Nem a falta de respeito pela sua autoridade, expressa quando aquele primeiro soldado do império combinara o casamento do filho de costas viradas para a Coroa, nem a necessidade de neutralizar os excessos entre as facções ebolista e albista (ou o que delas restara) se apresentavam como elementos menores que pudessem elidir-se, nem mesmo perante um assunto de tanta importância como a sucessão portuguesa. A robustez da autoridade régia fora construída em Castela, e até certo ponto exportada de seguida para a Monarquia, com demasiado esforço para que se pudesse pô-la em risco numa só conjuntura, por muito transcendente que fosse. Se Fernando acrescentasse novos louros às suas vitórias, como era previsível, ninguém estaria em posição de travar o ressurgir da facção albista ou, no mínimo, do clã dos Toledo. Uma mensagem semelhante a esta era a que Filipe II desejava transmitir aos seus conselheiros quando, ao longo de nove meses, se negou a nomear Alba como general da conquista portuguesa, o que dá a entender que, consequentemente, esperava propostas alternativas, confiante de que os seus ministros dificilmente poderiam defender a idoneidade de um septuagenário com a armadura salpicada de sangue flamengo. No entanto, foi isso que aconteceu. Tudo indica que, ainda que o Prudente e o seu governo tenham revelado à partida pouca sintonia quanto à nomeação de Alba (Filipe II referia-se a Alba como o espantalho), ambas as partes acabaram por confluir na sua pessoa.
É possível que o duque contasse com influências de peso para obter de novo o bastão de general em 1580, recuperando assim o favor régio e melhorando talvez uma reputação maculada pelo seu controverso mandato nos Países Baixos. Não obstante os riscos que inevitavelmente implicava dirigir uma guerra, morrer desterrado em Uceda constituía uma alternativa pouco honrosa e decerto irresponsável perante as suas obrigações de linhagem. Por outras palavras, a bola caiu no telhado do rei que, se acabou por escolher o duque, foi devido a que ao longo de 1579, precisamente enquanto se discutia acerca de Alba, a guerra, depois da negociação, se convertera na coluna vertebral para resolver a incorporação portuguesa e, para esse fim, Fernando era insubstituível, não tanto pelas suas capacidades de comando (a experiência, reputação e prestígio de que falavam os seus porta-vozes, e que o singularizavam), quanto pela imagem de ministro justiceiro e implacável que gravou a sua marca, até literalmente, se recordarmos a estátua que mandou erigir em Antuérpia, durante os seis anos na Flandres. Não, Alba não era o único general tecnicamente capaz ao qual Filipe II podia ter confiado a missão em Portugal, mas é verdade que acabou por se tornar no único que podia enfrentá-la com relativa segurança, dada a natureza, entre conquista militar e repressão de vassalos desobedientes, que a sucessão tomara.
É certo que alguns dados permitem deduzir que, em termos estritamente militares, o duque não era a pessoa mais adequada. Às vezes, por exemplo, o seu zelo excessivo em não agir até que tudo estivesse organizado ao seu gosto podia retardar uma operação que, como no caso de Portugal, fora concebida para se resolver de imediato. Não sei se é mais vagaroso do que se pretende, ao querer agir completamente pelo seguro, que era o que eu temia, declarou Filipe II a Moura, numa alusão clara a outro dos aspectos pelos quais o rei resistira à nomeação do duque. A sua idade e padecimentos foram apontados por vários testemunhos durante a guerra como principal causa da indisciplina das tropas ou de resoluções inapropriadas. É certo que o duque faz o que pode e o que é possível para um homem da sua idade, foi uma frase condescendente habitual na correspondência trocada entre a frente e o monarca em 1580. Entre aqueles que assim opinavam, deveriam encontrar-se muitos dos inimigos políticos de Fernando, pois a luta de partidos não tinha fim, mas algumas acusações estavam bem fundamentadas. Além disso, é oportuno observar que para um exército tão apto como o que foi formado em 1580 (sem contar com os efectivos navais de Santa Cruz) não era imprescindível, embora fosse desejável, um comando como o de Alba, e ainda menos se considerarmos a desproporção de forças existente entre as duas partes em peleja, o que quase oferecia de antemão o triunfo a Filipe II». In Rafael Valladares, A Conquista de Lisboa, 1578-1583, Violência Militar e Comunidade Política em Portugal, Texto Editores, Alfragide, 2010, ISBN 978-972-47-4111-6.

Cortesia de TextoEdit/JDACT

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

No 31. Poesia. Hélio Ferreira. Harpa. «Dizer uma cousa falha, não porque sugerir seja melhor, mas porque ser é melhor. Cultura não é ler muito, nem saber muito; é conhecer muito. Viver não é necessário. Necessário é criar»

jdact e wikipedia

Noite luz
«Marco de ternura
sem cansaço
brisa amor
que o mal te curará
ondulantes caprichos
de desejos loucos
padrões do meu sentir
em rio meu.

Murmúrios liberdade
renegados
de natureza grito
dor e tu
que alguém encontrará
no amor nascer
que não sentiu
o medo de morrer

Marco de ternura
sem cansaço
mistério denegrido
em mim tortura
versos horas
quebrados em bocados
levada que murmura
sem cuidados.

Oh noite luz
mulher que aconteceu
procura dum chegar
numa palavra vem
aqui fiquei
amor que não morreu
de tanto que gritou
e já no fim
nasceu».


O teu rosto
«Simbiótico mutismo
descarnado

Reverso acontecer
que me atormenta

Mentira colectiva
terra arado

Sentido de viver
nunca acabado

Caminha devagar
vai caminhando

Verga teu peito
chora amigo meu

Lava teu rosto
cobre de respeito

O outro que de andar
até morreu»
Poemas de Hélio C. Ferreira, in ‘As Virgens

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A Loba de França. Maurice Druon. «… eis aqui o rei de França, o homem mais pobre do seu reino, já que não há ninguém cuja sorte não preferisse à sua. Contemplai este príncipe do mundo e ponde em Deus os vossos corações vendo como se compraz em jogar com as suas criaturas»

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«(…) Tudo começou no Poitou, onde na altura se encontrava o rei Filipe V e depressa alastrou a todo o país. Os habitantes tanto das cidades como das aldeias precipitaram-se sobre as leprosarias para aí exterminar os doentes, que de um dia para o outro se haviam tornado inimigos públicos. Apenas as mulheres grávidas eram poupadas, mas mesmo essas só até os bebés serem desmamados. Depois disso eram atiradas para as fogueiras. Os juízes reais davam cobertura à hecatombe com as suas sentenças e a nobreza emprestava-lhe as armas e os homens. Depois, mais uma vez, voltaram-se contra os Judeus, acusados de cumplicidade com uma conspiração imensa e imprecisa, inspirada, assegurava-se, pelos reis mouros de Granada e de Tunes. Dir-se-ia que, com estes gigantescos sacrifícios humanos, a França procurava apaziguar as suas angústias, os seus terrores. O vento da Aquitânia vinha impregnado do cheiro atroz das fogueiras. Em Chinon, todos os judeus do bailiado foram atirados para uma fossa imensa de fogo; em Paris foram queimados na ilha a que tristemente davam o nome, em frente do palácio real, e onde Jacques de Molay pronunciara a fatal profecia. E o rei morreu. Morreu da febre e do mal de entranhas que contraíra no Poitou, na sua terra de apanágio; morreu por ter bebido a água do seu reino.
Levou cinco meses a extinguir-se no meio dos piores sofrimentos, consumido, esquelético. Todas as manhãs mandava que abrissem as portas do seu quarto, na Abadia de Longchamp, para onde mandara que o transportassem, e deixava que todos os que por ali passavam se aproximassem do seu leito para lhes dizer: … eis aqui o rei de França, o vosso soberano, o homem mais pobre do seu reino, já  que não há ninguém cuja sorte não preferisse à sua. Meus filhos, contemplai este príncipe do mundo e ponde em Deus os vossos corações vendo como se compraz em jogar com as suas criaturas. E os seus ossos foram juntar-se aos dos seus antepassados em Saint-Denis, no dia que se seguiu ao da Epifania de 1322, sem ser chorado por ninguém a não ser pela mulher. Contudo, fora um rei sensato, que teve em conta o bem público. Declarara inalienável qualquer parte do domínio real, unificara as moedas, os pesos e as medidas, reorganizara a justiça, para que esta fosse aplicada com maior equidade, proibira a acumulação de funções públicas, vedara aos prelados o acesso aos bancos do Parlamento e dotara as finanças de uma administração à parte. Deveu-se-lhe ainda a libertação dos servos. Desejara que a servidão desaparecesse completamente dos seus estados; queria reinar sobre um povo de homens que gozassem da liberdade verdadeira, como a natureza os fizera.
Evitou as tentações da guerra, suprimiu muitas guarnições do interior para reforçar as das fronteiras e sempre preferiu as negociações às aventuras militares irreflectidas. Contudo, era ainda cedo para que o povo admitisse que a justiça e a paz podiam custar sacrifícios pesados em dinheiro. Para onde foram, perguntava-se, os rendimentos, as dízimas e os empréstimos dos Lombardos e dos Judeus, se ainda por cima foram distribuídas menos esmolas, não houve guerras e não foram construídos novos edifícios? Para onde foi todo esse dinheiro? Os grandes barões, provisoriamente submissos, e que por vezes, perante o turbilhão que ia pelos campos, cerraram fileiras, por medo, em torno do soberano, esperaram pacientemente o momento da vingança e contemplaram com um olhar apaziguado a agonia de um jovem rei que não tinham amado». In Maurice Druon, Os Reis Malditos, A Loba de França, 1966, tradução de Helena Ramos, Círculo de Leitores, 2006, ISBN 978-972-42-3862-3.

Cortesia de CLeitores/JDACT

O Livro Negro. Hilary Mantel. «Ou mesmo um pai, um pai de um género ideal: como estás? Não estás a trabalhar de mais? Jantaste? O que é que sonhaste ontem? O perigo de um caminho destes é o de que um rei que se senta em mesas vulgares, numa cadeira vulgar»

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Londres e Kimbolton. Outono de 1535
«(…) Os italianos pensam que não. Dizem que a estrada entre Inglaterra e o Inferno está gasta de todos os pés que a pisam e é toda a descer. Todos os dias pondera o mistério dos seus compatriotas. Viu assassinos, sim; mas viu um soldado faminto dar um pão a uma mulher, uma mulher que não lhe é nada, e voltar-lhe as costas com um encolher de ombros. O melhor é não pôr as pessoas à prova, não as forçar à desesperação. Fazê-las prosperar; tendo o supérfluo, serão generosos. As barrigas cheias criam brandos costumes. A beliscadura da fome, monstros. Quando, alguns dias depois do seu encontro com Stephen Gardiner, a corte itinerante alcançara Winchester, tinham sido sagrados novos bispos na catedral. Os meus bispos" chamava-lhes Anne: evangelistas, reformadores, homens que viam em Anne uma oportunidade. Quem poderia ter pensado que Hugh Latimer seria bispo? Seria mais de prever que acabasse queimado, encarquilhado em Smithfield com o evangelho na boca. Mas também quem poderia ter pensado que Thomas Cromwell havia de ser alguém? Quando Wolsey caiu, podia ter-se pensado que sendo servidor de Wolsey estava arruinado. Quando a mulher e as filhas morreram podia ter-se pensado que a sua perda o mataria. Mas Henry voltou-se para ele; Henry ajuramentou-o; Henry pôs o seu tempo à disposição dele e disse, vinde, senhor Cromwell, dai-me o braço: através dos pátios e das salas de trono, a senda da sua vida está agora plana e desobstruída. Em novo teve sempre de abrir caminho com os ombros através das multidões, furando até à frente para ver o espectáculo. Mas agora abrem-se as multidões quando caminha através de Westminster ou dos recintos de qualquer dos palácios do Rei. Desde que foi jurado conselheiro, as bancas, os caixotes e os cães soltos são varridos do seu caminho. As mulheres silenciam o seu murmúrio e puxam as mangas para baixo e ajustam os anéis nos dedos, desde que foi nomeado chanceler-mor. Os detritos das cozinhas, a tralha dos escrivães e os bancos da gente baixa são atirados para os cantos e para fora da vista, agora que é o secretário-mor do Rei. E ninguém, salvo Stephen Gardiner, corrige o seu grego; não agora, que é reitor da Universidade de Cambridge.
O verão de Henry correu, em geral, muito bem: através do Berkshire, do Wiltshire e de Somerset mostrou-se ao povo nas estradas e (quando não chovia a cântaros) o povo juntou-se ao longo das estradas e aclamou-o. Porque não haviam de o fazer? É impossível ver Henry sem se ficar deslumbrado. Cada vez que o vemos impressiona-nos de novo, como se fosse a primeira vez: um homem maciço, com um pescoço de touro, com o cabelo a recuar, a cara a engordar, olhos azuis e uma boca pequena que é quase feminina. Mede quase um metro e noventa de altura e cada centímetro exprime poder. O seu porte, a sua pessoa são magnificentes; as suas fúrias metem medo, os seus votos e pragas, a suas lágrimas de lava. Mas há momentos em que o seu grande corpo se espreguiça e relaxa, o seu semblante se desanuvia; deixa-se cair a nosso lado num banco e fala connosco como se fosse nosso irmão. Como poderia falar um nosso irmão, se o tivéssemos. Ou mesmo um pai, um pai de um género ideal: como estás? Não estás a trabalhar de mais? Jantaste? O que é que sonhaste ontem? O perigo de um caminho destes é o de que um rei que se senta em mesas vulgares, numa cadeira vulgar, pode ser tomado por um homem vulgar. Mas Henry não é vulgar. Que importa se o seu cabelo está a recuar e a sua barriga a avançar? O Imperador Carlos, quando se olha ao espelho, daria uma província para ver as feições do Tudor em lugar do seu próprio semblante torto, o nariz de gancho quase a tocar o queixo. O rei François, um pau de vassoura, empenharia o seu delfim para ter uns ombros como os do rei de Inglaterra. Quaisquer qualidades que tenham lhas devolve Henry, em dobro. Se são cultos, ele é duas vezes mais culto. Se misericordiosos, ele é o próprio exemplo da misericórdia. Se galantes, ele é o padrão da cavalaria andante, do maior livro de cavalaria que se possa imaginar. Seja como for: em cervejarias de aldeia por toda a Inglaterra culpa-se o rei e dona Anne Boleyn pelo tempo: a concubina, a grande meretriz. Se o rei aceitasse de volta a sua mulher legítima, Catarina, a chuva pararia. E, na verdade, quem duvida de que bastaria para que tudo fosse diferente e melhor que a Inglaterra fosse governada pelos idiotas de aldeia e os seus amigos ébriosIn Hilary Mantel, Bring Up the Bodies, 2012, O Livro Negro, Civilização Editora, Porto, 2013, ISBN 978-972-26-3594-3.

Cortesia de Civilização/JDACT

Poesia. Alberto Caeiro. Música Árabe. «A poesia é o autêntico real absoluto. Isto é o cerne da minha filosofia. Quanto mais poético, mais verdadeiro. As figuras imaginárias têm mais relevo e verdade que as reais»

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Guardador de Rebanhos
[… ]
XVI
«Quem me dera que a minha vida fosse um carro de bois
que vem a chiar, manhãzinha cedo, pela estrada.
E que para de onde veio volta depois
quase à noitinha pela mesma estrada.

Eu não tinha que ter esperanças, tinha só que ter rodas...
A minha velhice não tinha rugas nem cabelo branco...
Quando eu já não servia, tiravam-me as rodas
e eu ficava virado e partido no fundo de um barranco.

XVII
No meu prato que mistura de Natureza!
As minhas irmãs as plantas,
as companheiras das fontes, as santas
a quem ninguém reza...

E cortam-se e vêm à nossa mesa
e nos hotéis os hóspedes ruidosos,
que chegam com correias tendo mantas
pedem Salada, descuidosos...

Sem pensar que exigem à Terra-Mãe
a sua frescura e os seus filhos primeiros,
as primeiras verdes palavras que ela tem,
as primeiras coisas vivas e irisantes
que Noé viu
quando as águas desceram e o cimo dos montes
verde e alagado surgiu
e no ar por onde a pomba apareceu
o arco-íris se esbateu...


XVIII
Quem me dera que eu fosse o pó da estrada
e que os pés dos pobres me estivessem pisando...

Quem me dera que eu fosse os rios que correm
e que as lavadeiras estivessem à minha beira...

Quem me dera que eu fosse os choupos à margem do rio
e tivesse só o céu por cima e a água por baixo...

Quem me dera que eu fosse o burro do moleiro
e que ele me batesse e me estimasse...

Antes isso que ser o que atravessa a vida
olhando para trás de si e tendo pena...»
[…]
Poema de Alberto Caeiro, in ‘Poemas’

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