quarta-feira, 15 de julho de 2015

O Cavaleiro de Olivença. João Paulo O. Costa. «E se Joana, a Louca, rainha de Castela, tivesse amado um cavaleiro português? Mãe do poderoso Carlos V, irmã das duas primeiras mulheres de Manuel I, ficou para a história como a possessiva mulher de ‘o Belo’…»

Olivença 
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«O bronze agitou-se no alto dos campanários e um som triste ecoou por Tordesilhas naquele dia 12 de Abril de 1555. Era Sexta-Feira Santa, dia lúgubre, em que se recordava a paixão e morte de Jesus Cristo, mas o repique fora de horas assinalava um outro falecimento. A rainha Joana, senhora das coroas de Castela e de Aragão, mais suas dependências ultramarinas, partira deste mundo aos setenta e seis anos de idade. Morrera a rainha louca. Mulher arrebatada e apaixonada, nunca aceitara bem as regras da sociedade, ou não fora capaz de se encaixar nelas. Seu modo ingénuo e caprichoso de viver a vida apaixonadamente e suas inseguranças haviam convencido os súbditos de que era incapaz de governar sozinha, apesar de a roda da fortuna a ter tornado na herdeira dos Reis Católicos.
Joana fora tida como incapaz para governar, mas não era uma louca inofensiva. Ela encarnava um poder imenso, que Filipe, o seu marido, tentara tomar para si, ao assumir a coroa castelhana no Verão do longínquo ano de 1506; mas Filipe morrera inesperadamente, três meses depois de desembarcar na Corunha e Joana fora incapaz de tomar as rédeas do poder. A sua instabilidade emocional fora aproveitada por seu pai, Fernando, rei de Aragão, que assumiu então a regência de Castela e, habilidosamente, enclausurou a filha em Tordesilhas, no ano de 1509. A morte de Fernando, em 1516, coincidira com a chegada à idade adulta de Carlos, o filho mais velho de Joana, e este viera da sua Flandres até à Península, não para assumir o governo dos reinos em nome de sua mãe, como príncipe regente, mas para ser proclamado rei, E Joana continuou encerrada na fortaleza, feita masmorra. Carlos viera com seus amigos flamengos e distribuiu por eles títulos e riquezas, como o governo supremo Inquisição (maldita) ou o monopólio do comércio de escravos e depois partiu.
Inquietos, os povos de Castela e de Aragão haviam reagido contra os Flamengos e o usurpador, e os Comuneros entraram em Tordesilhas, no dia 29 de Agosto de 1520, dispostos a libertar a sua rainha Joana. Mas Joana, sempre só desde que enviuvara, fora incapaz de assumir o governo, não quisera assinar um simples papel e talvez não tivesse percebido que lhe estavam a oferecer a liberdade.  A hesitação da rainha e o carácter demasiado popular da revolta tinham levado a aristocracia castelhana a preferir a autoridade do flamengo, e a realeza de Carlos fora salvaguardada na batalha de Vilalar, a 21 de Abril de 1521. Carlos tornara-se, entretanto, no imperador da cristandade e quando regressou à Hispânia, no ano de 1522, consolidou definitivamente a sua autoridade sobre seus súbditos espanhóis e Joana, a rainha legítima de Castela, permaneceu encerrada em Tordesilhas.
Podia ser louca, mas sua legitimidade era indiscutível, pelo que lhe teria bastado um esposo a seu lado, ou mesmo um amante, um amigo, um simples campeão que a apoiasse e que falasse por si, para que o todo-poderoso Carlos V pudesse perder seus  domínios ibéricos. Por isso, o imperador guardou impiedosamente sua mãe na clausura de Tordesilhas, afastada de tentações e de contactos não controlados e governou quase toda a sua vida com um título que não era seu. Tomara-o para si aos dezasseis anos, mas só o herdou, de facto, aos cinquenta e cinco, e pouco depois abdicou, entregando a Espanha e os Países Baixos a seu filho Filipe, e o título imperial, com os domínios dos Habsburgos, a seu irmão Fernando». In João Paulo Oliveira Costa, Círculo de Leitores, Temas e Debates, 2012, 978-989-644-184-5.

Cortesia de CL/TDebates/JDACT