quarta-feira, 20 de maio de 2015

Os Meninos Judeus Desterrados. Orlando Piedade. «… estar prestes a arder na fogueira, mas como a força da fé era maior do que tudo isso… Apesar da minha tenra idade, percebi que havia dois lados. No começo, … por que razão haveria de estar em ambos...?»

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De Portugal para S. Tomé e Príncipe por ordem d’el-rei João II em 1493
«(…) Foi nesse clima que cresci, foi sob o jugo dessa ordem social que os meus pais me passaram aqueles ensinamentos. Cedo aprendi que o cristianismo era a peneira que cobria os raios ardentes da nossa fé, ao mesmo tempo que nos impelia rumo aos esconderijos no submundo secreto da nossa casa. Todas as noites, invariavelmente, percorríamos aquele caminho até à gruta e, sentados no tapete de orações, fazíamos um círculo. O meu pai recorria à geniza, seleccionava o texto sagrado, segundo o seu discernimento, e falava dele para apreendermos as leis de Moisés e as coisas mais puras que podem existir entre os seres humanos. Eu sentia as preocupações do meu pai e o cuidado especial que ele me dedicava nos primeiros tempos. Os meus passos eram meticulosamente seguidos e quase que não podia ter contacto com outras pessoas fora do nosso seio familiar. Mais tarde, fez-me esse e outras revelações, cada vez que tocava nos livros sagrados tinha a sensação de que poderia estar prestes a arder na fogueira, mas como a força da fé era maior do que tudo isso, logo prosseguia. Apesar da minha tenra idade, percebi que havia dois lados. No começo fazia-me uma certa confusão, por que razão haveria de estar em ambos...?

Os pecados dos cristãos-novos estão entregues aos bispos e às cortes da sua igreja. Não os atices Raquel... Já tens corpo de mulher, mas o que, de facto, te faz falta é maturidade. Raquel, Raquel, Raquel... Ganha juízo, miúda. Tu não vais contribuir para a ruína da verdadeira nobreza através da infiltração via casamento. Tem sido letal para eles a mistura de sangue verdadeiro com o de judeus e conversos. A plebe está de olho e, por esse andar, serão empurrados rumo ao desprezo. Ainda hoje tremes quando te lembras das mãos dele a deslizar, embora de forma efémera, entre os teus belíssimos seios, diante de todos, mas sem que ninguém ousasse levantar suspeitas sobre as suas boas intenções. Acredita que ele também guarda na memória aquilo que sentiu. Se fosse o acto pensado, tinha deixado um pouco mais a mão, para sentir os teus mamilos. Ele lamenta e deixa-se assombrar pela sensação fugidia, algo malandra, que lhe escapou na ponta dos dedos. Raquel, Raquel... Deverias interiorizar o pânico que sentiste quando aquela osga caiu tecto abaixo e aterrou precisamente no vão do teu decote e fazer dele, do pânico, o motivo para apagar a doce memória de sentir a mão de Manolo Ortiz, numa tentativa desesperada de te ajudar a livrares-te do pobre bicho que, tal como tu, estava em pânico.
Raquel... Ele, apesar de ser da tua idade, é filho de um nobre, membro da dinastia Ortiz, com grandes ligações ao clero e um dos maiores defensores da Inquisição (maldita) que existe no reino. O que o liga aos teus vizinhos, descendentes do rabino Isaías, é o interesse pelo capital, mas ele condena seriamente a infiltração de sangue converso pela nobreza acima. Por outro lado, não tens o mesmo estatuto, a tua família não tem assim tanto capital, algo que poderia fazer com que eles fechassem os olhos. O jogo começou e ficaste assinalada; danças e rodopias; espanta os teus males e ele deleita-se; não perde ume oportunidade de estar perto de ti. Está a gostar, estás a gostar... Vocês estão a gostar. O carrancudo, se souber, tratará logo de desaprovar porque sabe de onde vem o perigo. Mas és linda e irresistível e ele insiste, mesmo sabendo que uma nega também virá do lado dos Ortiz. As coisas aquecem, ganham interesse, fazem joguitos de pares proibidos. Perderiam vocês o interesse se não fosse proibido? Vá-se lá saber... Ai, não percebes a desaprovação de parte a parte? Então repara bem, Raquel». In Orlando Piedade, Os Meninos Judeus Desterrados, De Portugal para S. Tomé e Príncipe por ordem d’el-rei João II em 1493, Edições Colibri, 2014, ISBN 978-989-689-450-4.

Cortesia de Colibri/JDACT