sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Longe não Sabia. Poesia. Tolentino Mendonça. «A nossa unidade pessoal e a nossa comunhão com os outros só se realiza no encontro inesperado do diverso. Por uma via demorada de escuta, de disponibilidade, de afectivo reconhecimento, da negociação e, por fim, de encontro…»

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A última corrida
«Era um rapaz que partiu
para conhecer o medo
o seu coração arranhado pelas chamas
tropeções de um cego que foge da aldeia
nessa noite
quem conseguiria contar.

De comboio em pensamento seguiu para Bréscia
a última corrida de aeroplanos do século
andava à roda de trinta mil liras
e ele queria muito voar sozinho
sobre florestas.

Ninguém soube mas a sua vida
vista daquele aeroplano maravilhara-o
chegariam os nevões é verdade
novas e novas sombras sobre a terra
mas a sua vida vista do aeroplano era tão grande
como nenhuma outra coisa que conheceu.

Cá em baixo diziam:
o seu voo prolonga-se sobre cada floresta
e desaparece
nós vemos as florestas
mas não o vemos a ele».
Poema de Tolentino de Mendonça, in ‘Longe não sabia


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