sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Augusto Eduardo Nunes. Arcebispo de Évora. Senra Coelho. «O metropolita de Évora inseriu-se no movimento da indómita vontade da restauração mediante a orientação do mundo moderno e tudo pela salvação da humanidade que preenchia a alma, o querer e as estratégias Leão XIII»

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Contexto Político-Religioso no qual viveu Augusto Eduardo Nunes, arcebispo de Évora
«(…) Politicamente, ao pretender criar um quadro constitucional assente no Parlamento, a Constituição de 1911 deu vida ao regime que faria reviver uma série de rupturas, conflitos, confrontações e instabilidades políticas que o caracteriza até 1926. Com tudo isto, multiplicaram-se as formações políticas e a diversidade ideológica. Nunca como então o acesso ao poder foi tão facilitado e ao mesmo tempo a queda desse poder tão rápida e definitiva. A decisão tomada por Portugal de participar na I Guerra Mundial comprometeu todos os ideais da regeneração do país. A crise económica agudizou-se e com ela a conflitualidade social tomou-se constante. Com a economia de guerra e com a crise que se lhe seguiu, a desorientação na política económica tomou-se total. Também os partidos republicanos se encontravam divididos a seguir à guerra. Assim, revelaram bastante dificuldade em gerir o processo político cada vez mais pulverizado entre a agitação operária de base anarco-sindicalista e a reorganização crescente das forças conservadoras, encabeçadas pelas elites católicas e por monárquicos tradicionalistas. A inércia dos governos monárquicos tinha desgastado progressivamente a imagem da Monarquia, que perante a opinião pública se identificava como uma oligarquia. Este facto beneficiou os republicanos, que, depois do Ultimato de 1890, intensificaram a sua propaganda com a finalidade de ganharem uma base social de apoio com vista à conquista do poder. Parece poder dizer-se que o ano de 1890 desencadeou, de uma forma clara e crescente, a crise do regime monárquico, anunciando o princípio do fim do sistema que haveria de desmoronar formalmente no dia 5 de Outubro de 1910.
O papa Leão XIII foi, sem dúvida, o pontífice mais destacado do seu século e também o mais importante entre Bento XIV e Pio IX. A sua política e os aspectos dessa política, nas suas incidências políticas e sociais, a sua orientação, centralizando em Roma as diversas correntes do catolicismo e da igreja, a sua dedicação à causa da Missão mundial, a sua esperança nos grandes movimentos de conversão, o seu regresso à filosofia de São Tomás de Aquino, tudo isso são manifestações de uma indómita vontade de restauração, mediante a orientação do mundo moderno e tudo pela salvação da Humanidade. Depois da sua morte, a 20 de Julho de 1903, a eleição do novo papa interessou aos políticos muito mais do que a eleição de Leão XIII em 1878. Esta realidade comprova que foi um pontificado influente e respeitado entre as nações e os crentes católicos. A este propósito, lembramos que, a 31 de Dezembro de 1900, o arcebispo Augusto Eduardo Nunes fez um sermão na Sé de Évora no qual apresentou um balanço bastante positivo do século que findara. O arcebispo de Évora, um dos mais cultos e intervenientes prelados da altura, não se referiu somente à realidade portuguesa, mas mostrou-se convicto de que no mundo católico, no nosso país e em Évora era possível encarar com esperança o presente e o futuro. O orador foi capaz, por entre luzes e sombras, de apresentar grandes vitórias do século XIX, tais como a luta contra a escravatura e o despotismo e em favor da unidade e solidariedade da família humana. O metropolita eborense lembrou também que durante o século XIX apareceram herdeiros de 1789 com o projecto de eliminar o cristianismo da sociedade e negar a revelação do sobrenatural. Segundo o arcebispo eborense, os herdeiros de 1789 pretendiam suprimir o reinado social de Jesus Cristo; mesmo assim, o catolicismo em geral ter-se-ia revigorado ao longo do século e ganho mais do que perdido. Augusto Eduardo Nunes enumerou ainda um conjunto de sinais positivos e esperançosos para o cristianismo: o maior prestígio do Papado, o impressionante surto missionário, as congregações religiosas melhoradas, a renovação da espiritualidade (devoção ao Sagrado Coração de Jesus, à Imaculada Conceição e ao Ministério do Papa). Todos estes aspectos enchiam de esperanças o arcebispo de Évora face ao século que ia começar. Constatava já como a revivência católica no século XIX iria influenciar o reinado social de Cristo no século XX, capaz de conciliar o que certa modernidade do século XIX tinha dissociado: a fé e a ciência, a religião divina e as leis humanas, a igreja e a sociedade civil.
Vivia-se num tempo em que a Igreja já não conseguia responder litúrgica e pareneticamente às novas expectativas, preocupações e sensibilidades ético-filosóficas e culturais assumidas principalmente pelas elites e por alguns estratos das populações sobretudo residentes nas maiores cidades. Com a liturgia, também a oratória sagrada teve muita dificuldade em acompanhar as novas circunstâncias. Conjuntamente, foi capaz de elaborar a apologética reclamada pelas necessidades do tempo. De facto, o arcebispo de Évora foi um prestigiado orador sacro com amplos recursos literários e doutrinais, riqueza retórica e agudeza apologética. O metropolita de Évora inseriu-se no movimento da indómita vontade da restauração mediante a orientação do mundo moderno e tudo pela salvação da humanidade que preenchia a alma, o querer e as estratégias Leão XIII. Foi no pontificado de Leão XIII que pela primeira vez a Igreja enfrentou a questão social, consequência da Revolução Industrial. O contributo do papa através da Encíclica Rerum novarum demonstra a concessão social do conjunto, que o catolicismo tinha assumido, contrapondo-se a concessão economicista individual da burguesia liberal. O arcebispo Augusto Eduardo Nunes centra a sua tese de doutoramento (1880) nesta sensibilidade de Leão XIII, antecipando-se onze anos à encíclica da questão social». In Senra Coelho, dissertação de Doutoramento, Mondeigneur Augusto Eduardo Nunes, Archbishop of Évora (1850-1920), From the University of Coimbra to Archbishop of ´+Evora in the Context of the First Republica, D. Augusto Eduardo Nunes, Professor de Coimbra, Arcebispo de Évora, Paulus Editora, Lisboa, 2010, ISBN 978-972-30-1481-5.

Cortesia de Paulus/JDACT