sábado, 8 de fevereiro de 2014

A Rainha Adúltera. Joana de Portugal e o Enigma da Excelente Senhora. Marsilio Cassotti. «… dos membros do seu séquito “encomendando os fylhamentos e vivendas de seus servidores a aquelles senhores de Castella com que cada hum mostrava ter mais contentamento de vivir”»

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A Rainha Triste
«(…) Segundo esse cronista, o rei estava obcecado pelo sexo e parecia perdidamente enamorado pela beleza da rainha de Portugal. Algo que não parece provável, por mais bela que pudesse ser a mãe de Joana, a julgar por uma carta que nessa altura o rei Alfonso V de Aragão enviou de Nápoles à irmã Leonor. Nas instruções que o Magnânimo dera ao seu embaixador em Castela, no verão de 1444, para fazer frente aos problemas de Leonor, era-lhe ordenado que transmitisse à sua irmã o pedido expresso de que se resignasse. Nesse memorando, o rei de Aragão anunciava também uma decisão muito importante para o futuro da infanta Joana: a resolução de tomar a seu cargo as sobrinhas, de cujo futuro se ocuparia com maior cuidado, se é possível, do que se fossem as minhas próprias filhas. Essa importante resolução faz supor que Leonor se encontrava doente. Suposição complementada pelo que dela conta a crónica de Rui de Pina sobre um período no qual, desesperada de todo, e vendosse já mal oulhada d'el Rey e da Raynha sua rÍmaa, e com pouca sua ajuda, foyse da Corte pera a cidade de Tolledo, donde constrangida já de grandes mynguoas que a apertavam, soltou quasy toda a jente que tynha.
O cronista refere que na sua chegada a Toledo a rainha ocupou-se em localizar o maior número possível dos membros do seu séquito encomendando os fylhamentos e vivendas de seus servidores a aquelles senhores de Castella com que cada hum mostrava ter mais contentamento de vivir. É possível que a rainha Leonor e Joana se tenham instalado na antiga capital do reino visigodo em finais do verão de 1444. Quando a posição do infante Enrique de Aragão piorou nessa cidade, que até havia pouco tempo estivera em seu poder, a rainha e a filha começaram a receber ajuda de uma mulher a quem Rui de Pina denomina huma Dona María da Silva de Tolledo sem precisar que era neta de um importante magnata português casado com a irmã de um arcebispo de Toledo. Pina conta que D. Leonor, sospirando já per Portugal, ao menos pera lhe sua terra comer o corpo, enviou o seu capelão-mor a Alburquerque com instruções para aí falar com um filho do duque de Bragança e lhe pedir que mediasse com o regente um possível regresso a Portugal nam como Raynha, mas como sua irmaa menor. Segundo este autor, a mediação encontrou o infante Pedro disposto a ouvir a causa da sua cunhada, e o resultado da mesma foi satisfatório. Mas esta versão não corresponde ao conteúdo das cartas enviadas a Leonor de Portugal, nesse período e desde Nápoles, pelo seu irmão Alfonso V de Aragão. Delas se conclui que Leonor pedira ao irmão e à cunhada, a rainha lugartenente de Aragão, que se ocupassem da sua filha Joana assim como de casar as infantas.
Foi a partir de então que a esposa de o Magnânimo, que na ausência do marido governava os reinos aragoneses a partir de Saragoça, Barcelona, Lérida ou Valência, começaria a escrever cartas a vários nobres castelhanos importantes para que ajudassem economicamente Leonor e a filha. Ao sexto dia de Outubro de 1444, a rainha D. María de Aragão enviou a Leonor cinco mil florins de ouro Que, ao que parece, não chegaram ao destino, e mais dois mil a 8 de Dezembro, que desta vez a rainha recebeu. Somas importantes mas que saberiam a pouco a uma mulher que vivera, desde o seu nascimento até aos vinte e cinco anos, na companhia da mulher mais rica da Península Ibérica e que, ao chegar a Portugal, encontrara um reino muito próspero e um marido que a enchera de ricos rendimentos. É provável que o Natal de 1444 tenha sido para Leonor de Portugal o mais infeliz da sua vida. A sua tristeza levaria um nobre português a prestar-lhe auxílio. De acordo com a versão do cronista luso, sendo de suas nessydades sabedor, o conde de Vila Real, primo da rainha, fez-lhe chegar de Ceuta, da qual era governador, uma boa soma douro amoedado. No entanto, a tristeza da rainha não parece ter afectado o carácter alegre que a sua filha Joana estava a desenvolver.
No início da segunda semana de Janeiro de 1445, a rainha de Aragão enviou à cunhada Leonor mais dois mil florins de ouro. Mas a intenção de Leonor de se estabelecer em Alcolea de Cinca, feudo aragonês herdado da sua mãe, seria rotundamente impedida pelo irmão a partir de Nápoles. É possível que a rainha aragonesa não desejasse ter a cunhada por perto e tenha escrito ao marido a pedir-lhe que insistisse com Leonor para permanecer em Toledo». In A Rainha Adúltera, Joana de Portugal e o Enigma da Excelente Senhora, Crónica de uma difamação anunciada, Marsilio Cassotti, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2012, ISBN 978-989-626-405-5.

Cortesia da Esfera dos Livros/JDACT