sexta-feira, 31 de maio de 2013

Um Percurso Humano e Político nas Origens da Modernidade em Portugal. D. João II. Manuela Mendonça. «A acção do 13º rei de Portugal no plano da Expansão também não pode ser ignorada. Um outro tema, talvez mais polémico e sobre o qual se não tem escrito menos, é o da morte do rei. “Envenenado?” Esta a questão…»

Livro dos Copos
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Introdução
«A figura do rei João II (1481-1495) não só tem sido, ao longo dos séculos, objecto de grande curiosidade, como tem constituído matéria sobre a qual muitos autores escreveram já, quer focando aspectos isolados da sua actuação, quer abordando, na sua totalidade, o tempo do seu reinado. De entre os temas mais versados, salienta-se o das conspirações, encaradas quase sempre com a convicção de que o agir do monarca, justo ou injusto que tenha sido, traduziu a sua decisão inabalável de enveredar pelo caminho da centralização do poder real. Talvez por ter sido uma atitude surpreendentemente enérgica para a época e para este reino, muitos autores seus contemporâneos e posteriores, não só portugueses como estrangeiros, sobre ela emitiram as suas opiniões; salientemos Fernando del Pulgar e André Bernaldez, cronistas dos Reis Católicos, Comminnes, que em França registou as memórias de Luis XI, João Mariana, na sua História General de España e Jerónimo Zurita, nos Anais de Aragão, que não deixaram de mencionar este evento, mesmo se o fizeram para condenar os actos praticados.
Um outro tema, talvez mais polémico e sobre o qual se não tem escrito menos, é o da morte do rei. Envenenado? Esta a questão que se tem posto e a palavra que tem dado título a alguns trabalhos e origem a vários debates.
A acção do 13º rei de Portugal no plano da Expansão também não pode ser ignorada. Enumerar aqui os principais autores que se têm debruçado sobre a de abordagem à vida e obra do monarca isso tornou-se desde logo claro; não quisemos, portanto, reduzir a um capítulo, necessariamente deficitário, a matéria que tão brilhantemente alguns autores têm tratado. Foi, pois, opção enveredar por outros aspectos, eventualmente menos conhecidos, mas não menos importantes, da vida de João II. Como tal, essa acção magnífica do sucessor de Afonso V não será por nós tratada, limitando-nos a eventuais referências, porventura indispensáveis à boa compreensão da nossa análise. Também o reinado no seu todo tem sido, ao longo dos séculos, objecto de trabalho de personagens interessados na acção do Príncipe Perfeíto.
Não falando nas crónicas:

NOTA: As duas crónicas completas de João II são as de Rui de Pina, com duas edições, a lª pela Academia das Ciências de Lisboa, em 1792 e a 2ª pela Atlântida Editora, Coimbra, 1950, e a de Garcia de Resende, com 9 edições, a 1ª é de 1545, sob o título O Lyvro das Obras de Garcia de Reesende, à qual para além do texto original, que era apenas a vida e grãdissimas virtudes: e bödades: magnanimo esforço excelëtes costumes e manhas e muy craros feytos do rei, o editor juntou mais alguns relatos; a 2ª edição é publicada em Évora, em 1554, desta vez incluindo-lhe a Miscelânea; as 3ª e 4ª edições, não incluem a Miscelânea e são de 1596 e 1607, respectivamente. É feita em Lisboa e volta a incluir a Miscelânea, em 1622, a 5ª edição, sob o título Chronica dos Valerosos, e insignes feitos del rey Dom Ioam II, que servirá de base às posteriores edições. A 6ª edição surge em Lisboa em 1752 e a 7ª em Coimbra, em 1798. O século XIX, mergulhando as raízes da história pátria na Idade Média relegaria para o obscurantismo o cronista e o rei; daí que a 8ª edição surgisse apenas em 1902, com o título, Chrónica de El-Rei D. João II, contendo a interessantíssima Miscelânea
e com prefácio de Gabriel Pereira. Finalmente surgiu em 1973, uma nova edição, conforme a de 1789, sob o título Crónica de D. João II e Miscelânea, precedida duma completa introdução de Joaquim Veríssimo Serrão. A crónica de Rui de Pina teria sido escrita eventualmente ao longo do reinado de João II e terminada cerca de 1504. Alberto Martins de Carvalho considera que a obra de Rui  de Pina ficou no esquecimento e apenas foi editada cerca de 300 anos mais tarde, por não lhe perdoarem os seus contemporâneos que ele fosse um homem rico; assim, em manuscrito esquecido, ela teria sido objecto de minimização por parte de Damião de Góis, João de Barros e, posteriormente, Alexandre Herculano. Teria igualmente servido de base ao pelágio que dela faria Garcia de Resende entre 1530 e 1533. De modo diferente pensa Joaquim Veríssimo Serrão que, na introdução à Crónica de Dom João II e Miscelânea edição conforme a de 1798, Lisboa, 1973, sem negar que o manuscrito de Pina tenha servido de base a alguns relatos de Resende, demonstra incontestavelmente, pelo confronto dos dois trabalhos, que o moço de escrivaninha de D. João II teve o dom de transformar uma tela numa vistosa galeria pictórica em que o monarca e o homem são amplamente focados. Também nós fizemos um trabalho de confronto, estabelecendo um quadro sinóptico entre os dois textos, para melhor podermos ajuizar destas opiniões.
Acrescentaremos mesmo que Gargia de Resende nos surge apresentando os episódios que com tanta sagacidade os jovens captam, quer pela admiração que causam, quer pelo ridículo que manifestam.

Que são as biografias por excelência, mesmo quando se ficam por parte da vida do monarca, como a de Damião de Góis, outros trabalhos há que demonstram quanto a figura do último rei português do século XV (consideramos João II o último rei do século XV apenas porque ele foi, de facto, o último monarca que exerceu um reinado completo neste século, já que Manuel I começou a reinar em 1495, mas terminou em 1521) marcou os seus contemporâneos e influenciou as gerações mais próximas. A testemunhá-lo recordemos Cristóvão Rodrigues Acenheiro que escreveu em tempo de João III e tanta vivacidade deu à acção de João II. A ideia de rei santo e virtuoso que tão brilhantemente foi abordada, num passado recente, por Albin Beau deixou-a ele traduzida nas últimas frases da crónica quando escreveu afirma-se que Deos fás por elle muitos milagres; e claro deve ser, pois com Deos teve tam bom fim. Igualmente Agostinho Manuel Vasconcelos, na sua Vida y acciones del Rey Don Iuan el segundo, Decimotercio de Portugal manifestou a sua grande admiração pela figura do Rei cujos actos descreveu, agigantando-o no confronto com os reis católicos». In Manuela Mendonça, D. João II, Um Percurso Humano e Político nas Origens da Modernidade em Portugal, Imprensa Universitária 87, Editorial Estampa, Lisboa, 1991, ISBN 972-33-0789-8.

Cortesia de Estampa/JDACT

quinta-feira, 30 de maio de 2013

A Rainha Adúltera. Joana de Portugal e o Enigma da Excelente Senhora. Marsilio Cassotti. «Poucos dias depois, D. Leonor mudou-se com as filhas para a quinta de Santo António dos Olivais, perto de Sacavém, outrora património das rainhas portuguesas e agora propriedade da Câmara do arcebispo de Lisboa»

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«(…) O pequeno rei também assinou nessa mesma altura vários perdões de penas por ter dormido com mulher solteira (...), ficando a parte lesada livre de proceder legalmente para- a reparação material da falta. A necessidade de poder contar com homens na conquista de África, desde a tomada de Ceuta em 1415, fazia com que a justiça civil portuguesa fosse clemente no julgamento da fornicação e do adultério, quando era cometido por homens. Como no resto da cristandade, dormir com mulheres casadas era considerado em Portugal ao mesmo tempo um pecado e um crime. Mas a tradicional pena de prisão, evitada em Navarra com uma avultada multa, podia ser comutada se se aceitasse fazer serviço em Ceuta durante dois a cinco anos.
No início de Julho de 1439, o rei Afonso V e o seu irmão, o infante Fernando, foram levados ao palácio das Alcáçovas de Lisboa. Ali, no final do mês, o rei assinou dois documentos que levam a pensar que a rainha ponderava abandonar a quinta de Monte Olivete. O primeiro, em benefício da parteira da rainha dona Leonor, que recebeu uma mercê em trigo dos lucros do almoxarifado da cidade de Évora. O segundo, a favor de um pedreiro, morador em Lisboa, e da sua mulher, que tinham criado os filhos dos aios da falecida infanta Filipa; o que permite presumir que os servidores dos infantes viviam sob o mesmo tecto que eles, enquanto os seus próprios filhos eram criados por outras pessoas e noutro lugar.
Poucos dias depois, D. Leonor mudou-se com as filhas para a quinta de Santo António dos Olivais, perto de Sacavém, outrora património das rainhas portuguesas e agora propriedade da Câmara do arcebispo de Lisboa, para onde fez levar os seus filhos varões. Entretanto, o infante Pedro mandava espalhar por Lisboa que a rainha o difamava e que isso lhe provocava grande abatimento. Quanto a D. Leonor, o seu coração não tinha repouso com as mudanças e alvoroços que ocorriam todos os dias em Lisboa. Até que, segundo o cronista Rui de Pina, contemporâneo de Afonso V com palavras irosas, e que não cabiam em sua prudencia, mansidão e virtudes, lançou fora de sua casa duas donzellas (...) e assi não consentiu que fizesse parte da sua casa outra donzela, sobrinha do capitão de Lisboa, por estarem vinculadas ao infante D. Pedro.
Além de acusar essas jovens de espiar para o seu cunhado, Leonor concedeu ao aio do rei alguns benefícios que prejudicavam os interesses dos mercadores de Lisboa. Por causa disso, durante uma reunião na Câmara, os poucos partidários da rainha chegaram a vias de facto com os seus opositores, que eram quase todos os homens do povo com alguns ilustres da cidade.
D. Leonor corrigiu. Mas isso não melhorou a situação. O infante Pedro fez saber que estava a considerar a possibilidade de deixar aquele pequeno cargo que lhe fora concedido para se retirar para as suas terras, no ducado de Coimbra. Na realidade, absteve-se de o fazer. Em vez disso, mandou chamar o irmão mais novo, o infante João, duque de Beja, que residia em Alcácer do Sal, e quando este chegou advertiu-o: Apesar de a rainha ser muito virtuosa e discreta e amiga de Deus, nunca vi maior vergonha e abatimento nosso, que devemos ser regidos por ela, pois é mulher e ainda, estrangeira. Os problemas que a mãe de Joana de Portugal enfrentava nessa altura eram habituais na vida das rainhas consortes da Idade Média quando enviuvavam jovens. E a escolha do tutor do herdeiro menor de idade transformava-se numa oportunidade para os varões da família tentarem aumentar a sua influência, à custa da suposta incapacidade das mulheres para governar. Situação que se agravava quando a consorte era estrangeira. Acontecera precisamente o mesmo, em Castela a uma rainha consorte inglesa, tia de Leonor.

NOTA: Catalina de Lencastre, rainha consorte de Castela, regente e num primeiro momento tutora do seu filho, Juan I de Castela; meia-irmã da rainha D. Filipa de Portugal, defunta sogra da rainha D. Leonor de Portugal.

Só se tinham salvado as aparências. Depois de percorrer com os filhos várias residências reais em busca de maior segurança, instalou-se em Alenquer. Daí enviou uma carta circular às autoridades da capital e a outras cidades do reino, na qual negava ter solicitado ajuda aos irmãos, os infantes de Aragão, como se dizia, e pedia que respeitassem o testamento do marido. A Câmara de Lisboa fez caso omisso desse pedido e convocou uma reunião durante a qual um representante, baseando-se em episódios bíblicos e exemplos históricos, argumentou que a regência não podia ser dada a uma mulher. Era a velha ideia defendida desde os tempos de Aristóteles, uma das bases nas quais assentava o pensamento filosófico naquela época. Cinco séculos antes de Cristo, o mestre de Alexandre o Grande afirmara que as mulheres não estavam capacitadas para se ocuparem dos assuntos públicos, porque as irregularidades do ciclo menstrual tornava instável o seu carácter. E também não serviam para ir à guerra porque corriam o perigo de ser violadas e engravidar durante as campanhas. Daí que as lendárias amazonas cortassem um peito, não apenas para disparar melhor o arco mas também como rejeição à gestação e, portanto, à maternidade.
O discurso desse representante da cidade de Lisboa foi seguido de outro que advertiu para o perigo de o rei ser criado por mulheres. No final foi decidido que somente o infante Pedro deveria ocupar-se da regência. A decisão foi comunicada à rainha, a qual respondeu que os membros da Câmara careciam de autoridade para tal decisão, que só podia ser tomada pelos representantes dos três Estados. No entanto, o duque de Coimbra agradeceu a decisão da Câmara lisboeta e aceitou o cargo. Vividas com ansiedade por parte de D. Leonor, estas questões, a educação do herdeiro, a influência das mulheres na educação dos infantes e os critérios de masculinidade que se consideravam necessários para que um homem pudesse ser detentor da coroa, também fariam parte das futuras preocupações da sua filha, a futura rainha de Castela. Alguns desses problemas estavam já na ordem do dia no outro lado da fronteira, devido a uma trégua através da qual os infantes de Aragão tinham conseguido expulsar da corte Álvaro de Luna. Alonso de Palencia, autor de uma famosa crónica difamatória da rainha Joana, escreveria alguns anos mais tarde: Enquanto durou a sua beleza juvenil, a habilidade de Álvaro granjeou-lhe um poder em nada desprezável.

In A Rainha Adúltera, Joana de Portugal e o Enigma da Excelente Senhora, Crónica de uma difamação anunciada, Marsilio Cassotti, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2012, ISBN 978-989-626-405-5.

Cortesia da Esfera dos Livros/JDACT

quarta-feira, 29 de maio de 2013

A Sagração da Primavera. Igor Stravinsky. Olga Roriz. «A linguagem de Stravinsky centra-se principalmente no ritmo, totalmente destacado em sua estética, o núcleo essencial de sua obra. Ela também é caracterizada pela carência de foco e pelo declínio da narrativa, como já se prenunciava na literatura e na pintura»



Cortesia de wikipedia

Faz hoje 100 anos que A Sagração da Primavera se estreou em Paris. Com ela abriu um teatro e começou uma nova Europa. Depois dela nada seria igual e é uma das obras mais revisitadas. In Público,  Lucinda Canelas, Tiago Costa e Vera Moutinho. 


«A Sagração da Primavera, do compositor erudito russo Igor Stravinsky, subverte a estética musical do século XX, dando origem ao Modernismo. A célebre composição musical deste irreverente artista do século passado é hoje considerada um símbolo da musicalidade erudita, mas na época causou polémica ao embalar o ballet em dois actos criado pelo não menos rebelde Vaslav Nijinsky, coreógrafo também originário da Rússia. Este espectáculo narra a trajectória de uma garota marcada para ser entregue como oblação à divindade primaveril, no auge de um ritual pagão, com o objectivo de conquistar para o seu povo uma colheita proveitosa. O cenário foi arquitectado pelo artista plástico e arqueologista Nicholas Roerich, e a estreia se deu em pleno Théâtre des Champs-Élysées, na capital francesa, no dia 29 de Maio de 1913.
Esta obra revolucionou praticamente todas as principais características da música de então, ou seja, o arcabouço do ritmo, a estrutura orquestral, o timbre, a forma, os aspectos harmónicos, a maneira como se utilizavam as dissonâncias, e o valor conferido à percussão, a qual sobrelevava a própria melodia.

http://www.publico.pt/v11050



 

A linguagem de Stravinsky centra-se principalmente no ritmo, totalmente destacado em sua estética, o núcleo essencial de sua obra. Ela também é caracterizada pela carência de foco e pelo declínio da narrativa, como já se prenunciava na literatura e na pintura. Da mesma forma que nestas esferas da criação, observa-se na Sagração da Primavera a renúncia ao universo da lógica e da objectividade, um reflexo do mundo moderno». In Terra, a Sagração da Primavera.

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Os Templários e o Templarismo na Literatura Portuguesa e traduzida para português (século XIV - 2006). Manuel J. Gandra. «’Almeida Garrett’, “Viagens na minha terra”, Lisboa, 1846. Estabelece paralelismo entre templários e Companhia de Jesus. Afirma que os jesuítas foram ‘os templários dos tempos modernos’, no que, em absoluto, não foi inovador…»

Cortesia de wikipedia

«(…) De facto, salvo algumas monografias e contributos pontuais com direito a destaque, frei Bernardo Costa, visconde de Condeixa, Vieira Guimarães, Sousa Viterbo, António Baião, Laranjo Coelho, Garcez Teixeira, Manuel Silva Castelo Branco, Álvaro Barbosa, Isabel Morgado Sousa Silva e Pinharanda Gomes contam-se entre os poucos nomes que importa reter, as Ordens do Templo e de Cristo não conheceram ainda quem, numa perspectiva global, sistemática, sustentada, quer tradicional, quer documentalmente, e lusíada se aventurasse a resgatar a sua história, projecto, praxis e património.

Romance Histórico e Prosa Novelística
[…]
Camilo Castelo Branco, Dois Santos não beatificados em Roma. In Duas Horas de Leitura, Porto, 1857. Interessa o cap. II: Por causa de um hábito de Cristo. O protagonista da narrativa dá pelo nome de Januário Pires Miranda, alferes da 4ª legião, interveniente na batalha do Bussaco, na sequência da qual é agraciado com o hábito de Cristo. Protagoniza um drama porquanto impede o casamento da filha com o namorado por considerar este impróprio, pela simples razão de não possuir o hábito. Os enamorados professarão num convento;
Paul-Henri-Corentin Féval, (1816-1887), Les Tribunaux Secrets. Ouvrage historique: Francs-Juges, Fanatiques, Conspirateurs, Druides, Assassins, Thaumaturges, Inquisiteurs, Prophètes, Mally Maguires, Enfants blancs, Pieds Noirs, Rois, Tribuns, Esclaves, Carbonari, Templiers, Chevaliers de Malte, etc. Origines mystérieuses, révélations historiques, revers des médailles illustres, Paris, 1851-1852, 8 vols  O tomo 5, na íntegra, e o 6, parcialmente, são consagrados aos Templários. Segundo o autor a Ordem sobreviveu à fogueira e o príncipe Philippe d' Orléans foi um dos seus últimos grão-mestres. Na tradução de Manuel Pinheiro Chagas, Os Tribunaes Secretos, Lisboa, 1874, 5 vols.. Reeditado com o título Os Templários: obra histórica, Lisboa, 2001;
Gaspar Frutuoso, Saudades da Terra, Ponta Delgada, 1924. No livro IV (v. 1), cap. XXXVII: Da figura, que se imagina ter a ilha de S. Miguel, do gigante Almourol, que alguns fingiram ser guarda de uma donzela, chamada Miraguarda, n'aquele castelo, assim chamado Almourol do seu nome, que diziam ser seu; em que se descreve toda a sua costa marítima e a figura d'ela, a modo d'este gigante, deitado ali no mar, com as povoações, cabos e enseadas que ao longo d'ela correm como membros e partes de seu corpo. Entrelaçam-se o Palmeirim de Inglaterra, o castelo templário de Almourol e o cavaleiro de Cristo frei Gonçalo Velho, seu comendador e primeiro capitão da ilha açoriana de S. Miguel;
Almeida Garrett, Viagens na minha terra, Lisboa, 1846, 2 vols..Estabelece paralelismo entre templários e Companhia de Jesus. Afirma que os jesuítas foram os templários dos tempos modernos, no que, em absoluto, não foi inovador, visto que o século das Luzes divulgara amplamente a alegada confluência, quer de propósitos quer de destino, de ambos os grémios. O próprio marquês de Pombal, chegou a sugeri-la numa missiva ao Papa, na qual expunha a conveniência da extinção  da Companhia de Jesus: É necessário considerar, com toda a atenção que o caso merece, o que a História nos diz àcerca da severa punição dos templários. Mas até Fernando Pessoa dedicaria à questão alguma atenção, já que subsiste no seu espólio um fragmento deveras sintomático: [...] padre Fulano, tem-me causado pasmo, como católico, o facto de a sua Ordem (Companhia de Jesus) ter um Quarto Voto, e de esse Quarto Voto ser o de obediência ao Papa. Parece-me que semelhante voto é totalmente desnecessário num católico, e até deixa presumir que seria de esperar dele uma falta de obediência. Calculo por isso que o Voto não seja realmente esse. Diga-me: realmente, verdadeiramente qual é o Quarto Voto?;
Alexandre Herculano, A Morte do Lidador 1170, in Lendas e Narrativas, Lisboa, 1851. Após o préstito que conduz a Beja o cadáver do Lidador segue um sacerdote templário psalmodiando em voz baixa aquelas palavras do livro da Sabedoria: Justorum autem animae in manu Dei sunt, et non tanget illos tormentum mortis (Mas as almas dos justos estão na mão de Deus e não as tocará o tormento da morte);
Alexandre Herculano, O Mestre Assassinado: Chronica dos Templarios. 1320 in Panorama. Crónica-romance publicada anónima e plagiada por Campos Júnior. A acção decorre na ilha de Mull, uma das Hébridas, no Mar do Norte, desenrolando-se ao longo de seis capítulos, cujo epílogo se transcreve: Perto da capela de S. João, se abriu a sepultura de Perrail, em um terreno coberto de basto arvoredo. Um montão de pedras se erguia sobre a campa; um verde de acácia, renovado cuidadosamente todos os dias, distinguiu, por largo tempo, este sepulcro de outros que ali se iam abrindo; e ainda em épocas mui posteriores celebravam os membros da ordem o dia do seu orago junto ao lugar do último repouso do Mestre Assassinado;
George James, (1799-1860), Os últimos dias dos Templários, Lisboa, 1851. Versão a partir do inglês por C. S. M. (Saavedra Machado). O prolífico Rainsford James foi o celebrado autor de cerca de uma centena de novelas e romances de índole histórica;
Luís Augusto Rebelo Silva, (1821-?), O Castello de Almourol. Conto do século XVII
In Contos e Lendas, Lisboa, 1873. Por ter falecido prematuramente, o seu autor não chegou a terminar este conto, do qual apenas subsistem três capítulos. Os sucessos que refere esta verídica história são situados no ano de 1663, junto de Paio de Pele, no cenário misterioso do castelo de Almourol e de uma propriedade que Vasco Mascarenhas unira às suas próprias por meio de dote que sua mulher, D. Madalena, lhe trouxera pelo matrimónio».

In Manuel J. Gandra, Os Templários e o Templarismo na Literatura Portuguesa e traduzida para português (século XIV - 2006), pdf.

Cortesia de Wikipédia/JDACT

D. Maria. 1521-1577. Uma Infanta no Portugal de Quinhentos. Paulo D. Braga. «Embora se tenham projectado vários enlaces, como os que a poderiam ter unido a dois filhos de Francisco I, a Henrique VIII, rei de Inglaterra, ou aos Filipe II e Fernando I, “D. Maria”, por motivos muito diversos, nunca casou»

Óleo de Anthonis Van Dashors. 1522. Convento das Descalças Reais. Madrid
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Introdução
«A infanta D. Maria (1521-1577) foi o único fruto do matrimónio que uniu, em 1518, Manuel I (1469-1521), rei de Portugal, à sua terceira mulher, D. Leonor de Habsburgo (1498-1558). Tinha laços de parentesco com alguns dos mais importantes soberanos da Europa: os imperadores Carlos V (1500-1558) e Fernando I (1503-1564) eram seus tios maternos; Filipe II (1527-1598), rei de Castela, Aragão e Nápoles e, mais tarde, de Portugal, era seu primo e sobrinho; Francisco I (1515-1547), rei de França, era seu padrasto. Tendo perdido o pai com escassos meses de idade, foi privada da companhia da mãe em 1523, só a tendo revisto 34 anos volvidos, num curto encontro realizado em Badajoz. Na prática, foi criada pelo meio-irmão mais velho, João III (1502-1557), e pela mulher deste, que era igualmente sua tia materna, D. Catarina (1503-1578). Conheceu ainda um outro rei de Portugal, seu sobrinho-neto Sebastião I (1554-1578). Conviveu também com vários meios-irmãos, cunhados, sobrinhos e sobrinhos netos de ambos os sexos, alguns dos quais viu morrer.
Teve direito a uma vastíssima fortuna, advinda quer dos termos em que foi elaborado o contrato matrimonial de seus pais quer da herança que lhe ficou por morte da mãe, que entretanto se havia tornado rainha de França pelo seu casamento com Francisco I. Seja como for, razões diversas fizeram com que nem sempre tenha usufruído de tudo aquilo a que tinha direito. Culta, como tantas outras figuras femininas do Renascimento europeu, rodeou-se de outras mulheres igualmente dotadas sob o ponto de vista intelectual e exerceu um não despiciendo mecenato literário e artístico. A posteridade guardou sobretudo esta faceta da sua personalidade. Embora se tenham projectado vários enlaces, alguns dos quais de peso, como os que a poderiam ter unido a dois filhos de Francisco I, a Henrique VIII, rei de Inglaterra, ou aos já referidos Filipe II e Fernando I, D. Maria, por motivos muito diversos, nunca casou.

Uma Infanta na Historiografia
Depois de, como seria de esperar, ter sido referida e elogiada até à exaustão em vida, por exemplo, por André de Resende (1545), João de Barros, cujo panegírico é, datável de 1545, embora só tenha sido editado em 1655, Jorge Ferreira Vasconcelos (1567), Damião de Góis (1566) e Jerónimo Osório (1571), e na hora da morre, a infanta D. Maria surgiu em obras de finais de Quinhentos e de Seiscentos aureolada com virtudes diversas. Veja-se os casos dos textos de Pero Rodrigues Soares, autor que morreu em 1628 ou pouco depois, não tendo visto a sua obra publicada, Pedro de Mariz (1594), Duarte Nunes Leão (1610) e frei Luís dos Anjos (1626).

NOTAS: Gabriel Paiva Domingue,, A sempre noiva. Carta de André de Resende à infanta D. Maria, Humanitas, Universidade de Coimbra, Faculdade de Letras. Um inventário muitíssimo incompleto da bibliografia sobre a infanta D. Maria foi feito por Isaltina Figueiredo Martins, Bibliografia do Humanismo em Portugal no Século XVI, Coimbra, Universidade de Coimbra. Damião de Góis, Crónica do Felicíssimo Rei D. Manuel, nova edição, conforme a l.ª, de 1566, parte IV, Coimbra, Universidade de Coimbra, 1955. Estranhamente, apenas chegou até nós um elogio fúnebre da infanta. Cfr. Domingos Maurício, O elogio fúnebre da infanta D. Maria e os amores de Camões, Brotéria, vol. XVI, fasc. 6, Lisboa, 1933. O nefasto acontecimento também suscitou um epigrama da autoria de Inácio Morais, mas o respectivo texto não é conhecido. Cfr. Aires Pereira Couto, Inácio Morais. Percurso Biográfico e Literário de um Humanista de Quinhentista, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 2004. Duarte Nunes Leão, Descrição do Reino de Portugal, transcrição do texto, notas, aparato crítico e biografia do autor por Orlando Gama, estudos introdutórios de António Borges Coelho, Universidade de Lisboa, 2002.

Entre 1653 e 1668, data da sua morte, frei Miguel Pacheco redigiu, em castelhano, uma importante obra biográfica sobre a infanta. Tendo começado a ser impressa em Madrid, tarefa essa que se interrompeu com a morte do autor, veio depois a sair dos prelos de uma tipografia de Lisboa, em 1675. Neste livro elogiam-se as virtudes de D. Maria, que deveria servir de modelo a D. Isabel Luísa Josefa, filha do então príncipe regente e herdeiro da Coroa portuguesa, o futuro rei Pedro II. Frei Miguel Pacheco era regular da ordem de cristo, fora lente no convento de Tomar e, quando redigiu a sua obra, desempenhava as funções de administrador do hospital real de Santo António dos Portugueses em Madrid.
O século XVIII primou por alguma falta de originalidade. Quem escreveu sobre a infanta D. Maria limitou-se, quase só, a glosar autores do passado, sobretudo frei Miguel Pacheco. Disso são exemplos Manuel Tavares (1734), João São Pedro (1736), António Caetano Sousa (1737), José Pereira Baião (1737) e Diogo Barbosa Machado (1751). Entretanto, a infanta ia merecendo as atenções de autores do século XIX ou dos inícios do XX que, na maior parte dos casos, se baseavam na obra de frei Miguel Pacheco, citando-o ou não. Os seus trabalhos não constituíram propriamente contributos originais. Foi o que se passou com Fonseca Benevides (1828), conde de vila Franca (1884), António da Costa (1892), J. P. Franco Monteiro (1893) e Francisco Paula Villa-Real y Valdivia (1899).'

Marcantes, depois de frei Miguel Pacheco, foram alguns aurores que publicaram nos alvores do século XX, Carolina Michaëlis de Vasconcelos (1902), Vítor Ribeiro (1907) e Gomes Brito (1907-1910). A primeira, fez a biografia possível da infanta, dando particular atenção aos aspectos relacionados com a faceta cultural. Vítor Ribeiro esclareceu aspectos relacionados com o interesse de D. Maria quer pela zona da Luz quer pelos mais desfavorecidos. Gomes Brito estudou três livros de tenças testamentárias da infanta, publicou um deles e trouxe algumas contribuições esparsas para a biografia da filha de Manuel I e D. Leonor. De referir ainda, da mesma época, um pequeno texto de Joaquim Araújo (1909), que revelou alguns dados soltos, até então desconhecidos». In Paulo Drumond Braga, D. Maria, 1521-1577, Uma Infanta no Portugal de Quinhentos, Edições Colibri, Lisboa, 2012, ISBN 978-989-689-244-9.

Cortesia de Colibri/JDACT

Os Templários e o Templarismo na Literatura Portuguesa e traduzida para português (século XIV - 2006). Manuel J. Gandra. «… assumi-la constituem condições ‘sine qua non’ para a efectiva compreensão das condições subjacentes ao advento do estado português. Ambos, a Ordem do Templo e Portugal remontam ao ano de 1128»

Cortesia de wikipedia

«O catálogo de um compêndio de histórias em torno de um tema histórico que concita a curiosidade de um público cada vez mais vasto. Com efeito, raros foram os dramas humanos que, tal como aquele protagonizado pela Ordem do Templo, suscitaram paixões tão díspares, contraditórias e persistentes. A copiosa bibliografia, antiga e moderna, disponível, apesar de nem sempre imaculada, constitui indício seguro da perenidade se não do ideário templário, pelo menos da inquietação que enigmas nunca cabalmente esclarecidos, como o do seu lendário tesouro ou do misterioso ídolo que alegadamente adoravam, tem persistido em alimentar, o único estudo, em vernáculo, acerca da inquirição instaurada em França pelo Santo Ofício (maldito) aos templários, saiu da pena de Vieira de Areia, O Processo dos Templários, Porto, 1947.
A possibilidade da sobrevivência da Ordem após a sua suspensão canónica, em 1308, também não é questão despicienda. A avaliar pela profusão de sociedades, umas discretas, outras secretas, que se reivindicam herdeiras do Templo, essa parece ter-se tornado, pelo menos desde o século XVIII, pretexto bastante para a reinvenção de inauditos ritos iniciáticos, creditados, de forma quase sempre anacrónica, aos Templários. Tais constatações são verídicas também para Portugal.
Porém, o público não dispondo aqui de alternativas credíveis, uma vez que são raros os investigadores independentes e os académicos que não fogem do assunto, como se diz que o diabo foge da cruz, é compelido a consumir produtos importados, invariavelmente de qualidade duvidosa. Acresce a tudo isto a desvantagem adicional de, geralmente, esses produtos ignorarem, omitirem ou subvalorizarem o papel da Ordem de Cristo, autêntica sucessora e herdeira do Templo, cuja práxis e projecto adoptou, nacionalizando-os, donde a pertinência da designação de Ordem Templária de Portugal, proposta por Fernando Pessoa. O Infante Henrique logrou reaver para a Ordem de Cristo a maior parte das prerrogativas e privilégios que haviam sido apanágio do instituto militar que Clemente V condenara ao limbo. A negligência e a deserção por parte dos especialistas nacionais tem, por outro lado, facilitado a adopção, bem como a implantação de um elevado número de elucubrações fantasiosas e infundadas, produzidas ora por franco-atiradores, ora por dignatários ou simples filiados em associações neotemplárias portuguesas ou transnacionais.
A utilidade do empreendimento chegou a merecer, convém recordá-lo, o reconhecimento de autoridades como Pedro A. Azevedo ou Jaime Cortesão, o qual sublinharia ainda a necessidade de conduzir tal estudo ponderando o quanto do tesouro templário, espiritual, mas também material, terá sido investido na preparação e concretização da expansão marítima, bem como na consolidação do Império português.
Com esse desiderato em mente dedico-me desde há cerca de vinte e cinco anos à pesquisa dos testemunhos templários e templaristas na história e na cultura lusas. Em vários escritos e comunicações orais, conferências e visitas guiadas tenho vindo a abordar aqueles que considero os aspectos mais relevantes dessa herança, com a convicção de que estudá-la, divulgá-la e, finalmente, assumi-la constituem condições sine qua non para a efectiva compreensão das condições subjacentes ao advento do estado português (ambos, a Ordem do Templo e Portugal remontam ao ano de 1128), mas igualmente das circunstâncias que poderão ter condicionado o movimento da sua história, concitando o respectivo destino, ainda incompletamente cumprido, consoante a avisada intuição do poeta.

Romance Histórico e Prosa Novelística
Anónimo A Torre do Templo. In Archivo Popular, v. ??? (18??);
Matilde Asensi, Iacobus. Plaza & Janés, 2000, Tradução do castelhano: Iacobus: romance histórico, Lisboa, Esquilo, 2002;
Barbara Escrava (pseud. Yvette Centeno), As Muralhas, Lisboa, Eetc., 1986. Tomar é um dos cenários da acção e os templários um dos pretextos da trama. Reed. in Os Jardins de Eva (Lisboa, Asa, 1998);
Pierre Barbet, Baphomet's Meteor, Londres, Daw Books, 1972, Tradução portuguesa de Eurico da Fonseca: Os Cruzados do Espaço (Lisboa, Livros do Brasil, 1979);
José Brak-Lamy, O Pupilo de Gualdim Pais, in Ecos de Tomar (17 Jun. 1923);

In Manuel J. Gandra, Os Templários e o Templarismo na Literatura Portuguesa e traduzida para português (século XIV - 2006), pdf.

Cortesia de Wikipédia/JDACT

terça-feira, 28 de maio de 2013

Almocreve de Petas ou Moral Disfarçada, para Correcção das Miudezas da Vida. José Rodrigues da Costa. Entre os Pastores do Tejo. Josino Leiriense. «… achara hum sugeito de sã consciência hum papel de poesia, que mostra ser muito antigo, e traducção muito rara pela energia da sua locução, armonia, e suavidade de seus versos, e o quer restituir a quem o perdesse…»

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De arêa, cal, e pedra os que edifícão baixas, mas necessárias miudezas, as Torres erguem, que tão altas ficão.

Arroios 17 de Abril
«Avisão do Lumiar, que na estrada do Campo Grande da parte do Ferrador, que fica ao Norte, achara hum sugeito de sã consciência hum papel de poesia, que mostra ser muito antigo, e traducção muito rara pela energia da sua locução, armonia, e suavidade de seus versos, e o quer restituir a quem o perdesse, logo que mostre com testemunhas ter possuído o original da presente Obra». In Almocreve de Petas ou Moral Disfarçada, para Correcção das Miudezas da Vida.

A Aranha da boa flor faz má peçonha; o estomago damnado, em mal converte, qualquer, que nelle bom licor suponha.

Ao rio de Lessa
Ó Rio de Lessa,
Como corres manso;
Se eu tiver descanço,
Em ti se começa.
Sempre socegados
Vão teus movimentos:
Não te turhão ventos,
Nem tempos mudado.

Corres por arêas,
E bosques sombrios:
Não te turbão rios,
Nem fontes alhêas.
Nasces de hum penedo
Tosco, e descomposto:
A ti mostra o rosto
A manhã mais cedo.

A Aurora em nascendo,
Quando estás mais liso,
Com alegre riso,
Em ti se está vendo.
Quando o mar não sôa,
E passão mil vélas,
Em ti faz capelas
Com- que se coroa.

De álamos cercados
De viçosa hera,
Sempre a Primavera
Coroa teus prados.
Logrem teus salgueiros
Mil tempos serenos:
Nunca serão menos
Os teus amieiros.

Por ti cantão aves
Só por te ver quedas,
Mil cantigas ledas,
E versos suaves.
De laços, e redes
Crião sem receio;
Seguras no seio
De teus bosques verdes.

Dem-te as noites somno,
E com larga mão
Flores o Verão,
Fructos o Outono.
Sombra no Estio,
Sem nenhum resguardo;
Neves dê ao prado
O Inverno frio.

Por ti canta Abril,
Quanto cuida, e sonha,
Ora com sanfonha,
Ora com rabil.
Quando se levanta,
Quando o Sol mais arde,
Assim canta á tarde,
A noite assim canta.

Para que são, Maio ,
Tantas alegrias,
Pois teus longos dias
Passão como raio?
Por muito que tardes,
São tardanças vãs:
Forão-se as manhãs,
Ir-se-hão as tardes.

Para que te gabas
De teus vãos amores?
Para que são flores,
Pois tão cedo acabas?
Em espaço breve
Chega ao mar o Douro:
Os cabellos de ouro
Se fazem de neve.

Ò rio de Lessa,
Fructos em Janeiro
Nascerão primeiro
Que de ti me esqueça.
Primeiro era Agosto
Nevará sem calma,
Que o tempo desta alma
Aparte teu rosto.

Algum tempo manso,
Deos o ordene assi,
Em que torne a ti
Com algum descanço.

In José Daniel Rodrigues da Costa, Entre os Pastores do Tejo, Josino Leiriense, Almocreve de Petas ou Moral Disfarçada, para Correcção das Miudezas da Vida, Com licença do Desembargo do Paço, Officina de J. F. M. de Campos, Alfredo David, Encadernador, Lisboa, 1819.

Cortesia de Alfredo David/JDACT

O Martírio do Infante Santo e a Expansão Portuguesa (Século XV). Renata Sousa Nascimento. «Sallah ben Sallah aguardava o exército cristão em Tanger. O exército mouro cercou os portugueses, cortando-lhes a comunicação com os navios. Sem opção os portugueses aceitam as exigências dos mouros»

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 O Martírio do Infante Santo e a Expansão Portuguesa (Século XV)
«As narrativas sobre o desastre de Tânger, 1437, e o martírio do Infante Santo (?) Fernando tem sido objecto de estudo desde a célebre crónica de frei João Álvares, que tem sua primeira versão editada em 1527 tendo por nome Chronica dos Feytos, Vida, morte do Infante Fanto D. Fernando que Morreo em Fez, posteriormente foi também editada em Coimbra em 1577. Para Serrão (1999), as duas edições correspondem a momentos de crise na história da expansão portuguesa em Marrocos. O alargamento do reino português fazia parte do projecto expansionista já iniciado em 1415 com a conquista de Ceuta. Ao ocupar Ceuta, Portugal ia tão longe quanto possível na reserva de espaços ao seu ulterior projecto expansionista...era pois triunfo de grande valor a ser exibido perante Castela e aos olhos atentos dos restantes reinos cristãos e do papa. Desde seu início o estabelecimento dos portugueses em África foi realizado sob o signo de Cruzada. O alargamento da conquista marroquina dividiu opiniões, mas a possibilidade de uma política expansionista de carácter internacional e a defesa da fé cristã frente ao Islã, numa época em que o perigo turco no Oriente inquietava a Europa, era um objectivo que a todos interessava.
Para dar continuidade ao projecto expansionista e proteger Ceuta era preciso ocupar mais praças no norte africano (num período de pouco mais de cem anos, ou seja, entre 1415 e 1521, Portugal conquistou, ocupou e construiu no Norte da África um conjunto significativo de cidades e praças fortes, mantendo aí uma presença ininterrupta, sobretudo de caráter militar). A expedição a Tânger foi organizada durante o reinado do monarca Duarte. Nas Cortes de Évora de 1436 foi decidido apoiar a iniciativa. Segundo o cronista Rui de Pina os principais entusiastas da expedição foram os infantes Henrique e Fernando. Em 1437 a expedição partiu de Portugal:
  • Assente, por decisão régia, o ataque à praça marroquina após complexos trâmites que não importa aqui rever, o Infante e os que o acompanhavam, entre eles, naturalmente João Álvares, entraram a 25 de Julho no navio ancorado, em frente da cidade de Lisboa, o qual seguiu para o Restelo, voltando o Infante à capital para se despedir dos soberanos. Era uma quinta feira, 22 de Agosto, quando a armada partiu do Restelo, e, cinco dias mais tarde, estava em Ceuta. Em 9 de Setembro foi repartido o contingente em duas frações, seguindo por terra a maior delas, apesar dos perigos que o caminho oferecia. Chegaram finalmente à vista de Tanger no dia 13.
Foram 37 dias de luta. As fontes divergem quanto à iniciativa de um acordo, mas a maioria afirma terem sido os portugueses a proporem um armistício. A preeminente derrota frente aos mouros devido à falta de homens e de provisões e a qualidade das fortificações da cidade de Tanger impediram o sucesso da empreitada. Outro factor que também colaborou com a derrota portuguesa frente aos mouros foi a fraca estratégia e o facto de que estando os portugueses demoradamente em Ceuta tiveram os inimigos tempo hábil para se prepararem para a defesa. Em 12 de Outubro de 1437 o infante Henrique, então chefe da expedição, decidiu-se pela rendição. Sallah ben Sallah que aguardava o exército cristão em Tanger já havia recrutado 7000 homens. O exército mouro cercou os portugueses, cortando-lhes a comunicação com os navios. Sem opção os portugueses aceitam as exigências dos mouros. Segundo Moreira,  as condições da rendição seriam:
  • Os mouros deixavam ir livremente os portugueses, apenas com a roupa do corpo;
  • Todo o material militar, assim como os cavalos, que estavam no arraial seria entregue aos mouros;
  • A cidade de Ceuta deveria ser devolvida;
  • O rei Duarte teria que estabelecer com eles, por mar e por terra, paz definitiva, assim como com todos os mouros da Berberia;
  • Sallah Ben Sallah daria seu filho como garantia de segurança de embarque dos cristãos, sem confrontos;
  • Como garantia da entrega de Ceuta, assim como todos os seus cativos, ficaria refém o Infante Fernando acompanhado por um pequeno grupo.
Os debates que envolvem o desastre de Tanger são vários:
  • Rui de Pina acusa o infante Henrique pelo insucesso da empreitada. Sabe-se, porém que durante cinco meses o Infante manteve-se em Ceuta acompanhado da maioria de seu exército. Procurava garantir que a cidade não fosse entregue e tentou por todos os meios resgatar seu irmão; 
  • Clínio Amaral, 2009, em artigo sobre as discussões historiográficas sobre o Infante Santo afirma que os debates sobre a derrota em Tanger trouxeram a luz os motivos que levaram o Infante Fernando a participar da expedição;
  • Para Luís Albuquerque, o infante Fernando optou por essa aventura devido à sua ambição em aumentar a fortuna, cujo valor considerava insuficiente. No entanto, acabou numa masmorra, morto, abandonado por razões de Estado, mas transformado em santo (?) pelo imaginário popular.
Nas cortes de Leiria de 1438 foi decidida temporariamente a sorte de Ceuta e consequentemente dos cativos. Lisboa, Porto, o Algarve, o grosso da nobreza e altos dignatários da Igreja eram pela conservação da praça e logicamente pela continuação do projecto. Pelo que auferimos das cortes alguns concelhos e os infantes Pedro e João eram pela entrega de Ceuta. Diante do impasse a resistência aos mouros foi a posição assente. No mundo ocidental, especialmente no contexto português da época, a mentalidade cruzadística e a missão preconizada de defesa da fé cristã frente à muçulmana não podem ser desprezadas como razões suficientes para o não cumprimento do acordo e o abandono do Infante Santo no cativeiro. O desastre militar e o impasse político afectaram profundamente o rei Duarte. Como rei não poderia desistir de Ceuta, mas obviamente se sentira infeliz com a sorte do irmão. Em Setembro de 1439 morre o rei em Tomar. A crise sucessória que tomou conta do reino impediu que se prosseguissem as negociações relativas à libertação dos cativos. Desse modo, abandonado à própria sorte, morre em cativeiro o Infante Fernando (1443)». In Renata Sousa Nascimento, O Martírio do Infante Santo e a Expansão Portuguesa, Século XV, Universidade Federal de Goiás, Anais do XXVI Simpósio Nacional de História, ANPUH, São Paulo, 2011.

Cortesia de ANPUH/JDACT

O Mistério do Infante Santo. Jorge Sousa Correia. «… deram lugar a um brilho intenso, louco, gerador da mais incontida agitação. - Promessa cumprida! Promessa cumprida! - clamava o rei, de um lado para o outro da sala pouco folgada, elevando a voz de cada vez que pronunciava as palavras»

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«(…) Àquela hora da noite estaria sua senhoria de pé? Recebê-lo-ia? Estenderia a sua mão até junto da dele? Deixá-lo-iam ao menos chegar perto do rei?, tudo perguntas que o cavaleiro até chegar ao destino não podia responder. Encurtando o caminho, o mensageiro subiu a colina na direcção do Castelo de São Jorge, onde o rei dormia a essa hora o sono dos heróis. Ali chegado, verificou espantado como as portas se lhe abriram assim que anunciou ser enviado do adail-mor Diogo de Bairros. Aquela surpreendente facilidade mais reforçou nele a importância da missão que o levava antes de todos os tripulantes à casa do poder real, sentindo um desejo enorme de saber do que tratava a missiva que transportava, uma tentação imprópria, que o mensageiro logo reprimiu, não se atrevendo a quebrar o lacre que testemunhava a inviolabilidade da carta e a identificação da origem. Finalmente franqueou as últimas portas até à antecâmara onde o rei já o esperava. Lá dentro, a visão do monarca foi para ele uma experiência única, ao contemplar o maior senhor de Portugal nos seus mais simples preparos.
Vestido apenas com umas bragas feitas de linho bragal, enfiadas à pressa quando o informaram da presença do mensageiro, Afonso V mostrava à reduzida audiência um peito rijo, musculado, reflexo da constante prática de cavalaria e do exercício das armas. Embora tivesse fama de cuidar muito bem da sua imagem, uma vaidade que o distinguia entre outros da sua condição, naquele momento, em que mal controlava a emoção, o rei excluía mesuras e etiqueta inoportunas. Cá está o rei em pessoa. Desprovido, natural, um homem como os outros, rememorava o cavaleiro. O que se seguiu foi uma autêntica desilusão para o enganado homem, não tanto pelo prémio, que acabaria sempre por ganhar, mas porque perderia o melhor do espectáculo. - Meu muito amado senhor - reverenciou-se o mensageiro com um joelho por terra, a mão direita no peito, a cabeça baixa e a carta na outra mão, aquela que lhe impulsionava o braço ao encontro da mão do rei. Não terminou a frase. Afonso V incapaz de controlar a ansiedade, interrompeu-o deseducado.
 - Deixai-vos de preâmbulos, dai-me célere o documento que trazeis convosco, posto que mal posso esperar - disse-lhe, injusto, enquanto ágil no gesto lhe arrancou o escrito da mão. Precipitado, o monarca voltou as costas ao surpreendido cavaleiro e a todos que estavam presentes na sala, seguindo-o apenas o camareiro, seu confidente e homem de confiança, para nos aposentos mais resguardados ler o conteúdo do documento que há tanto tempo esperava com impaciente expectativa. Lá dentro, num gesto sem reflexão, abriu logo a missiva, procurando nas palavras escritas uma justificação para estar acordado àquela hora. Então, numa reviravolta estonteante, a alegria invadiu o rosto do monarca, traindo nele a pose real que a notícia desfazia e a hora autorizava. A mensagem chegava com as notícias esperadas. Num ápice, os olhos, estremunhados pelas poucas horas de sono, deram lugar a um brilho intenso, louco, gerador da mais incontida agitação. - Promessa cumprida! Promessa cumprida! Promessa cumprida - clamava o rei, de um lado para o outro da sala pouco folgada, elevando a voz de cada vez que pronunciava as palavras.
Deteve-se, por fim, fulminado pelo transcendente momento que estava a viver, caindo desamparado de joelhos diante do oratório a um canto dos aposentos. Mãos unidas, pescoço hirto, rosto erguido ao alto, lá foi perscrutando o artefacto litúrgico onde estaria a imagem insubstancial de Deus. Agradecia e evocava a memória do pai, o falecido rei Duarte, a quem tinha feito aquela promessa, um voto que não lhe foi requisitado, antes assumido por uma criança sem idade para reinar, e que, desde tenra idade, quando começou a ter entendimento, sempre conviveu com o olhar triste do pai, sem meios nem apoios para resgatar o ente querido deixado como refém, para que outros sobrevivessem pelo seu gesto.
A sua obsessão terminava naquele dia. Dali em diante, o rei não queria saber de mais nada a não ser o modo como haveria de festejar a novidade, pois o Africano só pensa nas grandes celebrações que vai realizar, dando-lhes o brilho e o significado que o instante merece, sem descuidar em momento algum a sua própria promoção. Não ignora, contudo, que só no final dos festejos poderá gozar os louros do seu empenhamento, porque ao receber a missiva de Bairros, naquela noite, só estava concluída mais uma fase da operação. A seguinte começaria logo depois de mais umas horas de sono, quando desse início aos preparativos que tão grande acontecimento exigia.
Mas para quê tanta precipitação? Afonso V já esperou tantos anos pela conclusão quase feliz do acontecimento, esperará algum tempo mais até que se perceba por que razão reza e dança com uma carta na mão, e só depois terá legitimidade para comemorar.

O Princípio
Na madrugada de 14 de Agosto de 1433, João I deu o último suspiro. O velho rei, após quase cinquenta anos de reinado, um dos mais longos da monarquia portuguesa, cederá o cadeirão real ao primogénito da Ínclita Geração». In Jorge Sousa Correia, O Mistério do Infante Santo, A Revelação dos Pecados da Ínclita Geração, Clube do Autor, Lisboa, 2013, ISBN 978-989-724-067-6.

Cortesia de C. do Autor/JDACT

segunda-feira, 27 de maio de 2013

A Literatura Novelística na Idade Média Portuguesa. Luciano Rossi. «… se retoma o motivo da monja grávida, contaminando-se com um outro, difusamente exposto na cantiga 94ª: “o da fugitiva cujo lugar fora ocupado pela Virgem”. Os elementos da narração que haviam sido apenas aflorados na sétima cantiga são aqui habilmente desenvolvidos»

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Literatura de Corte: Cantigas de Santa Maria e Cantigas de Maldizer e D’escarno
«(…) Abertas às solicitações mais diversas, as Cantigas de Santa Maria reelaboram originalmente motivos narrativos de várias origens: remontam naturalmente à tradição popular, às narrativas marianas em latim medieval, aos Miracles de Nostre Dame de Gautier de Coinci, mas reproduzem também, muitas vezes, episódios da vida vivida, temas clássicos, contos devotos e também profanos. A colectânea apresenta-se-nos como uma obra ainda em elaboração que se vai enriquecendo com novos textos até ao fim da vida do rei Afonso. O monarca aparece-nos como um hábil narrador (da maior utilidade para a análise dos textos é a magistral edição dirigida por Walter Mettmann, um verdadeiro monumento da filologia românica ibérica). Reelabora a matéria de forma original, reservando-se muitas vezes para regressar aos temas preferidos e desenvolver-lhes os aspectos inéditos, ao mesmo tempo que também utiliza sabiamente no conto os recursos do acompanhamento musical.
Pense-se, por exemplo, no tema da abadessa prenhe, que veremos desenvolvido, com recursos literários bem diferentes, também pelo autor do Orto do Esposo: a ela é dedicada a sétima das cantigas em honra da Virgem: Esta é como Santa Maria livrou a abadessa prenne, que adormecera ant’o seu altar chorando. Era um conto muitíssimo difundido na Idade Média, que figurava nas colecções em latim medieval, onde o vai buscar o compilador cisterciense do Orto, nos Miracles de Nostre Dame, nos Conti morali de um anónimo de Sena, etc.
Enquanto as outras redacções, com maior ou menor ironia, parecem todas adaptar-se, no entrecho e nos pormenores narrativos, ao modelo latino medieval, Afonso não parece preocupar-se com os seus antecedentes, ainda que seja evidente o conhecimento, pelo menos, da versão de Gautier de Coinci, cortando  da história a secção que lhe interessa e reservando-se para desenvolver num outro lugar (cfr. as cantigas 55 e 94, alguns dos motivos que aqui pusera de parte. Assume, portanto, grande relevo a ingenuidade estupefacta da abadessa que adormece chorando diante do altar, enquanto se exacerba a contraposição entre o erro da mulher e a alegria do milagre que a liberta, com o qual de resto o conto se conclui, sem o apêndice da confissão pública, como nas fontes, e sem que seja feita qualquer alusão relativa à sorte da criança precocemente dada à luz e enviada para Soissons por exigência da rima, nas outras redacções era, em vez disso, educada por um santo e destinada a tornar-se bispo:

Mas a dona sem tardar
a Madre de Deus rogar
foi; e, come quen sonna,
Santa Maria tirar-
lle fez o fill’e criar-
lo mandou en Sanssonna.

Com poucos traços são analisadas todas as etapas essenciais da narração, com aquela rima em -onna que aparece em posição estratégica para pôr em comum lugares distantes. O pecado, devido às más artes do diabo:

Mas o demo enartar-
a foi, por que emprennar-
s’ouve dun de Bolonna,

A artificiosa hilaridade com que a abadessa se apresenta ao bispo, interpelado pelas monjas hostis:

E fórona acusar
ao Bispo do logar,
e el ben de Colonna
chegou y; e pois chamar-
a fez vo sen vagar,
leda e mui risonna…

A reabilitação final:

e pois lle vyu o so,
começou Deus a loar
e as donas a brasmar,
que eran d’ordin d’Onna…

Mas, prosseguindo na leitura da colectânea, eis que na 55.ª cantiga de Afonso se retoma o motivo da monja grávida, contaminando-se com um outro, difusamente exposto na cantiga 94): o da fugitiva cujo lugar fora ocupado pela Virgem. Os elementos da narração que haviam sido apenas aflorados na sétima cantiga são aqui habilmente desenvolvidos. A figura do sedutor, ímpio e enfatuado, é um padre verdadeiro, un preste de corõa, que não tem escrúpulos em abandonar a mulher quando se apercebe que ela está grávida, depois de a ter longamente mantido consigo em Lisboa, assume contornos precisos:

… enton o crerig’astroso / leixou-a desanparada,
e ela tornou-sse logo / vergonnosa e coitada,
andando sempre de noite / come sse fosse ladrõa.

Paira sobre a história uma indefinível atmosfera de prodígio, quando, no seu regresso ao convento, a monja é acolhida sem surpresa, sem que ninguém mostre ter notado a sua longa ausência. O filho que tem no seio é-lhe levado por um anjo e a mãe não consegue voltar a vê-lo senão quando já velha, numa cena de alegria, como todas em que se manifesta a intervenção da Virgem, plena de ardor místico». In Luciano Rossi, A Literatura Novelística na Idade Média Portuguesa, Instituto de Cultura Portuguesa, CV Camões, Instituto Camões, volume 38, série Literatura, 1979.

Cortesia de Instituto Camões/JDACT