domingo, 31 de março de 2013

A Primeira Rainha de Portugal. Dona Teresa. Prefácio de G. Oliveira Martins. Marsilio Cassotti. «… o facto de se tratar de uma mulher que, segundo os autores clérigos, não deveria exercer autoridade pública e por ela se ter oposto ao bispo Diego Gelmírez, figura que a História visava enaltecer»

Estátua de Vimara Peres
O ramo portucalense do qual descendia D. Teresa encontrava-se registado nos cartulários dos mosteiros com árvores genealógicas que às vezes chegavam à oitava geração. Era a melhor forma de evitar controvérsias na altura de realizar a divisão de bens ou colmelum. Graças a esses pergaminhos, ela sabia que descendia directamente de Vimara Peres, repovoador do Porto por volta de 868 e fundador da cidade de Guimarães.
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«Houve, porém, uma continuidade na actuação do conde Henrique e de seu filho Afonso, o primeiro rei português, que importa salientar, quer nos sentidos militar e estratégico, quer relativamente à política e à administração. E qual o papel de D. Teresa na orientação e condução dos negócios públicos do condado e futuro reino? Uma análise serena e crítica dos documentos e dos factos históricos que chegaram até nós permite a recusa das simplificações, percebendo-se que houve por parte de D. Teresa uma preocupação e uma atitude de independência e de autonomia, perante a sua irmã D. Urraca e as ambições de Santiago de Compostela, que ou se tornou equívoca em determinado momento ou assumiu o risco, considerado perigoso pelos barões de Entre Douro e Minho, de se deixar envolver nas querelas galegas, que poderiam conduzir à impossibilidade de cortar o cordão umbilical relativamente à monarquia de Leão e Castela.
Como tem salientado José Mattoso, não podemos esquecer que os elementos chegados até nós sobre D. Teresa, através da História Compostelana, são influenciados negativamente por um duplo preconceito:
  • o facto de se tratar de uma mulher que, segundo os autores clérigos, não deveria exercer autoridade pública e por ela se ter oposto ao bispo Diego Gelmírez, figura que a História visava enaltecer.
Segundo o referido José Mattoso:
  • tentando encontrar o sentido das intervenções políticas que lhe conhecemos, não podemos deixar de ver nela uma personalidade ambiciosa, fortemente convencida do seu direito a herdar um dos Estados governados por seu pai, ou seja, pelo menos, a Galiza.
Nesse sentido, D. Teresa não teria reconhecido sua irmã D. Urraca como herdeira de Afonso VI, não se sabendo se não teria sido por isso que aceitou a intervenção arriscada dos condes de Trava ou se ela própria não teria envolvido os nobres galegos na realização do seu desiderato. O certo é que D. Teresa se considerava de uma estirpe superior, era Rainha ou Regina, por ser filha de rei (como declara desde Maio de 1117), não se acomodando ou resignando a uma posição subalterna na sucessão paterna. Não podemos, assim, deixar de considerar na génese do temperamento de Afonso Henriques a convergência entre a sabedoria estratégica do pai e a inequívoca ambição de sua mãe, num contexto de conflitualidade e de agitação, políticas, religiosas e sociais.
E se é verdade que os historiadores referem invariavelmente o facto de a infância do futuro rei ter sido afastada do contacto dos pais, não é menos certo que houve uma profunda influência do meio dos membros da corte e dos companheiros, que assumiam, de alma e coração, o espírito autonomista do condado, empenhados, a um tempo, na realização de um projecto independente, que conduziu à construção do Estado, e no reforço da luta de reconquista contra o Islão, com afirmação dos ideais nobiliárquicos assumidos segundo o espírito da época». In Marsilio Cassotti, D. Teresa, A Primeira Rainha de Portugal, Prefácio de G. Oliveira Martins, Attilio Locatelli, A Esfera dos Livros, 2008, ISBN 978-989-626-119-1.

Cortesia da Esfera dos Livros/JDACT

sábado, 30 de março de 2013

O Profeta do Orvalho. Poesia. Wenceslau Moraes. José Jorge Letria. «Vê como eu apodreço à ilharga da música que sai do interior das conchas junto à rebentação das ondas, no sítio onde os poetas há muito deixaram de escrever e de sonhar»

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Aqui
Aqui, entre os juncos e as flores do lótus,
compreendi que o inferno e o céu,
por mais que os deuses e os livros nos levem
a pensar o contrário, estão no coração do homem.
Eu conheci ambos deambulando por dentro de mim
e fazendo da sombra um desejo de luz
e da luz um secreto desejo de sombra.
Não foi o sol que me queimou o rosto,
foi o lume das inquietações fatais,
e quedei-me assim, apátrida e só,
numa terra a que chamo minha
mas que faz o longe tornar-se fatalidade.

Apego-me à sabedoria volátil e certa dos provérbios
e aprendo neles que sou, que sempre fui,
um insecto do estio a voar para a chama
e que após a neve vem o Nirvana.
Sempre encaminhei os meus passos na direcção da luz,
mas foi a treva que encontrei, fixando os pedaços
de reboco que se soltam do tecto
presos ao voo dos besouros, enquanto
eu me perco no labirinto da minha solidão.

Vê como eu morro devagar
enquanto a chuva desenha na poeira
as metáforas do Outono e do assombro.
Vê como eu apodreço à ilharga da música
que sai do interior das conchas
junto à rebentação das ondas,
no sítio onde os poetas há muito
deixaram de escrever e de sonhar.
Vê como eu me torno estrangeiro absoluto
numa terra que quer ser minha
mas que eu não consigo guardar no coração
como coisa essencial da minha vida.

Poema de Wenceslau de Moraes, in ‘O Profeta do Orvalho

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Tratado dos Feitos de Vasco da Gama e de seus filhos na Índia. Diogo do Couto. «… o “Tratado” é sobre o Gama e os seus filhos que passaram à Índia. Exclui, portanto, os netos e os bisnetos. Aliás, António Coimbra Martins, noutro artigo publicado em 1985 desfaz todas as dúvidas a este respeito»

Nau do primeiro quartel do séc. XVI, pormenor do painel do retábulo de Vida e Martírio de Santa Auta
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«Não pode ele ser confundido de modo algum, portanto, por exemplo, com a Vida e feitos de D. Vasco da Gama, descobridor da Índia, e dos mais, fidalgos daquela família que militaram na Índia, da autoria de Francisco de Andrade, embora, como lembrava António Coimbra Martins, em artigo publicado em 1981 (Paris, Fundação Calouste Gulbenkian), nos ‘Arquivos do Centro Cultural Português’, XVI, pp. 283-85, sob o título ‘Quem Na Estirpe Seu Se Chama…’ ‘l'un et l'autre demeurent inédits’. Não integram, igualmente, o plano do Tratado os cinco Livros da Década XII, aparecidos em Paris em 1645, e alusivos ao primeiro governo de Francisco da Gama, como se disse bisneto de Vasco da Gama e vice-rei da Índia por duas vezes (1597-1600 e 1622-28). Insistimos: o Tratado é sobre o Gama e os seus filhos que passaram à Índia. Exclui, portanto, os netos e os bisnetos. Aliás, António Coimbra Martins, noutro artigo publicado em 1985 desfaz todas as dúvidas a este respeito, quando afirma:
  • Em 1601, já Diogo do Couto reserva para si mesmo, ao contrário do que afirmara em 1599, a elaboração e redacção da história do governo de Francisco. Não em crónica à parte, nem como apêndice ao Tratado dos Gama, mas no quadro da sua história da India Portuguesa, melhor ou pior repartida em Décadas.
Haverá uma outra cópia do Tratado ou até o original? Nos vários autores que consultámos não encontrámos qualquer alusão à sua existência. E, na prossecução dessa eventualidade, realizámos aturadas pesquisas na Secção de Reserva dos da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, no catálogo dos Manuscritos da Biblioteca Pública de Évora e no Arquivo Nacional da Torre do Tombo. Nada encontrámos a este respeito, o que mais valoriza o códice da Biblioteca Nacional de Lisboa e mais justifica a sua publicação, uma vez que o seu estado de deterioração e de legibilidade tende a agravar-se. Constatámos, isso sim, que Diogo do Couto utilizou, na elaboração da Segunda Parte do Tratado que ora se publica, alguns capítulos das suas Décadas IV, V e V, nalguns casos de forma bastante aproximada entre os dois textos, noutros procedendo a elaborações originais, a alterações, ajustamentos, cortes, junções ou acrescentos.
O cap. 1.º da Segunda Parte do Tratado afigura-se não ter equivalência nas Décadas, de Diogo do Couto, pelo que deve ter sido composto propositadamente para a primeira destas obras.
O cap. 2.º corresponde em parte ao cap. XI do Liv. VIII da Déc. IV (Parte II). Foi estabelecido o cotejo usando a edição Da Asia de Diogo de Couto, Lisboa, Na Regia Officina Typografica, Anno MDCCLXXVIII. A Primeira Parte deste capítulo coincide muito pouco e até o próprio título tem alterações maiores do que é comum.
O cap. 3.º tem pontos de contacto com o cap. XII do Liv. VIII da Déc. IV (Parte II). Só cerca de metade do título corresponde, sendo mais extenso na Década. A primeira parte apenas apresenta alterações de forma, terminando no Tratado com a referência às viagens de Banda. Na Década, Couto dá notícia das Ilhas de Banda, pelo que no Tratado foi suprimido quase metade do texto.
[…]

In Diogo do Couto, Tratado dos Feitos de Vasco da Gama e de seus filhos na Índia, organização de José Azevedo Silva e João Marinho Santos, Universidade de Coimbra, Faculdade de Letras, Edições Cosmos, Porto, 1998, ISBN 972-762-081-7.

Cortesia da FL da U. de Coimbra/JDACT

Prosa. Os Passos em Volta. Herberto Helder. «Pela noite fora o poeta mantinha-se o mais deitado possível, com o talento voltado para o ar, ouvindo os pequenos ruídos do mundo. E pensava: Como se atreve a terra a tamanha placidez? Ou estarei eu marcado por alguma culpa insondável?»

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Holanda
«Um poeta está sentado na Holanda. Pensa na tradição. Diz para si mesmo: eu sou alimentado pelos séculos, vivo afogado na história de outros homens. E a sua alma é atravessada pelo sopro primordial. Mas tem a alma perdida: é um inocente que maneja o fogo dos infernos. Abre-se ao fundo da sua meditação holandesa um grande lago: a solidão, e em volta passeiam vacas. A Holanda agora é isto: vacas, e, no centro, o inferno, a revolucionária inocência de um poeta sentado. - Por quem me tomam? - pode ele perguntar. - O que eu quero é o amor.
E sempre assim, sempre: cidades inexplicáveis no meio da terra ou prados imensos onde se tem medo. Prados para vacas, não para um poeta di-la-ce-ra-do por uma tormentosa inocência. Já não escreve poemas nem pergunta às pessoas o seu nome. Ele próprio, visto estar destinado à inteira perdição, vai perdendo o nome pelo país adiante. Agora vigia a paz devoradora dos animais, as coisas, a imobilidade. Vou partir, imagina. As cidades ardem, os campos enlouquecem. Um poeta tem de partir, repartir, repartir-se. Um poeta deve ser uno. O inferno não o deixa. Às vezes lamenta-se: Sinto-me como se tivesse percorrido o deserto; não sei nada. À noite falava baixo, conhecendo que não possuía a protecção das coisas e a sua vida estava a ser corroída Por uma vocação menos que humilde: degradante. Não servia para nada; essa era a sua mais implacável vocação. Ficava sentado a ver os homens holandeses cuidarem dos animais e da terra e a vigiarem o céu. Os homens holandeses invocavam os poderes que se debruçavam, um pouco como holandeses, sobre o exercício humano.
Na Holanda o Demónio é negativo. O poeta sabia da irremissível solidão do Demónio, e pedia por ele: Piedade para o Demónio, piedade para a solidão demoníaca. Na Holanda é assim. O Demónio está no meio das vacas: não escreve poemas, não pode exercer os dons. Pensa, perde o nome. Quem esperaria dele que trabalhasse a terra ou protegesse as alimárias?
Pela noite fora o poeta mantinha-se o mais deitado possível, com o talento voltado para o ar, ouvindo os pequenos ruídos do mundo. E pensava: Como se atreve a terra a tamanha placidez? Ou estarei eu marcado por alguma culpa insondável? De onde descendo, que não sou amado dos holandeses nem me acalmo e participo nas tarefas? Mas uma noite recebeu a visitação. O seu espírito iluminou-se: Tu és um homem. Sim, sou um homem, disse, mas não sou holandês. Aliás, não se compreendia bem o que fosse aquilo de ser um homem. - Para onde pensam que vou ou de onde venho? -
perguntaria. - Eu aspiro ao amor.
Percebe-se isto? Holanda, Holanda, país conquistado às águas! (Não é assim que se diz?). Holanda erguida devagar ao concreto. Entretanto o poeta abisma-se no espírito demoníaco e invoca uma protecção obscura, a piedade, para o Demónio». In Herberto Helder, Os Passos em Volta, Assírio & Alvim, Lisboa, 2009, ISBN 978-972-37-0119-7.

Cortesia de Assírio & Alvim/JDACT

Nadja. Leitura. André Breton. «Por mim, continuarei a habitar a minha casa de vidro, onde se pode ver a toda a hora quem vem visitar-me, onde tudo o que está suspenso dos tectos e das paredes perdura como por encanto…»

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«No que me diz respeito, mais importantes ainda do que para o espírito o encontro de certas disposições de coisas, me parecem ser as disposições de um espírito perante certas coisas; e acontece que estas duas espécies de disposições regem sozinhas todas as formas da sensibilidade. É assim que me descubro com Huysmans, o Huysmans de En Rade e de Là-bas, maneiras tão comuns de apreciar tudo o que se propõe, de escolher com a parcialidade do desespero entre o que existe, que se, com grande pesar meu, só pude conhecê-lo através da sua obra, nem por isso ele deixa de ser porventura o menos estranho dos meus amigos. Mas na verdade não terá ele, mais do que qualquer outro, levado ao seu termo extremo essa discriminação necessária, vital, entre o anel, de aparência tão frágil, que nos pode socorrer em todas as circunstâncias e o aparelho vertiginoso das forças que se conjuram para nos arrastar ao naufrágio?
Huysmans deu-me notícia desse tédio vibrante que lhe causaram quase todos os espectáculos; antes dele, ninguém soube, já não digo mostrar-me esse grande despertar do maquinal sobre o terreno devastado das possibilidades conscientes, mas pelo menos convencer-me humanamente da sua absoluta fatalidade e de quanto seria inútil ir aí procurar escapatórias para mim próprio. Como lhe estou agradecido por me ter posto ao corrente, sem cuidar do efeito a produzir, acerca de tudo o que lhe diz respeito, daquilo que o ocupa, das suas horas mais amargas e das outras, por não cantar absurdamente, como tantos poetas, essa amargura, mas enumerar com paciência, na sombra, as mínimas razões de ser, absolutamente involuntárias, que ainda consegue descobrir, e de ser, sem saber, bem para quem, aquele que fala! Ele é, também ele, o objecto de uma dessas solicitações perpétuas que parecem vir de fora e nos imobilizam por alguns instantes diante de certas ordenações fortuitas, de carácter mais ou menos novo, das quais, se nos interrogássemos porfiadamente, é provável que encontrássemos em nós o segredo. Distingo-o, será preciso dizê-lo?, de todos os empíricos do romance que pretendem pôr em cena personagens diferentes de si próprios e os arrumam física, moralmente, à sua maneira, só eles sabem porquê (nós preferimos não saber). De uma personagem real, de que julgam ter algum conhecimento, fazem duas personagens da sua história; de duas, sem qualquer embaraço, fazem uma. E ainda nos damos ao trabalho de discutir! Alguém sugeria a um autor meu conhecido, a propósito de uma obra sua que ia aparecer e cuja heroína podia ser facilmente reconhecida, que lhe mudasse ainda, pelo menos, a cor do cabelo. Loura, vá, lá, parece que teve sorte: a mulher que traiu não era morena. Não acho isto infantil acho-o escandaloso. Persisto em exigir os nomes, em só me interessar pelos livros rasgadamente abertos, como portas que não precisam de nenhuma chave. Estão felizmente contados os dias da literatura psicológica de efabulação romanesca, e certifico-me de que foi Huysmans a aplicar-lhe o golpe derradeiro. Por mim, continuarei a habitar a minha casa de vidro, onde se pode ver a toda a hora quem vem visitar-me, onde tudo o que está suspenso dos tectos e das paredes perdura como por encanto, onde repouso à noite entre os lençóis de vidro de uma cama de vidro, onde quem sou me aparecerá, mais tarde ou mais cedo, gravado a diamante». In André Breton, Nadja, Editions Gallimard, 1964, Editorial Estampa, tradução de Ernesto Sampaio, Lisboa, 1971.

Cortesia E. Estampa/JDACT

A Bela Poesia. Liberdade. Miguel Torga. «É um vinho amargo que lhes cresta a boca; um condão vago que os desperta e toca de humana e dolorosa consciência. E abraçam-se de novo, já sem asas. Homens apenas. Vivos como brasas, a queimar o que resta da inocência»


Cortesia de wikipedia e jdact

Amor
A jovem deusa passa
com véus discretos sobre a virgindade;
olha e não olha, como a mocidade;
e um jovem deus pressente aquela graça.

Depois, a vide do desejo enlaça
numa só volta a dupla divindade;
e os jovens deuses abrem-se à verdade,
sedentos de beber na mesma taça.

É um vinho amargo que lhes cresta a boca;
um condão vago que os desperta e toca
de humana e dolorosa consciência.

E abraçam-se de novo, já sem asas.
Homens apenas. Vivos como brasas,
a queimar o que resta da inocência.

Miguel Torga, in 'Libertação'

Aos Poetas
Somos nós
as humanas cigarras.
Nós,
desde o tempo de Esopo conhecidos...
Nós,
preguiçosos insectos perseguidos.

Somos nós os ridículos comparsas
da fábula burguesa da formiga.
Nós, a tribo faminta de ciganos
que se abriga
ao luar.
Nós, que nunca passamos,
a passar...

Somos nós, e só nós podemos ter
asas sonoras.
Asas que em certas horas
palpitam.
Asas que morrem, mas que ressuscitam
da sepultura.
E que da planura
da seara
erguem a um campo de maior altura
a mão que só altura semeara.

Por isso a vós, Poetas, eu levanto
a taça fraternal deste meu canto,
e bebo em vossa honra o doce vinho
da amizade e da paz.
Vinho que não é meu,
mas sim do mosto que a beleza traz.

E vos digo e conjuro que canteis.
Que sejais menestréis
duma gesta de amor universal.
Duma epopeia que não tenha reis,
mas homens de tamanho natural.

Homens de toda a terra sem fronteiras.
De todos os feitios e maneiras,
da cor que o sol lhes deu à flor da pele.
Crias de Adão e Eva verdadeiras.
Homens da torre de Babel.

Homens do dia-a-dia
que levantem paredes de ilusão.
Homens de pés no chão,
que se calcem de sonho e de poesia
pela graça infantil da vossa mão.

Miguel Torga, in 'Odes'

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Diagnóstico Social. Conceitos e metodologias. REAPN. Maria Aguilar Idáñez e Ezequiel Ander-Egg. «O mesosistema, constituído pelo conjunto de micro-sistemas que configuram redes de interacções e que supõe que o indivíduo ou o grupo age numa multiplicidade de enquadramentos»

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«Dizemos, em primeiro lugar, que o modo de abordagem deve ser sistémico. A realidade é sistémica, os problemas são sistémicos; consequentemente, o modo de abordagem deve ser sistémico. Cada facto, fenómeno ou processo que se analisa e cada acção ou intervenção que se propõe, deve ser considerada como um aspecto do todo social da qual faz parte. Só dentro do sistema que o inclui é que se entende a significação última de algum aspecto da realidade.
Afirmamos uma segunda dimensão deste modo de abordagem, dizendo que é ecológica, porque uma abordagem que considere os problemas sociais tem que ter em conta que nada acontece de modo isolado. Nada nem ninguém age em completa independência. Na realidade social existe uma complicada rede de intercâmbios e de retroacções, à qual se pode aplicar uma das leis da ecologia que diz: tudo está relacionado com tudo ou tudo está relacionado com os outros.

Esta abordagem ou perspectiva é válida para os modelos de intervenção social. O tratamento dos problemas (individuais, grupais ou colectivos) que não tenha em conta os efeitos, interacções e retroalimentações que existem entre os vários sub-sistemas, é um modo de abordagem da realidade que se considera inadequado para a interpretação e compreensão dos fenómenos e processos sociais, e para agir sobre eles. Tudo isto pode ser formulado de uma forma muito mais precisa, tendo em conta a distinção dos vários níveis ecológicos proposta por Urie Bronfenbrenner. Segundo este autor podem distinguir-se quatro níveis:
  • O macrosistema que, às vezes, se chama a escala macro-social. Constitui o quadro geral mais abrangente;
  • O exosistema. Trata-se de um enquadramento mais imediato, onde o indivíduo ou o grupo desenvolve a sua vida, mas em que não interage cara a cara. No entanto, nesse quadro dá-se uma multiplicidade de planos e de níveis de trocas, interacções e retroacções em que estão submersos aqueles que são os destinatários dos programas, actividades ou serviços sociais;
  • O mesosistema, constituído pelo conjunto de micro-sistemas que configuram redes de interacções e que supõe que o indivíduo ou o grupo age numa multiplicidade de enquadramentos;
  • O microsistema, onde os indivíduos e grupos agem cara a cara. É um âmbito de proximidade vital, como é a tarefa na aula dentro de uma escola, as relações no seio de uma família, etc.
In Maria Aguilar Idáñez e Ezequiel Ander-Egg, Diagnóstico Social, conceptos y metodología, Diagnóstico Social, Conceitos e metodologias, Rede Europeia Anti-Pobreza, Portugal, cadernos REAPN, Porto, 2007, ISBN 978-989-95487-8-7.

Cortesia de REAPN/JDACT

Mudança da Hora. Caminhamos para o Verão.

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«Domingo rouba-se uma hora ao sono.
A mudança da hora suscita sempre as mesmas dúvidas: É mais uma? Menos uma? Para ajudar a esclarecer, este gráfico animado prova que se tem de adiantar o relógio e mostra o que se passa em os outros pontos do globo». In Expresso, Carlos Paes

Cortesia do Expresso
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Um País Encantado. Maria Coriel. Luís Miguel Rocha. «Acorramos, então, ao cortejo sem demoras. Importa que lhe demos um pouco do nosso tempo. Sigamos o nosso contador de muitas estórias cheias de sombra e de luz, afinal, como a própria vida»

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O importante não é aquilo que fazem de nós, mas que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós. In Jean.Paul Sartre

Jogos de Sombra e de Luz
«Este romance detém-se em Portugal na década de 30, tendo como pano de fundo a mão sombria do Estado Novo. Dá-nos conta dos amores desavindos entre a Monarquia moribunda e a República a tentar encontrar-se, representadas por duas famílias privilegiadas: a do conde Cosme e a do coronel Silveira, respectivamente. Os ódios surdos, os desencantos, as paixões, perdas e cumplicidades assumem relevo neste enredo em que o trágico e o absurdo se entrelaçam. Assistimos aos seus jogos de e pelo poder num país sonâmbulo, cristalizado no tempo, deslumbrado com o estrangeiro, pobre em ideias e recursos.
Da atracção que a Europa exerce sobre nós e do país suspenso na História, já Fernando Pessoa dava conta duma carta que escreveu ao conde de Kerserling, na qual revela a existência não de um só Portugal, mas de três, sendo o último aquele que para aqui nos interessa. Diz-nos o poeta:
  • O terceiro Portugal que encontrareis à superfície dos Portugueses visíveis, é aquele que, depois da curta duração espanhola, e durante todo o curso inanimado da dinastia Bragança, da sua decomposição liberal, e da República, formou esta parte do espírito português moderno que está em contacto com a aparência do mundo. Esta terceira alma portuguesa é apenas um reflexo mal compreendido do estrangeiro que passa, por uma hipnose, não do homem, mas só do seu caminhar.
Apesar do tempo histórico em que a carta foi escrita e da época da nossa estória, sabemos que estas palavras não perderam a actualidade. Se mudássemos os cenários, as roupas, os gestos, as falas, as personagens ficariam tão próximas, que as reconheceríamos facilmente na vida social e política do nosso tempo, se a esse esforço nos déssemos. Ainda hoje poderíamos seguir com o olhar outras estradas de pó e de silêncio, outros buracos adormecidos, outras casas faustosas em bens e pobres em afectos e outros que nem casa têm. E o mesmo espírito de adormecimento pelas causas que são nossas e o mesmo deslumbramento pelo que lá fora acontece ainda nos percorre, sem que vislumbremos o despertar. Ansiamos pelo progresso também, noção vaga que não contempla decerto o acordar da alma.
Como meninos em busca de aventura viajamos por um país sonolento, desigual, movido pela aparência das convenções. A teia do poder está oculta, mas sente-se. O Estado, na figura máxima de A. O. Salazar, serve o medo e a ignorância em doses individuais, à medida do interesse do momento, com a cumplicidade atenta da Igreja. A tudo assistimos guiados pelo olhar cinematográfico do narrador que, lúcido e com um humor límpido, leva-nos a viajar. Com ele saltamos muros, atrevemo-nos a espreitar janelas, entramos em capelas como peregrinos de verão, em casas que servem muitas causas, ouvimos conversas de alcova, sempre num passo dinâmico e vivo, correndo como crianças inquietas à procura de novidade. Cúmplices no olhar indiscreto e impiedoso, partimos sempre em busca de mais episódios, seguindo o nosso contador de estórias, soberbo no comentário, hilariante no pormenor. O sabor fresco da sua voz, porque amargura não tem, convida-nos a prosseguir na constante mudança de cenários, sem cansaços nem delongas.
Neste tempo de magras alegrias, chega Mariana Silveira ao mundo em noite aguarenta. Rola na história como uma conta de vidro transparente e luminosa e atravessa-a com uma pureza que não deixa ninguém indiferente. Ela é personagem principal e vem cumprir um destino singular embora tenha modestíssimo desempenho. Dela apenas assistimos ao nascimento, ao baptismo e à infância discreta. A presença serena e o olhar determinado desta menina despertam emoções antigas e impõem gestos outrora guardados a algumas personagens. Acorramos, então, ao cortejo sem demoras. Importa que lhe demos um pouco do nosso tempo. Sigamos o nosso contador de muitas estórias cheias de sombra e de luz, afinal, como a própria vida». In Maria Coriel, As Filhas da Lua. In Luís Miguel Rocha, Um País Encantado, Planeta Editora, Lisboa, 2005, ISBN 972-731-176-8.

Cortesia de Planeta Editora/JDACT

sexta-feira, 29 de março de 2013

Poesia. Écloga de Jano e Franco (fragmentos). Bernardim Ribeiro. «… um clássico, inigualável, que nos dá a cena do primeiro encontro e do despertar do sentimento num ritmo de encanto magoado, feito de atenção ao pormenor…»

Cortesia de wikipedia e jdact

(Continuação)

Écloga de Jano e Franco
«Mui perto estava o casal
onde vivia o pai dela,
que fez ir mais longe o mal
que Jano teve de vê-la;
mas o medo que causou
Joana partir-se assi,
tanto as mãos lhe embaraçou,
que a sapata esquerda, ali,
com a pressa lhe ficou.

Jano, quando viu e olhou
que nenhum remédio havia,
para o lugar se tornou
aonde ela na água se via;
e vendo a sapata estar
no areal, à beira de água,
foi-a correndo abraçar.
Tomando-a, creceu-lhe a mágoa
e começou a chorar.

[…]
Despojo da mais fermosa
coisa, que viram meus olhos,
pera eles sois uma rosa,
e para o coração abrolhos.
Sapata, deixada aqui,
para mal de outro mor mal,
quem te leixou leva a mim:
que troca tão desigual!
Mas pois assi é, seja assim.

[...]
Dentro do meu pensamento
há tanta contrariedade,
que sinto contra o que sinto
vontade e contra vontade;
estou em tanto desvairo,
que não me entendo comigo.
Donde esperarei repairo?
 - que vejo grande o perigo
e muito mor o contrairo.

[…]
Ó mal! Não vos sabe a vós
quem me vós a mim causou!
Tristes dos meus olhos sós,
que trouveram, aonde estou,
olhos, a certo lugar
ribeira mor das ribeiras
que levam as águas ao mar
vós me sereis verdadeiras
testemunhas do pesar.

Poema de Bernardim Ribeiro

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A Teologia de Leonardo Coimbra. Pinharanda Gomes. «… sem força mas com simpatia, persiste a vaga romântica do amor da pequena pátria, das liberdades individuais, do respeito pelos bens próprios, na esperança de uma harmonia entre a dor que nos cumpre, e a alegria que ansiamos»

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(continuação)

O Tempo e o Movimento
«O caso de 1910 é exemplar. O povo não mudou, continuou mono-árquico, à espera do Desejado. A minoria intelectual e militar que em Lisboa pôs termo à monarquia hereditária mostrou-se incapaz de achar melhor do que uma monarquia electiva, em que a força do partido substituiu a força da família, base do sistema monárquico. A República nasceu velha e ancilosada. Sampaio Bruno afastar-se-ia pouco depois, clamando que essa não fora a República sonhada. Basílio Telles remeteu-se a um laicismo ascético e reformador, desiludido de quanto sonhara. José Teixeira Rego não escondia que, abortado o golpe de 31 de Janeiro de 1891, data em que o Positivismo ainda não dominava inteiramente o meio intelectual, a proclamação republicana de 1910 surgia como um capricho fora de tempo. A ideia que movia a consciência portuguesa não era a questão do regime; era a questão da cidade humana, com regeneração da Família e da Pátria.
O processo requeria, mais do que uma estratégia política, uma educação filosófica, e uma prática religiosa. O primeiro decénio do século, XX é prolixo em ideologia. Engastando somente as pedras ideológicas substantes, a, sociedade portuguesa vê o Positivismo implantar-se nas mentes, sem que ache adequada física social para a tradição portuguesa. Teófilo Braga compensa o excessivo compromisso positivista na ordem metodológica e política com a arqueologia do património, popular, literário, legendarístico, artístico e sacral, mas sem descobrir, no acervo coligido, a linha de vida que aperfeiçoasse, ou substituísse, o abstraccionismo positivista. A mais importante instituição portuguesa, a Igreja, sobrevive sem dote material, com uma hierarquia onde só então começam a aparecer os pastores de intervenção social, Manuel Vieira de Matos, António Mendes Belo... e com dois problemas filosóficos: um Modernismo teológico que ascende, e quer a revisão dogmática, e um Neo-Tomismo que, em vez de filosofar, se limita a divulgar as ideias de santo Tomás e dos tomistas posteriores. Enquanto em França se afirma um Neo-Tomismo pensante, em Portugal, o Neo-Tomismo é sobretudo divulgante e historicista. A Igreja encara, dentro e fora, um laicismo acentuado, com recusa do ministério sacerdotal, recusa essa expressa no anticlericalismo que é, na verdade, um anticristismo, porque o sacerdote é teologicamente alter Christus.
Enfim, como ambiente social geral, sem força mas com simpatia, persiste a vaga romântica do amor da pequena pátria, das liberdades individuais, do respeito pelos bens próprios, na esperança de uma harmonia entre a dor que nos cumpre, e a alegria que ansiamos». In Pinharanda Gomes, A Teologia de Leonardo Coimbra, Guimarães Editores, Colecção Filosofia e Ensaios, Lisboa, 1985.

Cortesia de Guimarães Edt./JDACT

Guerreiro e Monge. Romance Histórico. Campos Júnior. «A peste era uma antiga conhecida de Lisboa. Tivera-a, juntamente com os soldados de Castela, em volta das suas muralhas, nos últimos anos do século XIV, e chegara-lhe o ânimo para suportar o flagelo e repelir o invasor»

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O Bastardo
Na Ribeira das Naus
«Era em Abril de 1494. O dia amanhecera formosíssimo. Cruzavam-se nos ares bandos de pássaros, chilreando a sua jubilosa alvorada, por cima da cidade inundada de luz e cingida de flores, no seu recosto de colinas. Lisboa despertava ridente por detrás da sua enegrecida muralha medieval. O sol punha-lhe de alto um diadema de oiro e acendia vivíssimas centelhas multicores nos coruchéus de azulejo e nos vidros corados dos paços da Alcáçova, o remoto alcáçar dos valis muçulmanos, sobre o morro soberbo do Castelo. Faiscavam os vitrais e os coruchéus da Sé, a velha mesquita grande da Lissibona moira, e a sua negra torre quadrangular avulta arrogante e forte, como a torre de menagem da Kasba (o terramoto de 1755 destruiu quase completamente a velha Lisboa, e a restauração Pombalina apagou-lhe o cunho antigo. A Sé reedificada em pouco se parece com a antiga).
Recorta-se no azul puríssimo do céu a cruz de ferro dos grandes templos. O Carmo, quase isolado, ergue altivo o seu vulto gótico, alvo como se fora o manto de um templário. Por entre a casaria branca, de telhados moiriscos, muito vermelhos, debruçam-se dos quintais as roseiras em flor e os laranjais de pomos de oiro, como num trecho de paisagem aldeã. Deixando cair os seus fulgores sobre a face musgosa dos cubelos e quadrelas da muralha secular, como um autocrata omnipotente podia deixar cair a fímbria do manto esplendoroso, o sol subia no horizonte, e, atirando a sua esmola de luz às húmidas ruas da Alfama, estreitas como os corredores de uma bastilha, ia sacudir a juba triunfal sobre as águas do Tejo, a reflectirem o céu, tranquilas como as águas de um lago.
E, todavia, a peste, uma trágica forasteira antiga, opunha a esta paisagem deslumbradora o contraste brutal dos lares cobertos de luto e dos corações espedaçados de dor. Mas nas grandes cidades não há infortúnios individuais que interrompam a luta pela vida, nem angústias de alguém que se imponham aos impulsos da multidão. Dura pouco a mágoa pública e, volvido o primeiro momento de surpresa e de pavor, as cidades retomam a sua fisionomia normal; a morte é como um hóspede com que todos contam e a ninguém causa estranheza, e a eterna comédia de júbilos e dores de santas e de ridículas paixões, de supremas felicidades e de supremos infortúnios, comédia dantesca de triunfadores e de vencidos, prossegue na sua interminável exibição.
A peste era uma antiga conhecida de Lisboa. Tivera-a, juntamente com os soldados de Castela, em volta das suas muralhas, nos últimos anos do século XIV, e chegara-lhe o ânimo para suportar o flagelo e repelir o invasor. Lisboa resignara-se e como que estava agora conformada com o seu pavoroso hóspede. Às vezes, por desafogo, e qualquer recrudescência mais violenta do flagelo, vociferava enraivecidamente contra os judeus, na sua qualidade de agentes maléficos da epidemia; perseguia-os, dava-lhes morte cruel como a lobos vorazes, e depois, ainda a espumejar ódios e a escorrer sangue, ia cair de joelhos nos degraus dos altares, a implorar a clemência do doce Jesus, cravado no madeiro do Calvário, símbolo maior da misericórdia e da confraternidade humana! Era a moral da época. Fazia-se o mesmo, fizera-se pior, fizera-se primeiro na França e na Espanha». In António Campos Júnior, Guerreiro e Monge, Romance Histórico, Livraria Romano Torres, Lisboa, 1952.


Cortesia de L. R. Torres/JDACT

Música. A Voz. «Fiz mal? Mas a quem? Que venham contar-me as mágoas geradas por meu vil desdém e as feridas mostrar-me na carne rasgadas. Fiz mal? Mas a quem? Fui pedra lançada no vosso caminho? Barrei-vos a estrada com traves de pinho?»

Cortesia de wikipedia

«Depois do Inverno, morte figurada,
a Primavera,
uma assunção de flores.
A vida Renascida
e celebrada
num festival de pétalas e cores». 

 Poema de Miguel Torga, in "Glória", 1985






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quinta-feira, 28 de março de 2013

O Prior do Crato Contra Filipe II. Evocação Histórica. Mário Domingues. «Também se compreende que o “Velho Portugal”, ansioso por criar esperança e optimismo no coração de seus filhos, afirmasse que o recente desastre do Norte de África apenas o afectara nos ‘cabelos’ e nas ‘unhas’, e que ‘o resto do corpo’ lhe ficara ‘inteiro e são’»

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(Continuação)

A Voz Dramática do “Velho Portugal”
«Assim falava o Velho Portugal aos seus filhos dessa época. Sua voz comovente só em certos momentos parecerá um tanto desarmoniosa aos portugueses de hoje, sobretudo naqueles passos em que louva a bondade de alguns reis, como Sebastião e o próprio cardeal-rei Henrique então reinante, os maiores responsáveis da situação angustiosa a que a nação chegara nesse triste período. Não esqueçamos, porém, que o objectivo do anónimo panfletário era robustecer o patriotismo lusitano, fomentar a união de todas as classes, criar um bloco nacional contra a mais do que provável agressão da Espanha, que já se preparava com todo o afã.
Mesmo os erros de visão, que neste valioso documento se notam, reflectem como um espelho as ideias, as crenças, os costumes, bem como os sentimentos comuns dos Portugueses desse tempo. É irrisório e falso, por exemplo, acusar o rei católico de permitir com a sua suposta tolerância nos países protestantes, Alemanha, Inglaterra e França, cita o anónimo, que nasçam hereges no país vizinho. Esta peta destinava-se a impressionar os católicos lusitanos. Sabe-se que, pelo contrário, Filipe II moveu odiosas perseguições aos chamados hereges em todos os territórios que dominava, tornando assim ainda mais impopular a sua suserania; e sabe-se, modernamente, que foi precisamente na Igreja reformada que a burguesia desses países se firmou para ascender na escala social e interferir, sob a bandeira da liberdade de consciência, mais directamente no governo dos Estados, preparando a sua classe para mais ousadas conquistas; sabe-se ainda que Portugal, imitando Castela, desde o reinado de João III, se lançara, por meio da Inquisição (maldita), numa perseguição feroz à burguesia, com o pretexto de reprimir a her'esia dos cristão-novos; e depreende-se que foi uma burguesia, com sua mentalidade prática, sua vocação para a administração pública e sua habilidade para os negócios, que faltou na hora histórica em que a nação, debilitada pela derrota de Alcácer Quibir, mais precisava de todos os seus recursos e de uma classe medianeira das outras classes, que lhes cimentasse a coesão necessária para resistir ao tremendo embate que fatalmente ia sofrer.
Também se compreende que o Velho Portugal, ansioso por criar esperança e optimismo no coração de seus filhos, afirmasse que o recente desastre do Norte de África apenas o afectara nos cabelos e nas unhas, e que o resto do corpo lhe ficara inteiro e são, que era o que contava. Mas, respirando a atmosfera da sua época, os Portugueses de há quatro séculos não podiam fazer reparo nestes lapsos, nem notavam estes equívocos, que talvez fossem convicção do próprio escritor anónimo; viviam-nos, respiravam-nos, sentiam-nos, tal como hoje vivemos, vibramos e nos alimentamos de outros ideais, equívocos, e mitos, que por certo farão sorrir os vindouros, se eles não forem um pouco mais tolerantes do que nós.

A Situação de Portugal após a Morte do Cardeal-rei
Ao contrário do que as recomendações ou lembranças do Velho Portugal com tanto optimismo asseveravam, eram bem tristes e precárias as condições em que o rei Henrique deixara o país, à data da sua morte em Almeirim: 31 de Janeiro de 1580». In Mário Domingues, O Prior do Crato Contra Filipe II, Evocação Histórica, edição da L. Romano Torres, Lisboa, 1965.

continua
Cortesia de Romano Torres/JDACT

Destroços. O gibão de Mestre Gil e Outros Ensaios. Eduardo Lourenço. «Não está, de resto, ao alcance de ninguém o poder furtar-se a uma forma de projecção que é final a que justamente constitui ‘o passado’ ao mesmo tempo como ‘passado’ e ‘passado nosso’»

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«Não há uma só linha neste texto que não seja discutível. Estou quase certo que o António José Saraiva de 1965 teria engulhos em o subscrever. A facilidade moderna que a todos nos é concedida de imputar a autores antigos ideias, atitudes, opções que o futuro desmonetizou e passam a nossos olhos como etiquetas relativizadas pela História, esconde-nos esta coisa simples e óbvia: é que tais atitudes, se tivessem existido, eram para os seus autores caso de vida e de morte. Eram até mais do que isso e pouco importa que autores modernos já não conheçam nem o preço nem o sabor, nem a gravidade do que está em causa. Se Gil Vicente tivesse sido, no meio de uma corte piedosa a quem jamais alguém se lembrou de contestar a ortodoxia, esse incrível adepto de não sei que Deus sem transcendência nem personalidade (posto, ainda por cima, na conta do beato Raimundo Lúlio...) não era apenas a sua situação civil privilegiada, nem a sua fantasiosa cabeça que corriam riscos que o autor de um ensaio sobre a Inquisição (maldita) facilmente adivinhará, mas igualmente a totalidade do seu destino, ou para usar a linguagem de Mestre Gil, a sua salvação. Na perspectiva de António José Saraiva não caberia, a menos de julgar a sociedade do seu tempo imbecil e estúpida, outra solução que a de supor Gil Vicente ou refinado hipócrita ou bobo inofensivo e inconsciente. Mas nem A. J. Saraiva aceitaria esta conclusão, que todavia é a única adequada às suas premissas.
De onde procede uma tão arriscada formulação das intenções espirituais (deixo de lado as ideológicas que também dariam pano para mangas e A. J. Saraiva mete no mesmo saco) de Gil Vicente? António José Saraiva não é um publicista qualquer, é um escolar responsável, capaz, formado ou sabedor das boas regras metodológicas, apostado mesmo na tarefa grandiosa, acaso desmedida, de refazer de alto a baixo uma historiografia literária tradicional. É necessário apreciá-lo na linha da exigência, da claridade, do respeito pela verdade que publicamente norteiam o seu labor, como norteiam o de outros que lhe são ou foram próximos, Óscar Lopes, Mário Sacramento, o mais jovem Costa Dias.
A única resposta que permite salvar afirmações tão abusivas, tão solidamente infundadas, mas pelas quais se não pode ter a indulgência do deslize por serem filhas de um sistema e sistematicamente renovadas a propósito de muitos, para não dizer de todos os autores tratados (João de Barros, Camões, etc.) é a de admitir, por um lado, a sinceridade da convicção que as dita, o que não ponho em dúvida, e por outro, a de que essa convicção é inadequada à compreensão do nosso passado. A tendência a interpretar o passado projectando sobre ele evidências ou descobertas modernas não é, em si, uma fonte de abuso. Não está, de resto, ao alcance de ninguém o poder furtar-se a uma forma de projecção que é final a que justamente constitui o passado ao mesmo tempo como passado e passado nosso. Mas a esta fatalidade convém não acrescentar as que nós fabricamos por inatenção, desrespeito ou falta de prudência metodológicas que sem eliminar o risco de erro, o podem atenuar e com alguma humildade aproximar-nos do plausível». In Eduardo Lourenço, Destroços, O Gibão de Mestre Gil e Outros Ensaios, Gradiva, 2004, ISBN 972-662-945-4.

Cortesia Gradiva/JDACT