segunda-feira, 22 de abril de 2013

Um País Encantado. Luís Miguel Rocha. «Alguns entenderam a monta desta diegese e colaboraram o melhor factível na cedência das verdades por si vividas ou testemunhadas, entenda-se por melhor factível a versão menos lesiva para as suas próprias pessoas, armaduras que se compreendem…»

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O importante não é aquilo que fazem de nós, mas que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós. In Jean.Paul Sartre

Trata das advertências ao ledor e de outros teores de idêntico interesse
«Convém precisar o tempo em que me sento para confiar ao papel o relato dos reais acontecimentos que findaram neste ano de cinquenta e um, depois de mil e novecentos, hoje é nosso Presidente da República, Sua Excelência, o Senhor Francisco Higino Craveiro Lopes, sucede ao Magnânimo António Óscar de Fragoso Carmona que reinou, no sentido presidencial do termo, durante vinte e cinco anos, desde mil e novecentos e vinte e seis, e só não morou por mais tempo no cargo porque entendeu Deus levá-lo para junto de si em Abril deste ano, bem-haja ao nosso defunto presidente, o primeiro do Estado Novo, que muito fez por este nosso cantinho, ainda que marioneta, no sentido mais desprendido da palavra.
Tudo se iniciou há dezoito anos, nos idos de trinta e três, e é minha tenção que fique impresso para a futuridade dos eventos sobrevindos, desde a nascença de Mariana Silveira, a mulher desta história, até à data de hoje. Porquê esta mulher, perguntar-se-ão todos os que de nós querem motivos para as coisas, bem, porque uma mulher são todas, assim como todos os machos são um homem, e neste grande império é digna de nota esta mulher de quem falaremos, filha de um oficial do Exército, mas já lá iremos, antes desfiaremos a meada da causa de tanto frufru porque tudo tem origem numa semente que conduz ao móbil e não o contrário, por tal retrogradaremos ao três de Abril do ano capicua previamente mencionado.
Alguns entenderam a monta desta diegese e colaboraram o melhor factível na cedência das verdades por si vividas ou testemunhadas, entenda-se por melhor factível a versão menos lesiva para as suas próprias pessoas, armaduras que se compreendem, pois são os humanos todos passíveis de passos erreiros durante os dias da vida, quem não os cometa é, por certo, santo ou santa e nem mesmo esses passam impunes na terra, somente Jesus Cristo, filho de Deus Pai, mas isso são outros assuntos que não importam, já que falamos de seres imperfeitos, coisa que Jesus Cristo não foi, caso único até ver, outros entenderam por não se associarem a esta demanda, porventura por perceberem também a monta, mas de um outro prisma, outros por já terem perecido, seja como for, ambos no seu direito de calar as verdades, conquanto esta não seja a época dos direitos, antes dos deveres, o de calar e cumprir e mesmo eu, aqui sentado a deitar estas linhas, tenho de ter abispamento com aquilo que escrevo para que não passe os meus últimos dias numa alcáçova, aquém ou além-mar, sem caneta ou papel, só com pele e ossos, os meus, ou veja mesmo os meus últimos dias abreviados pelas fundas que as nossas digníssimas forças da autoridade entendem por dar. Nada disto fazem por mal, apenas para nosso bem, sabemo-lo, nós é que tendemos a desviar-nos do trilho marcado há muitos anos e ainda hoje pelo nosso sublime e ditador Presidente do Conselho, …, o titereiro, no mais excelso dos significados, o timoneiro que nos conduz pelos mares da justiça (?) e da integridade, da reverência a Deus Nosso Senhor, da mesura, do aforro, da afoiteza em relação ao futuro, na certeza de que estamos no bom caminho, tanto na terra como no céu.
Findas estas palavras de apreço, manda a prudência que se preconize a todos os que de nós conservem estas páginas entre as mãos, sobre os inconvenientes de tal acto, não se dirá para que não o leiam, pois foi escrito para esse efeito, mas que o abriguem em local à prova de olhos aleivosos, não é pretensão do contador que sejam entregues à malha justiceira deste magnificente país, berço dos antepassados mais lendários da história do mundo, e amarguem na pele o flagício intrépido de homens com rei e roque, com lei e coque, sem freio no baque, longe de nós tais cogitações, a mónita está feita, na certeza idêntica de que não comentarão por qualquer espécie de bufo ou sopro, por mais rápido que seja, as palavras e as gestas das quais tomarão agnição nas linhas seguintes. Ninguém sabe, ninguém viu, não aconteceu». In Luís Miguel Rocha, Um País Encantado, Planeta Editora, Lisboa, 2005, ISBN 972-731-176-8.

Cortesia de Planeta Editora/JDACT