domingo, 10 de março de 2013

A Teologia de Leonardo Coimbra. Pinharanda Gomes. «A revolução é interior. Ocorre como se estivesse fora do tempo, no coração e na mente do povo, que através da revolução, “melhora” o ser, e aperfeiçoa o pensar»

Pintura de Eduardo Malta
jdact

(continuação)

O Tempo e o Movimento
«Um só acordou do erro, um só saltou do leito onde conubiava adulterinamente com a ilusão. Chamava-se Ega de Queirós e arrependeu-se, escrevendo um testamento espiritual de opção, de retorno e de reinstauração da visão própria. O escrito veio titulado A Cidade e as Serras. Não era tarde, embora também já não fosse cedo.
A questão grave que depende de tal livro é esta:
  • para ser nação, um país carece de cidades? E se tudo for terra, terra onde os homens vivam produtivamente e suficientemente, comungando na riqueza dos grandes bens, que nunca se gastam, em vez de, sôfregos, se alhearem nos bens que se gastam?
A revolução industrial abrira um processo que se tornava impossível deter, por isso iria até ao fim. Empobrecimento das nações ricas, e destruição dos bens naturais: terras e mares, montes e fontes, prados e rios. A ecologia não surgiu como ciência; foi apenas o choro dos que, tendo partilhado do banquete de rapina, viram que, afinal, haviam destruído, comendo, o pouco que havia. Na catequese genesíaca, o Criador ensinou que o homem podia dominar, servir como Senhor as criaturas, mas nunca ensinou a abusar delas. É justa a salvação do homem, mas é por igual justa a salvação das espécies criadas.
Os movimentos intelectuais dos países da revolução industrial foram, na sua quase totalidade, citadinos e urbanistas. O único movimento que se identificou em Portugal com eles foi o de 1870, em Casino elaborado. Nascia de uma desfocagem, e de um trauma: o da incapacidade de assumir o próprio ser. O fim do século, como todos os fins de séculos, punha na frente dos homens a interrogação sobre o dobrar do tempo. Transitar de oitocentos para novecentos é como que atingir o milénio, porque se inicia a centúria. No fim dos séculos, e no princípio dos séculos, sempre se atende a mudança, o aperfeiçoamento; por isso, as revoluções, as renovadas esperanças.
O tempo que vai de 1910 a 1930 é um tempo de revoluções: República, Primeira Guerra, 28 de Maio, implantação social do Comunismo, do Fascismo e do Nazismo. Expansão do Pan-Arabismo e do Sionismo. Assunção ocidentalista da China, e o mais, que já pouco importa. As revoluções são feitas, porém, por homens desumanizados, em geral políticos, militares, e alguns intelectuais, mercenários de ambos. Ou seja, não são revoluções. A re-volução, assente no substantivo volução, significa:
  • retoma do movimento, movimento novo, marcha para o mundo novo.
Ora, o mundo novo não se projecta sem pensamento e sem imaginação e, como é óbvio, pensamento e imaginação, carismas que sejam, não se ajeitam, nem aos militares, nem aos políticos, seres manobradores, jamais seres pensadores. A República Portuguesa de 1910 nasceu desse conluio entre militares e políticos desfasados do país real e do país régio, aconselhados por intelectuais pobres, entre os quais havia alguns ricos, que logo se emanciparam, e foram pensar a verdadeira revolução para o exílio.
A sílaba Re- do substantivo República não tem valor análogo ao do prefixo re- de restaurar. Além, Re- (Res, Rei,) é coisa, de onde República, Respublica, ser a coisa pública. É um dado estático, sem consonância de movimento progressivo. É como ter um lameiro, ou uma quinta. O Estado possui a República, a cousa pública. Possui-a, isto é, usa-a, e abusa-a. De um modo geral, as chamadas revoluções portuguesas cifraram-se num abuso do património nacional.
A revolução é interior. Ocorre como se estivesse fora do tempo, no coração e na mente do povo, que através da revolução, melhora o ser, e aperfeiçoa o pensar. Esta revolução não ocorre em datas, mas ocorre no movimento do homem. Por isso, o povo, mais ciente do real, diz o 5 de Outubro, o 28 de Maio, o 25 de Abril, designando e apontando datas que alteraram uma situação política, mas que não foram revoluções, que não transformaram a comunidade». In Pinharanda Gomes, A Teologia de Leonardo Coimbra, Guimarães Editores, Colecção Filosofia e Ensaios, Lisboa, 1985.

Cortesia de Guimarães Edt./JDACT