sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Manuel Cadafaz Matos. O Culto Português a Sant’Iago de Compostela ao longo da Idade Média. « Ao chegar o peregrino a Santiago de Compostela, constatamos naquele “Codex”, cada qual faz as suas vigílias, ajuizadamente, em companhia dos seus compatriotas. Uns, tocam cítaras; outros, liras; outros, tímbales; outros, flautas; outros, pífaros; outros, trombetas; outros, sambucas; outros, violas...»

Cortesia do institutoportuguesdopatrimoniocultural

«Mas a presença dos romeiros, mesmo que por várias horas ou poucos dias, nestas casas de apoio - que se contam entre as instituições de assistência social mais marcantes na Idade Média - leva-nos a constatar o peso que elas tiveram na própria corografia portuguesa. Tendo já anteriormente diversos investigadores tecido considerações em relação a tal matéria, embora não conheçamos, em rigor, nenhum trabalho da especialidade votado em particular à corografia de carácter jacobeu, podemos assinalar que a rampa de partida neste âmbito terão sido as "Memórias Paroquiais de 1758", que se contam entre os manuscritos do Arquivo Nacional da Torre do Tombo.
Importou-nos, assim, a partir dessas fontes, equacionar a questão da corografia portuguesa ao norte do Tejo. E para o fazermos não deixámos de optar pelos derivativos ou paralelismos onomástico-corográficos, que se prendem com peregrinar para Compostela desde o nosso país.
Temos continuado a analisar, desta forma, à semelhança do que aliás já se havia verificado em outros nossos anteriores trabalhos, para lá das aldeias ou vilas de nome S. Tiago (ou Santiago), Albergaria ou Albergue, outras cuja referência onomástica se prende com Estela (Estrela), Confraria, Mesão, etc. Em relação a esta última designação, não podíamos deixar de estar conscientes da sua estreita ligação onomástica com a casa de acolhimento, em língua francesa, "maison" em que no caminho jacobeu franco-espanhol pernoitavam os romeiros que demandavam a «casa santa» do Apóstolo.

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Nestas localidades em que, de um acerta maneira, mesmo que tal se nos apresente de uma forma de certo modo dissimulada, se pretendeu/ia «homenagear» ou invocar Sant'lago, permaneceram até aos nossos dias esses mesmos «resíduos» culturais de identificação com o culto jacobeu. Nessa procura de identidade com um mito ancestral, chegando mesmo à legitimidade de pôr em questão se o Apóstolo alguma vez tenha estado na Península lbérica, o homem procura como que desenterrar as raízes do seu passado ancestral, onde o ideal religioso e a apatia espiritual andavam estreitamente ligados.
Ao «peregrinar» por essas vilas e lugares, o romeiro, «regimentado», por um código de costumes muito próprio e que lhe era única e exclusivamente ditado pela tradição, sentia-se como que imbuído do espírito do «sagrado». A natureza física e geográfica do «caminho» ditava-lhes, assim, como que uma «regra de ouro», obrigatória.
O “Liber Sancti Jacobi- Codex Calixtinus”, cuja estruturação ocorreu entre 1139 e 1173, codificava, de uma forma titular indiscutível, todas essas manifestações de comportamento. Uma das partes dessa obra, designadamente o Livro Quinto, intitulado precisamente “Guia do Peregrino”, continha em si uma súmula de preceitos que todo o romeiro tinha piamente de seguir, a série de caminhos que conduziam até ao santuário de Santiago de Compostela, as jornadas do caminho para essa cidade, os nomes das povoações situadas nesses mesmos percursos, os «três bons hospitais do mundo», os nomes dos construtores da Estrada de Santiago, as águas doces e amargas que se podiam encontrar em tais caminhos, as qualidades das terras e povos, as santas relíquias que se podiam visitar e a paixão de S. Eutrópio, como é a cidade e a igreja de Santiago, a divisão das oblações do altar do Apóstolo, bem como a forma de os peregrinos serem bem recebidos.

Cortesia do institutoportuguesdopatrimoniocultural

Ao chegar o peregrino a Santiago de Compostela, constatamos naquele “Codex”, «cada qual faz as suas vigílias, ajuizadamente, em companhia dos seus compatriotas. Uns, tocam cítaras; outros, liras; outros, tímbales; outros, flautas; outros, pífaros; outros, trombetas; outros, sambucas; outros, violas... Uns, com cítaras outros com diversos géneros de música, passam a vigília a cantar. Outros choram os seus pecados. Outros rezam salmos. Outros distribuem esmolas pelos cegos...».
Na primeira parte (ou primeiro livro) desse “Codex”, na secção precisa onde se encontram compendiados vários hinos alusivos a Santiago, a música da época, ou seja do século XII, constitui para os musicólogos um dos seus mais ricos repertórios. Em estudo efectuado por Thomas Binkley, regista-se que muitas das canções aí contidas são especificamente dedicadas ao Apóstolo. É o caso de um «Nostra phalans plaudat» “conductus”, que faz evocar ao cantor e ao ouvinte a história que se encontra associada a toda a prestação de culto a Santiago:

«Nostra phalans plaudat leta
hac in dié que athleta
Christe gaudet sine meta
Jacobus in gloria
Angelorum in curia
Quem Herodes decollavit
et id circa coronavil
illum Christe et dicavit
in celesti patria
Angelorum in curia
Cuius corpus rumulatur
et amutas visitatur
Et per illus eis datur
salus in Gallecia
Angelorum in curia
Ergo festum celebrantes
eius melos de cantantes
per solvamus venerantes
dulces laudes domino.
Angelorum in curia».

Ainda de natureza musical, é a página que, segundo Binkley, está apensa ao “Codex Calixlinus”, aventando-se mesmo a hipótese de ser anterior ao material que se lhe junta. Esse documento integra a canção «Dum Pater Famílias», que, pela sua forma e conteúdo, indica tratar-se de um canto de peregrinação». In Manuel Cadafaz Matos, O Culto Português a Sant’Iago de Compostela ao longo da Idade Média, Peregrinações de homenagem e louvor ao túmulo e à cidade do Apóstolo entre o século XI e século XV, Instituto Português do Património Cultural, Lisboa, 1985.

Cortesia de Instituto Português do Património Cultural/JDACT

Luísa Sigea. Diálogo de Duas Jovens sobre a Vida na Corte e a Vida Particular: «Uma coisa monstruosa é o grau mais elevado e o espírito mais débil… a língua mais eloquente e a mão mais ociosa, palavra interminável e resultado nenhum, um rosto decoroso e conduta imprudente, grande autoridade e firmeza instável»

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Tradução de excertos, realizada por Maria do Rosário Laureano Santos, a partir do original em latim: Colloquium duorum virginum de vita aulica et privata, de 1552. Não existe nenhuma versão portuguesa, apenas uma tradução francesa publicada em edição bilingue: Louise Sigéé. Dialogue de deux jeunes filles sur la vie de cour et la vie privée. Introdução, trad. e notas por Odette Sauvage. Paris, PUF, 1970.

Luísa Sigea
IV
Blesila: Enganas-te tu que assim tratas da paciência e imaginas que esta tem lugar no serviço dos príncipes; com certeza, estás cega; se tiveres ouvido qual é “a representação e o aspecto” da paciência e qual é o lugar onde habita, tu própria te confundirás. Na verdade, “tem um rosto tranquilo e calmo”, ainda segundo Tertuliano:
  • a fronte sem nenhuma marca provocada pela tristeza ou pela ira, as sobrancelhas serenas e igualmente com expressão alegre, os olhos baixos por humildade, não por desgraça, a boca selada em respeito pelo silêncio, e não só cor da pele é a das pessoas convictas e inocentes, mas também dirige com frequência movimentos de cabeça e um riso ameaçador contra o diabo; o manto, branco sobre o tronco, e cingido ao corpo, para que nada o levante ou agite; esta é a verdadeira paciência. A que antes imaginaste não é verdadeira, não vem do coração, mas é forçada quer pela ambição das recompensas, quer pelo medo de perder o que foi alcançado pelo serviço ou pelo trabalho; surge para que não reveleis o que sabeis sobre a arrogância e falta de cumprimento dos deveres dos príncipes para convosco, porque daí procede, contra vós, o despeito dos invejosos ou a alegria pelos vossos incómodos”.
Está sentada,
  • a que é a verdadeira paciência, no trono daquele espírito cheio de bondade e de doçura, que não sofre de perturbação nem é encoberto pelas nuvens, mas é de uma serenidade delicada, aberto e simples, como o viu Elias na terceira vez”,
não no átrio dos príncipes, onde arde a chama inextinguível da impaciência (tal como sabes), mas “onde está Deus, está aí também a paciência, nutrida por ele”; e, deste lugar, expande as suas forças invencíveis e torna invencíveis os que o seguem. De facto, através da sua força:
  • Isaías é cortado ao meio e não cala o seu testemunho sobre o Senhor; Estêvão é lapidado e pede o perdão para os seus inimigos. E Job, afastados todos os dardos das tentações com a cota e com o escudo da paciência, recupera de Deus a integridade do corpo, ficando com o dobro da que tinha perdido. E, se ele quisesse que os filhos lhe fossem restituídos (tal como diz Tertuliano), teria de novo o nome de pai, mas prefere que lhe seja dada a grande alegria no dia da glória, e suporta a privação voluntária dos filhos, para que não viva sem alguma paciência”.
Esta paciência, como eu disse, só pode habitar junto de Deus, porque só Deus é suficientemente idóneo para ela. Se tiveres colocado junto Dele a injustiça, Ele vinga-a, o dano, repara-o; a dor, Ele cura-a; finalmente, a morte, Ele ressuscita-a. Enfim, só a esta paciência é permitido ter Deus por devedor. E acerca dessa tua paciência fantasiada, que dizes tu, Flamínia?

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És capaz de me negar que aqueles que servem os reis não sejam completamente desprovidos de paciência, visto que vivem todos de rapina, roubando aos outros (se podem) recompensas e rendimentos; e que, mesmo de outro modo, não destruiriam os outros por causa da desordem provocada pela inveja, e que cada um deles não admitiria as vantagens do próximo com espírito indevido? Tu consideras injusto o príncipe que não distribui largamente todos os bens a cada um dos seus servidores. Mas, na verdade, quem são os príncipes, para que a paciência habite na sua convivência e no seu trono? Sobre eles, foi dito isto por Isaías:
  • “Todos os príncipes infiéis escolhem as dádivas, perseguem as recompensas.”
V
Blesila: No mesmo instante, eles amam e odeiam, favorecem e negam o favor, constroem e destroem, erguem e arrastam, elevam até aos astros aquele que hoje está coberto pelas honras, amanhã, pelo mais leve sussurro dos malévolos, deixam-no cair na infâmia mais profunda. O que granjeiam agora, logo recusam, desdenham e debilitam, com o olhar ameaçador dado pela natureza para punir. Quando têm necessidade de servidores, quer para mostrar a grandeza do seu poder, quer para preencher cargos distintos através da diligência destes, cobrem-nos de palavras e promessas e inflamam-nos com compromissos vãos. Depois, quando a caterva de aduladores (que rodeia sempre, por todo o lado, os príncipes) lhes perturba os ouvidos, as promessas desvanecem-se nos ares e tornam-se vazias e, ainda que os reis tenham sido favorecidos, só os aduladores vencem e determinam tudo, segundo o seu arbítrio. Estes aduladores tornam os reis insensatos, mesmo os mais sábios (se lhes dão ouvidos), com as suas palavras rebuscadas e falsas, sobre as quais diz Salomão:
  • Um rei insensato, sentado no trono, é como um macaco dentro de uma casa.” E diz Bernardo: “Uma coisa monstruosa é o grau mais elevado e o espírito mais débil, o lugar supremo e a vida mais vil, a língua mais eloquente e a mão mais ociosa, palavra interminável e resultado nenhum, um rosto decoroso e conduta imprudente, grande autoridade e firmeza instável.
O mesmo Bernardo também aconselha os príncipes deste modo (demonstrando na pessoa de Eugénio a cegueira destes): Destrói o artifício desta honra e da glória brilhante com cores falsas, para que consideres naturalmente a tua nudez, porque saíste nu do ventre da tua mãe, sem insígnias reais, sem o brilho das pedras preciosas e a da seda, sem ser coroado por plumas ou carregado com metais preciosos. De facto, se afastares todos estes ornamentos, como nuvens matinais passando o céu velozes e dispersando rapidamente, e os fizeres desaparecer da frente do teu pensamento, surgirá um homem nu, pobre e infeliz; um homem que se lamenta porque é homem, que cora porque está nu, que se lastima porque nasceu, gemendo porque existe. Todas estas coisas, minha cara Flamínia, não só não as vêem os príncipes (enlevados pela vaidade da sua condição e da sua dignidade), mas também que fúrias não exercem eles contra os seus súbditos, inteiramente esquecidos do que lembrei segundo Bernardo? Quando se indignam, a que terrores poupam os seus servidores? Querem ser honrados e admirados como se fossem igualmente deuses, e procuram sê-lo por todos? Em que não acreditam para causar a morte dos infelizes? Têm todos tendência para acreditar, segundo o autor destas mesmas palavras:
  • Existe um defeito – e se tu te sentes livre dele entre todos os que conheci que subiram ao trono, estás só – que é a facilidade em acreditar em ardis, uma pequena raposa muito astuta, e eu descobri que nenhum grande se afastou dele. Deste defeito, são provenientes para os próprios príncipes, por qualquer razão bastante insignificante, muitas iras, a condenação frequente dos inocentes e o julgamento antecipado dos ausentes.
São estes, com certeza, os vossos guias, para vós que servis os reis, Flamínia, isto é, eles próprios cegos e guias cegos; são cegos porque não se lembram da sua fragilidade e enganam-vos com a esperança falsa de honra – visto que não podem atribuir aos outros a verdadeira honra – a qual é efémera e se alegra com essa dignidade efémera.

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Vós também sois cegos, porque devotais a vida aos que nem sequer vida têm, tanto mais que a têm entregue ao arbítrio de outros. Com estes guias (enquanto vós acreditais aspirar a grandezas), caís no meio da estrada, porque vos falta o verdadeiro guia do caminho, ides por caminhos ínvios, isto é, pela via do orgulho, e excedeis em tudo a justa medida. O que é reprovado com firmeza por aquele que afirma: “Conserva o meio, se não queres perder a justa medida; por isso, o sábio considera um exílio todas as casas fora da medida, altas, porque ultrapassam a medida, extensas, porque a excedem, grandes ou pequenas, porque umas são maiores e outras, menores do que ela. O comprimento costuma conduzir à destruição, o afastamento à fissura, a altura à ruína, e a profundidade ao desaparecimento.”
Ora este é o meio, no qual reside a virtude, sabe-lo bem, Flamínia; e a virtude segue os passos de quem, se não forem os passos de Deus?
[...]
In Isabel Allegro de Magalhães, O Diálogo de Duas Jovens Mulheres, Fundação Calouste Gulbenkian, 2003, ISBN 1645-5169.

Cortesia da FC Gulbenkian/JDACT

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

A Infanta D. Maria de Portugal (1521-1577). As suas Damas: «Quando se ofrecian negocios que tratar, que parecian Buenos, andava V. A. en dilaciones, y de feria en feria, sin querer-los concluir, y agora que no ay ninguno, me sale con esso? Pues aunque fuesse Monarca del mundo, no lo haré, ni se ha de pensar tal cosa de mi!»

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NOTA: Texto na versão original

A Infanta D. Maria
«Os projectos de casamento nem por isso acabam. Tendo morrido a primeira mulher de Felipe em Julho de r1545, ao dar a vida ao desgraçado príncipe D. Carlos, e não encontrando outra alliança mais vantajosa, o Imperador cada vez mais apertado pela mãe da Infanta, viuva de Francisco I desde 1547, lembra-se de casar o filho com a Infanta. Encontra porém como sempre a surda resistência de D. João III, o qual, depois de novas delongas, declara redondamente, não poder dar o seu consentimento, “porque assim cumpria a bem de seus reinos e de sua real fazenda”. Repugnava-lhe talvez ver occupado o logar da filha idolatrada, que sempre fôra fraca e doentia, pela bella e robusta pupilla? O Imperador, obrigado a desistir, forja novos projectos, escolhendo para noivo da princesa o Archiduque Fernando, filho segundogenito do Rei dos Romanos. D. Maria regeita-o todavia, na supposição que as negociações com o Príncipe de Castella continuavam em bom caminho, e que breve as suas intimas esperanças se realizariam.

E realmente, as combinações de Carlos V falham. Mas o consorcio da Infanta com Felipe reapparece, d'esta vez sob bons auspicios. D.João III já não acha subterfugios; o contracto é rubricado depois da troca dos retratos; a Infanta assigna, offìcialmente, como “Princesa de Castella”, e como Princesa de Castella e futura rainha do immenso imperio em cujas fronteiras o Sol nunca desapparecia, a celebravam poetas e panegyristas.

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Emfim, o embaixador do Cesar, Ruy Gomes da Silva, principe de Eboli, aguarda em Lisboa, com luzidissimo cortejo, as ultimas ordens para a «receber». Eis senão quando, vinte e quatro horas antes do desposorio, chega um correio de Castella, com o seguinte despacho laconico:
  • “En este ponto tengo aviso que es muerto Eduardo (VI), Rey de Inglatierra, a quien sucede Maria, su hermana. Si no está celebrado el desposorio con la Infanta D. Maria de Portugal, suspenda-se por aora. (6 de Julho de 1553).
E ficou suspenso! Felipe de Hespanha pediu e obteve a mão da dura, fria e feia Maria Tudor (1554), já quasi fiançada ao Infante D. Luis. Antonio Moro correu para pintar essa noiva nordica. Ella lá está no Prado, perto das Marias meridionaes; sentada, brincando com uma rosa, mas com que expressão seca e concentrada na cara angulosa. D. Leonor e D. Maria, joguetes nas mãos do imperador, “que se consolem com a antiga receita!”

A Infanta consola-se, ou antes resigna-se. Dotada de animo grande e espirito levantado, de accordo com a sua alta posição, revelando a generosidade propria de nobres caracteres, perdoa tantos e tão repetidos aggravos, o desvanecimento das suas mais risonhas esperanças. Sem uma queixa, sem um reparo, com discreta reserva, põe termo a tudo. Renuncia a qualquer enlace; resolve ficar solteira e no reino, no meio das suas amigas, dos seus livros e dos seus pobres, entregue d'ora avante ás sciencias e artes, a obras de caridade e cuidados religiosos. Despede-se do mundo e de seus enganos, preferindo a placidez da vida contemplativan o ideal de Rachel-Maria, aos cuidados e conflictos da vida activa de Lea e Marta.

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Uma testemunha de vista que observou a Infanta depois de 1557 dizia della:
  • «Es persona de grande entendimiento y cordura, muy reposada y de pocas palabras e bien dichas; es de las valerosas personas que he visto y temen-se sus determinaciones como de tal; que no son de mujer moza... Tiene otros fines muy santos y honrados, y sin hazer estremos en ello, ha mas de dos años que se ensaya en un vestido e recojimiento muy bueno, y mucha oracion, y esto no como hypocrita, sino como conviene a su edad y persona».
Mas D. Leonor, a mãe, nunca se conforma. Sentidissima do passado offendida com o ultimo escandalo, corre de Flandres a Castella, acompanhada de sua energica irmã, a Rainha de Hungria. Chegada a Madrid, despacha para a côrte de Portugal uma serie de cartas, cheias de queixas amargas, mal dissimuladas no meio de formulas diplomaticas, sollicitando, ou melhor, exigindo terminantemente a partida da Infanta. Um embaixador especial, Juan de Mendoza, vem entregar estes papeis, sendo apoiado nas suas exigencias pelo enviado extraordinario de Carlos V, Sancho de Cordova, cujas palavras acabo de citar.
D. João III, resolvido a não ceder, ensaia nesta occasião uma nova tactica. Depois de ter feito abortar tantos planos de casamento, finge tomar agora a iniciativa, agora quando devia ter a plena convicção de que a irman, enfadada e desilludida, regeitaria, sem a menor hesitação, toda e qualquer corôa que lhe offerecessem.
Os novos pretendentes, propostos pelo carinhoso irmão, são já nossos conhecidos: o archiduque Fernando e seu velho pae, irmão do Imperador, ou, por outra, o já caduco Fernando d'Austria que ia occupar o throno allemão. A Infanta recusa decididamente; e, como EI-Rei insiste hypocritamente, apertando sobre coisas que elle mesmo não queria, a victima perde a paciencia, e cheia de indignação, responde de viva voz, em presença da côrte toda:
  • “Quando se ofrecian negocios que tratar, que parecian Buenos, andava V. A. en dilaciones, y de feria en feria, sin querer-los concluir, y agora que no ay ninguno, me sale con esso? Pues aunque fuesse Monarca del mundo, no lo haré, ni se ha de pensar tal cosa de mi!”
E neste proposito ficou».

In Carolina Michaelis de Vasconcelos, Infanta D. Maria de Portugal (1521-1577) e as suas Damas, edição fac-similada, Biblioteca Nacional, Lisboa, 1994, ISBN 972-565-198-7.

Cortesia de Biblioteca Nacional/JDACT

L’Hotel Gulbenkian. Paris. «Adquirida em 1922 pelo Coleccionador, para aí residir com a sua família e instalar a sua colecção de obras de arte, a Casa alberga o Centro Cultural Calouste Gulbenkian desde 1965»


Fotografia de Jorge Molder
Cortesia da fcg


L’Hotel Gulbenkian. 51 Avenue d'Iena
Memória do Sítio. De 21 de Outubro de 2011 a 22 de Janeiro de 2012.
Museu Gulbenkian, das 10h00 às 18h00, Terça-feira a Domingo

«Depois de Paris, o Museu Calouste Gulbenkian acolherá, a exposição «L’Hôtel Gulbenkian, 51 avenue d’Iéna. Memória do Sítio». A mostra dá a conhecer a história da Casa de Calouste Sarkis Gulbenkian em Paris, situada no nº 51 da Av. d’Iéna, em estreita relação com o percurso excepcional do seu proprietário, coleccionador e homem de negócios, e com a Fundação que legou a Portugal.


Cortesia de saisdeprataepixels e fcg

Adquirida em 1922 pelo Coleccionador, para aí residir com a sua família e instalar a sua colecção de obras de arte, a Casa alberga o Centro Cultural Calouste Gulbenkian desde 1965. Para ilustrar a história deste lugar, desde as obras realizadas e os seus protagonistas, passando pelas vivências da Casa e a personalidade do seu proprietário, até às actividades do Centro e o seu futuro, em novas instalações, apresentam-se variados documentos, plantas, alçados, desenhos e dispositivos audiovisuais». In Fundação Calouste Gulbenkian.

Cortesia da FC Gulbenkian/JDACT

BNP. Viagens pela Escrita, 100 Anos de Turismo em Portugal. Mostra. «Nas páginas escritas e na iconografia associada, viajamos pelos ensinamentos da Geografia, Economia, Arquitectura, Sociologia, Antropologia... do Lazer e Recreação, do Ambiente, dos Recursos e Produtos Turísticos, envolvendo todas as áreas humanas e da Natureza»


Cortesia da bnp

Viagens pela Escrita, 100 Anos de Turismo em Portugal
Mostra, até ao dia 7 de Janeiro de 2012. Sala de Referência.
Viagens pelo Cartaz
Mostra, de 6 de Outubro a 10 de Novembro de 2011. Galeria-corredor do Auditório.

«O Turismo também se escreve. Nos guias, roteiros, monografias, ensaios, teses, dicionários, revistas e literatura de viagens, em distintas abordagens e para diferentes fins, tipologias complementadas pelos cartazes, bilhetes-postais e mapas, sempre tão sugestivos. Observamos, assim, um amplo leque de opções que tornaram o Turismo um tema diverso na literatura e nos estudos técnicos e científicos.
Nas páginas escritas e na iconografia associada, viajamos pelos ensinamentos da Geografia, Economia, Arquitectura, Sociologia, Antropologia, entre outras áreas do saber, ou pelos mundos da Hotelaria, dos Operadores Turísticos, da Gastronomia, dos Eventos, do Lazer e Recreação, do Ambiente, dos Recursos e Produtos Turísticos, envolvendo todas as áreas humanas e da Natureza.

Cortesia da bnp

Na evolução dos tempos, o primeiro êxito editorial de uma publicação dedicada às viagens e ao Turismo, em Portugal, remonta à Gazeta dos Caminhos de Ferro (desde 1888), na qual se destacam as rubricas “Viagens e Transportes” e “Termas, Campos e Praias”, bem como variadas crónicas e sugestões de viagem aos leitores.
O director desta publicação, Leonildo de Mendonça e Costa, seria um dos principais dinamizadores da criação, em 1906, da Sociedade Propaganda Portugal, em cujos fins se inscrevia a publicação de “itinerários, guias e cartas roteiras de Portugal”. O seu Boletim mensal (a partir de 1907), distribuído gratuitamente aos sócios, incluía as realizações da Sociedade e propostas de viagens no país e divulgação do nosso património – “A Arte e a Natureza em Portugal”, que já em 1902 era bem patente no Álbum de photographia com descripções; clichés originaes; cópias em phototypia inalterável; monumentos, obras d’arte, costumes, paisagens, um verdadeiro inventário, feito pela arte fotográfica de Emílio Biel, que acompanhou a escrita. Simultaneamente ao Boletim, a Sociedade Propaganda de Portugal publicou ao longo dos anos várias outras obras, como monografias, dépliants e outras brochuras de divulgação, algumas noutros idiomas.

Cortesia da bnp

A primeira publicação inteiramente dedicada ao sector, editada após a institucionalização do Turismo em Portugal (1911), abrangia “propaganda, viagens, navegação, arte e literatura”, para “desenvolver o gosto das viagens” (Revista de Turismo, 1916), à semelhança do que acontecia noutros países. O articulista enuncia, por esta ordem, França, Suíça, Itália e Espanha. Sublinha as condições climáticas do país, as suas paisagens, costa marítima e águas minerais, pelo que seria “preciso, pois, defender as preciosidades com que a Natureza tão prodigamente nos dotou, e é esse o principal objectivo da nossa campanha para o que possuímos uma excepcional boa vontade e uma coragem transcendente.”
Aliás, nos primeiros tempos, foram as revistas os principais veículos de divulgação do Turismo, como a Ilustração Portuguesa (desde 1903). Já no Estado Novo, a edição de uma revista “dirigida aos que gostam de viajar e ainda àqueles que, por suas favoráveis condições de vida, podem adquirir esse gosto que instrui e aristocratiza o espírito” (Viagem, 1940) e de uma outra, esta editada pelo Secretariado de Propaganda Nacional e dirigida por António Ferro (Panorama, 1942), foram as primeiras publicações de Turismo do Antigo Regime, com a colaboração dos melhores escritores, jornalistas e fotógrafos da época.

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Nos anos 50, foi o tempo dos anuários (Portugal País de Turismo) e da edição de boletins municipais, “a bem servir a terra portuguesa” (Boletim da Comissão Municipal de Turismo da Figueira da Foz, 1941), tarefa aliás a que também se dedicou a própria estrutura central, no “órgão de divulgação e propaganda do turismo em Portugal (Jornal de Turismo, 1957), como “paladino de uma causa de interesse nacional”.
O mundo do Turismo alarga-se para além de Portugal, na “revista europeia de actualidades, cultura e turismo, dedicada a Portugal, ao Mundo, às ciências, à vida quotidiana, às artes, aos espectáculos, aos desportos, ao turismo”. Abrangente, também, porque uma “revista é para todos” (Sol, 1963).
A coincidir com o ano da criação da Direcção-Geral de Turismo, surgem, em 1968, a nova Revista Turismo – Arte, Paisagens e Costumes de Portugal, num olhar abrangente pelos recursos turísticos, e o quinzenário Publituris, ainda hoje em publicação, inicialmente para cobrir a dispersa informação especializada em promoção do Turismo, aviação, cruzeiros, hotelaria, excursões e eventos. Deste, em 1973 foi lançada uma versão em inglês e, dois anos depois, os seus responsáveis seriam os promotores da Associação dos Jornalistas e Escritores Portugueses de Turismo.

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A partir dos anos 70, assistiu-se a uma maior dinamização da imprensa turística. Novas revistas de grande divulgação; revistas de grupos, cadeias de hotéis, transportadoras aéreas e cruzeiros; boletins e revistas associativas impressas; e portais na internet. Expansão relacionada com a própria diversificação do Turismo Interno. Alguns órgãos generalistas publicam secções de Turismo, incluindo suplementos semanais de Turismo, ou mesmo guias e roteiros, estes últimos como literatura utilitária acarinhada e consultada neste arco de tempo de um século, relacionando-se com a Geografia – pela apreensão do território –, a História da Arte – pela definição em cada época do património valorizado – e a História Económica – pelo relato do progresso. São destinados a viajantes e excursionistas, assim como aos profissionais do sector, incluindo as publicações monográficas locais e as edições dos órgãos de promoção turística.
Muitos periódicos editaram publicações complementares, e as próprias revistas da especialidade interessaram-se em editar guias e roteiros, propondo circuitos, quase sempre incluindo plantas e mapas, com a informação geográfica ou cartográfica mais relevante para o turista, e anúncios de publicidade de e termais e comerciais, de indústrias e empresas de transportes. Relevamos, também, o espólio do antigo Secretariado Nacional de Informação, Cultura Popular e Turismo (SNI), do qual se expõe um conjunto notável de guias e roteiros, editados por este organismo, em português e noutros idiomas, e outros editados por entidades estrangeiras, que expressam diversas visões sobre Portugal.

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Os guias, roteiros e mapas, enquanto fontes históricas, têm ultimamente aberto novas linhas de investigação, no universo onde existem cada vez mais estudos técnicos e científicos, manuais sobre teorias, práticas e teses associadas ao desenvolvimento do sector e dos múltiplos ramos que o integram, incluindo publicações de carácter estatístico. O saber imprime-se e divulga o trabalho crescente das universidades, com pioneirismo (Revista Turismo & Desenvolvimento, a partir de 2004), na primeira publicação científica da área do Turismo em Portugal, promotora de uma rede nacional de cientistas, que passou a servir de apoio ao sistema de revisão anónima (blind referee), através do qual têm sido analisados e avaliados todos os artigos. Mas esta profundidade que as universidades emanam não faz esquecer todo o campo literário dedicado a edições temáticas ou crónicas de viagens em Portugal. Oferta bastante diversificada e actualizada de destinos e coescritos por autores de mérito consagrado e por jornalistas de prestígio.
Há quem nos faça “um convite a passear” (Viagem a Portugal, 1981), quase sempre numa aposta de cuidada aparência, compatibilizando “um formato de divulgação com um mais técnico-científico” (Portugal Património. Guia Ilustrado, 2007). O Guia de Portugal (a partir de 1924) é o antecessor mais completo, e dele conhecemos e divulgamos, também, preciosos manuscritos.

Cortesia da bnp

Viaja-se pelos cafés, que sempre assumiram um aspecto literário e político, mas também turístico; pelos grandes hotéis de Portugal, com “todas as comodidades e confortos para todos os gostos e fortunas” (Grandes Hotéis de Portugal, 2001); pelo Turismo de Saúde e pela arquitectura termal, suporte das nossas termas e origem do nosso Turismo. Por estas Viagens pela Escrita têm passado a estratégia e a política de desenvolvimento turístico do nosso país: “ainda num passado recente olhado com desconfiança e alguma displicência, o turismo é já hoje uma realidade incontestada no país e um dos sectores prioritários na política económica nacional sendo considerado como sector chave do processo de desenvolvimento económico” (Política de Turismo, 1997). Conclui-se o percurso com o que fica destas comemorações, desde o Congresso, em Maio passado, celebrando a institucionalização do Turismo em Portugal, às exposições em diferentes pontos do país, marcando a evolução do Turismo, visto em diversas perspectivas, como sejam as do empreendedorismo, da administração pública, da imprensa e da fotografia. No desenho de um bilhete-postal, assinalando este centenário, vemos muitos outros, mais antigos, reproduzindo imagens de Portugal e impressões escritas. Estas e outros importantes fragmentos manuscritos e presentes nesta Mostra são testemunhos guardados nesta Casa da Memória que os cuida com afecto e rigor técnico na sua conservação, porque, também na evolução escrita e imagética do Turismo, é necessário considerar a importância da Memória, enquanto criadora do sentido de pertença colectiva, de que o futuro se não pode desligar». In Biblioteca Nacional de Portugal, Setembro de 2011, A Comissão Nacional do Centenário do Turismo em Portugal.
 
Cortesia de BNP/JDACT

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Arte e Artistas em Portugal. Os Anos 70. Parte Ib. «Durante o mês de Abril realizou-se a exposição 26 Artistas de Hoje, reunindo na Sociedade Nacional de Belas Artes (SNBA) alguns dos trabalhos do conjunto de artistas distinguidos pelos Prémios Soquil»

Nikias Skapinakis, Encontro de Natália Correia,
Fernanda Botelho e Maria João Pires, 1974.
Cortesia de cvc

«Ao nível das publicações também assistimos durante a primeira metade da década de 70 ao aparecimento da revista Colóquio-Artes (1971-1997), sob a direcção de José-Augusto França, e no Porto, em 1973, à Revista de Artes Plásticas. No ano seguinte seria, também da autoria de José-Augusto França, publicada A Arte em Portugal no Século XX, obra de referência para a historiografia artística nacional.
Ainda em 1973 - ano da morte de Picasso - três acontecimentos importantes merecem uma referência particular. Durante o mês de Abril realizou-se a exposição 26 Artistas de Hoje, reunindo na Sociedade Nacional de Belas Artes (SNBA) alguns dos trabalhos do conjunto de artistas distinguidos pelos Prémios Soquil.

Em Setembro desse ano era inaugurado, em Lagos, o monumento a D. Sebastião. Não é fácil encontrar uma figura cuja carga histórica, mítica e cultural, melhor represente a atmosfera passadista, pasmada e bloqueadora que impregnou a sociedade portuguesa durante largas décadas. Ao mesmo tempo, a figura de D. Sebastião foi uma das grandes fontes inspiradoras de uma atitude irracionalista, saudosista, reaccionária e imobilista que por muito tempo marcou correntes influentes do pensamento português. Estas considerações histórico-culturais ajudam a explicar porque é o D. Sebastião de João Cutileiro uma obra-chave deste período. Partindo da experiência técnica das suas "bonecas articuladas", o autor apresenta-nos o jovem rei como o menino que questiona o mito imperial dos portugueses, numa renovação da estatuária que definiria o novo limiar da escultura portuguesa, destronando em definitivo a linguagem escultórica do regime, protagonizada pelo trabalho de Francisco Franco. A inserção física da estátua numa praça de Lagos corresponde ao modo como o adolescente Sebastião pousa no chão o elmo e abre à sua volta um olhar claro e limpo, através do qual o seu corpo se deixa absorver pela luz.

João Cutileiro, Maquete de D. Sebastião - I, 1972.
Mármore
Cortesia de cvc

De modo mais óbvio, outros eventos artísticos anunciam a iminência da mudança política. Em Dezembro de 1973 inaugura na SNBA a Exposição 73. Na sala de entrada uma representação escultórica realista de um soldado morto com a farda da guerra colonial - Jaz Morto e Arrefece de Clara Menéres. Por trás dele, na parede, um friso de pardos rostos silenciosos numa pintura de Rui Filipe. Na noite da inauguração uma performance de João Vieira envolvendo uma mulher nua pintada de dourado é ainda matéria de pequeno escândalo.
A 25 de Abril de 1974 é o "25 de Abril". A 10 de Junho, dia de Portugal, 48 artistas juntam-se para comemorar o acontecimento e pintar, em simultâneo, ao vivo, em directo diante do público e das câmaras da televisão um grande painel que tem como tema a liberdade. É um evento ingénuo e um pouco anedótico mas não vale a pena negar-lhe a sua autenticidade emocional e conjuntural. Durante a reportagem alguém diz a Júlio Pomar que a sua pintura é complicada. Pomar responde que a vida também é complicada.
No Porto, uma "comissão para uma cultura dinâmica" formada por artistas plásticos, escritores e poetas realiza nesse mesmo dia o Funeral do Museu Nacional de Soares dos Reis. O protesto - que envolveu cerca de 500 pessoas - era dirigido contra o sistema museológico português em geral, completamente anacrónico.

Os acontecimentos políticos de 74 vieram interromper o ritmo das exposições de artes plásticas, assim como o consequente trabalho da crítica. Das páginas dos jornais quase desaparecem as referências às práticas artísticas, embora a inevitável euforia da movimentação política tenha determinado, ainda que fugazmente, a renovação da participação cultural, com a aspiração a um novo tipo de relacionamento entre artistas e público em geral.
Como é habitual em períodos de agitação política pré- ou pós-revolucionária, vários artistas e práticas culturais foram instrumentalizados pelas mais primárias, anacrónicas e absurdas manipulações ideológicas. Se quisermos fazer um balanço, em termos estéticos, de toda esta agitação política, retenham-se os cartoons de João Abel Manta e os sumptuosos murais do MRPP, quase todos já destruídos.

José de Guimarães, Máscara com Tatuagens, 1973
Cortesia de cvc

Entre os alinhamentos estéticos desses anos discutia-se, simultaneamente, a dialéctica entre figurativismo e abstracção, entre a pintura e a arte conceptual (ou as acções pós-conceptuais), e reviam-se as intenções, agora libertas da censura, do surrealismo e do neo-realismo portugueses. Procurava-se nas propostas mais ligadas ao exterior, dos conceptualismos vários às tendências pós-vanguardistas, a marca de uma renovação ou as referências mais evidentes da contemporaneidade. Entre o formulário conceptualista e o registo neo-figurativo reordenavam-se as propostas estéticas dos anos 70, numa tendência crescente para a afirmação dos percursos individuais de cada artista.
Nesta interrogação e revisão da modernidade promoveram-se algumas exposições, retrospectivas, mostras temáticas, decorrentes também da situação política e social do país (a título de exemplo refira-se a exposição Pena de Morte, Tortura, Prisão Política, SNBA, 1975). Divulgaram-se práticas e intenções plurais, revelando a multiplicidade da oferta, numa convivência harmónica entre gerações de artistas, estilos, dinâmicas e referências.
No campo das artes plásticas uma grande exposição - Alternativa Zero, Galeria Nacional de Arte Moderna, Belém, 1977 - encerra o período das convulsões pós-revolucionárias, fazendo o balanço da década de 70 no que diz respeito às experiências artísticas mais vanguardistas. Alternativa Zero, organizada por Ernesto de Sousa, constitui um balanço dos trabalhos que em Portugal se mostraram mais sintonizados com as tendências da evolução da arte contemporânea a nível internacional. Conforme o catálogo descritivo advertia a respeito do evento: "pretende ser 'algo mais' do que uma exposição: ou, encarando as coisas de outro prisma, pretende ser uma exposição aberta, com todas as consequências possíveis 'nesta' sociedade, inclusive concorrer (ainda que pouco) para transformá-la". As propostas conceptuais de Alberto Carneiro, ou de Clara Menéres com Mulher-Terra-Vida, e o vídeo de João Vieira, comprovam e exemplificam a linha plural orientadora da exposição, numa altura em que o vazio do mercado de arte não permitia uma verdadeira visibilidade das obras nacionais. A exposição intitulada Alternativa Zero - Tendências Polémicas na Arte Portuguesa Contemporânea marca assim o primeiro balanço dos trabalhos que em Portugal tomaram como referência as atitudes conceptuais e congéneres. Uma situação entre nós minoritária e marginalizada, da qual, no entanto, sairia uma primeira vaga de artistas que viriam a desempenhar um papel do maior relevo ao longo da década de 80». In Alexandre Melo, Centro Virtual Camões.

Cortesia de CVirtual Camões/JDACT

O Livro de Cale. Carlos Cordeiro: Parte 4. «Bernardo contornou a casa, tentando ver se se tratava de um local seguro. Pretendia deixar “Lucus” na cavalariça. Deteve-se junto de uma abertura, ladeada por dois pilares de madeira. Entrou num telheiro, apeou-se e amarrou o cavalo a uma trave. Alguns movimentos e relinchos abafados fizeram-no olhar para as outras montadas, apenas percebidas como silhuetas de corcéis árabes»

Cortesia de peuropaamerica

Recontro em Mofatra
«O céu descobrira-se momentaneamente, deixando o luar incidir numa velha ponte romana, aparentemente reconstruída havia pouco. A claridade do lugarejo tornara-se mais forte, à medida que “Lucus” se aproximava. Entre as raras tochas acesas, destacava-se uma no que parecia uma habitação antiga, mas sólida. Foi para lá que Bernardo voltou a montada, afagando-lhe o dorso, na tentativa de o acalmar e de aliviar a sua dor. Porém, os afagos não lhe revelaram a ferida que rompia o bojo do cavalo.
O monge também estava ferido. Sentia agora a dor. Talvez as ramagens ou as rédeas o tivessem fustigado. Todavia, os cortes eram demasiado finos e perfeitos, como que infligidos por gumes afiados. Contudo, a chuva, que, entretanto, voltara a cair e que lhe escorria pelo corpo, aliviava-lhe o sofrimento.
Cautelosamente, Bernardo aproximou-se da aldeia. Com excepção de uma ou outra tocha, onde bruxuleavam ténues chamas, pouco mais estava iluminado do que uns passos em redor. Sossego, a não ser uma vozearia de chusma, abafada e indefinível, que envolvia o ambiente. Devagar, mas com firmeza, as patas de “Lucus” iam esmagando, com um bater surdo e ritmado, os dejectos que se arrastavam na rua principal.

Atento, Bernardo procurava a origem da assuada. Prosseguiu, acalmando o cavalo que continuava a dar mostras de cansaço e dor. O barulho tornava-se mais audível, à medida que “Lucus” se aproximava da mansão. Bernardo já sonhava descansar, abrigado. Pouco chovia.

Cortesia de wikipedia

«Estalagem», lia-se numa tabuleta que balouçava, fustigada pelo vento. A velha tabuleta, que parecia não se aguentar ali por muito mais tempo, abanava com um ruído lúgubre. Sendo pobre, a casa era uma das maiores e melhores do lugar. O granito que, apesar de antigo, parecia firme, sustentava um telhado de madeira alto e largo, que cobria os dois andares, sendo o último, mais recuado.

Bernardo contornou a casa, tentando ver se se tratava de um local seguro. Pretendia deixar “Lucus” na cavalariça. Deteve-se junto de uma abertura, ladeada por dois pilares de madeira. Entrou num telheiro, apeou-se e amarrou o cavalo a uma trave. Alguns movimentos e relinchos abafados fizeram-no olhar para as outras montadas, apenas percebidas como silhuetas de corcéis árabes. Com movimentos demorados e rigorosos, Bernardo tirou as luvas, sacudiu a capa, pegou no bornal e olhou novamente na direcção dos relinchos. Os animais estavam agitados e fatigados.
Surgindo do nada, ao lado de Bernardo, uma voz grave e rouca vociferou:
- Quem está aí? Mostrai-vos ou a vossa vida termina agora!
O monge voltou-se e respondeu, para sossegar o homem:
- Nada receeis! É gente de Deus!
De súbito, uma ponta de lança gelou-lhe o pescoço, apertando-lhe a jugular.
- De que duvidais? - atirou Bernardo, seca mas prudentemente, olhando o homem pelo canto do olho, identificando-lhe o físico e possível ameaça.
Fernando, homem atarracado e corpulento, mostrou-se. Lento e pesadão, mas com um olhar vivo na face bochechuda, insistiu:
- Esta noite não é de boa jornada e quem dela surge ou é salteador ou assaltado!
-Tendes razão, homem de Deus! Quem é quem, agora? - perguntou ironicamente Bernardo, a avaliar a postura do oponente.

Cortesia de wikipedia

O estalajadeiro ficou confuso. Mudou de lugar, tentando garantir uma melhor posição de ataque. Bernardo perdeu a esperança de convencer o homem e deitou as mãos à lança. Atónito, Fernando viu-se sem poder atacar, ao verificar que a lança se havia ancorado no poderoso braço de Bernardo. Este olhava-o nos olhos, ao mesmo tempo que lhe encostava a espada ao pescoço. Fernando debateu-se, por instantes. Depois, arregalou os olhos e franziu a testa, estupefacto, ao identificar o cunho da espada do oponente.
Com a voz tolhida, esforçou-se:
- Senh... Senhor! Desculpai-me... pelo santo nome de Deus - desculpou-se, ainda gago de temor. - Não vos reconheci o prestígio na figura. Castigai-me ou desculpai-me, senhor de...

-Nem mais uma palavra! Calai-vos, pois não quero o meu nome pronunciado nem a minha presença assinalada - disse-lhe Bernardo, agastado, libertando lentamente o homem, surpreendido, também, por ter sido reconhecido tão rapidamente.
Fernando afastou-se, deferente. Encostou a lança à parede e olhou cabisbaixo para Bernardo, que exigiu, peremptório:
- O vosso nome! Que sabeis de mim?
- Fernando… nobre senhor - hesitou o estalajadeiro. – Fernando Dias, tal como meu pai... honrado por ter combatido ao lado do conde Nuno. A minha consideração a quem conserva o seu cunho...
- Estou elucidado, Fernando! A minha saudação a quem descende de tão digno companheiro de meu pai - respondeu Bernardo para, depois, reclamar um aposento ao estalajadeiro.
(…)
Fernando não conseguiu terminar a frase. Com um estrondo grave e forte, um corpo embateu no chão e rebolou contra a parede. Meio atordoado pela queda e ainda lívido, um homem apessoado, bem constituído e ricamente vestido ficou atónito, ao olhar para as duas figuras que o encaravam. Tentou articular algumas palavras, mas soltou apenas vagos lamentos». In Carlos Cordeiro, O Livro de Cale, Publicações Europa-América 2010, edição nº 103583/9344, A Fábrica das Letras, ISBN 978-972-1-06140-8.

Cortesia de Publicações Europa-América/JDACT

Leituras. Parte XXV. Maria Antonieta Costa. O Segredo de Afonso III: «Essa foi uma visão que sempre a intrigara. Consciente de que tal revelação lhe poderia trazer dissabores, nunca nisso falara a quem quer que fosse e muito menos o poderia ter confidenciado a Estêvão. Tinha a certeza de que o chanceler nunca iria aceitar a verdade»

Cortesia de purl

Lisboa, Paço Real de Enxobregas, 17 de Fevereiro de 1279
«No dia seguinte ao da morte de o “Bolonhês”, Madragana acordou sobressaltada com uma grande gritaria no Paço. Chamou a criada e pediu-lhe que fosse ver de que se tratava. A rapariga voltou passado algum tempo, completamente transtornada:
- Senhora, nem ides acreditarl Acabaram agora mesmo de dar com Abdul-Maalik morto no seu cubículo.
- O quê? tens a certeza!? - perguntou, sentando-se na cama e retirando o farto cabelo da frente dos olhos.
- Ouvi muito barulho para os lados da ala dos aposentos do falecido Dom Afonso. Corri para lá, e, pelo caminho, mais gente corria também. Era uma tal gritaria que não se percebia nada. Entrei na antecâmara, que estava cheia de gente, Matilde, Senhorinha e alguns fidalgos. Mas os guardas cruzaram as lanças e não deixavam passar ninguém para o quarto. Depois, saíram de lá os oficiais régios e, atrás deles, uns mancebos carregando o corpo de Abdul-Maalik numa padiola, todo roxo e torcido. Está um falatório dos diabos.
Ninguém sabe ao certo o que aconteceu.
- Temos de tentar saber. Estou verdadeiramente preocupada. E saltando da cama ordenou:
- Ajuda-me a vestir. Tenho de encontrar Estêvão Anes antes que comece a leitura do testamento. Ele deve estar a par do que aconteceu. Vamos... rápido. Traz-me qualquer coisa para vestir. Não percas tempo com combinações. Gontinha desapareceu e reapareceu num 6pice, trazendo num braçado umas bragas de 1ã muito delicadas; uma camisa alva, de linho finíssimo, com generoso decote; um brial rodado e de mangas extremamente largas, bordado a ouro finíssimo. Para acentuar a silhueta, o brial tomava a forma de espartilho, apertando desde sob o peito até ao início dos quadris com longas trenas, acentuando assim o busto, a cinta e a anca. Depois de se refrescar com água de rosas, a moura vestiu-se e penteou-se com a ajuda de Gontinha o mais depressa que o aperto de todas as fitas dos diversos elementos do vestuário o permitiu. Para toucado, em vez da habitual coifa, a criada escolheu uma simples rede dourada, com a qual prendeu a negra e brilhante cabeleira da ama.

Cortesia de wikipedia

Perfumada de almíscar, como habitualmente, e vestida de veludo preto, como convinha naquela hora de luto, Madragana deixou a sua alcova, voando e espalhando aquele perfume pelos corredores do paço. O brial enchendo na base como um balão e rodopiando em cada curva do caminho, tal era a velocidade com que se movimentava. Contudo, ao chegar perto da porta do grande salão de audiências, encontrou-a já fechada. Quando entrou, procurando uma cadeira pata se sentar, todas as cabeças se voltaram para ela, mirando-a como se fosse uma intrusa, apesar de ter todo o direito de ali estar. Estêvão Anes, que já começara o acto jurídico, salvou o momento, levantando apenas os olhos para ela e continuando a falar, o que obrigou toda a gente a voltar-se rapidamente para a frente a fim de lhe prestar atenção.
(…)
No seu testamento, Afonso III começava por pedir que o seu corpo fosse enterrado no Mosteiro de Alcobaça, junto dos pais, deixando ainda três mil libras para a construção do claustro. Ordenava que pagassem todas as suas dívidas e fossem corrigidas todas as malfeitorias e injúrias praticadas pelos seus homens. Os primeiros a serem referidos foram a rainha e o filho Dinis, nomeando-os seus executores testamentários, juntamente com mais quatro pessoas da sua confiança:
  • o mordomo-mor,
  • o chanceler,
  • Afonso Peres Faria, da Ordem do Hospital,
  • frei Geraldo Domingues, da Ordem dos Pregadores.
Seguiam-se as doações para cada um dos filhos varões, bem como as dos restantes. Dona Branca e Dona Sancha, filhas de Dona Beatriz, herdariam dez mil libras cada. A Dona Leonor, dita filha natural, que teve de Elvira Esteves, deixava a herdade de Água Morta. Finalmente, Martim Afonso, o filho de Madragana, receberia apenas mil libras. Havia doações a todas as sés episcopais. A algumas delas deixava tanto como a Martim, o que indignou Madragana. Seguiam-se os mosteiros e as ordens religiosas, numa lista interminável! Até ao papa doava cem marcos de prata! A enumeração de beneficiados continuava: os hospitais, as albergarias, os pobres, os leprosos do reino e os próprios presos.

Cortesia de wikipedia

Madragana foi alimentando até ao fim a secreta esperança de ainda ouvir ler, se não o seu, pelo menos o nome de Urraca Afonso, sua filha. Depois de rogar a D. Dinis que lhe viesse a suceder, respeitando a sua vontade, D. Afonso terminava as suas disposições delegando sobretudo na mulher, Dona Beatriz, que aparecia como testemunha daquele acto, jurando cumprir tudo o que ali estava determinado.
A moura estava inconformada. Como era possível que o seu rei a tivesse e à jovem Urraca desamparado. Parecia a Madragana que a rainha tinha conseguido uma grande parte do que pretendia, pois só Martim fora considerado herdeiro e apenas com mil parcas libras. A assembleia começava entretanto a reagir e a levantar-se dos seus lugares. O salão fora invadido por um murmúrio de vozes que comentavam o conteúdo do documento. Ainda não restabelecida da frustração, a moura continuava sentada, junto da porta, e ouvia os comentários de alguns fidalgos, em completo desacordo com certas decisões.
(…)
E Estêvão Anes desenvolveu uma série de argumentos com o intuito de consolar aquela mãe. Prometeu-lhe que nunca abandonaria os filhos dela, que, na verdade, embora ninguém soubesse, eram seus filhos também. Já mais calma, a moura perguntou-lhe o que tinha acontecido ao belo escravo sarraceno de Afonso III.
- Ainda é cedo para se ter uma ideia precisa. O que se sabe até agora é que Abdul-Maalik foi encontrado morto esta manhã na cama onde dormia, no cubículo junto à alcova do rei. Mestre Pedro e mestre Domingos das Antas foram chamados para analisar as possíveis causas da morte. Mestre Domingos diz que foi envenenado, porque a língua estava inchada, roxa, e os olhos muito abertos. Juntamente com a posição fetal do corpo, segundo ele, estes sinais indicam que terá tido algumas convulsões. Mas mestre Pedro desvalorizou isso e confirmou que o escravo morreu de ataque cardíaco, porque era muito afeiçoado ao rei e não suportou a sua perda. Em suma, não se entendem.

Cortesia de cmlisboa

- Em quem acreditas? - interrogou a amante.
- Apesar de tudo, em mestre Pedro. Onde já se viu... envenenado! Quem é que teria interesse em envenenar o escravo pessoal de Dom Afonso? Quando Maalik veio para a Corte era ainda um rapazinho. Realmente, o rei sempre o tratou muito bem, levando-o consigo para onde fosse. Acho que Maalik o encarava como se fosse seu pai e pode muito bem ter sucumbido ao desgosto.

Pela mente de Madragana passou, enquanto o chanceler falava, uma imagem difusa, uma lembrança longínqua e turva de uma noite em que, tendo sido chamada à câmara do rei, numa das variadíssimas vezes em que ele o fez para encenar a farsa de que dormia com ela, presenciara uma cena deveras invulgar. Quando lá chegou, Afonso estava já deitado e falou com ela por detrás dos véus que protegiam a sua alta cama de dossel. Porém, a posição dos tocheiros e das lucernas que ardiam junto ao leito permitia que tudo fosse perfeitamente visível para lá das cortinas. Enquanto o rei lhe recomendava que saísse pela passagem secreta e voltasse, sem ser vista, aos seus aposentos, Madragana conseguiu ver, para 1á das camadas de musselina, dois corpos nus masculinos, deitados lado a lado…

Essa foi uma visão que sempre a intrigara. Consciente de que tal revelação lhe poderia trazer dissabores, nunca nisso falara a quem quer que fosse e muito menos o poderia ter confidenciado a Estêvão. Tinha a certeza de que o chanceler nunca iria aceitar a verdade». In Maria Antonieta Costa, O Segredo de Afonso III, Clube do Autor, 2011, ISBN 978-989-8452-28-3.

Cortesia do Clube do Autor/JDACT

Fernando Correia de Oliveira: 500 anos de Contactos Luso-Chineses. «Os primeiros anos do século XVI não começaram, internamente, muito bem para o reino de Portugal. O príncipe D. Miguel, filho de D. Manuel e de D. Isabel, filha, por sua vez, dos Reis Católicos e presuntiva herdeira dos tronos de Leão, Castela e Aragão, morria em 1500»

Cortesia de foriente

A Chegada a Guangzhou
«Com alguma ironia, os portugueses só conseguiram chegar ao Oriente usando a arte de marear de pilotos árabes ou utilizando invenções chinesas, como o compasso, sem o que seria impossível desenhar os portulanos, mapas referindo apenas as costas. Esses conhecimentos chegaram à Europa através do islão, que cercava o Velho Continente numa cintura apertada, impedindo-o do contacto directo com o Oriente mítico do ouro e das especiarias. Mas o cerco foi quebrado, pelos portugueses, em 1498, com a descoberta da via marítima até à Índia. A conquista de Malaca, em 1511, abre finalmente caminho até ao Grão Cataio, a lendária China de que Marco Polo e outros viajantes europeus da Idade Média tinham falado. Os primeiros contactos luso-chineses são amistosos, porque estritamente comerciais.
Os primeiros anos do século XVI não começaram, internamente, muito bem para o reino de Portugal. O príncipe D. Miguel, filho de D. Manuel e de D. Isabel, filha, por sua vez, dos Reis Católicos e presuntiva herdeira dos tronos de Leão, Castela e Aragão, morria em 1500. A mãe morrera em 1498, quando o dera à luz. As pretensões de Lisboa a uma chefia unificada das casas reais ibéricas iam por água abaixo. D. Manuel reincidiu no sonho, casando com uma cunhada, D. Maria, ainda em 1500.

Cortesia de foriente

A miséria entre a população era extrema. Fundavam-se as primeiras misericórdias, mas a fome generalizada acentuava os efeitos de surtos epidémicos em 1503, 1505, 1507, 1510… Em 1506, ocorre em Lisboa um levantamento antijudaico, chefiado por frades de fé incendiária. Houve milhares de mortos. É sob o pano de fundo de um reino mergulhado na peste, na miséria e no fanatismo religioso que a aventura da expansão prossegue. Estranhamente. Ou até por isso.

Conquistadas que estavam bases na costa ocidental do subcontinente indiano, Manuel I manifestou desde cedo um grande empenhamento em estender a influência dos portugueses para a contracosta e, se possível, ainda mais para oriente. Em 1505, Francisco de Almeida era nomeado vice-rei da Índia. As comunidades muçulmanas de mercadores (árabes, persas, indianas, etc.), que detinham o monopólio do comércio oriental e se apoiavam no reino de Veneza para a distribuição dos seus produtos pela Europa iam contrariando como podiam (militarmente, fazendo correr boatos, promovendo alianças e desfazendo outras) a concorrência dos novos intermediários que tinham aparecido em força no Índico desde o Gama, em 1498.
Para a coroa em Lisboa tornava-se claro que, além da entrada do mar Vermelho, era agora necessário expandir a exploração geográfica e mercantil até aos estreitos de Ceilão e Malaca, afinal as duas portas, respectivamente a ocidente e a oriente, das rotas comerciais do Sueste Asiático.

Ainda com Francisco de Almeida, dá-se, em 1509, a batalha de Diu, quando uma importante armada turca é aniquilada. Os portugueses começavam a impor claramente a sua superioridade marítima na zona. Nesse mesmo ano, o vice-rei é substituído por Afonso de Albuquerque.

Cortesia de jugular

No espírito de Manuel I misturavam-se, por um lado, o desejo de aumentar as zonas de influência e uma certa ideia de facilidade resultante dos inúmeros êxitos obtidos desde a sua subida ao trono; por outro, o receio de que os espanhóis alcançassem primeiro a Ásia Oriental, pois não se sabia ainda que um enorme oceano separava o Extremo Oriente dos territórios explorados pelos rivais ibéricos desde 1492. Quando Diogo Lopes de Sequeira partiu à descoberta de Malaca, em 1508, a China passara a fazer parte dos interesses da coroa. Nas instruções que recebera do rei, Sequeira podia ler:
  • “Perguntareis pelos chins, e de que partes vêm, e de quão longe, e de quanto em quanto vêm a Malaca, ou aos lugares em que tratam, e as mercadorias que trazem, e quantas naus deles vêm cada ano, e pelas feições de suas naus, e se tornam no ano em que vêm, e se têm feitores ou casas em Malaca, ou em outra alguma terra, e se são mercadores ricos, e se são homens fracos, se guerreiros, e se têm armas ou artilharia, e que vestidos trazem, e se são grandes homens de corpos, e toda a outra informação deles, e se são cristãos, se gentios, ou se é grande terra a sua, e se têm mais de um rei entre eles, e se vivem entre eles mouros ou outra alguma gente que não viva na sua lei ou crença, e se não são cristãos, em que crêem, ou a que adoram e que costumes guardam, e para que parte se estende a sua terra, e com quem confinam”.
Logo nos portos do Norte de Samatra, que foram escalados antes da chegada a Malaca, os portugueses terão contactado com chineses (pelo menos receberam porcelanas chinesas de presente por parte do sultão de Pedir).
À sua chegada a Malaca, a 1 de Julho de 1509, Sequeira encontrou dois ou três juncos chineses no porto. Contactou directamente mercadores do Império do Meio, comeu a bordo de um junco, descreveu os chineses e os seus hábitos. Foi, de facto, o primeiro encontro luso-chinês de que há registo. Em 1510, regressou a Portugal». In Fernando Correia de Oliveira, 500 anos de Contactos Luso-Chineses, Público, Fundação Oriente, 1998, ISBN 972-8179-28-6.

Cortesia de Fundação Oriente/JDACT

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Gama Caeiro. A Assistência em Portugal no Século XIII e os cónegos regrantes de S. Agostinho: «Mas a transmissão de conhecimentos médicos, com uma organização própria, dando lugar a um ensino, não invalida, antes supõe e reforça, a prática da actividade de Medicina dentro do enquadramento hospitalar»

Cortesia de incm

«Esses inventários lançados em folhas finais de dois códices provenientes de Santa Cruz de Coimbra e actualmente na Biblioteca Pública Municipal do Porto oferecem uma interessante perspectiva sobre o ambiente cultural, na primeira metade do século XIII, dos cónegos regrantes portugueses, visto que o primeiro rol respeita ao Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra e o segundo à canónica lisbonense de S. Vicente de Fora.
Quanto ao primeiro, trata-se de um rol de códices cedidos, em 1218 e 1226, pela canónica coimbrã, a três destinatários diferentes, declarando-se expressamente que o primeiro, Pedro Vicente, pertencia ao mosteiro lisbonense. Em outro lugar examinámos as razões que levam a admitir terem as três remessas de livros o mesmo destino em Lisboa.

Os primeiros códices lançados no rol, «libri ad Fisicam pertinentes», correspondiam sem dúvida a tratados de Medicina que António Cruz pôde identificar, denotando influências da Escola de Salerno e outros de procedência árabe.

Cortesia de wikipedia

O mesmo historiador levantou a hipótese, muito pertinente, de tão importante livraria de Medicina, a par da comprovada existência de alguns «magistri» que teriam formação médica, servir em Santa Cruz para o ensino daquela disciplina. A mesma hipótese da finalidade escolar se poderia estender, aliás, à canónica de Lisboa, visto nas três remessas de livros emprestados por Coimbra predominarem obras técnicas de Medicina.

Mas a transmissão de conhecimentos médicos, com uma organização própria, dando lugar a um ensino, não invalida, antes supõe e reforça, a prática da actividade de Medicina dentro do enquadramento hospitalar. Como hoje: não há ensino de Medicina sem doentes, nem sem enfermarias.
E é sobre este último aspecto que nos queríamos deter. A questão que se coloca ao investigador continua portanto em aberto: qual a finalidade, a utilização dessas três tão avultadas remessas de obras científicas? É sem dúvida impressionante que as obras de Medicina ocupem o primeiro lugar em qualquer das partidas de livros saídas de Coimbra. O facto tem de se conjugar com uma troca de cartas havida entre o prior Dom Paio, de S. Vicente, e Dom João, do Mosteiro de Santa Cruz, e que nos rasga um outro horizonte importante para a compreensão dos ideais e orientação dos regrantes:
  • «a hospitalidade».
Como acentuou Dereine, sendo uma antiga tradição monástica, concebida como primeira fase da ascese e subordinada a um ideal de contemplação, ganha agora ,entre os regrantes um valor próprio, uma função nova:
  • sendo um elemento tradicional, a hospitalidade adquire novos enquadramento e expressão ao ser retomada em ângulo diferente.

Cortesia de wikipedia

É D. Marcos da Cruz quem transcreve duas cartas no «Catálogo dos Priores do Mosteiro de S. Vicente» (ms. 314 da livraria, A. N. T. T.), começando a do prior Dom Paio por uma invocação dos preceitos de Santo Agostinho e revelando a ajuda e protecção hierárquica que o Mosteiro de Lisboa recebia de Santa Cruz. Das cartas se infere que já existiria um hospital junto à canónica de Coimbra, e que a sua sustentação se fazia por força dos dízimos, ou décimas, de todos os frutos e rendas do mesmo Mosteiro, das suas igrejas anexas e das da sua apresentação.
Dom Paio, que tinha mandado edificar em Lisboa um hospital semelhante ao de Coimbra, consultou, para seu esclarecimento e posterior resolução, o prior de Santa Cruz sobre os rendimentos que se lhe haviam de atribuir para a respectiva manutenção.

Os dois textos, dos fins do século XII, não obstante nos serem dados numa compilação tardia, oferecem o mais evidente interesse, quer no aspecto da vinculação à espiritualidade augustiniana que inspirava aquela iniciativa, quer na finalidade adstrita ao hospital, traduzida por significativa terminologia». In A Pobreza e a Assistência aos Pobres na Península Ibérica durante a Idade Média, Instituto de Alta Cultura, Centro de Estudos Históricos, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1974.

Cortesia de Imprensa Nacional-Casa da Moeda/JDACT

César de Frias. A Afronta António Nobre. Parte III. «… o livro em debate, em vez de simpatia, compreensão, admiração, vinha só polvilhado de inveja, de insensibilidade e do desejo escuro de diminuir o renome de António Nobre. Renegando subitamente a instância das fainas em decurso, procurei-o e li-o dum fôlego»

Cortesia de livrariacentral

«Poderiam elas ter vindo a lume mais cedo, visto o livro do sr. Forjaz circular no mercado há já meses. Poderiam, mas não deveriam, acho eu, se bem que a maior parte desse atraso se deva apenas à circunstância de só tardiamente eu ter tido conhecimento da essência da obra do sr. Forjaz, pois preocupado com outras fainas instantes no momento em que ela surgiu, mal tive tempo de lhe ler o título, ficando-me na presunção de que se tratava duma rememoração simpática, duma análise inteligente, duma homenagem enternecida a um dos mais originais e delicados Poetas da nossa Terra. Isto, apesar do pouco, mas bastante para formar tal juízo, que conhecia da bagagem escritural daquele autor não me autorizar robustas esperanças nas suas aptidões para trabalhos dum tal jaez, requerentes, acima de tudo, de identidade poética e delicada ao serviço duma especial acuidade crítica.

Semanas depois, o acaso da leitura dum jornal atirou-me para debaixo dos olhos com o registo do aparecimento do opúsculo, registo de aberta censura, e desvendou-me, então, o seu criminoso miolo. Dando razão à anemia daquelas esperanças e arruinando a presunção que o seu título traiçoeiramente me impusera, o livro em debate, em vez de simpatia, compreensão, admiração, vinha só polvilhado de inveja, de insensibilidade e do desejo escuro de diminuir o renome de António Nobre. Renegando subitamente a instância das fainas em decurso, procurei-o e li-o dum fôlego. E, ao cabo, compenetrado de que no seu autor se acentuava cada vez mais uma aguda crise de mercantilismo literário, cujos alarmantes sintomas já vinham de longe, e necessário era, portanto, opor-lhe um imediato e enérgico antídoto, lancei-me a prepará-lo. Folheei livros e jornais e revistas, investiguei e até me impus o pesado sacrifício de ler toda a obra do sr. Forjaz de Sampaio, evitando precipitações, sempre temíveis em casos tais, e recrutando e coordenando com segurança todos os seus elementos.

Cortesia de falcaodejade

E, a este respeito, julgo que me será lícito o orgulho de supor que não realizei obra leviana, peca e falha de documentação. Fica assim justificado o atraso, e a quem praticamente conheça as canseiras e o fatal consumo largo de tempo a que tarefas desta natureza obrigam, decerto até ele parecerá exíguo.
Sairá daqui mal ferido o sr. Forjaz? Não me regozijo com isso, creiam, nem o procurei, pois, aparte o meu desapreço pela sua obra, não me galvaniza qualquer particular sentimento de animosidade contra ele. Respondem estas palavras aos que, entre o gentio que lhe estrondeia batuques cultuais, queiram insinuar que vim aqui saldar rancores antigos. Pessoalmente, creio que nunca vi o sr. Albino Forjaz de Sampaio. Literariamente, estou até na convicção de que lhe devo uma fineza: a dumas referências, curtas mas elogiosas sem parcimónia, que, a propósito dum trabalhito meu em verso, publicado há uns três anos, A Luta inseriu então, e que, embora não assinadas, me deixaram convencido, pelo toque, de que eram do seu punho. Já vêem...
Quero ainda fazer notar a esses mesmos que padecem de fanatismo pelo sr. Forjaz que não abrigo a ingenuidade de esperar que ele, acossado por esta condenação, se vá pôr em fuga do campo das letras. Não, não é a vez primeira que esse gentio vê, com alma apertada, o seu manipanso fortemente zurzido. E ele, ora coxo, ora zarolho, ora manco, honra seja feita à sua indefectível valentia, jamais se arredou uma polegada da senda trilhada. Desconfio mesmo que já calejou e que as pancadas, metaforicamente falando, claro está, que lhe caem no lombo já lhe não fazem móssega alguma nem arrancam um pio sequer. De quatro tundas formidáveis me recordo agora. Uma, quando da morte de Silva Pinto. Outra, a que o sr. Avelino de Sousa, sem dó nem piedade, lhe aplicou a propósito do fado, «O Fado e os seus censores». Ministra-nos ali conhecimentos interessantes sobre a nativa pecha do sr. Forjaz de não ter uma opinião sua e fixa sobre os assuntos-temas dos seus escritos, sempre acomodatícios ao momento que passa, na busca torturada de efeitos mirabolantes, numa lógica de pé-coxinho, que, de contínuo brigando consigo própria, já não consegue crédito em espíritos rectos.

Cortesia de livrariacentral

Depois, temos a tunda mestra que o ilustre jornalista sr. Adelino Mendes lhe infligiu por ocasião da sua famosa negociata da ida a França à custa do pródigo papá-Estado, para escrever um livro de impressões sobre o “front” português. Finalmente, a quarta das que me lembram é a do “Veneno”, resposta às “Palavras Cínicas”, do sr. João Coelho, “soi-disant” escritor brasileiro, e que foi a mais infeliz de todas, pois, querem concepção, querem execução, as “Palavras Cínicas”, com todos os seus defeitos, valem bem mais do que esse livro de refutação, género literatura “gá-gá” de que se ria Fialho, trôpego na forma e, para mais, com tão desgraçada revisão tipográfica, que deixa o leitor na dúvida de que o seu autor tivesse jamais pegado numa gramática. Em pontuação, é horrível! Em resumo, faz-nos ficar com mais piedade do espancador do que do espancado.
Desculpou-o o editor, em conversa comigo, dizendo que o “Veneno”, fora escrito no veloz espaço de oito dias. Seria. E para que, se não havia nenhuma urgência a aguilhoá-lo, visto as “Palavras Cínicas” serem já velhas de catorze anos?

Seis meses ou um ano mais para essa resposta, se não lha dariam, também não lhe tirariam a qualidade de oportuna, que, em qualquer caso, já não alcançava, e tinham permitido ao sr. João Coelho realizar obra mais capaz de merecer elogios. Como veio a público, resultou mais do que inane: contraproducente.
Desta feita, repito, já vêem os senhores que o sr. Albino Forjaz de Sampaio, como de costume, receberá, firme e cínico, este meu ataque e nenhuma melhoria para ele e para nós daqui advirá, se não me secundarem todos, gritando-lhe a plena voz que se regenere e mude de processos, se quer continuar a viver literariamente, ou que, pelo menos, não alveje para assunto das suas cabriolices escriturais motivos que quase todos nós temos como sagrados.
E, então, aos de alma delicada, aos que têm sentido, como eu, o espírito deliciosamente estrelado de emoções dulcíssimas sempre que evocam a figura estranha de Anto, o Poeta singular e infeliz do
  • ... livro mais triste que há em Portugal.
a esses não preciso de pedir que estejam comigo nesta cruzada. Tenho até de mim para mim que, se tomei da pena para traçar estas páginas, não fiz mais do que obedecer, por um fenómeno de telepatia, à sua dispersa mas poderosa sugestão, vibrando forte em todo o peito português, de homem ou de mulher, ainda não dessorado do leite da humana ternura, de que falava Shakespeare, e ainda ungido de amor por estas claras e divinas coisas da Poesia e da Beleza…». In César de Frias, A Afronta a António Nobre, Livraria Central, Editora, Lisboa, PQ9261N6Z67, Library University of Toronto 15 de Setembro de 1967.

(Continua)
Cortesia de Livraria Central Editores/JDACT