sábado, 17 de setembro de 2011

O Papado e Portugal no primeiro século da História Portuguesa: Carl Erdmann. «O memorável privilégio, que Urbano II concede ao arcebispo de Toledo em 15 de Outubro de 1088, confirmando-o em vários escritos, impressionou profundamente o episcopado hispânico. É verdade que nunca se fixaram rigorosamente as atribuições do primado de Toledo»

Cortesia da uc

Introdução
«Ignora-se por quem Gregório teve conhecimento desta situação. Seja como for, o papa estava ao facto da pessoa do conde Sisnando, pois a este é dirigida a carta de recomendação de que é portador Jarento. Não é preciso grande perspicácia para adivinhar o objectivo da missão de Jarento. Sem dúvida se ensaiava o primeiro passo para a futura integração da raia longíqua no seio da igreja romana Não deve ter sido casual a escolha dum abade para tal missão. Não se tratava duma acção política importante, senão de desbravar por um trabalho lento e constante um território bastante atrasado. Que melhor obreiro que um monge para levar ao fim a empresa?
Uma renovação monástica no sentido da reforma francesa podia ser aqui, como noutras partes, o fundamento do estabelecimento da influência romana. Seguir-se-ia naturalmente a introdução do rito romano, cuja implantação em toda a Espanha constituía uma das mais caras aspirações do Gregório VII.

A missão de Jarento entrava no programa gregoriano que procurava conduzir a Espanha à posse de S. Pedro, a quem, segundo a Cúria, sempre havia pertencido. Jarento não executou porém a missão .de que fora incumbido. Chegado a Franga, resolveu visitar o seu mosteiro em Dijon onde negócios importantes o prenderam durante algum tempo. Entrementes morreu Gregório, e deixa de se falar da missão. Este desleixo havia de ser fatal. Só cinquenta anos passados os mosteiros portugueses entraram em relação com a cúria sem representar ainda durante todo o século XII um apoio verdadeiro para ela.

Cortesia da uc

A falta de contacto com Roma foi também prejudicial ao episcopado português como havia de ver-se dentro de alguns anos. O grande e decisivo acontecimento da história eclesiástica peninsular do século XI foi a instituição do primado de Toledo.

O memorável privilégio, que Urbano II concede ao arcebispo de Toledo em 15 de Outubro de 1088, confirmando-o em vários escritos, impressionou profundamente o episcopado hispânico. É verdade que nunca se fixaram rigorosamente as atribuições do primado de Toledo. Segundo a teoria daquela época, o título de primaz de Toledo equivalia à dignidade patriarcal e representava o mais alto grau na hierarquia. Assim como um grupo de metropolitas estava sujeito a um primaz, este por sua vez só era responsável perante o papa. Com Toledo não era este o caso, ao menos por enquanto, pois que o metropolita, cujo arcebispo tinha sido reconstituído havia pouco, ora único em toda Espanha. Por esta razão o texto que institui o privilégio primacial refere-se somente às relações directas do primado com os bispos.
Na encíclica dirigida ao episcopado hispânico interpretavam-se estas relações no sentido de quo o primado devia exercer a jurisdição quo caberia aos futuros metropolitas, sem que contudo isto implicasse, logo que estes fossem restabelecidos, a última palavra sobre a situação das sés metropolitanas em face do primaz.

Cortesia da uc

Não se sabe quem teve a iniciativa de tal disposição, mas foi uma manobra de grande alcance. A igreja hispânica tinha agora, na nova capital do reino leonês-castelhano, que se transformara na primeira potência da península, um centro natural, e na pessoa do arcebispo Bernardo, patrício e confrade do papa, o homem indicado para a, reorganização do episcopado espanhol no sentido romano. Foi também um estímulo eficaz para os bispos peninsulares se relacionarem directamente com o papa, ou pelo menos com o seu legado.

Compreende-se que, para muitos bispos que até então haviam sido independentes, gozando todos os mesmos direitos, não fosse coisa agradável a sujeição ao toledano, tanto mais quanto este era estrangeiro e adventício. Todos os bispos, que se julgavam com direitos de metropolitas ou de isenção, começam agora a agir. Mas para poderem libertar-se da jurisdição interina do toledano, era necessário o apoio da cúria, e daqui resulte que a organização da igreja hispânica coincide com o primeiro contacto com Roma. Conhece-se a evolução análoga na Catalunha. Ainda em 1089 e 1091, foi Tarragona reconstituída como metrópole, de começo apenas nominalmente e em união com a diocese de Vich. Esta reinstituição prova uma hostilidade marcada dos catalães contra o primado de Toledo.
Porém as coisas tomaram rumo inesperado no oeste da península.

Bernardo de Toledo não perdeu tempo a impor também a sua nova autoridade à província da Galiza e principalmente à antiga metrópole de Braga. Em 28 de Agosto de 1089 encontramo-lo em Braga acompanhado dos bispos Gonçalo de Mondoñedo, Aderigo de Tuy e Pedro de Orense, sagrando solenemente a catedral.
Não admira que o bispo Pedro de Braga, que tinha a consciência dos antigos direitos da sua Sé, não visse com bons olhos a supremacia do toledano. Em todo o caso é dum interesse especial ver como a luta eclesiástica entre Braga e Toledo, que mais tarde se ligará intimamente à luta política entre Portugal e Castela e se tornará por vezes um verdadeiro expoente das aspirações à independência portuguesa, já principia, numa época, em que o estado português ainda não existe». In Carl Erdmann, O Papado e Portugal no primeiro século da História Portuguesa, Universidade de Coimbra, Instituto Alemão da Universidade de Coimbra, Coimbra Editora, 1935.

Cortesia de Separata do Boletim do Instituto Alemão/JDACT