quinta-feira, 15 de setembro de 2011

António Ventura. José Frederico Laranjo (1846-1910): «... falávamos de literatura, quando Luís Xavier nos disse: Pois se o Dr. Laranjo quiser o meu apoio para a sua eleição de deputado, está às suas ordens: - Mas V.ª Ex.ª, respondi eu, tem parentes que talvez queiram ser deputados, e eu não faço questão de mim. Mas faço-a eu, replicou ele; se for o Sr. o candidato, entro na luta; se não, não…»


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O político. Na Câmara dos Deputados
«Sendo natural de Castelo de Vide e desenvolvendo aí uma actividade continuada no campo associativo, não foi difícil o aproveitamento de um episódio particular, isolado, transpondo-o para o plano político, mais geral. Esse foi o primeiro passo. Depois, era uma questão de transformar o seu grupo de apoiantes e de amigos em núcleo local do Partido Progressista. Mas em Portalegre a situação era bem diferente. Quem conhecia José Frederico Laranjo, salvo alguns estudantes em Coimbra? Necessitava de apoios de personalidades de grande prestígio local. A mais importante foi a de Diogo da Fonseca Achaioli Coutinho de Sousa Tavares, figura proeminente na vida social portalegrense, descendente de algumas das principais famílias nobres da região, os Achaioli, os Fonsecas, os Jusantes, e os Sousas de Arronches. Diogo da Fonseca, (1831-1904), morgado da Lameira, quinta nos arredores de Portalegre, na freguesia de Reguengo, onde viveu como um cenobita, para utilizarmos a expressão de Rocha Martins num artigo que lhe dedicou, filiara-se no Partido Histórico pugnando sempre pelos interesses da sua terra e das camadas mais desfavorecidas. «O povo acompanhava-o, incondicionalmente, para onde fosse ou quisesse ir em matéria eleitoral». A sua acção humanitária fazia-se sentir junto das classes pobres que carinhosamente lhe chamavam «Pai Diogo». De 2 de Julho de 1871 até 1876, Diogo da Fonseca foi o máximo responsável pela Misericórdia de Portalegre, sendo então alvo de calúnias que pretendiam atingir a sua honorabilidades.

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Tanto o episódio de Castelo de Vide como o de Portalegre foram largamente explorados por José Frederico Laranjo nos manifestos «Aos Habitantes de Castelo de Vide (1817) e Ao Concelho de Portalegre (1878)».

Foi nesse ambiente conflituoso e tenso que se vivia em Portalegre, que José Frederico Laranjo se deslocou à capital do distrito com dois objectivos:
  • procurar adesões ao Partido Progressista,
  • organizar uma candidatura para as eleições de 1878.
Uma das personalidades a contactar, era, naturalmente, Diogo da Fonseca. O próprio Laranjo descreve as razões que o levaram a avistar-se com ele e as circunstâncias em que o encontro decorreu:
  • «Diogo da Fonseca estava em disputa com o Governador Civil Read Cabrals; nós combatíamos em Castelo de Vide o governo regenerador; simultaneamente tivemos a ideia de nos procurarmos para unirmos esforços; foi a primeira conferência no palácio do Corro, hoje liceu; o Sr. Diogo da Fonseca pedia a nossa coadjuvação na luta em que estava empenhado, a troco da dele para a nossa candidatura a deputado; respondemos que sua Ex.ª tinha um cunhado que era advogado distinto, o Sr. Dr. Temudo, que podia querer ser deputado, não fazíamos questão de ser nós; a única questão era que as lutas devem ser em nome e sob a bandeira do Partido Progressista. O Sr. Dr. Temudo foi consultado; não quis a candidatura, e desde então ficou assente a nossa».
Outra personalidade que constituiu um dos esteios fundamentais no lançamento da carreira política de Frederico Laranjo, dedicando-lhe sempre uma amizade que ultrapassava camaradagens partidárias, foi Luís Xavier de Barros Castelo Branco, natural de Castelo de Vide e rico proprietário naquela vila, em Arronches, Nisa e Portalegre. Oriundo de uma família de tradições liberais, que estivera refugiada em Marvão, durante as Guerras Liberais, quando a vila foi tomada pelos emigrados vindos de Espanha, tomara posições semelhantes em períodos críticos como o de 1846 em que apoiou a revolta anticabralista. Em 1867 foi um dos dirigentes do movimento de repulsa contra o projecto de reforma administrativa do Ministro Martens Ferrão, que previa a supressão do distrito de Portalegre, o que se não concretizou por influência do Duque de Loulé e pela queda do executivo, e de unir o concelho de Arronches ao de Monforte.

Castello de Vide, 10-8-1907

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Durante as conversações entre Frederico Laranjo e Diogo da Fonseca Achaioli, levantou-se a hipótese da escolha do candidato progressista para as eleições de 1878 recair sobre Luís Xavier. A solução parecia a mais lógica pelas suas qualidades pessoais e pelo conjunto de apoios que poderia recolher. Era, por um lado, tio de Diogo da Fonseca, assegurando assim os votos que este mobilizaria. Por outro lado, através do casamento estava ligado a uma das mais importantes famílias regeneradoras de Portalegre. De facto, sua mulher, Brites Constança, era irmã de Álvaro e João da Fonseca Coutinho, pilares do Partido Regenerador naquela região. Quem poderia ser um candidato mais indicado que Luís Xavier, congregando amigos e dividindo inimigos? Frederico Laranjo foi-lhe apresentado num clube local e depois foi convidado para tomar chá em casa do influente proprietário. Vejamos como ele descreveu a entrevista:
  • «... falávamos de literatura, quando Luís Xavier nos disse: Pois se o Dr. Laranjo quiser o meu apoio para a sua eleição de deputado, está às suas ordens: - Mas V.ª Ex.ª, respondi eu, tem parentes que talvez queiram ser deputados, e eu não faço questão de mim. Mas faço-a eu, replicou ele; se for o Sr. o candidato, entro na luta; se não, não. - Ao que devo eu, perguntava, muito surpreendido, o então candidato a deputado, a espontânea adesão de V. Ex.ª à minha candidatura? - Ao facto de me parecer que tem as condições para ser um bom deputado; ao reconhecimento da sua instrução; às informações que tenho do seu carácter; se corresponder ao juízo que eu faço, continuo a auxiliá-lo; se não, não».
In António Ventura, José Frederico Laranjo, Colecção Estudos de História Regional, Edições Colibri, Lisboa, 1996, ISBN 972-8288-48-4.


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