quarta-feira, 18 de abril de 2018

O Número de Deus. José L. Corral. «… o filósofo ateniense, Platão, sustentava que o mundo fora criado a partir da geometria e do poder do número, e não pela luz»

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O Algarismo e o Número
«(…) Quando o rei Fernando cumpriu dezoito anos, a rainha Berenguela considerou chegado o momento de lhe procurar esposa. Numa assembleia de conselheiros celebrada no palácio real de Burgos, a rainha anunciou os seus planos. O meu filho, o soberano de Castela, já é um homem. E todo o homem precisa de uma esposa a seu lado; assim o diz a lei de Deus. Se esse homem, além do mais, é um rei, a sua obrigação é procurar descendência para que a sua linhagem se perpetue e proporcionar ao reino um herdeiro. Vós, nobres ricos-homens de Castela, jurastes fidelidade ao meu filho Fernando e lealdade à coroa que encarna. Chegou a altura de que o rei de Castela procure uma esposa com que ter descendência e proporcionar a Castela o seu ansiado sucessor. Os ricos-homens congregados na cúria real de Burgos assistiam calados e atentos à prédica de dona Berenguela; de vez em quando, um ou outro concordava com ligeiros acenos de cabeça com as palavras da rainha-mãe. Já haveis pensado em alguma candidata para futura rainha de Castela, Senhora?, perguntou Maurício, o bispo de Burgos.
Creio ter encontrado a candidata ideal, Sua majestade deve casar com uma princesa de sangue real, mas não pode ter relações de parentesco com ela, pois, e eu sei muito bem do que falo, um casamento desse tipo poderia ser anulado pelo papa. A candidata que elegi é a princesa Beatriz da Suávia, a filha do imperador Filipe. O seu primo e custódio, o actual imperador Frederico, está de acordo com o casamento. Haverá que ir buscar a noiva, supôs o bispo Maurício. Com efeito, senhor bispo. E para tal, pensei no homem adequado. De quem se trata? De vós, bispo Maurício. Vós haveis estudado em França, viajado pela França e pela Alemanha, e conheceis o imperador. Sois um homem equâmine e um ministro de Deus. Além disso, como bispo de Burgos, corresponder-vos-á o privilégio de celebrar o casamento. Não vos parece, Senhores? Os nobres e cidadãos assistentes à cúria concordaram de imediato. Mas, Senhora, eu..., bem, farei o que ordenais. Nesse caso, preparai a vossa viagem. Quando passar este cru Inverno, partireis para a Alemanha. Entretanto, escreveremos ao imperador Frederico para que disponha o necessário e guarde a prima com a diligência que o tutor da futura rainha de Espanha o deve fazer.
Henrique de Ruão ingressou na escola catedralícia de Chartres pouco tempo antes de cumprir os nove anos. Os bispos de Chartres haviam conseguido que a sua escola tivesse tanto prestígio como o que tinham alcançado as universidades que já funcionavam em algumas cidades europeias. Acorriam à escola de Chartres estudantes ávidos de conhecer disciplinas que só ali dispunham dos mestres adequados. Na escola estavam orgulhosos dos seus mestres, sobretudo de Bernardo, um dos fundadores, que tinha criado uma frase que os alunos aprendiam de memória no primeiro dia da sua aprendizagem: nós, os homens modernos, somos apenas anões sobre os ombros de gigantes. Esta frase resumia melhor, que nenhuma outra, o espírito docente da escola. Significava que, para compreender o homem e o mundo, era necessário apoiar-se nos ensinamentos dos grandes sábios, sobretudo dos antigos. E entre eles, o mais reconhecido e estudado era o filósofo grego Platão, e o texto oficial da escola catedralícia era a sua obra Timeo. Nesse livro, o filósofo ateniense sustentava que o mundo fora criado a partir da geometria e do poder do número, e não pela luz. Os alunos de Chartres aprendiam que a última realidade, e portanto a mais perfeita, da criação eram os números matemáticos e, em consequência, as formas geométricas que estes sugeriam; o homem apenas via as sombras da verdadeira realidade. Toda a natureza derivava de combinações numéricas e tudo era, em suma, geometria». In José Luís Corral, O Número de Deus, 2004, O Segredo das Catedrais Góticas, Planeta Editora, Lisboa, 2006, ISBN 972-731-185-7.
                                                                                           
Cortesia de Planeta Editora/JDACT

O Número de Deus. José Corral. «Afonso IX de Leão fracassou ao tentar conquistar a cidade de Cáceres, uma fortaleza muçulmana na fronteira sul do reino, protegida por sólidas muralhas que foram cercadas inutilmente…»

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O Algarismo e o Número
«(…) Ora, ora, com que então querias escapar-te? Arnal Rendol tinha surpreendido Teresa. Pai, pai, a menina abraçou-se ao seu progenitor. Viste a quantidade de luz? Sim, claro que vejo, minha pequena. Mas para além de muita luz, hoje também há muito frio. Vamos para casa, não quero que adoeças. Arnal pôs a filha no chão e regressaram ambos a casa enquanto a criada continuava a expirar baforadas de alento que desenhavam nuvens de vapor quente na gélida manhã burgalesa. A cor azul do céu é como a que tu pintas nas abóbadas das igrejas. Porque é que o céu é azul, pai?, perguntou Teresa, enquanto Arnal avivava o lume na lareira da cozinha, acrescentando umas achas às brasas do borralho. Porque é a cor mais bonita, minha filha, por isso é também a mais difícil de conseguir. Então, Deus é azul?, perguntou Teresa. Não, Deus é como o homem. Ele quis que fôssemos perfeitos e deu-nos a liberdade de construir, esse livre-arbítrio proporcionou que alguns homens se tenham extraviado do bom caminho.
E as mulheres também são como Deus? O sábio Aristóteles, um filósofo que viveu no país da Grécia há muitos anos, dizia que a mulher é um homem imperfeito... Bem, eu não acredito nisso, mas há muitos homens que dizem que é assim. Na terra de onde a tua mãe e eu viemos, homens e mulheres acreditávamos que éramos bons e iguais, chamávamo-nos os perfeitos, mas outros homens consideraram que estava mal e perseguiram-nos por isso. Eram homens maus? Sim., muito maus. Diziam que a morte era a única coisa que merecíamos, por isso tivemos que sair de lá. Mas Deus não vos defendeu? Sim, fê-lo; protegeu-nos e conseguiu que a tua mãe e eu fugíssemos de lá. Depois nasceste tu... E a minha mãe? Morreu para te dar a vida, por isso deves gostar sempre dela. A mãe era azul? Sim, meu amor, a mãe era azul.
Afonso IX de Leão fracassou ao tentar conquistar a cidade de Cáceres, uma fortaleza muçulmana na fronteira sul do reino, protegida por sólidas muralhas que foram cercadas inutilmente durante vários meses. Ferido no seu orgulho, o aguerrido monarca leonês voltou a sua ira contra Castela e, aproveitando o fim da trégua acordada em finais do ano anterior, atacou o reino do filho. Mas de novo os castelhanos responderam com a mesma contundência que na última ocasião e não coube outro remédio ao rei de Leão do que acordar uma nova paz honrosa.
Durante o Inverno, dona Berenguela tramara toda uma rede de adesões em torno da figura do filho. O jovem mas decidido rei Fernando era um soberano simpático, de carácter enérgico e valente, temente a Deus e de vontade firme. Herdara a coragem e a resolução de ânimo do pai, o rei Afonso de Leão, com quem vivera até pouco antes de ser coroado rei de Castela, e o ânimo e a inteligência da mãe, Berenguela, e, através dela, a energia transbordante de Henrique II de Inglaterra e de Leonor de Aquitânia, os seus afamados bisavós.
Consciente de que Castela não claudicaria ante o exército leonês, de que Fernando se tinha sentado como soberano de Castela e contava com o apoio da grande maioria dos concelhos, universidades e nobres do reino, Afonso de Leão optou por acordar uma paz definitiva com o filho e a antiga esposa. O tratado de paz foi assinado na vila de Toro na colegiada construída segundo o velho estilo ao romano, no dia 26 de Agosto de 1218. Berenguela e Fernando tiveram de entregar ao leonês onze mil maravedis. A paz estava a sair cara, mas a bonança económica do reino permitia aos castelhanos comprar a estabilidade necessária para crescer como nação naqueles tempos tão incertos.
Dona Berenguela não se separara um único instante do seu filho Fernando desde que conseguira convertê-lo em soberano de Castela. A rainha-mãe tinha o firme carácter da sua avó, Leonor de Aquitânia, e tinha-se tornado tão necessária ao filho que participava em todas as cúrias, para as quais o rei convidava os mais notáveis homens do reino para o assessorarem nos assuntos relativos ao governo dos seus Estados. Berenguela ocupava um dos lugares principais na cúria régia e as suas opiniões eram sempre respeitadas e tidas em conta por todos». In José Luís Corral, O Número de Deus, 2004, O Segredo das Catedrais Góticas, Planeta Editora, Lisboa, 2006, ISBN 972-731-185-7.
                                                                                           
Cortesia de Planeta Editora/JDACT

terça-feira, 17 de abril de 2018

Ensaio sobre os Latinismos dos Lusiadas. Carlos E. Correa Silva (Paço d’Arcos). «… é evidente que me faltava a cultura necessária para realizar esse trabalho exaustivo. O motivo de ordem objectiva é mais importante e merece ser detidamente analisado»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Uma dissertação de licenciatura que tem por título Ensaio sobre os latinismos dos Lusíadas representa, ao mesmo tempo, por mais que isto pareça paradoxal, uma velharia e lima novidade. ... porque o grau de latinidade dos Lusíadas estava por assim dizer determinado desde o dia, já remoto de três séculos, em que Manuel Fana Sousa escreveu o seu comentário do poema, não deixando muito que respigar aos futuros comentadores dos Lusíadas (assim diz, ipsis verbis, Epifânio Dias). Uma novidade…, porque uma monografia, feita à luz dos modernos métodos filológicos, que abrangesse, num estudo do póemá inteiro, os latinismos de carácter glótico abundantemente esparsos por todo ele estava ainda por fazer. Essa monografia, Faria Sousa não a escreveu nem a podia escrever. Era um humanista, é de primeira plano, pela sua imensa cultura: não era um filólogo. Nem no seu tempo havia filologia, tal como nós hoje a entendemos : a ciência sistematizada que obedece a leis e que tem como objectivo estudar uma língua através de textos escritos. Num contexto mais amplo, a filologia também se ocupa da literatura e da cultura de um determinado povo. Inicialmente, a filologia limitava-se ao estudo das ideias mediante a crítica textual. No entanto, esta ciência progrediu e começou a interessar-se pela história, instituições e manifestações culturais. Esse interesse surgiu como objectivo obter um conhecimento mais amplo do mundo clássico através do estudo de textos literários.
É verdade que já.então existia a curiosidade científica no campo da filologia. E não datava da véspera. (Cfr. Cícero no Orator Quinti; Ifpilmo nas Inttitutiones oratoriae). Impor preceitos à maneira dos defuntos gramáticos, procura registar factos, interpretar as anomalias aparentes e abraçar numa visão de conjunto a vida das línguas no tempo e no espaço. Se pensarmos que, em vez do moderno conceito de evolução, ainda reinava no espírito de Camões o de corrupção das línguas, se pensarmos que os seus coevos de além Pirinéus como Budé filiavam o francês no grego, e que no século XVIII lexicógrafo Morais procurava no alemão empor o étimo remoto do nosso verbo emparar, se pensarmos enfim que, já bem perto de nós, ainda Castilho, espírito representativo da cultura literária da sua época, revelou na Conversação preambular do Dom Jayme a mais completa incompreensão do problema filalógico, então, compreenderemos que pedir um trabalho desse género a Farte Sousa, não obstante os seus conhecimentos de literatura latina, seria não levar em conta as curvas da história da ciência. Natura non facit saltús. Essa monografia de carácter glótico..., houve já no nosso tempo, alguém que estava decerto indicado para a compor: Epifânio Dias.
Dotado de um espírito, muito arguto e de uma grande penetração filológica, possuidor daquela vasta e sólida cultura humanística necessária para que no trabalho misterioso do sub-consciente se estabelecessem os nexos entre frases portuguesas e frases latinas, Epifânio Dias era o homem indicado para esse trabalho. Na sua edição dos Lusíadas deixou muitos e muitos achados seus, muitos latinismos anotados ao correr da pena no comentário das estâncias do poema, que no entanto se limitam aos capítulos mais inte- ressantes (sintaxe e semântica). Note-se que Castilho, escrevia em 1862, (seis anos antes de Adolfo Coelho publicar A língua portuguesa). Deixou materiais dispersos. Morreu sem ter feito uma obra de conjunto. E essa obra de conjunto que estava à espera de um estudioso, res omniumourésnullhis (?), é hoje tentada por um aluno da Secção de Filologia Clássica da Faculdade de Letras de Lisboá. Esta dissertação não é todavia um trábalho definitivo. É apenas um ensaio. E isto por dois motivos : uma de natureza subjectiva, outro de ordem objectiva. Um de natureza subjectiva. Sem ter de recorrer à falsa modéstia, que é, na definição de Ernesto Heilo, a mentira oficial dos orgulhosos, de via reduzida, é evidente que me faltava a cultura necessária para realizar esse trabalho exaustivo. O motivo de ordem objectiva é mais importante e merece ser detidamente analisado.
Como é que se pode escrever um trabalho definitivo sobre os latinismos dos Lusíadas, isto é, sobre a contribuição que Camões trouxe ao enriquecimento da nossa língua literária se nós não sabemos com exactidão qual era o grati de (?), enriquecimento dessa língua na fase imediatamente anterior à publicação do poema?! Um trabalho desse género pressupõe a publicação de monografias sobre a língua de Garcia Resende, de Damião Goes, de Sá Miranda, de António Ferreira, de João Barros., etc. Um século antes da publicação do poema, já o Renascimento criara raízes em Portugal, pelo menos sob o aspecto, único que aqui nos interessa, do gosto pela leitura dos clássicos latinos; prova-o a curiosa figura do bispo de Évora Garcia Meneses, hás letras gregas sabedor, como dizia Garcia Resende e que maravilhara em Roma o cardeal Sadoleto pela elegância do seu latim». In Carlos Eugénio Correa Silva (Paço d’Arcos), Ensaio sobre os Latinismos dos Lusiadas, 1931/35, imprensa da U. de Coimbra, 1972, Imprensa N. Casa da Moeda, Separata de O Instituto, vols. 79 a 82, à memória de Augusto Epifânio Silva Dias.

Cortesia de UdeCoimbra/INCM/JDACT

O Princípio de Peter Laurence Peter e Raymond Hull. «A teoria da distribuição equaciona e a experiência confirma que essas classes são desiguais…»

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O Princípio em acção
«O estudo de uma hierarquia típica, a do sistema escolar de Excelsior City, demonstrará como o Princípio de Peter se encaixa na posição didáctica. Estudemos este exemplo e poderemos compreender como a hierarquiologia opera dentro de cada estabelecimento de ensino. Comecemos pelos professores. Para esta análise, agrupo-os em três classes: competentes, moderadamente competentes e incompetentes. A teoria da distribuição equaciona e a experiência confirma que essas classes são desiguais: a maioria pertence à dos moderadamente competentes e a minoria à dos competentes e às dos incompetentes.

O Caso do Conformista
Um professor incompetente é ineligível para promoção. Dorothea Ditto, por exemplo fora na Faculdade uma estudante extremamente conformista. Os seus trabalhos ou eram plágio dos manuais e revistas, ou cópias das 1ições dadas pelos professores. Invariavelmente cumpria à risca o que lhe ordenavam. Era considerada uma estudante competente. Recebeu o diploma com a classificação de Bom da Escola Normal de Excelsior.
Ao tornar-se professora ensinava exactamente o que lhe haviam ensinado, limitava-se ao manual, ao guia do curso e ao horário dado pela sineta. O seu trabalho corria normalmente, sempre que havia regras ou precedentes. Por exemplo, um dia rebentou um cano da água, inundando a aula. Miss Ditto continuou a lição até à chegada precipitada do director que pôs a seco as crianças encharcadas. Miss Ditto!, gritou. Há três polegadas de água nesta aula. Porque é que os seus alunos ainda cá estão? Não ouvi o sinal de alarme, respondeu ela. O senhor director sabe muito bem que presto sempre atenção e essas coisas. Tenho a certeza que a campainha não tocou.
O director desconsertado por aquela atitude, invocou uma cláusula do Regulamento escolar que concedia poderes de emergência em circunstâncias excepcionais. Assim, embora nunca transgrida o Regulamento nem desobedeça a uma ordem, tem frequentes aborrecimentos e nunca será promovida. Competente como estudante, atingiu o seu nível de incompetência como professora e permanecerá nesse lugar até ao fim da sua carreira». In Laurence Peter e Raymond Hull, O Princípio de Peter, 1969, Editorial Futura, Lisboa, 1973.

Cortesia de EFutura/JDACT

Quatro Orações Camonianas. Aníbal Pinto Castro. «… dos fenómenos atmosféricos e marítimos, das artes bélicas, do rude linguajar de marinheiros, chatins e aventureiros, e até da interferência do português reinol com os idiomas alienígenas»

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Camões e a Língua Portuguesa
«(…) Essa cultura não o cegou a ponto de preferir o latim ao português como veículo de expressão poética, mas permitiu-lhe, seguindo aliás o conselho dos gramáticos seus contemporâneos, uma fecunda renovação linguística e estilística. Os dados reunidos por Carlos Eugénio Correia Silva (Paço d’Arcos), no Ensaio sobre os latinismos dos Lusíadas, são desse facto uma prova segura, enquanto não dispomos de estudo mais actualizado  (publicado em 1931 pela Imprensa da U. de Coimbra e reeditado em 1972, pela Imprensa Nacional Casa da Moeda). A juntar à matriz latina, eram-lhe fontes de generosa abundância os códigos retórico-estilísticos próprios do petrarquismo e do neoplatonismo, a Bíblia, os poetas antigos e contemporâneos, com que transformou e revitalizou o vocabulário poético à beira da exaustão nas páginas do Cancioneiro Geral, de Garcia de Resende.
Depois, fruto do exercício dos seus dons de observação, tão dentro do espírito português do Renascimento, o verbo poético camoniano enriquece-se com as linguagens encontradas no seu dia a dia de soldado da terra e do mar. A sua paleta estilística, que a poesia então era pintura!, apreende matizes novos pelo uso da terminologia náutica, da nomenclatura da fauna e da flora, da astronomia, dos fenómenos atmosféricos e marítimos, das artes bélicas, do rude linguajar de marinheiros, chatins e aventureiros, e até da interferência do português reinol com os idiomas alienígenas.
Foi porque Camões soube caldear os elementos de uma sólida cultura humanística com os ensinamentos de uma longa experiência, que a sua obra, fixando uma das mais altas criações do espírito europeu de Quinhentos, não perdeu as marcas de humanidade dramaticamente vivida. Por isso ela venceu o tempo e a sua influência, longe de ficar confinada ao nível de um estilo literário ou de um paradigma estético, específicos de uma época, perdurou como força de constante renovação a outros níveis da criação artística e da actividade linguística portuguesa subsequente.
Recolhendo a herança do saber linguístico anterior, e é curioso ver como conciliou uma invulgar criatividade idiomática com o consciente aproveitamento do arcaísmo com intenção estética, dos grandes movimentos culturais da sua época e da sua experiência ultramarina, o idiolecto camoniano oferece, no plano sincrónico, um modelo completo da realização da língua portuguesa na segunda metade de Quinhentos». In Aníbal Pinto Castro, Camões e a Língua Portuguesa, Quatro Orações Camonianas, Academia Portuguesa da História, Lisboa, 1980.

Cortesia de APHistória/JDACT

segunda-feira, 16 de abril de 2018

Quatro Orações Camonianas. Aníbal Pinto Castro. «Nem me falta na vida honesto estudo, com longa experiência misturado, nem engenho, que aqui vereis presente…»

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Camões e a Língua Portuguesa
«(…) Não cabe neste momento a refutação da tese tão frágil quanto imaginosa, defendida por Hermano Saraiva que, arrastado por um falacioso gosto da novidade e servido por brilhantes qualidades de comunicação, não prestou a indispensável atenção à moderna metodologia seguida em estudos desta natureza, para extrapolar dos textos poéticos, camonianos e comprovadamente não camonianos, o que eles, em matéria de história e crítica literárias, não comportam. Notarei apenas que até o saber linguístico de Camões chega para a desmentir, porque se ajusta completa e perfeitamente ao retrato cultural que ele próprio, com traço exacto e orgulhosa convicção renascentista, de si esboçou, ao afirmar ao rei Sebastião, no fecho d’Os Lusíadas:

Nem me falta na vida honesto estudo,
Com longa experiência misturado,
Nem engenho, que aqui vereis presente,
cousas que juntas se acham raramente.

Desse honesto estudo, que lhe proporcionou um domínio indiscutido do latim, lhe vinha a consciência da filiação do português na fecunda matiz do lácio, sustentada, aliás, n’Os Lusíadas, pela boca de Vénus, quando afirma que a língua da gente lusitana, com pouca corrupção crê que é a latina. E convém não esquecer, a este propósito um passo da Sátira II, de André Falcão Resende, dedicada a Luís de Camões, onde segundo Teófilo Braga e mais recentemente, Costa Ramalho, a expressão bacharel latino se refere ao próprio destinatário da composição:

Logo algum vil esprito o nota e acusa:
Vedes o triste (diz aos do seu bando),
Que é bacharel latino, e nada presta
É poeta o coitado, é monstro nefando.

Bem dentro do pensamento cultural da sua época, o Poeta não estava alheio ao movimento de defesa e ilustração do vulgar nacional perante a supremacia do latim proclamada por alguns humanistas de mais estreito dogmatismo. Tal movimento, comum, embora com naturais oscilações cronológicas, a toda a Europa romântica, do De vulgari eloquentia, de Dante, à Arte de la lengua castellana, de Nebrija e à Defense et illustration de la langue française, de Du Bellay, manifestara-se entre nós com os primeiros gramáticos Fernão Oliveira e João Barros e inspirara a Ferreira o conhecido louvor da portuguesa língua que encerra a carta III do Livro I dos Poemas Lusitanos, endereçada a Pêro Andrade Caminha.
Da cultura clássica de Camões não há que duvidar. A cítica, de Faria Sousa a José Maria Rodrigues, Epifânio e tantos outros não tem cessado de acumular provas bem concludentes da sua extensão e profundidade. Se os meios escolares da sua aquisição não estão documentalmente determinados, os resultados sobram para convencer os mais cépticos». In Aníbal Pinto Castro, Camões e a Língua Portuguesa, Quatro Orações Camonianas, Academia Portuguesa da História, Lisboa, 1980.

Cortesia de APHistória/JDACT

Confissões de uma Liberal. Maria F. Mónica. «Num momento em que a União Europeia está a braços com um país, o Irão, em vias de adoptar armas nucleares, será que não tem mais a fazer do que meter o nariz nos bolos tradicionais?»

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A Europa e eu
«(…) Ao longo de dezenas de Natais, a minha sobremesa preferida foi o bolo-rei. Não tanto pelo paladar da massa, mas por ambicionar sentir na boca o embrulho de papel contendo o presente. Aos 8 anos, já sabia que o oiro das figuras, ursos, galos e patos, era falso, mas a descoberta não retirou um grama de prazer ao que sentia. Era como jogar a lotaria sem ter tido que comprar o bilhete. Como tudo o resto, o fascínio pelo bolo-rei foi diminuindo com a idade, mas, durante anos, continuei a esperar que me calhasse, não a fava, mas o brinquedo. Há dias, notei que este desaparecera. Até ler o Diário de Notícias, de 31 de Dezembro último, pensei que a culpa seria de um qualquer cozinheiro. Erro meu. O facto deve-se a uma norma da União Europeia, a qual terá entendido que os presentes do bolo-rei são nocivos à saúde, pelo que decidiram proibi-los. Apesar de atónito, o dono da Confeitaria Marquês de Pombal tentou explicar o gesto ao repórter: a medida seria destinada não só a evitar o risco de os presentes serem engolidos pelos consumidores, como, e mais importante, de os materiais usados poderem vir a deteriorar o bolo. Num momento em que a União Europeia está a braços com um país, o Irão, em vias de adoptar armas nucleares, será que não tem mais a fazer do que meter o nariz nos bolos tradicionais? Possuirá o EUROSTAT estatísticas de tal forma aterradoras sobre o número de mortes provocadas pela ingestão do bolo-rei que a medida se tornou urgente? É a isto que se reduz a actividade dos funcionários que trabalham em Bruxelas?
Vale a pena reflectir sobre a transformação do sonho europeu: o que é hoje a União Europeia, uma democracia, uma oligarquia ou uma ditadura colectiva? Se pensarmos na pouca influência que o Parlamento europeu tem, não é seguramente uma democracia. Note-se que o poder da União é detido pela Comissão, uma casta formada por altos funcionários, que não respondem perante ninguém, e pelo Conselho, que se entretém a defender os interesses nacionais, com preponderância para os dos agricultores franceses. O Parlamento europeu transformou-se numa espécie de clube onde se debatem coisas a que ninguém dá importância. Nos países onde as instituições parlamentares desempenham um papel relevante, não há político que, ao seu, prefira aquela tertúlia. Pobre e pagando pobremente aos seus deputados, Portugal é dos poucos países-membros onde existe uma bicha de gente desejosa de tomar o avião para Bruxelas. Visto do cantinho, o posto, que dá dinheiro, secretárias e viagens, é apetecível. A União Europeia nada mais é do que uma oligarquia dominada pela Alemanha e pela França.
A recente votação sobre a Constituição Europeia em França e na Holanda foi inesperada. O facto de a França, logo a França!, ter optado pelo não desesperou os comissários, forçados a reconhecer que os eleitores não gostavam tanto de Bruxelas quanto pensavam. A consequência foi positiva: a ideia de um Estado federal, um pesadelo corporativo, entrou em coma. Os políticos favoráveis à opção maximalista foram obrigados a reconhecer que as nações não são aves migratórias, mas entidades baseadas num território, numa tradição e numa cultura.
Por ter nascido num país onde a tradição liberal nunca encontrou raiz, tenho-me interrogado sobre qual, o tirano distante, de Bruxelas, ou o tirano próximo, do Terreiro do Paço, será o menor dos males. Diante do que sucedeu ao bolo-rei, encontrei a resposta. Prefiro o poder à beira Tejo. Pelo menos, a este posso atirar pedras. O que não me impede de continuar a pensar que uma Europa alargada é desejável. Aprecio viver num espaço em que é possível às ideias, ao comércio e às gentes circularem livremente. Mas não quero ter de aturar um supra-Estado que mande em tudo, até no bolo que como pelo Natal. A minha Europa não é a dos senhores comissários de Bruxelas, mas a de Mozart e de Mahler, de Eça e de Eliot, de Turner e de Turgueniev, isro é, uma Europa culta, livre e dinâmica». In Maria Filomena Mónica, Confissões de uma Liberal, Quasi Edições, 2007, ISBN 978-989-552-274-3.

Cortesia de QuasiE/JDACT

domingo, 15 de abril de 2018

Confissões de uma Liberal. Maria F. Mónica. «A convicção de que os inocentes nada têm a temer com a introdução deste tipo de documentos é falsa»

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Quantos liberais há no meu país?
«Em geral, não sou desconfiada. Contudo, no que diz respeito ao Estado português, tenho razões para alterar a minha atitude, sobretudo quando estão em causa questões ligadas às liberdades, como sucede com o anunciado, Cartão do Cidadão, que irá juntar, num só, dados anteriormente espalhados por cinco documentos. Os argumentos apresentados pelo poder, representado numa sessão solene pelo Primeiro-Ministro e por quatro ministros, foram variados: o cartão facilitaria a vida dos eleitores (acabaria com a necessidade de recenseamento), dos doentes (que se dirigem aos hospitais sem saber quem são), dos reformados (que ali veriam incluído o respectivo número de pensionista), dos contribuintes (que não teriam de decorar o horrendo número) e dos indivíduos em geral (que ali veriam registado um eventual passado cadastral).
O cartão teria ainda a vantagem, declarou o ministro da Administração Interna, António Costa, de ser de difícil falsificação, uma vez que estava montado para responder às novas exigências da União Europeia, permitindo ao cidadão comunicar ao Estado, por via electrónica, a mudança de residência. A mistura, entre grandes projectos e minudências práticas, pôs-me de pé atrás. O PM Sócrates declarou que o cartão, apesar de concentrar num chip único informação diversa, de tal forma estava desenhado que os dados ficariam guardados em gavetas separadas, sendo a zona central para os certificados digitais e as outras, uma para as Finanças, outra para a Segurança Social e a última para a Justiça, ou seja, que o perigo de cruzamento de dados se não colocava. Já lá vamos. Porque há mais. Os jornais informavam que várias empresas privadas, entre as quais a Microsoft, haviam colaborado, a título gratuito, no esquema: mais uma razão para dele desconfiarmos. A certa altura, o PM dizia que A partir do lançamento do cartão do cidadão há uma grande gama de projectos que poderão simplificar e modernizar a relação da administração pública com os cidadãos, após o que significativamente acrescentava: tenho a certeza de que passará ir haver uma concorrência entre os serviços da administração pública para a inclusão de novos dados no cartão. Até onde irá a fome do Estado em registar as nossas vidas num quadradinho?
Ao mesmo que se anunciava que o documento iria ser experimentalmente usado nos Açores, o cidadão José Sócrates, que, tanto quanto sei, não nasceu nas Ilhas, deitava fora os seus cinco cartões, enquanto um carteiro lhe entregava um reluzente documento único. Na minha opinião, o Bilhete de Identidade é uma demonstração de falta de confiança entre o governo e os governados. Imaginem agora o pânico de que fui assaltada ao ouvir falar de um B.I. em potência quintuplicada. Num país onde o Procurador Geral da República não é capaz de guardar as escutas telefónicas nem outros dados sigilosos, como se viu pelo caso do envelope 9, que garantias tenho de que, pela calada da noite, o poder não cruze os dados contidos no meu chip? E não apenas o Estado: toda a casta de gente, boa e má, poderá obter dados sobre a minha vida privada. Alguém duvida que, num mundo onde a pirataria electrónica se tornou numa arte ao alcance dos adolescentes, haverá indivíduos dispostos a abrir as gavetas que o PM Sócrates nos diz estarem seladas?
A convicção de que os inocentes nada têm a temer com a introdução deste tipo de documentos é falsa. Foi muitas vezes contra inocentes que os Estados usaram a informação que possuíam. Neste capítulo, o que devemos fazer é prever o cenário mais tenebroso. Esta posição pode parecer estranha vinda de alguém que acaba de publicar uma autobiografia tida como despudorada, mas, no caso do livro, fui eu e não o poder quem escolheu o que queria revelar. Os portugueses ouviram o anúncio do Cartão Único com a sua habitual equanimidade. Nem sequer estranharam que uma matéria da competência exclusiva da Assembleia da República, cuja Comissão para a Defesa dos Direitos, Liberdades e Garantias terá de analisá-la, fosse anunciada de forma expedita. Pelo meu lado, já comprei um óculo, a fim de observar as cabecinhas que, no hemiciclo, se erguerão para derrotar o Cartão Único. Suspeito que se podem contar pelos dedos de uma mão». In Maria Filomena Mónica, Confissões de uma Liberal, Quasi Edições, 2007, ISBN 978-989-552-274-3.

Cortesia de QuasiE/JDACT

Dona Maria Pia de Sabóia. Maria Antónia Lopes. «… boneca caprichosa, orgulhosa, ardente, brava, sem medo, desprezando a vida e considerando a sua qualidade de rainha…»

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Rainha que o povo amou. Maria Pia de Sabóia (1847-1911)
«(…) Neste livro tento compreender uma vida e um carácter, mas, como obra histórica que é, não pode deixar correr a imaginação sem o suporte documental. E este nem sempre existe. No caso vertente, a questão agrava-se com a sonegação de documentos (de certeza importantes) por quem não tinha qualquer legitimidade para o fazer, uma vez que se trata de um conjunto documental pertencente a uma instituição pública. Refiro-me ao facto de não ter sido autorizada a consultar a documentação existente no Palácio Nacional da Ajuda (não confundir com a Biblioteca da Ajuda), onde, na verdade, tais documentos não deveriam estar por se tratar de um museu e não de um arquivo ou biblioteca. Não iniciei esta investigação com o propósito de ser original à força, revendo a imagem de Maria Pia de Saboia em sentido positivo ou negativo. E, contudo, à medida que a investigação decorria, apercebi-me cada vez mais nitidamente de que esta mulher tem sido mal interpretada e que se trata de uma pessoa muito mais rica e interessante do que se tem afirmado. A minha posição é incómoda. Não há dúvida de que, em nome do rigor histórico, a personalidade tem de ser revista num sentido positivo, tanto no que se refere às suas qualidades humanas, como às suas capacidades políticas, mas este livro não é um panegírico de Maria Pia, nem, evidentemente, a sua detracção ou a de outrem.
Como disse, não existe nenhuma biografia da rainha Maria Pia assente em investigação, embora desde o seu tempo até à actualidade (2009) muitos autores se lhe tenham referido para traçar as vidas dos monarcas Luís I, Carlos I e da rainha dona Amélia ou para analisar a época. Tais escritos possuem valor muito distinto, indo da mera recolha acrítica de notícias da imprensa, boatos e lendas, ou da compilação de informações historiográficas dispersas, até à verdadeira investigação histórica que, muito recentemente, recorreu a documentação privada produzida pela própria rainha. Uma obra histórica, comecemos por esclarecer, assenta sempre, pelo menos em parte, em fontes, o que significa documentos da época, que podem ser de natureza muito diversificada. Quando assim não sucede, quando se trabalha a partir de estudos, estamos perante um trabalho de síntese ou de um ensaio, mas não de um texto historiográfico. Além do recurso a fontes, é necessário dominar a metodologia histórica da investigação e da exposição. Por isso, a história não pode ser confundida com relatos publicados por pessoas bem intencionadas mas sem o domínio dos saberes, das técnicas e da deontologia inerentes a esta ciência, Um pequeno livro publicado em 2007 com o título Maria Pia: Rainha e mulher, de autoria de José Manuel Pavão e João Cerqueira, é um exemplo de uma síntese. Tem a valia de reunir, pela primeira vez, informação que se encontrava dispersa, mas não acrescenta saber porque apenas compilou o que já estava escrito e era conhecido. Contudo, apesar das evidentes limitações e equívocos de que enferma, é uma síntese honesta. Já a passagem que as autoras de Amantes dos reis de Portugal dedicam a Maria Pia é dos exemplos mais flagrantes de leviandade de quem escreve sobre o que não estudou e sobre o que nunca reflectiu. Desculpável em tantos que, sem formação, publicam e alcançam êxitos fáceis, é inadmissível a quem se apresenta como historiador.
Autores mais antigos, alguns seus contemporâneos, escreveram sobre dona Maria Pia. Todos estes autores apresentam uma imagem muito favorável de dona Maria Pia. Pouco lisonjeiras são as apreciações da condessa de Rio Maior (Isabel Sousa Botelho), marquês de Fronteira (José Trazimundo Mascarenhas Barreto), Júlio Vilhena (1916), Raul Brandão (1998 e1925) e Aires Sá (1928). César Silva (1922), que demonstra admiração por Maria Pia, considera que na intimidade, porém, acusava um desequilíbrio por vezes desastroso. Era uma histérica. Rocha Martins (1926 e 1931) romanceia, deixa correr sem freios a imaginação, além de apresentar erros factuais e interpretações muito datadas. Define dona Maria Pia como boneca caprichosa, orgulhosa, ardente, brava, sem medo, desprezando a vida e considerando a sua qualidade de rainha acima de todas as vulgaridades, era sublime e bondosa, majestática e humilde, doce e irritável, uma histeria desenvolvida num corpo nado para os nervosismos e que as constantes contrariedades tinham levado ao excesso, ao tormento. Segundo o mesmo autor, depois do regicídio, transformou-se em uma tontinha a regar as flores dos seus tapetes. Raul Brandão, cujo diário publicado com o título de Memórias é muito utilizado, está na origem de inúmeras fantasias sobre Maria Pia, repetidas ad nauseam. Brandão registava toda a maledicência que corria em Lisboa, sem lhe aplicar qualquer crivo crítico, publicando os boatos mais inverosímeis. Tem também equívocos, só possíveis se o texto foi escrito ou acrescentado muito depois das datas que refere. Afirma, por exemplo, que no dia 11 de Maio de 1903 se discutiu na Câmara dos Pares a viagem da rainha dona Amélia, sendo acusada de ter inventado esse pretexto para não receber Émile Loubet, presidente da França. Ora, quem visitou Portugal em 1903 durante a ausência de dona Amélia foi o rei Eduardo VII. Loubet esteve em Lisboa em 1905 e foi recebido por dona Amélia e quem se encontrava no estrangeiro nesta altura era a rainha Maria Pia. No segundo volume, Raul Brandão mudou, humanizou-se. O tom é mais reflectido e quando relata boatos faz algumas apreciações sobre a sua credibilidade». In Maria Antónia Lopes, Rainha que o povo amou, Dona Maria Pia de Saboia, Círculo de Leitores, 2011, ISBN 978-972-424-718-2.

Cortesia de CLeitores/JDACT

sábado, 14 de abril de 2018

Dona Estefânia de Hohenzollern. Maria Antónia Lopes. «Assim, pelos laços de adopção, dona Estefânia, rainha de Portugal, era bisneta de Napoleão I»


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Rainha que o povo amou. Estefânia de Hohenzollern-Sigmaringen (1837-1859)
«(…) Como o principado de Sigmaringen e o grão-ducado de Baden (origem da mãe de Estefânia) haviam estado sob a influência de Napoleão, tinham-se criado estreitos laços familiares entre essas antigas e orgulhosas linhagens e as famílias Bonaparte e Beauharnais, enteados de Napoleão (filhos do primeiro casamento de Josefina Tascher de La Pagerie, futura imperatriz, com o visconde Beauharnais e legalmente príncipes Napoleão por terem sido adoptados  pelo imperador). Os Hohenzollern-Sigmaringen ligaram-se também à parentela de Joaquim Murat, cunhado de Napoleão, filho de um estalajadeiro e rei de Nápoles. Ora isto teve como consequência ser a princesa Estefânia de Hohenzollern-Sigmaringen descendente dessas famílias de nenhuns pergaminhos, que as realezas e antigas aristocracias europeias desprezavam. Quando se tratou do casamento de Pedro V tal ascendência da noiva chegou a ser encarada pelo conde do Lavradio como um possível e grande óbice à união. Contudo, nessa altura os Bonapartes estavam outra vez no trono imperial francês e também os Braganças se haviam unido aos Beauharnais. As marchas, do sangue de dona Estefânia foram caladas pelos seus biógrafos, mas, na época, esgrimidas pelos miguelistas.
Debrucemo-nos, entãoo, sobre a família da nossa rainha. O seu pai era Carlos António Hohenzollern-Sigmaringen (1811-1885) e a mãe Josefina Frederica Baden (1813-1900). Era neta paterna de Carlos III (1785-1853), príncipe soberano de Hohenzollern, e de Maria Antonieta Murat (1793-1847), sobrinha de Joaquim Murat. Os avós maternos foram Carlos Luís (1786-1818), grão-duque de Baden, e Estefânia de Beauharnais (1789-1860), princesa Napoleão, pois em 1806 o imperador francês adoptou-a como filha, casando-a com o grão-duque alemão. Dona Estefânia estava, pois, ligada aos Bonapartes tanto pelo lado paterno como materno. As suas avós eram ambas francesas e membros desse clã.
Carlos III, o avô que se casou com uma Murat, contraiu segundas núpcias em 1848, já a neta tinha 11 anos, com a princesa Catarina Hohenlohe-Waldenburg (1817-1893), a quem Estefânia chamará avó Catarina e com quem, em Lisboa, se irá corresponder. A grã-duquesa Estefânia, a avó materna, filha do conde Cláudio Beauharnais e de Claudina Francisca Lézary-Marnézia, era prima em 2.o grau do primeiro marido da imperatriz Josefina, a quem tratava por tia. Napoleão não só adoptou os dois enteados, mas também, como se disse, essa prima deles. Assim, pelos laços de adopção, dona Estefânia, rainha de Portugal, era bisneta de Napoleão I. Em 1828 um estranho acontecimento apaixonou a Europa: o celebérrimo caso de Kasper Hauser, que continua envolto em mistério e a ser estudado por qualquer aprendiz de psicólogo. Um rapaz com cerca de 16 anos apareceu em Nuremberga mal sabendo andar, falar e interagir com os seus semelhantes. Vivera aprisionado num cubículo escuro sem contactos com ninguém a não ser o carcereiro. Rapidamente se espalhou que era o filho dos grão-duques de Baden, nascido e supostamente falecido em 1812. Dizia-se que o príncipe fora sequestrado para não suceder ao pai e que o bebé morto não era ele. E por isso não tinham consentido a Estefânia Beauharnais, sua mãe, que visse o pequeno cadáver, com a desculpa do estado em que estava. Dizia-se também que o sequestro tinha sido obra de Louise Geyer Geyersberg, condessa de Hochberg (que casara morganaticamente com o avô de Carlos Luís Baden), para que os seus próprios filhos sucedessem. Sucedeu, de facto, o ramo Hochberg de Baden quando Carlos Luís morreu, logo em 1818. Estefânia Beauharnais, viúva, com 29 anos, sem apoios e sendo princesa Napoleão, o que agora era um estigma, refugiou-se com as filhas em Mannheim, cidade católica. Quanto a Kasper FIauser, morreu apunhalado em 1833. Se se tratava, de facto, do príncipe de Baden, era tio direito da rainha dona Estefânia. Não faltam mistérios e intrigas romanescas nesta família». In Maria Antónia Lopes, Rainha que o povo amou, Dona Estefânia de Hohenzollern, Círculo de Leitores, 2011, ISBN 978-972-424-718-2.

Cortesia de CLeitores/JDACT

Maria da Fonte. Maria João F. Gouveia. «… lá repetia que aquela fora fundada no século XI, e que sofrera grandes mudanças 200 anos mais tarde, quando os monges se desentenderam com ricos-homens da região»

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O fogo de Maria
«(…) Ouve, Maria Angelina..., se me garantires que vais acatar as ordens da tua mãe e da tua irmã, eu falo com o arruaceiro do teu cunhado e dou-lhe um susto que o há-de trazer aquietado, já que o teu pai não tem peito para o enfrentar. E o que lhe vai dizer para o amedrontar? Isso são coisas de gente crescida. O Senhor também aos grandes corrige, sabes? Há que seguir os seus caminhos e advertir quem não os segue. Mas agora sossega essa cabecinha, volta para casa e deixa o resto comigo. Sim, senhor prior. A sua bênção. Deus te abençoe, Maria Angelina. Ele há-de ter uma vida de grandes feitos guardada para ti. Quando for maior e tiver forças, vou defender a minha irmã dos maus-tratos daquela peste. A julgar pelas ganas que te correm no sangue, hás-de defender todos quantos de ti precisarem! Vá, ala para o lar, que já se vai fazendo tarde. E lá partiu a pequena Maria Angelina, puxando para cima a saia que se lhe desprendia do pano torcido que a prendia à cinta, galgando os prados e subindo as ligeiras colinas dos dois quilómetros que separavam a igreja e o mosteiro de Fontarcada da sua exígua casa em pedra granítica, no lugar de Simães.
E como era bela a paisagem que rodeava aquele enclave viçoso no coração do Minho! Aninhada entre os vales desenhados pelos rios Ave e Cávado, a vila de Póvoa de Lanhoso, onde se inseria o antigo couto de Fontarcada e os seus limites, engalanava o distrito de Braga com a maravilha dos seus recantos. Planos ou em declive, extensos e férteis campos de lavoura e áreas florestadas cobriam quanto a vista alcançava ao redor, numa mescla de tons pastel e exuberâncias de cor. Mas se os olhos se regalavam com a oferenda do cenário povoense, não menos encantava a música dos sons da terra, presente na voz dos pássaros que lhe percorriam os céus e no suave canto das águas dos seus ribeiros, a que os sinos das igrejas se juntavam. Do alto do seu castelo centenário, parecia que o Minho inteiro se lhe desenrolava aos pés. Delimitado pelas terras fronteiriças de Amares, Fafe, Guimarães, Vieira do Minho e Braga, e pelas circundantes serras do Carvalho, do Gerês e da Cabreira, o território de Póvoa do Lanhoso, dada a sua privilegiada situação geográfica e estratégica, fora, desde eras já esquecidas, cobiçado pelos vários povos que o habitaram.
Rezava que ainda nem o Senhor Jesus Cristo nascera, já gentes lhe pisavam os chãos de que logo os romanos se apoderaram, trazendo consigo velhos e doutos saberes e a santa fé cristã. Por ali desfilaram ainda nobres e reis, fidalgas e rainhas, deixando marcas da sua presença. Fora o caso de Godinho Fafes, ou Falifaz, pai do alferes-mor do conde Henrique, que, em 1067, ali fez alevantar o templo e o mosteiro de Fontarcada, ou de São Salvador, orago da freguesia, cuja coutada se tornou pertença dos frades beneditinos. Também Dinis I, vendo a fortaleza em ruínas, a mandou restaurar, em nome da defesa do reino, concedendo foral ao concelho de Lanhoso em 1292. Essas histórias sabia-as Maria Angelina todas de cor, de tanto as ouvir contar ao padre da paróquia, tal como de cor conhecia todas as capelinhas dos pios arredores, desde a da sua povoação de Simães, em honra de S. Francisco, às de S. João, Santa Luzia e Santo António, em lugares cercanos. Eram, todas elas, palco anual das celebrações dos seus santinhos. Nenhuma das capelas, porém, se se comparava à da igreja matriz de Fontacarda, na sua nudez de paredes de pedra e de arcos românicos, cujo tímpano do portal ostentava o Cordeiro de Deus, que a pequena passava horas a contemplar.
Hei-de casar-me aqui!, dizia Maria Angelina ao padre João. Então, tens de aprender a sua história, retorquia ele. E a menina, ávida de lhe provar que seria digna de um dia, naquele santo chão, vir a receber a bênção de Deus Nosso Senhor para o seu matrimónio, lá repetia que aquela fora fundada no século XI, e que sofrera grandes mudanças 200 anos mais tarde, quando os monges se desentenderam com ricos-homens da região, pelos seus direitos e rendas, e ainda outra vez, no século XVI, quando foi melhorada e ficou com o aspecto que hoje tem». In Maria João Fialho Gouveia, Maria da Fonte, Topseller, 20/20 Editora, 2017, ISBN 978-989-886-955-5.

Cortesia de Topseller/20/20 E/JDACT

Dona Maria Pia de Sabóia. Maria Antónia Lopes. «Os adversários políticos atacaram os seus gastos, propalaram as suas excentricidades, ou caprichos, consideravam-na autoritária»

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Rainha que o povo amou. Maria Pia de Sabóia (1847-1911)
«Quando em 1910 a monarquia portuguesa foi extinta, havia em Portugal duas rainhas: dona Amélia e dona Maria Pia. E, contudo, a memória colectiva do episódio da partida para o exílio apenas reteve a figura de deona Amélia. Ignora-se quem foi dona Maria Pia, quando viveu, qual a sua personalidade. Surge a surpresa quando se afirma que a 5 de Outubro saíram de Portugal duas rainhas, reacção recorrente dos meus alunos, como é também em outros círculos alheados da história. Já em ambientes com outro nível de conhecimentos, à questão sobre o que sabem de dona Maria Pia, ouve-se caracterizá-la com algumas destas fórmulas: frívola, dissipadora, vaidosa, geniosa, detestando o marido, ciumenta da nora, desequilibrada, uma tonta. Repetem-se as célebres frases que se lhe atribuem e que, na realidade, são todas apócrifas: no me piace Luigi, gravado na vidraça com os brilhantes dos anéis; se eu fosse o rei mandava-o fuzilar, dirigindo-se a Saldanha em 1870; quem quer rainhas paga-as, quando a acusavam de gastar demasiado, etc.. Outros, ainda, referem-se a publicações recentes, de nível light, que fazem dela uma mulher adúltera sexualmente insaciável. No seu país de origem, a Itália, Maria Pia foi esquecida. Os estudos sobre os Saboias do século XIX ignoram-na quase totalmente.
Como explicar este apagamento de Maria Pia da memória colectiva portuguesa se em 1910, ao partir para o exílio, vivia em Portugal há quarenta e oito anos enquanto dona Amélia apenas há vinte e quatro? Como explicá-lo, sabendo nós que foi uma rainha amada pelo povo; que nunca foi vaiada ou desconsiderada em público, ao contrário de Carlos I e de dona Amélia; a única, no dizer de muitos, que deixava saudades? Como explicar também a imagem tão negativa que se lhe colou e que contraria flagrantemente a opinião maioritária da época? Como explicar, ainda, que nunca um historiador tenha escrito uma biografia desta rainha que tanto fascínio suscitou?
A imagem que se veicula actualmente da rainha Maria Pia é quase antagónica daquela que a sua época traçou. Ao tempo, a maioria dos portugueses considerava-a caritativa, generosa, afável, mãe e educadora severa e exemplar. Celebravam-lhe a elegância do porte, a coragem manifesta nos momentos decisivos, o sentido da majestade, o apoio sempre prestado ao marido, à dinastia e ao país, a simpatia e gentileza para com grandes e pequenos. Mas sabiam-na também gastadora em demasia e muitos diziam-na infeliz no casamento. Os adversários políticos atacaram os seus gastos, propalaram as suas excentricidades, ou caprichos, consideravam-na autoritária. A propaganda republicana e a dos monárquicos afastados do poder fizeram correr muitas difamações e boatos absurdos sobre todas as pessoas da família real. Nos finais da monarquia existiam na corte duas facções que se confrontavam, a de Carlos I e a de dona Amélia, veiculando cada uma delas notícias contraditórias. E foram-se construindo imagens incompatíveis da personalidade da rainha Maria Pia.
Acrescento outros factores que contribuíram, após o fim da monarquia, para o desabono e para o apagamento de Maria Pia: os monárquicos portugueses que enaltecem a família real centram-se, quanto às figuras femininas, em dona Amélia, romantizada por ter sido a última rainha e pela sucessão de tragédias que sofreu, deixando dona Maria Pia na sombra, embora esta tenha vivido também parte desses dramas. Para traçar o panegírico e ressaltar as qualidades de dona Amélia, os seus biógrafos franceses (que não são historiadores) não se coibiram em denegrir a sogra, com quem fizeram o confronto. A uma Amélia despretensiosa, corresponde uma Maria Pia soberba e vaidosa; a uma mente equilibrada, uma desequilibrada quando não mesmo alienada; a uma mulher de gostos simples e moderados, uma perdulária; a uma esposa exemplar, uma ninfomaníaca adúltera; a uma Amélia socialmente activa com obra importante e eficaz, uma Maria Pia filantrópica de espavento e sem real utilidade. Estas biografias assentam, pelo menos em parte, em afirmações orais e escritas de dona Amélia e da sua família. Ora, Amélia de Orleães viveu muitos anos após a implantação da República e falou e fez escrever o que quis, não se inibindo de traçar um retrato pouco lisonjeiro do marido, como Rui Ramos já salientou. E da sogra, acrescento eu.
Os historiadores portugueses, questionando-se pouco ou nada sobre a personalidade de Maria Pia, têm repetido certos comentários da época e apreciações posteriores, mas é óbvio o desinteresse ou condescendência que sentem por alguém que consideram de insignificante importância. Por vezes parecem partilhar do estereótipo da mulher bela e elegante que forçosamente é fútil. Porque é assim que Maria Pia é apresentada: uma mulher frívola, perdulária, pouco inteligente e instruída. E que por isso não era levada a sério nem pelos políticos e cortesãos, nem pelo marido, pelo filho mais velho ou pela sua família de origem. Afigura-se que, inconscientemente, certos autores assimilaram o que o século XIX pensava das capacidades cerebrais das mulheres. É também comum dizerem que teve episódios de loucura, ou, pelo menos, que era desequilibrada, e que enlouqueceu depois do regicídio. Na verdade, não encontrei na documentação primária o mais leve indício de desequilíbrio mental. Outra imagem forte desta rainha, que perdurou e se reproduz, são os seus gastos excessivos, o que, ressalvando alguns exageros, corresponde à verdade. Por fim, uma questão recentemente tratada.
Segundo Luís Espinha Silveira, dona Maria Pia teve como amante, nos finais da década de 1880, Tomás Sousa Rosa. A situação terá sido de tal forma grave que Luís I ponderou a separação e mesmo a sua própria abdicação. Não me parece que se possa ser tão categórico a este respeito. Debruçar-nos-emos sobre o assunto, pois a minha leitura é bastante diferente. Mas deve salientar-se que Espinha Silveira foi o único historiador actual que procurou perceber a personalidade de dona Maria Pia». In Maria Antónia Lopes, Rainha que o povo amou, Dona Maria Pia de Saboia, Círculo de Leitores, 2011, ISBN 978-972-424-718-2.

Cortesia de CLeitores/JDACT

Dona Estefânia de Hohenzollern. Maria Antónia Lopes. «Vilhena, um ex-ministro monárquico já então muito idoso, ficou fascinado pela alma pura, da jovem, chegando a considerá-la a mais notável das rainhas…»

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Rainha que o povo amou. Estefânia de Hohenzollern-Sigmaringen (1837-1859)
«(…) Mendes dos Remédios, em 1903, num prefácio à edição de cartas de Pedro V, é o primeiro a referir-se ao dispendioso e luxuosíssimo enxoval de dona Estefânia, que, aliás, tinha sido descrito quando a rainha chegou a Portugal, mas que os biógrafos omitiram, por certo para não contrariarem as qualidades de modéstia e simplicidade que lhe exaltavam. Em 1922 Júlio Vilhena publicou a correspondência que dona Estefânia manteve com a mãe, 50 cartas redigidas entre 6 de Maio de 1858 (em viagem para Portugal) e 6 de Julho de 1859, dois dias antes de adoecer. Trouxe também a público sete cartas que a princesa endereçara ao noivo. Vilhena, um ex-ministro monárquico já então muito idoso, ficou fascinado pela alma pura, da jovem, chegando a considerá-la a mais notável das rainhas, de Portugal. Fez preceder a publicação de um estudo cuidadoso, onde tentou compreender a personalidade de Estefânia, apontando características que até aí não eram conhecidas, como o seu pragmatismo e capacidades de análise política. Júlio Vilhena revela possuir sensibilidade e argúcia, mas, como não podia deixar de ser, reflecte o pensamento do seu tempo, muito marcado por ideias feitas relativamente às mulheres e ao que estas deveriam e desejavam ser. Foi também este autor que em 1921 tornou conhecido um assunto que era sussurrado desde que a rainha morrera, a única polémica que a sua vida suscitou: a possível virgindade à data da morte.
Depois de 1922 pouco ou nada foi acrescentado ao conhecimento historiográfico sobre dona Estefânia, nem ao nível da informação factual, nem no plano da interpretação, apesar de tanto se haver escrito sobre Pedro V. Mas com a publicação das cartas que este escreveu a Alberto de Inglaterra, marido da rainha Vitória, e ao conde do Lavradio, editadas por Ruben Andresen Leitão, e, mais recentemente, as do príncipe Alberto para o rei de Portugal, publicadas por Maria Filomena Mónica, esclareceu-se devidamente como surgiu o nome de Estefânia para rainha de Portugal e os meandros do processo que culminou no casamento.
Não consegui localizar documentação inédita produzida por dona Estefânia ou a ela respeitante. As suas cartas, assim como as do marido, todas publicadas, serão, pois, a principal fonte deste estudo que muito se irá socorrer das suas próprias palavras. Apesar disso, é possível reapreciar a vida desta rainha e matizar a sua personalidade, analisando a correspondência contínua, pormenorizada, franca e íntima que dirigiu à mãe durante os meses que residiu em Portugal. Estes documentos permitem chegar à vida privada e aos sentimentos, quase sempre inacessíveis aos historiadores. Tem passado despercebida a ligação da família de dona Estefânia aos Bonapartes, que será esclarecida. Quanto à apreciação da relação conjugal, afasto-me da interpretação comum, pois não creio que Estefânia tenha sido realmente feliz no seu casamento. Pedro, sim. Mas Pedro não era Estefânia. Admito estar equivocada na minha leitura, embora, com as fontes actualmente disponíveis, me pareça difícil chegar a outra conclusão. Aguardemos, contudo, que um dia surja documentação inédita, nomeadamente em arquivos alemães.

A família
Estefânia Hohenzollern-Sigmaringen nasceu a 15 de Julho de 1837 em Krauchenwies, perto de Sigmaringen, no actual estado alemão de Baden-Württemberg, no Sul da Alemanha. De seu nome completo, Estefânia Frederica Guilhermina Antónia Hohenzollern-Sigmaringen, pertencia ao ramo católico dos Hohenzollern, família reinante da Prússia, e sob a qual a Alemanha será unificada. Mas quando Estefânia nasceu, a família Sigmaringen era ainda soberana no seu principado homónimo que ficava encravado no reino de Würtremberg, confinando a sul com o grão-ducado de Baden e cortado ao meio pelo de Hohenzollern-Hechingen.
Em 1806 o principado de Sigmaringen integrou a Confederação do Reno, sob a protecção do imperador Napoleão Bonaparte. Depois da derrocada deste, passou à Confederação Germânica, tutelada pelo imperador da Áustria. Na luta pela hegemonia do espaço alemão entre a Casa de Habsburgo, da Áustria, e a Casa de Hohenzollern, da Prússia, esta saiu vitoriosa ao fim de um processo de vários decénios em que gradualmente foi incorporando os estados germanófonos. O de Sigmaringen integrou-se na Prússia em 1849/1850, por cessão e abdicação de Carlos António, pai de Estefânia, a favor do rei prussiano, que se tornou chefe representante dos Hohenzollern. Em contrapartida, o chefe da família Sigmaringen ficava com prerrogativas de segundo príncipe da Casa Real prussiana, recebia uma pensão anual e conservava todos os seus bens. Depois, entre 1858 e 1862, Carlos António Hohenzollern-Sigmaringen será ministro-presidente da Prússia». In Maria Antónia Lopes, Rainha que o povo amou, Dona Estefânia de Hohenzollern, Círculo de Leitores, 2011, ISBN 978-972-424-718-2.

Cortesia de CLeitores/JDACT

quinta-feira, 12 de abril de 2018

Maria da Fonte. Maria João F. Gouveia. «O António quer mal à minha irmã Celeste por ela ter um filho de outro homem. Passa a vida a condená-la por isso»

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O fogo de Maria
«(…) À chegada, Celeste Maria aguardava-a impacientemente, receando a reacção do companheiro, que já andava embrenhado na lida da terra, e apressou-se a encarregar a catraia de entregar o cesto ao sacerdote. E assim, tão leve e solta como arribou, lá saiu de novo a pequena Maria, cabriolando pelos carreiros até ao vigário. Paciente, o bom padre João Martins Lopes aceitou a oferenda da menina, fingiu inspeccionar com interesse o seu conteúdo, convidando-a por fim, a acompanhá-lo ao pomar. Não queres umas laranjas, Maria Angelina? Oh, se quero, senhor prior!, replicou ela prontamente, esfregando as mãos. Então, anda daí. Vais colhê-las tu mesma! Mas se eu não lhes chego, como hei-de ser eu fazê-lo? Eu pego-te ao colo e achego-te a elas. Quando somos nós a colhê-las, sabem melhor. Minutos mais tarde, enquanto Maria se refastelava com a fruta colhida, o padre atalhou: olha lá, rapariga... Então tu hoje esqueceste-te dos teus deveres e abalaste desenfreada pelos campos? Dos meus deveres? Ah, sim, de dar de comer aos animais. Mas não se apoquente, que a esta hora a minha mãe já cuidou deles.
Certamente que sim, mas a questão aqui é outra. Outra, senhor padre!, surpreendia-se a pequena, fitando-o, incerta, com os seus grandes e expressivos olhos castanhos. Não sabes a que me refiro, Maria Angelina?, perguntou suavemente o padre, atento à reacção da menina, que acenou que sim com a sua cabecita de cabelos da cor da terra, fechando a expressão. Não tenhas medo, que eu não te vou ralhar. Mas o homem da senhora minha irmã vai. Há-de arriar-me com o cinto. Desta vez, não. Já estive de prosa com ele. Agora, tens de me prometer que de ora em diante vais obedecer à tua santa mãezinha e ajudá-la na lida. Assim o teu cunhado não terá por que te repreender. Quando não tem, arranja! Não há dia em que não me desanque, queixou-se Maria Angelina, descoroçoada. Exageras, moça. Não, meu bom pároco, eu não sou de mentir! Bem sei, bem sei, mas talvez empoles um quanto as coisas. O António quer mal à minha irmã Celeste por ela ter um filho de outro homem. Passa a vida a condená-la por isso.
Até já lhe assentou a mão! E quando o petiz está em casa da madrinha, é em mim e nela que se vinga. Pobre Celeste, não tem tido sorte. A vida pregou-lhe uma rasteira e hoje recrimina-se por isso. Deixa-se ficar. Ah, mas dessa vez, não! Nesse dia, quando depois de lhe bater o António começou a dirigir-se a mim, ela atravessou-se-lhe à frente e encarou-o. Levantou o queixo e perguntou-lhe: só te sentes homem quando dás em alguém? Olha que bater nos mais fracos não é de grande bravura. Ainda não estás satisfeito? Tens aqui muito em que cascar, disse pondo as mãos no peito. Queres bater, bate em mim, deixa a miúda em paz! Ou então vai à taberna entornar uns canecos. E deixa-te por lá ficar. A menina Celeste a enfrentar o desordeiro, quem havia de dizer? Oh, uma coisa de dar gosto! Depois disso, ele ainda andou uns tempos mais manso, mas depois, senhor padre, depois voltou tudo ao mesmo: coça aqui, tareia ali, gritos e zaragatas. É por isso que saio, a sorrir às flores e aos bichos, para longe daquele inferno». In Maria João Fialho Gouveia, Maria da Fonte, Topseller, 20/20 Editora, 2017, ISBN 978-989-886-955-5.

Cortesia de Topseller/20/20 E/JDACT

Maria da Fonte. Maria João F. Gouveia. «Sem pressa de regressar, deixou-se levar pelos apelos da fértil mãe Natureza, engalanada de flores e frutos e crias de toda a espécie, naquela estação em que a vida brotava do ventre da Terra»

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A rainha do povo
«(…) Entretanto, com o regresso ao poder dos cabralistas, Maria vê-se obrigada a tomar refugio num outro lugar. Na sua fuga, cruza-se de novo com o seu velho amor, afecto à causa de Miguel I, que também ela passara a abraçar, e os dois pelejam sob uma mesma bandeira. Finda a guerra, Túlio deixa a mulher legítima e estabelece-se com Maria Angelina em Famalicão, onde recordam os seus feitos e vivem o Verão e o Outono das suas vidas.

O fogo de Maria
Maria! Maria Angelina! Por onde andas, sua malfadada? Que mal te fiz, Senhor, para merecer tamanha cruz?, lamentou-se, desconsolada, a pobre camponesa, lançando as  mãos ao céu. Que tormenta! Não praguejes, Maria Josefa! Valha-nos Deus! Vem confessar-te à missa da tarde. A tua filha desobedeceu-te outra vez? É o pão nosso de cada dia, senhor padre. Eu que o diga, que agora tem ficado em minha casa!, lamuriou-se Celeste Maria, irmã mais velha da catraia. Que dizes tu, mulher?, investiu o companheiro de Celeste, ao escutar os queixumes. Aquela peste voltou a escapulir-se-te? E à vossa mãe? Mal a apanhe, dou-lhe uma lição à moda antiga! Calma, António, não será preciso tanto. Encaminhe-me a pequena à igreja com um frete, que eu mesmo cuido de a ensinar, disse o clérigo. Ora, ora, quando ela souber ao que vai, senhor cura, há-de embrenhar-se no bosque.
Pois então não lhe diga que a espera um sermão meu. Ponha-lhe uma cesta no braço com um punhado de hortaliças e mande-a entregar-ma. Ainda lhos perde pelo carreiro! E eu não o sei? O que interessa é que ela venha ter comigo. Está certo, farei como me pede. Mas se o senhor prior não der conta do recado, cá estarei eu para a emendar ao meu jeito. Vai ver que não será necessário. A sua bênção, padre João. O Senhor esteja convosco. Vão em paz, meus filhos. E tem paciência, António, que a gaiata há-de aprender. Só se for por milagre! Sossegue, homem, sossegue. As palavras do Senhor corrigem mais do que o cinto, despediu-se o sacerdote, tomando a vereda em direcção ao templo.
Era uma manhã de céus claros, a do dia 1 Maio de 1835. Toda a Criação parecia explodir de cor e júbilo. Os largos campos em redor estavam cobertos de papoilas e malmequeres, e Maria saltitava por entre as flores e as altas ervas, como se ela própria fosse um despertar primaveril. A candura dos seus 6 anos de idade fazia-a esquecer as ordens da mãe e da irmã, os castigos do cunhado e as simples tarefas de que fora incumbida. Como habitualmente, a bondosa Josefa confiara-lhe o afazer de dar de comer às galinhas e aos patos, de que a filha tanto gostava, mas nem assim a petiza cumprira o acordo. Ao invés, saíra ligeira e alegre pelos prados fora, aos pulos, fazendo saltar a saiinha velha e remendada, a escorregar-lhe da cintura, e os longos cabelos escuros varrendo o ar à sua passagem. Fora um melro, com o seu canto sedutor, que a desafiara a essa corrida pela aldeia, ao levantar voo em direcção aos céus. Vai daí, a menina seguiu, cá de baixo, o percurso do pássaro, até o perder de vista; já a sua casa se esbatia num abraço verdejante.
Sem pressa de regressar, deixou-se levar pelos apelos da fértil mãe Natureza, engalanada de flores e frutos e crias de toda a espécie, naquela estação em que a vida brotava do ventre da Terra. Embevecida com tais oferendas, colheu flores de várias espécies e matizes, acariciou os cordeirinhos de um rebanho que pastava, desceu à ribeira a molhar as mãozinhas, que, em concha, lhe levaram a água à boca. Depois deitou-se na erva, a mirar as formas das nuvens, as copas das árvores, que uma brisa arrepiava levemente, e as aves que enchiam o firmamento, até que, por fim, adormeceu. Foi a canícula do sol do meio-dia que a despertou da modorra, e ela, logo se espreguiçando e esfregando os olhos, pôs-se de pé num salto, e, tão leve e despreocupadamente como até ali, calcorreou o caminho de casa dos pais, que ficava à beira do lar de Celeste Maria». In Maria João Fialho Gouveia, Maria da Fonte, Topseller, 20/20 Editora, 2017, ISBN 978-989-886-955-5.

Cortesia de Topseller/20/20 E/JDACT