quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Novas Cartas Portuguesas. Maria Barreno, Maria Horta, Maria Costa, (As Três Marias). «Imersa a porcelana que se afaga composta a anca a romper ao tacto deserta a pele porque se desata o sobressalto rente que se apaga»

jdact

Novas Cartas Portuguesas. Ou de como Maina Mendes pôs ambas as mãos sobre o corpo e deu um pontapé no cu dos outros legítimos superiores

(…)
Isabel
«Estás não sei
se atenta
se perdida
tu de rosto ou mastro
posto ao vento
vidro secular
que há muito tempo
trazes recato de vencida.

Da correcção no rosto
tens as linhas
e o rigor claro que se traça
enquanto calas isabel
e fias
na voz os dias como quem disfarça
Imersa a porcelana que se afaga
composta a anca a romper ao tacto
deserta a pele porque
se desata
o sobressalto rente
que se apaga
De posse não
que estranhas a rudeza
da mão alheia
que te quer e galga
A pedra acesa tu
de framboesa
pedra talhada de firmeza e calma
Porque já cruel reconheces
tu isabel a morte das palavras
e nem por elas estejas
talvez presa
Não sei se frágil
se frutos
e de tudo
o que dizes:
quero e não desfruto
te seja o mar inteiro que o corpo encerra»
12/03/1971

«Te encerras Isabel
na transparência secular da pedra
voluta de cabelos e volátil
de ti
como quem erra
Escasso corpo possuis
e pedes nas palavras que mordes
como frutos de fome
que te ardem
E assim isabel tens
de ti
um convexo mar como passagem
(mulher que não se usa
ao trato de uma casa)
clausura aprazada
que recusas
em cartas de nós sem ter mensagem».
13/03/1971

Senhora
«Senhora, o que te faz tão franzida
Tão refeita
Tão suspeita?
Quem escolhe a mansa vida
Verá bem o que rejeita.
Vai e traz-me um cabelo
Dum dragão enamorado
Pois se me falas de amor
Quero vê-lo feito e provado.
À volta dar-te-ei guarida
Sentar-te-ei a meu lado.

Senhora, o que te traz tão sujeita
Tão faltosa
Suspirosa?
Quem fia, borda e ajeita
Murcha cedo como a rosa
Não tem ciência nem prosa
Não sabe o nome que aceita.
Vai roubar o setestrelo
A um deus mau e zangado
Pois se me dizes saber
Quero prová-lo, e habitado.
À volta dar-te-ei suspeita
De que não estás do meu lado.
Senhora, o que te jaz tão famosa
Tão ausente
Tão pungente?
Quem escolhe, parte e rejeita.
Quem parte, vai e não colhe.
Quem vai, faz e não ama.
Quem faz, fala e não sente.
São teus olhos os sujeitos
São de granito os meus peitos.
Quem fia, borda e ajeita,
Quem espera, fica e não escolhe,
Quem cala, quieta na cama,
Sou eu, deitada a sentir
Tua roda de fugir
Tua cabeça em meu ventre».
11/03/1971

In Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta, Maria Velho Costa, Novas Cartas Portuguesas, 1972, edição anotada, Publicações dom Quixote, 1998, 2010, ISBN 978-972-204-011-2.

Cortesia PdQuixote/JDACT

Emma. Jane Austen. «E foi desde então que miss Taylor começou a influenciar as suas decisões; como não era a tirânica influência da juventude sobre a juventude»

jdact e wikipedia

«(…) Mr. Weston era natural de Highbury, de uma família respeitável, que nas últimas duas ou três gerações havia ascendido em nobreza e prosperidade. Recebera uma boa educação, mas, atingindo certa independência ainda muito jovem, não se achava disposto a engajar-se nos negócios corriqueiros a que seus irmãos se dedicavam. Para ocupar sua mente activa e alegre e seu temperamento sociável, entrou para a milícia do condado, e seguiu a carreira militar. O capitão Weston era estimado por todos; e quando as circunstâncias de sua carreira militar levaram-no a conhecer miss Churchill, de uma importante família do Yorkshire, e ela apaixonou-se por ele, ninguém ficou surpreso, excepto o irmão dela e a esposa. Como nunca o tinham visto, e eram cheios de orgulho e arrogância, sentiam-se ofendidos com este relacionamento. Miss Churchill, no entanto, sendo maior de idade e em plena posse de sua fortuna, embora esta fortuna não fosse proporcional às propriedades da família, não se deixou dissuadir, e o casamento realizou-se, para infinita mortificação de mr. e mrs. Churchill, que se afastaram dela com o devido decoro. Foi uma união inapropriada, e não produziu muita felicidade. Mrs. Weston deve ter sido mais feliz, pois tinha um marido de coração afectuoso e carácter gentil, que achava que ela merecia tudo como retribuição pela grande bondade de ter-se apaixonado por ele; e embora ela tivesse alguma disposição de espírito, esta não era das melhores. Teve coragem suficiente para impor a sua própria vontade, a despeito da oposição do irmão, mas não para refrear o seu insensato pesar ante a insensata ira do irmão, nem para deixar de sentir falta dos luxos do seu antigo lar. Viviam acima de suas posses, mas isso não era nada comparado à sua vida em Enscombe: não deixara de amar o marido, mas queria ser ao mesmo tempo a esposa do capitão Weston e miss Churchill Enscombe. O capitão Weston, que na opinião de todos, especialmente dos Churchill, havia feito um excelente casamento, terminou por ficar com a pior parte da barganha. Quando a sua esposa morreu, após um casamento de três anos, estava ainda mais pobre do que no início e com um filho para criar. Logo seria liberado das despesas de manutenção da criança, no entanto. O filho havia sido um meio de reconciliação, ajudado pelo suave apelo da prolongada doença da mãe. Mr. e mrs. Churchill, não possuindo filhos nem qualquer outra criança de igual parentesco para se dedicar, ofereceram-se para cuidar integralmente do pequeno Frank, logo após a morte da mãe. O pai viúvo deve ter relutado e sentido alguns escrúpulos, mas como estes foram superados por outras considerações, a criança foi deixada para desfrutar do cuidado e da riqueza dos Churchills, e ele tinha agora que provar apenas o seu próprio conforto e tentar melhorar a sua situação tanto quanto pudesse. Seria necessária uma completa mudança de vida. O capitão deixou a milícia e dedicou-se ao comércio, pois os seus irmãos já haviam-se estabelecido com sucesso em Londres e lhe propiciaram uma boa abertura. Era um trabalho que o ocupava bastante. Ele ainda possuía uma pequena casa em Highbury, onde passava a maior parte dos seus momentos de descanso; e entre uma ocupação útil e os prazeres da sociedade, os dezoito ou vinte anos seguintes da sua vida passaram animadamente. Por essa época ele já se havia estabelecido com sucesso, o suficiente para comprar uma pequena propriedade vizinha de Highbury, que ele sempre desejara, o suficiente para se casar com uma mulher sem dote como miss Taylor, e para viver de acordo com a sua própria disposição amigável e sociável.
E foi desde então que miss Taylor começou a influenciar as suas decisões; como não era a tirânica influência da juventude sobre a juventude, isso não abalou a sua determinação de não se casar novamente antes que pudesse comprar Randalls. A compra da propriedade era algo que ele ansiava há muito tempo, mas seguiu firme na perseguição dos seus objectivos, até que se realizassem. Fizera a sua fortuna, comprara a sua casa, e conseguira a sua esposa. Começava um novo período na sua existência, com grandes possibilidades de ser muito feliz, mais do que no passado». In Jane Austen, Emma, 1815/1816, Relógio de Água, 2016, ISBN 978-989-641-622-5.

Cortesia de RdeÁgua/JDACT

Poesia. Alexandre O’Neill. «Minuciosa formiga não tem que se lhe diga: leva a sua palhinha asinha, asinha. Assim devera eu ser e não esta cigarra que se põe a cantar e me deita a perder»

Cortesia de wikipedia

Adeus Português
«Nos teus olhos altamente perigosos vigora ainda o mais rigoroso amor a luz dos ombros pura e a sombra duma angústia já purificada
Não tu não podias ficar presa comigo à roda em que apodreço apodrecemos a esta pata ensanguentada que vacila quase medita e avança mugindo pelo túnel de uma velha dor
Não podias ficar nesta cadeira onde passo o dia burocrático o dia-a-dia da miséria que sobe aos olhos vem às mãos aos sorrisos ao amor mal soletrado à estupidez ao desespero sem boca ao medo perfilado à alegria sonâmbula à vírgula maníaca do modo funcionário de viver
Não podias ficar nesta casa comigo em trânsito mortal até ao dia sórdido canino policial até ao dia que não vem da promessa puríssima da madrugada mas da miséria de uma noite gerada por um dia igual
Não podias ficar presa comigo à pequena dor que cada um de nós traz docemente pela mão a esta pequena dor à portuguesa tão mansa quase vegetal
Mas tu não mereces esta cidade não mereces esta roda de náusea em que giramos até à idiotia esta pequena morte e o seu minucioso e porco ritual esta nossa razão absurda de ser
Não tu és da cidade aventureira da cidade onde o amor encontra as suas ruas e o cemitério ardente da sua morte tu és da cidade onde vives por um fio de puro acaso onde morres ou vives não de asfixia mas às mãos de uma aventura de um comércio puro sem a moeda falsa do bem e do mal
Nesta curva tão terna e lancinante que vai ser que já é o teu desaparecimento digo-te adeus e como um adolescente tropeço de ternura por ti»
Alexandre O'Neill

Minuciosa formiga
«Minuciosa formiga não tem que se lhe diga: leva a sua palhinha asinha, asinha.
Assim devera eu ser e não esta cigarra que se põe a cantar e me deita a perder.
Assim devera eu ser: de patinhas no chão, formiguinha ao trabalho e ao tostão.
Assim devera eu ser se não fora não querer».
Alexandre O'Neill

Gaivota
«Se uma gaivota viesse trazer-me o céu de Lisboa no desenho que fizesse, nesse céu onde o olhar é uma asa que não voa, esmorece e cai no mar.
Que perfeito coração no meu peito bateria, meu amor na tua mão, nessa mão onde cabia perfeito o meu coração.
Se um português marinheiro, dos sete mares andarilho, fosse quem sabe o primeiro a contar-me o que inventasse, se um olhar de novo brilho no meu olhar se enlaçasse.
Que perfeito coração no meu peito bateria, meu amor na tua mão, nessa mão onde cabia perfeito o meu coração.
Se ao dizer adeus à vida as aves todas do céu, me dessem na despedida o teu olhar derradeiro, esse olhar que era só teu, amor que foste o primeiro.
Que perfeito coração morreria no meu peito morreria, meu amor na tua mão, nessa mão onde perfeito bateu o meu coração».
Alexandre O'Neill


JDACT

Cortesia de Users/Isr/Ist/Utl/JDACT 

A Instrução dos Amantes. Inês Pedrosa. «Jurara a si própria que o corpo de Filipe nunca retiraria do seu um perfume parecido. Desinteressou-se do sexo antes mesmo de o conhecer, por causa de um cheiro a água-de-colónia barata…»

jdact

«(…) Nessa mesma noite, voltaram a brincar às escondidas por entre os túmulos, no cemitério. Quando saltavam o muro do território sagrado já não eram senão um feixe de corações estereofónicos; chegavam a temer que os mortos acordassem a rir às gargalhadas daquela orquestra cardiológica. Faziam-se muito heróicos. Os rapazes içavam as pequenas que ainda cheiravam ao quente da cama onde se tinham enfiado todas vestidas. Eram exímias em abrir a porta da rua sem o mínimo ruído. Treinavam-se a olear dobradiças como a pintar os olhos, nas horas desertas das casas. Faziam ginástica pelos corredores para se tornarem leves nesse momento em que eles as tomavam nos braços, sobre o muro. Teresa às vezes sonhava que estava excessivamente pesada e que o seu par a abandonava do lado de cá, no chão. Salta, Comanecci!, ordenava-lhe agora o seu príncipe João, e ela fechou os olhos e voou para o colo dele tonta de alegria, a acreditar que ele via mesmo nela a aura da estrela romena. Salta, Comanecci!, repetiu ele, como numa canção, mas Teresa olhou para trás e viu o corpo de Cláudia ascendendo, radioso, às mãos de João. Teresa decidiu então que os rapazes se repetem para melhor se ocultarem. João recordara-se de Nadia Comanecci em honra dela. A frase transbordara da sua viril timidez, e ele apressara-se a banalizá-la para que ninguém entendesse o que ela queria dizer. E evidentemente, o que a frase queria dizer era que João amava Teresa. Cláudia nunca atribuiria àquela frase outro significado que não o literal. Literalmente, o que a frase dizia era: vá lá, não tenhas medo, sobe!. Eventualmente, em post-scriptum, poderia também querer dizer: sou tão engraçado, não sou? Mas era só isso. Mesmo que estivesse apaixonada por João, Cláudia não levaria mais longe aquelas palavras. Mas nunca lhe passaria pela cabeça apaixonar-se por João. Nem sequer se apaixonara por Ricardo. Traio-te enquanto te atraio, era o seu lema secreto. Não por uma especial resolução de infidelidade, mas porque lera nos olhos tristes da mãe que os homens têm em geral a fatalidade de se prenderem ao desapego. Cláudia não era capaz de inventar romances e torná-los reais. Não tenho imaginação, confessava ela, com uma inveja simpática, quando lia os poemas de Teresa. Onde é que tu vais buscar estas coisas? Depois ria-se: que grande romântica que tu me saíste! O rosto de Teresa iluminava-se, e começava a pensar na grande tragédia amorosa que ia criar para si. Cláudia era tão bonita e tão prática que estava definitivamente arredada desse grandioso destino.
O jogo tinha regras precisas: sorteava-se a vítima, que contava até trinta para que os fantasmas corressem a esconder-se atrás das campas. De olhos vendados, a vítima tinha que procurar, agarrar e nomear o fantasma, sem falar com ele. Todas as partes do corpo serviam para o jogo; e, uma vez agarrado, o fantasma tinha que ficar quieto a deixar-se identificar. Se a vítima errasse o nome, continuaria a sua peregrinação de morto-vivo até ao reconhecimento. Então, o fantasma revelado tornar-se-ia a próxima vítima humana. Tratava-se de um jogo muito simples. Ricardo Luz estava atrasado, e os outros hesitavam em jogar sem ele. Diziam que era chato, que não tinha graça, mas na verdade tinham sobretudo medo de provocar a ira do deus, porque Cláudia estava ali. Viam-no já atroando os ares de insultos e acusações temíveis, bramando que o que eles queriam era pôr as mãos no corpo da rainha, entre outras coisas. As raras zangas de Ricardo Luz desencadeavam tremores de terra. Sem ele, punham-se a andar à toa, a irritar-se uns com os outros, a deixar de ter ideias divertidas, a pensar no mundo. Filipe sussurrava agora meiguices pueris ao ouvido de Isabel. Beijava-a muito e com muito aparato, como sempre que os outros estavam por perto. Isabel fechava os olhos e encolhia-se-lhe nos braços para fingir que estavam sozinhos e que ele continuaria a ser assim extremoso se não houvesse ali mais ninguém. Mas sentia-lhe nos ombros um perfume horrivelmente alheio. Durante muito tempo Isabel não percebera que odor era aquele. Até que um dia a criada entrou no quarto e ajoelhou-se ao seu lado a arrumar as camisas na gaveta. Desde então, Isabel recusava-se a ir a casa de Filipe quando a criada estava lá. Não suportava a memória do sorriso maternal que a mulher lhe lançara, acariciando devagar as camisas do namorado dela. Estava tudo dito, e Isabel calara-se uma vez mais.
Jurara a si própria que o corpo de Filipe nunca retiraria do seu um perfume parecido. Desinteressou-se do sexo antes mesmo de o conhecer, por causa de um cheiro a água-de-colónia barata misturada de suores. A intimidade não podia compadecer-se da desordem dos sentidos. Para Isabel, o amor pertencia ao reino da absoluta inacção. Filipe podia fazer tudo o que quisesse, desde que continuasse a preferi-la num só olhar. O resto, os beijos, as prendas, os chocolates que ele lhe dava, eram legitimações exteriores, apetites momentâneos, que não tinham mais significado do que os gritos, os amuos e o tal perfume de criada. Se alguém ousava defendê-la da ocasional brutalidade do amado, revelava-se feroz: Não te metas. Ninguém tem nada a ver com isto. Depois fazia-se um grande silêncio. Isabel sabia tornar-se invisível como ninguém. Teresa passava horas a olhar para ela, meditando no desperdício de tamanha beleza». In Inês Pedrosa, A Instrução dos Amantes, Publicações dom Quixote, 1997, ISBN 978-972-200-972-0.

Cortesia de PdomQuixote/JDACT

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

A Instrução dos Amantes. Inês Pedrosa. «Cláudia aparecia com uma fita métrica no bolso, para medir a cintura e as ancas das outras, por vingança. Teresa invejava-a…»

jdact

«(…) E depois tinha ficado de boca aberta à espera que ela pusesse lá a fatia do bolo. Duas palavras bastaram para disparar nela esse passatempo terrível. Teresa fazia de qualquer obstáculo um pretexto para o mistério, uma ponte de glória para a solidão. Apaixonara-se já por quase todos os rapazes do grupo, um a um e para a eternidade. Estavam muito encostados uns aos outros, magicando em alternativas confortáveis ao gelo da tarde, quando se ouviu aquele ruído seco, e depois o grito da senhora que vinha do café. Foi no dia seguinte, no funeral de Mariana, que Cláudia se tornou outra. Dinis parou junto dela em frente da campa aberta e ela quase desmaiou. Era um odor de terra húmida e de sal e de chuva e de rosas queimadas em álcool. Pareceu-lhe que era a morte, aquilo que assim a entontecia. Nem sequer lhe viu o rosto. A morte é a única testemunha da paixão. Tem ciúmes dos corpos e queima-os devagar. Quando os corpos se entregam ao império dos seus lumes é a morte que os ilumina. Depois rouba-os, como se perpetrasse um crime perfeito, esquecendo-se de que os corpos deixam traços. Escusado será dizer que nenhum destes pensamentos turvou, por um momento que fosse, a cabeça de Cláudia. Mais tarde houve quem comentasse que lhe faltava naquela época idade e experiência. A própria Cláudia gosta de repetir que nessa altura era demasiado jovem e irreflectida, como se a vida nos concedesse um prémio de serenidade em troca dos nossos perdidos quinze anos. O que faltou a Cláudia naquele instante parado no tempo foi o que sempre lhe faltaria: esse elementar instinto de defesa que disfarçamos sob o nome de razão. Há seres assim, irremediavelmente unos, incapazes de isolar partes dentro do seu próprio corpo e de as estruturar como castelos autónomos e armados.
O comum dos mortais reage à queda de uma das suas praças-fortes redobrando o armamento da outra. Os monumentos espalhados pelas cidades evocam os que levaram esta técnica aos limites da perfeição humana. Em menor ou maior grau, quase todos recebemos no sangue uma capacidade de separação interna que nos habilita para as obras da sobrevivência. Cláudia não sabia dessa distinção nem de distinção nenhuma. Deixava correr os dias e precisava do espelho para se entender como peça solta. As inquietações da literatura faziam-na rir porque lhe pareciam artificiais. A beleza e a ausência de imaginação punham-lhe laivos de mulher fatal. Desde que Ricardo Luz a elegera rainha ela convencera-se simplesmente disso mesmo: sou uma mulher fatal. O seu corpo era a tradução perfeita das linhas ideais. Nos dias em que o pai lhe batia, Cláudia aparecia com uma fita métrica no bolso, para medir a cintura e as ancas das outras, por vingança. Teresa invejava-a, Isabel admirava-a, e a fusão destes dois sentimentos criara-lhe uma aura que a tornava segura do mundo. Todos os rapazes sonhavam, obviamente, com ela. Cláudia via nesse excesso de sonho a prova física da sua inteira realidade. O cérebro de Cláudia pensava tanto como os seus braços, o seu estômago ou o seu coração. Formava uma unidade resplandecente. Nada a podia proteger da fissura sem centro que a mudou de uma só vez, como um abalo sísmico. Nem lhe viu o rosto. Aliás, Dinis não tinha propriamente o tipo de semblante que se recordasse. Vira-o já centenas de vezes, de passagem, e não saberia dizer de que cor eram os olhos do irmão de Isabel Marta. Havia fotografias de James Dean nas paredes do quarto dele, mas Isabel dizia que o Dinis nascera velho, porque passava a vida a ir à Gulbenkian ver filmes a preto e branco, muito antigos. Ou então fechava-se no quarto a ouvir música clássica. O grupo via-o passar, muito sério, com uma pasta de cabedal na mão, e só não o hostilizava abertamente por respeito para com Isabel.
Nessa mesma noite, depois do funeral, Cláudia adormeceu a tentar lembrar-se de um qualquer pormenor visual que a sossegasse, e não conseguiu mais do que a memória daquele cheiro pesado e quente. Decidiu que a culpa era do corpo da morta, da chuva sobre a terra, do cansaço dela, e entrou pelo sono a sonhar com perfumes num rapaz que tinha a cara do namorado dela e que a beijava doidamente sobre a relva molhada. Mas, reparando melhor, ao fundo do sonho havia o cemitério, e um ser, lá muito ao longe, agarrado a uma enorme pedra tumular em forma de ursinho de peluche. Não se percebia se aquela figura parda metida numa capa de plástico era homem ou mulher. O ser permanecia imóvel e curvo como um fantoche esquecido sobre o tempo, e olhava». In Inês Pedrosa, A Instrução dos Amantes, Publicações dom Quixote, 1997, ISBN 978-972-200-972-0.

Cortesia de PdomQuixote/JDACT

A Instrução dos Amantes. Inês Pedrosa. «Mas daquela vez, há exactamente cinco meses e seis dias, o João fizera-lhe uma festa no queixo e dissera: tão querida…»

jdact

«(…) O teu pai só pensa nele, Filipe Manuel, vê se te convences disso. Ele nem os teus estudos paga, filho. Sou eu que me mato para tu andares a chumbar anos a fio, e tu só pensas no homem, que Deus Nosso Senhor me valha! O homem, o homem. Até parece que não foi ele que me fez. O que é que tu estás a insinuar, Filipe Manuel? Nada, mãe. Só me espanta que tu, que até és bruxa, não consigas ganhar a lotaria. Neste ponto da conversa a mãe de Filipe Manuel atirava-se para o sofá a gemer, ameaçando desmaios transcendentes, e o filho abraçava-a, com pedidos de perdão e juras de eterno amor. Desde que o marido saíra de casa, a mãe de Filipe dedicara-se à causa espírita e aos espoliados do Ultramar. Afirmava-se eternamente devedora do espírito do bisavô Anselmo, que lhe aparecera em sonhos, seis meses antes do reviralho, exortando-a a sair de Lourenço Marques, porque os turras iam ganhar. O bisavô Anselmo só não lhe contara, talvez por falta de intimidade com a bisneta, que o marido havia de mandar vir, com o resto das bagagens, uma mulata vinte anos mais nova do que ela, e grávida dele. Filipe nunca quis conhecer a meia-irmã e ficava com os cabelos em pé só de ouvir falar em esquerdas ou liberdades. Almoçava com o pai no primeiro e no último sábado de cada mês, se tudo corresse bem. A maior parte das vezes, não corria: os negócios estavam difíceis, o trabalho no Partido era muito, o país mudava devagar.
Compreendes, não é, meu filho? Filipe fazia voz grossa e dizia que sim. Pensava que com o tempo se habituaria à indisponibilidade do pai, mas não conseguia, e o ódio às liberdades crescia-lhe na proporção directa da saudade. Um senhor. Filipe insistia: à uma em ponto, pai. Não te atrases, por favor. Mas ele atrasava-se sempre. Uma e meia, desastre completo: os outros já estavam todos a almoçar, não o viam chegar no Mercedes prateado. Se ele ao menos lhe desse a mota. Filipe estava farto de andar com o capacete debaixo do braço. Dizia que era para as boleias, mas ninguém acreditava. Até no comboio para o liceu, usava o capacete em vez de livros: gastam-me o músculo, que foi feito para outras matérias. Mas precisava de grandes audiências e muita companhia para dar aplicação aos famosos bíceps. Quando o provocavam a solo, fazia que não ouvia, e estugava o seu passo largo de forcado imaginário. Contava mil e cem vezes a pega que fizera a um touro bravio, numa festa ribatejana. Esquecia-se invariavelmente de contar que o touro em questão era uma vaca escura, e sentada. Ricardo Luz era pouco dado a narrativas, e menos ainda a relatórios de feitos. Escondia o tronco rijo em camisas largas. Tinha uma vulgaríssima Honda 50. A Kawasaki 750 era do João Brito, que dormia numa cama de dossel. Os outros escarneciam-lhe a casa barroca e o dinheiro da família.
Não tens vergonha de ser novo-rico, ó Jonas? Novo-rico, com um pai que podia ser avô dele? E, calhando, é mesmo! João batia duas vezes as longas pestanas, lançava-se em voo picado sobre os difamadores e restaurava em meia dúzia de safanões a fachada da honra. Depois sacudia a poeira do blusão e compunha os caracóis acetinados numa olhadela discreta ao espelho retrovisor. Os setenta e cinco anos do pai não o incomodavam; a mãe ainda não atingira os quarenta e ofuscava qualquer garota de vinte. Adoravam-se: João e a mãe faziam um belo par. O velhote, era como se não existisse; falava sozinho, não se sabia de quê. Só se calava enquanto preenchia cheques, e a família fazia por multiplicar estes agradáveis momentos de silêncio. Então, o que é que se faz hoje? Era Radar, o anão, a pôr a voz nos bicos dos pés. Nutria uma paixão funda por Cláudia, a partir daquele primeiro instante, já lá iam dois anos. No entanto, estaria disposto a alimentar paixões igualmente fundas por qualquer outra rapariga, desde que fosse um bocadinho correspondido. E desde que a garota tivesse pelo menos treze anos. Infelizmente, a única apaixonada que recenseara festejara há pouco o décimo aniversário, usava aparelho nos dentes e era sua prima direita. Então, pessoal? O que é que se faz?, repetia o mal amado.
Ainda por cima, as pastilhas elásticas tinham-se acabado, e ninguém se sentia com paciência para ir lá abaixo ao Kuanza comprar mais. João tirou o último pedaço da boca e ofereceu-o, num gesto magnânimo. Teresa corou e aceitou. Gostava dele há cinco meses inteirinhos, com uma constância desesperada. Lembrava-se do momento exacto em que ele lhe tinha feito aquela festa no queixo. O sol transbordava os contornos do céu. João estava sentado na mota e as luvas ampliavam-lhe a forma das mãos. A luz reflectia-se nos metais da máquina, fulgia-lhe nos olhos verdes, mergulhava-o numa ilusão de celulóide. Ela roubara de casa metade de um pão-de-ló para distribuir pelo grupo. Como de costume, toda a gente devorou o bolo a troçar dela: Olha a Santa Teresa, protectora dos famintos, e coisas assim. Teresa ficava triste. Parecia-lhe que o cabelo e os olhos acompanhavam, num progressivo embaciamento, a invasão daquela tristeza. Pedia a Deus milagres cada vez mais pequenos e profanos: cinco centímetros a mais de altura, dez centímetros a menos de largura, um ondeado, por ligeiro que fosse, no cabelo. Dava prendas para se tornar famosa no coração dos outros, mas os outros eram rapidíssimos a desmontar-lhe o engenho, numa gargalhada. Queria alcançar a sublime vulgaridade de Cláudia, que ganhava sempre. Mas daquela vez, há exactamente cinco meses e seis dias, o João fizera-lhe uma festa no queixo e dissera: tão querida». In Inês Pedrosa, A Instrução dos Amantes, Publicações dom Quixote, 1997, ISBN 978-972-200-972-0.

Cortesia de PdomQuixote/JDACT

Cemitério de Pianos. José Luís Peixoto. « Mais tarde, haveria de dizer tantas coisas. Naquele momento, não soube dizer nada. Toquei a face do menino com as pontas dos dedos. Toquei a testa da minha mulher com os lábios»

jdact

«(…) Sentia a minha mulher acordada. Poderia ter-me lembrado que faltavam poucos dias para a data que o médico tinha dito, mas lembrava-me apenas das noites em que o calor não a tinha deixado adormecer. Era o início de Setembro. Ela dava voltas impacientes na cama. De cada vez que se virava, o mundo ficava suspenso nos seus gestos porque era tudo muito lento, porque era difícil e, às vezes, parecia que era impossível. O seu corpo era grande de mais. Os seus braços tentavam agarrar-se aos lençóis. Não encontrava posição. As juntas da cama rangiam. Eu estava acordado, adormecido, acordado, adormecido. Quando adormecia, continuava meio acordado. Quando acordava, continuava meio adormecido. Nos pensamentos vagos que tinha, acreditava que era o calor que não a deixava adormecer totalmente. Estremunhado, abri os olhos quando senti as pernas quentes e molhadas, quando ela me abanou os ombros, gritando e sussurrando: acorda! Rebentaram-me as águas. Custou-me a acertar com os pés nas calças. Tentava acertar com um pé e dava pulinhos com o outro. Ela fechou-se na casa de banho. Quando bati à porta, pediu-me para ir avisar a Marta. Entrei no quarto das nossas filhas às escuras. A Marta acordou assustada. Esperei pelo silêncio até se ouvirem apenas as marés da respiração da Maria a dormir. Nesse momento, disse-lhe: a tua mãe está quase a ter a criança. Vamos agora para a maternidade. Toma conta dos teus irmãos quando acordarem. Na penumbra, os olhos da Marta escutavam-me muito sérios. Saí do quarto das nossas filhas. A Marta ficou sentada na cama. Os seus olhos eram preocupados e brilhavam. Abri a porta do quarto do Simão. Era ainda tão pequeno, e dormia. Fechei a porta devagar.
Procurei a minha mulher. Atravessei o corredor. A camioneta tinha menos de um ano e, nos últimos meses da gravidez da minha mulher, estacionava-a à porta de casa. Amparei a entrada da minha mulher na camioneta. Corri para a porta do condutor. Arranquei em segunda. Limpei as remelas com o indicador nas primeiras vezes em que parámos atrás de automóveis parados. Prestava pouca atenção ao início daquela manhã. Às vezes, a minha mulher começava a queixar-se mais alto. Então, acelerava, dava solavancos nos carris dos eléctricos, ultrapassava automóveis que apitavam, passava por semáforos vermelhos. Depois, tinha automóveis à frente e não conseguia passar. Virava-me para a minha mulher e perguntava-lhe se estava bem. Olhava para o relógio, o tempo era muito rápido. Perguntava-lhe outra vez se estava bem. Acelerava um rugido do motor sem sair do lugar, olhava para o relógio, o tempo era muito rápido. Perguntava-lhe outra vez se estava bem e, quando conseguia andar, voltava a acelerar: solavancos nos carris dos eléctricos, ultrapassar carros, passar semáforos vermelhos. Ela, no seu sofrimento, dizia-me: vai com calma.
Eu enervava-me: como é que eu posso ir com calma? Ela dizia-me: calma. E chegámos à maternidade, corri para ela, e entrámos de braço dado, eu a puxá-la, ela pesada com dores, e eu a puxá-la. Dirigi-me a uma enfermeira e, antes de conseguir dizer alguma coisa, a enfermeira disse-me: calma. E levou-a. A minha mulher virou-se para trás para me ver sozinho, com os braços e com os olhos abandonados. E esperei. Olhava para o relógio. A manhã. A manhã com o tamanho de um Verão. Toda a manhã. Olhava para o relógio. O tempo era muito lento. A enfermeira passava por mim, eu ia atrás dela e, antes de conseguir dizer alguma coisa, era ela que me dizia: tenha calma. Vá comer qualquer coisa. E eu desistia. Foi depois da hora de almoço que a enfermeira voltou a entrar na sala de espera e me disse: então, não quer ir ver o seu filho? Os meus pés deslizaram pelo chão de mosaicos, o meu corpo atravessou os corredores de paredes cinzentas e de lâmpadas quase fundidas, intermitentes, a falharem. Os meus olhos não viam nada. E entrei no quarto. De uma vez: a minha mulher deitada na cama a segurar o nosso Francisco nos braços. A sorrir com a vida. Caminhei mudo e lento até à cama. Não soube dizer nada. Mais tarde, haveria de dizer que, logo ali, tinha percebido tudo aquilo de que ele seria capaz.
Mais tarde, haveria de dizer tantas coisas. Naquele momento, não soube dizer nada. Toquei a face do menino com as pontas dos dedos. Toquei a testa da minha mulher com os lábios. O tempo não existia. Sem um instante para gastar com perguntas sem resposta, a minha mulher volta a entrar na casa de banho com a íris ao colo e, quando abre a porta do armário dos medicamentos, não quer pensar em quem poderia estar a telefonar-lhe. A íris já é pesada. A minha mulher senta-se na ponta do bidé e pousa-a no chão. À sua frente, a íris fica de pé, com a mão aberta e estendida para ela. São uma avó e uma neta. Sobre os joelhos, a minha mulher equilibra algodão, tintura de iodo, fita adesiva e um rolo de ligadura. Tem a voz delicada porque quer que a íris não chore mais. Tenta sorrir e tenta distraí-la: agora, vinhas ao hospital para te curares. Então diga lá, senhora, teve um acidente? Com os lábios apertados e os olhos muito grandes, a íris murmura gemidos magoados, quase fingidos, e estende-lhe mais a mão. Oh, vamos já curá-la. E despeja tintura de iodo sobre uma bola de algodão que aproxima da ferida». In José Luís Peixoto, Cemitério de Pianos, 2006, Bertrand Editora, Quetzal Editores, 2009, ISBN 978-972-564-823-0.

Cortesia de QuetzalE/JDACT

Cemitério de Pianos. José Luís Peixoto. «No início da tarde de sábado, olhámo-nos com uma satisfação tímida quando soubemos que o piano estava pronto. A meio da manhã, o meu tio saiu para ir buscar o afinador»

jdact

«(…) Nas sombras imaginava segredos de um tempo, antes de eu nascer, que me seria proibido para sempre: a eternidade: e que, no mesmo instante, se tornava tão concreto e simples como os objectos que tocava todos os dias, como o caminho entre a casa e a oficina, como as memórias que tinha e que me guiavam. Sozinho, sentindo-me vigiado por todos os pianos sem arranjo, avançava. Contornei um piano vertical e, no fundo desse novo corredor, vi o meu tio com os braços dentro de um piano de cauda e apressei-me na sua direcção. Deu um passo atrás, pousou-me uma mão no ombro, apresentou-me o mecanismo do piano com a outra mão e disse que aquele seria um dos pianos a que voltaria para buscar peças. Olhei-o incrédulo, mas encontrei tal confiança que, nesse momento, deixei de ter dúvidas de que seríamos capazes de consertar o piano. Nessa tarde, e no dia seguinte, e no outro, e na manhã de sábado, aprendi a parte mais importante daquilo que, durante toda a minha vida, haveria de aprender sobre pianos. Solene, o meu tio olhava-me directamente com o seu olho esquerdo quando me queria explicar os pontos que eu não deveria esquecer nunca. Eu abanava a cabeça e prestava atenção a cada uma das suas palavras. Ficavam gravadas em mim, como se, no meu interior, existisse um lugar feito de pedra à espera de receber a forma do significado dessas palavras. Da mesma maneira, prestava atenção a todas as histórias que o meu tio contava. Quando se perdia em pormenores e começava a esquecer-se de contar o fim de alguma, eu perguntava-lhe o que tinha acontecido depois do ponto em que se afastara. Ele não estranhava o meu interesse súbito pelas suas histórias e continuava. Nas histórias que o meu tio contou durante esses dias, percebi um pouco mais da minha própria história. O meu pai, como o seu pai antes dele, tinha passado anos a fazer portas e janelas porque não conseguia sobreviver apenas de consertar pianos. Na maior parte do tempo, o meu pai fazia portas e janelas, fazia bancos para as pessoas se sentarem, fazia mesas a desejar que as pessoas tivessem pratos de sopa para pousar nelas; mas, em todas as ilusões, escutava pianos, como se escutasse amores impossíveis. Quando acabava de consertar um piano, sozinho, sem saber uma nota, o meu pai fechava a oficina toda para, no centro da carpintaria, tocar músicas que conhecia e músicas que inventava. Gostava talvez de ter sido pianista mas, nem mesmo quando ainda não tinha desistido de todos os seus sonhos, se tinha permitido sonhos desse tamanho. O meu tio fixou o seu olho esquerdo em mim para garantir que eu nunca iria esquecer e disse: o teu pai, quando falava ou pensava em pianos, tinha redemoinhos de música dentro dele. Durante esses dias, o meu tio mandou-me muitas vezes ao sótão.
Antes, apontava-me a peça de que precisava: um abafador, uma mola da alavanca, um botão de regulação: e, logo a seguir, voltava a esconder o rosto no interior do piano. Nas primeiras vezes, a voz da minha mãe, repetida pela memória, voltava a dizer-me as palavras de quando eu era criança e lhe falava daquela porta fechada na minha oficina. Depois, aos poucos, fui-me convencendo com as palavras do meu tio: o teu pai iria ficar tão feliz se aqui estivesse. E comecei a acreditar que, qualquer que fosse a ideia da minha mãe: proteger-me, proteger a lembrança do meu pai: eu estaria a respeitá-la porque estava a dar uma vida nova aos sonhos do meu pai, da mesma maneira que estava a dar uma vida nova às peças mortas daqueles pianos. Às vezes, demorava-me um pouco mais do que seria necessário porque ficava a entender a tranquilidade, ou a olhar para os pianos que me rodeavam e a imaginar as histórias que cada um deles guardava: palcos de tábuas, bailes, mestres a ensinar, meninas com punhos de renda a aprender. Quando regressava à carpintaria, o meu tio nunca dava pelo atraso e sorria-me quando lhe estendia a peça certa que tinha pedido.
No início da tarde de sábado, olhámo-nos com uma satisfação tímida quando soubemos que o piano estava pronto. A meio da manhã, o meu tio saiu para ir buscar o afinador. Chegou, trazendo-o pelo braço. O afinador era cego. Apontava a cabeça para cima ou para lugares onde não acontecia nada. A cabeça girava-lhe autónoma sobre o pescoço. Era mais velho do que o meu tio. Tinha as mãos lisas. Falava pouco. Passámos horas a acertar notas em cada tecla. O afinador apertava as cordas com uma chave de prata que segurava, firme e cuidadosamente, entre os dedos. E os sons puros: nítidos no silêncio: desenhados no ar, a demorarem-se breves, a ecoarem na memória e a deixarem outro silêncio: outro silêncio: outro silêncio diferente. Quando por fim se ouviu uma palavra, foi o meu tio que me pediu para ir avisar o italiano. Sorri-lhe, abanei a cabeça afirmativamente e não fui capaz de dizer nada porque, dentro de mim tinha um redemoinho infinito de música infinita». In José Luís Peixoto, Cemitério de Pianos, 2006, Bertrand Editora, Quetzal Editores, 2009, ISBN 978-972-564-823-0.

Cortesia de QuetzalE/JDACT

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Cemitério de Pianos. José Luís Peixoto. «Sentou-se, levantou a tampa que cobria o teclado e percorreu-o com o olhar. Quase comovido, disse: o teu pai iria ficar tão feliz se aqui estivesse»

jdact

«(…) O telefone continua a tocar. Os passos da minha mulher são rápidos na alcatifa porque ninguém costuma telefonar durante o dia. Dentro de si, teme que seja uma má notícia, teme que seja uma notícia que a deite por terra, que a destrua, que a condene outra vez: a morte. Aperta a menina de encontro ao peito e avança ansiosa pela alcatifa: o mais depressa que é capaz. E o telefone pára de tocar. Os passos da minha mulher perdem o sentido, abrandam e param. Na cozinha, a música de piano continua a nascer da telefonia e é empurrada pelo vento que entra através da janela aberta. Não queria dizer nada ao meu tio, porque queria ver o resultado do seu entusiasmo. Ele rodeava o piano com palavras e passos que, subitamente, mudavam de direcção. À distância, com os braços cruzados sobre o peito, eu olhava-o e não acreditava em nada do que dizia. Na serradura que cobria o chão, havia o desenho de uma forma irregular que era o carreiro por onde o meu tio seguia. Num impulso, quebrou essa corrente de passos desenhados e foi buscar um banquinho: coberto de restos de tinta e de pregos tortos: que colocou à frente do piano. Sentou-se, levantou a tampa que cobria o teclado e percorreu-o com o olhar. Quase comovido, disse: o teu pai iria ficar tão feliz se aqui estivesse.
Foi nesse momento que tudo encontrou um sentido dentro de mim. O meu pai. Como um dedo sobre uma tecla a despertar um mecanismo adormecido, compreendi. À entrada da oficina, à direita, havia uma porta fechada, tapada pelo tempo e por cadeiras a que faltava uma perna, por tampos de mesas e outros restos que se foram acumulando num monte desordenado. Nesse início de tarde, eu e o meu tio afastámos tudo e, como não sabíamos da chave, fui eu que arrombei a porta com dois pontapés na fechadura. A minha mãe evitava falar dessa divisão fechada da oficina. Se o fazia, dizia sempre que não havia lá nada que me interessasse. Quando essa explicação deixou de ser suficiente, falou-me de sustos. Disse: há sustos lá dentro.
Com dez anos, essa explicação chegava-me. Depois, passaram verões e invernos. Deixei de fazer perguntas. Havia uma porta fechada à entrada da oficina, lentamente tapada por tábuas, por trastes, e eu não pensava nisso. Pensava noutras coisas. Nesse início de tarde, ficámos parados durante um momento perante essa porta subitamente aberta. Lá dentro, a escuridão absoluta cobria todas as formas. Era como se tivéssemos aberto uma porta sobre a noite. Diante de nós, na escuridão podiam estar campos cobertos pela noite, ou um rio coberto pela noite, ou uma cidade inteira: adormecida ou morta: coberta pela noite. O meu tio entrou primeiro. Deixei de vê-lo entre sombras de sombras: um vulto entre vultos. Ele sabia os caminhos, e foram precisos poucos passos, poucos sons misteriosos dentro da escuridão, até que, com a manga da camisola, começasse a limpar o vidro da pequena janela coberta de pó. Através dos seus movimentos, entraram raios de luz. Devagar, a claridade encheu todo o vidro.
A luz deslizou pelas superfícies de pó. Pouco se via da sujidade das paredes e o peso do tecto baixo era mais real porque havia pianos de todos os géneros que se erguiam, sólidos e empilhados, quase a tocarem o tecto. Encostados às paredes, havia pianos verticais uns sobre os outros: na ordem com que o meu pai, ou o seu pai antes dele, os tinha equilibrado. Ao centro, havia muros de pianos sobrepostos. A luz atravessava os espaços vazios entre eles e, mesmo da porta, podia distinguir-se o labirinto de corredores que camuflavam. E sobre um piano de cauda estava outro piano de cauda, mais pequeno e sem pés; sobre esse estava um piano vertical, deitado; sobre esse estava um monte de teclas. Ao lado, separados por uma fresta que a luz atravessava, dois pianos verticais, com a mesma altura, encostados um ao outro, suportavam um piano vertical mais robusto que, no seu topo, segurava um pequeno piano de armário. Havia pianos encaixados de todas as formas possíveis. Nas folgas onde não se encaixavam completamente, a claridade atravessava teias de aranha abandonadas que seguravam gotas de água, como pontos de brilho. O ar fresco entrava nos pulmões e trazia o toque húmido do pó pastoso que era a única cor: o cheiro de um tempo que todos quiseram esquecer, mas que existia ainda. O silêncio desprendia-se dessa cor clara e antiga. A luz atravessava o silêncio. No chão, havia tampos esfolados de pianos, ao alto, encostados a outros pianos. Em certos cantos, havia varões de metal, teclas, pedais e pernas de piano presas umas às outras com arames. Através do espaço entre dois pianos, a partir da pequena janela finalmente luminosa, o meu tio olhava-me com um sorriso. Quando fixei directamente o seu rosto, sorriu mais, saltou para o chão com um estrondo das botas e desapareceu entre os pianos. Entrei, escolhendo o lugar onde pousava cada pé, como se temesse alguma coisa que desconhecia». In José Luís Peixoto, Cemitério de Pianos, 2006, Bertrand Editora, Quetzal Editores, 2009, ISBN 978-972-564-823-0.

Cortesia de QuetzalE/JDACT

Os Íntimos. Inês Pedrosa. «Um golo extra tem um gosto de presente. Não gostam de ver bons golos, é? Não estão habituados, os vermelhinhos…»

jdact

«(…) Finge que não ouve o nosso praguejar, escolhe por nós as entradas e o vinho. Tinha onze anos quando começámos a vir para a tasca, mas trata-nos como filhos malcomportados. Aos onze anos já nos tratava assim. Pouco falamos de mulheres, pelo menos das nossas. Comentamos as que aparecem na televisão, as actrizes, as ministras, as jornalistas. Comentamo-las basicamente para dizer que o que lhes falta é uma …da fenomenal. Somos todos fenomenais, à volta desta mesa, picando queijos, enchidos, pataniscas, chamuças e torresmos. Vai uma saladinha? Achas-nos com cara de grilos, Celinha? Queres matar-nos? Fazia-vos bem. Célia, querida, morrer quase nunca faz bem. Célia ri-se. Não se intimida com a nossa aparatosa boçalidade. Não nos dá muita importância. É uma de nós. O jogo arrasta-se, enfadonho. Só as injustiças lhe dão alguma animação: um penálti não marcado, a favor do Benfica. O Guilherme agarra-se ao seu amuleto: um urso de peluche com cachecol do Benfica, no qual tem fé porque lhe foi oferecido por um sportinguista. Há uma nítida falta de entrosamento da equipa, que joga à distância, espalhada. O tempo da bola está sistematicamente atrasado, com lançamentos longos de mais, ou passes curtos e atrasados. Não há contra-ataque, nem movimentação. O Porto também parece desarrumado, mas tem uma velocidade muito maior. Vocês têm de aprender a correr, rapazes. O futebol é para quem tem pernas para isso. Cala-te, o árbitro está comprado, aquele penálti até um cego via. Desculpas, pá. Desculpas. Só justifica quem perde. Aliás, depois de terem ganho a taça ao Sporting através da vergonhosa anulação de um golo, vocês deviam abster-se de falar da seriedade dos árbitros durante um ano inteiro. Pelo menos. Gooooooolo!
Só eu me levanto em êxtase. Gosto destes êxtases solitários que me oferecem alegria, vitória e vingança num só gesto. No estádio, este prazer torna-se perigoso, isto é, ainda mais vibrante. Gritar, Chega-lhes, Porto! Num estádio cheio de benfiquistas é um acto de bravura sujeito a consequências imprevisíveis. Em certa ocasião, levei uma tareia à saída. Agora começo a ser demasiado famoso para levar tareias. As pessoas não estão dispostas a respeitar muitas coisas além da fama. O que, em Portugal, representa uma fartura de respeitinho. Qualquer pessoa que apareça na televisão de vez em quando é famosa, e qualquer pessoa pode aparecer na televisão de vez em quando. Chama-se-lhe politólogo e pronto. O restaurante está cheio de benfiquistas ferrenhos que desatam a resmungar contra o tempo de jogo, dizendo que o árbitro prolongou o desafio para lá do devido, de modo a que o Porto pudesse completar a jogada do golo. Como se o Porto não estivesse já a ganhar. Um golo extra tem um gosto de presente. Não gostam de ver bons golos, é? Não estão habituados, os vermelhinhos… Pronto. Ganhou o Porto, a próxima rodada é minha. Augusto tem bom perder. É um homem fácil. Gaba-se de ser um homem fácil. Vê qualidades em todas as mulheres. É administrador de uma empresa discográfica, sabe defender os méritos da música mais manhosa. Perdeu uma riqueza infinita com a independência de Angola, pelo menos é o que ele diz. Não se cala com os encantos da ilha do Mussulo da sua adolescência, mas não é, de modo algum, um ressentido. Chegou a ser militante do Partido Comunista. Durante a juventude, encontrou na luta uma espécie de acelerador da sua identidade, ou superador das frustrações, o que vem a ser o mesmo. Com a idade tornou-se socialista, ou julga que se tornou. Mantém todavia o farfalhudo bigode da era estalinista, conjugado agora com uma volumosa cabeleira cor de prata fosca. Deve gastar uma pipa de latas de laca para manter o penteado. Não há vento nem humidade que lhe abata um só fio da moldura. Quando Pedro começa a criticar o governo, Augusto enfuna-se: o que é que vale a opinião sobre Portugal daqueles que nunca de cá saíram? Tu és descendente do velho do Restelo, meu filho. Um menino da mamã com uma visão de quintal. Pedro vitupera o arrivismo dos retornados e acusa Augusto de ser um novo-rico do neoliberalismo. Augusto põe-se de pé e puxa pela sua medalha costumeira: os-sete-dias-sete-em-que-foi-sujeito-à-tortura-do-sono-e-resistiu». In Inês Pedrosa, Os Íntimos, Publicações dom Quixote, 2010, ISBN 978-972-204-047-1.
                                                                                                                     
Cortesia de PdomQuixote/JDACT

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Os Íntimos. Inês Pedrosa. «Augusto chama-me sacana presunçoso, rouba-me um charuto, lembra-me que ainda faltam vinte e cinco minutos, tempo para a desforra»

jdact

«(…) Hoje já posso evocar estes factos sem naufragar neles. Como se tivessem acontecido a outra pessoa, noutra vida. Tudo se tornou muito mais simples, desde então. O hábito dos jantares mensais na tasca vem dessa época. Mês a mês, no dia da morte de Leonor. Ainda hoje os jantares são sempre no dia da morte de Leonor. Nenhum de nós menciona a data, ou o nome dela. Nem sei de quem foi a ideia – lembro-me que da primeira vez o Augusto me telefonou dizendo que estava combinado um jantar com a malta para daí a três dias no sítio tal, onde se comia uma dobrada quase melhor do que as do Porto, e informou-me que passaria pela minha casa às oito para me ir buscar. Calas o bico e vens. Nem penses em pôr-te com mer… A última coisa em que eu poderia pensar, naquela época, era em pôr-me com mer… Calei o bico e fui. Por sorte, é um dos poucos restaurantes de Lisboa onde continuamos a poder fumar. Numa esquina discreta, perto do Largo do Carmo. Paro no largo deserto, iluminado. Estou dentro de um cenário de cinema. Como se as casas fossem de cartão prensado, e a vida se suspendesse para poder ser inventada, debaixo das luzes que vacilam na noite por causa da chuva, uma chuva miudinha, falsa, melodiosa, regulada como banda sonora. A tasca tem mesas corridas, louça desemparelhada, cinzeiros matarruanos de vidro grosso e toalhas de papel. Nada de design, como gostam as mulheres e os gajos que não gostam de mulheres. Deixei de almoçar com o meu velho amigo Jacinto por causa das toalhas de mesa. Mal chegou à direcção do jornal, Jacinto começou a recusar-se a almoçar em restaurantes com toalhas de papel. Dizia que não podia ser visto em pardieiros. Que não lhe ficava bem. E que não havia privacidade. Um director sem privacidade não é ninguém. Eu, pelo contrário, só me sinto bem em tascas. Gosto particularmente dessas toalhas onde se pode tomar notas ou fazer desenhos. Os restaurantes elegantes deprimem-me: são lugares onde uma trivial sopa de cenoura adquire um nome sonante que lhe rouba o sabor. Em geral as doses são curtas e os silêncios demasiado indiscretos. Gosto do espaço acanhado da casa de pasto A Claque. Gosto desta sala atulhada de quinquilharia e de vozes. As vozes das pessoas, oitenta por cento de homens, o que também me é agradável, a voz do relato na televisão. Um plasma gigante, para que nenhum passe ou drible nos escape. O calor humano embacia os vidros. Lá fora chove cada vez com mais força. Nos últimos meses, parece que Deus decidiu lixar o cartaz turístico do país: a canalização celeste estoirou precisamente em cima de Portugal, o país da cortiça. O pessoal flutua, não há problema. Gosto desta sensação de viver num aquário onde toda a gente bóia. Vivos e mortos, tudo a boiar, uma enchente de corpos flutuantes. No estádio também chove, o que neste momento é uma vantagem, os bravos Dragões do Norte não se deixam intimidar com a força da água, ao contrário das águias de sequeiro. Dois a zero, e os minutos a avançar. Mais uma vitória à vista. O único defeito dos dragões é esse: ganham demasiado depressa. A meio do jogo já não há adrenalina. Neste lugar, durante estas horas, não preciso de ser inteligente. Nem sedutor. Nem mandão. Nada do que se espera de mim, lá fora. Tantas expectativas, lá fora. Vou fazer cinquenta e cinco anos, é tempo de me libertar destas mer… Quem é que eu estou a enganar? Sei que nunca me libertarei destas mer…
Augusto chama-me sacana presunçoso, rouba-me um charuto, lembra-me que ainda faltam vinte e cinco minutos, tempo para a desforra. Pobre rapaz, toma outro charuto, para não chorares. O que é que eu não sei destes gajos? O meio campo. Os minutos de empate. Os ziguezagues. Fora isso, conheço-os melhor do que a mim mesmo. Somos um grupo. Uma coisa sem ego. Uma comunidade. Gostamos de estar juntos, de sofrer juntos por causa do futebol, de nos insultarmos uns aos outros por causa do futebol. Então esse cabrito assado, sai ou não sai, princesa? Portem-se bem, meninos. Já vos dou mais uma dosezinha de pataniscas e torresmos. O cabrito está quase no ponto. Não é como tu, querida, que já nasceste no ponto. Ainda agora chegaram e já estão tão engraçadinhos… Ao fim da noite não há-de haver quem vos ature. Enganas-te, Celinha, há resmas de mulheres desejosas de nos aturar. Mas nós só gostamos de ti. E uma sopinha, entretanto, ninguém quer? Vade retro. Eu até acho que me casei só para deixar de ter de comer sopa. Passa-me o queijo, cab… Não é todo para ti. Como a Célia, também não é toda para ti. A Célia é a filha do dono da tasca, uma miúda lindíssima, mãe de duas crianças, que está sempre a fazer pouco de nós». In Inês Pedrosa, Os Íntimos, Publicações dom Quixote, 2010, ISBN 978-972-204-047-1.

Cortesia de PdomQuixote/JDACT

Os Íntimos. Inês Pedrosa. «Um oncologista está protegido pelo fantasma da própria doença; é muito difícil acusá-lo de negligência médica. Mesmo que ela exista»

jdact

«(…) País menstruado, diz antes. Feito do sangue e dos humores das mulheres, que atordoam e excitam os homens. Isto dizia Leonor, que mantém comigo uma conversa ininterrupta. Era lúcida, a Leonor. Sonhadora e lúcida, uma combinação invulgar. Não se prestava à redução ao interdito que é tão fácil neste país. Não tinha vergonha do que sabia, nem medo, por muito tumultuoso que fosse esse saber. Haveria de se rir com a esperteza neoliberal dos revolucionários de ontem, vestida com togas gregas de costureiros da Roma pós-moderna. É também por isso que preciso destes amigos. Como uma espécie de conspiração contra o individualismo imperial, que brada aos valores com o único fito de valorizar os interesses económicos dos seus pregoeiros. Essa pregação esbarra na couraça da nossa inteligência gregária, que se contenta em existir sem o exibicionismo de cabaret das letras em que se transformaram todas as discussões do nosso tempo. Às vezes vem mais alguém, um extra variável seleccionado entre os nossos conhecidos. Podemos olhar nos olhos uns dos outros sem experimentar o cansaço que nos provocam os olhares convencionais: o olhar das mulheres, turvo de expectativas de mudança; o olhar dos colegas de serviço, carregado de jogos de poder; o olhar avaliador dos recém-conhecidos; o olhar ausente do comum dos mortais, obcecado com a velocidade da sua própria corrida. Nós olhamo-nos como se nos víssemos ao espelho. Ritual espontâneo de reconhecimento. Olhamo-nos com a alegria de estarmos vivos e inteiros. A calvície que avança, o vinco que se acentua entre as sobrancelhas, a barriga que cresce e amolece. Envelhecemos juntos, barafustando e rindo à volta de uma mesa. Não esperamos nada de especial de cada um de nós. Não há decepções nascidas de ilusões desproporcionadas. Não há ilusões. Nem sombra dessa maçada incomensurável que se chama análise da relação. Não existe a contabilidade do deve e do haver em que as mulheres são educadas. Dar para receber. Dar racionadamente. Sofrer quando a ração recebida é menor do que a ração dada. Que vida triste, a dessa metade da humanidade educada assim. Sempre à procura da culpa. Detectives em défice permanente. Eu não sofro por amor, parece-me um paradoxo. Deixei-me disso depois da bendita traição de Elisa. O amor é um estímulo para a imaginação, uma droga sem efeitos secundários. Não é por não ser correspondido que deixa de me dar alento. Pelo contrário: a nega aumenta a tusa. A dificuldade atiça o engenho. O amor é um sucedâneo da arte. Ou a própria arte, agora que tudo é sucedâneo. Freud argumentaria que esta forma de pensar é própria de um narcísico que nunca foi capaz de ultrapassar a fase primária. Talvez Freud tivesse sido mais feliz se experimentasse as virtudes do narcisismo, em vez de se fixar nos mistérios da infância, que é apenas a época mais chata da vida. As crianças que o digam.
Um oncologista está protegido pelo fantasma da própria doença; é muito difícil acusá-lo de negligência médica. Mesmo que ela exista. Matei três pessoas por negligência. Uma delas a minha própria mulher. Das três vezes, a minha negligência foi baptizada como excesso de empenhamento. Uma aposta radical: ou extirpava o sacana do tumor e o doente ressuscitava para uma vida nova, ou o doente finava-se. Nesses três casos, os doentes foram-se. Um deles era a Leonor. Sem essa operação, teria vivido mais um ano. Um ano de miséria, ela própria o sabia. Mas a nossa filha teria tido tempo de se adaptar ao desaparecimento da mãe. Teria dez anos, em vez de nove. E talvez ainda hoje estivesse viva, faria agora vinte e cinco anos, a Mariana. Caiu de uma ribanceira, na Escócia, nove meses depois da morte da mãe. Aconselharam-me a inscrever a miúda num curso de Verão, bem longe, com muito ar puro e muito divertimento, para que ela esquecesse e ganhasse apetite. Mariana não queria, mas os avós e os meus colegas achavam que era o melhor para ela. E eu deixei-me ir na conversa. Soube-me bem. Queria um tempo só para mim». In Inês Pedrosa, Os Íntimos, Publicações dom Quixote, 2010, ISBN 978-972-204-047-1.

Cortesia de PdomQuixote/JDACT