quinta-feira, 23 de março de 2017

O Apogeu da Cidade Medieval. Jacques le Goff. «Em Clermont, já no primeiro foral que conhecemos, em 1219, o conde Guy II faz estipular que, em troca do direito para a comunidade urbana»

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A cidade e o exterior. As muralhas
«(…) Em Toulouse, a noção de uma comunidade urbana englobando cité e burgo aparece já em 1141 e ela passa a chamar-se Tolosa, Toulouse. Do mesmo modo que os heróis cavaleirescos de Chrétien Troyes aprendem a sua identidade pela revelação do seu nome, a cidade se revela a si mesma e se afirma perante as outras pela proclamação do seu nome. A cidade adoptou o nome de cité. Tolosa passa a ser, como dizem os documentos, urbs et suburbium, a cidade e o subúrbio, a cidade e o burgo. A partir de 1190, Tolosa é empregado como termo geral. A consciência da entidade global tornara-se bastante forte para não exigir a cada passo a evocação de seus constituintes. Foi encavalada no local do velho muro romano que separava as duas aglomerações que se construiu a casa comum. Em 1222, os cônsules promulgam um texto que organiza um conselho comum, composto por metade dos cônsules de cada comunidade. Quaisquer que tenham sido para a tomada de consciência dos habitantes as consequências da construção e da existência de uma ou várias muralhas, a importância de seu papel militar é evidente. Ainda aqui o funcional e o simbólico, o militar e o político estão estreitamente ligados. Veremos mais adiante a incidência da edificação das muralhas sobre as finanças urbanas. A guarda e a manutenção desses muros e das suas portas constituiu desde logo um aspecto da luta dos novos cidadãos para assumir eles próprios as suas responsabilidades. Mas também, sem que seja possível distinguir o que prevaleceu, a vontade dos citadinos ou o desejo do senhor ou do rei, tem-se a impressão de que o desejo de livrar-se desse encargo de vigilância levou esses senhores ou o rei a conceder mais facilmente ou mais cedo, contra o seu compromisso de vigiar as portas e os muros, outros privilégios aos habitantes das cidades. Por outro lado, às vezes vêem-se também estes, longe de reivindicar essa função de espreita, vigilância e manutenção, tentando isentar-se dela como do serviço militar.
Em Clermont, já no primeiro foral que conhecemos, em 1219, o conde Guy II faz estipular que, em troca do direito para a comunidade urbana de reunir-se e de fazer o que lhe compete, os cidadãos (cives) deverão vigiar os muros e as torres e limpar os fossos. Em Montpellier, a vigilância da muralha parece caminhar de par com a organização dos ofícios. Desde 1204 a guarda das portas é repartida entre trinta desses ofícios. Ainda aqui aparece a ambiguidade da relação cidade/campo. A muralha define um espaço de exclusão, o do mundo rural, mas também é feita para acolher eventualmente, em caso de guerra, habitantes desse mesmo mundo. A função pode inverter-se e, em relação à população rural, a muralha pode definir, no interior, um espaço de refúgio, em conformidade, aliás, com uma das grandes imagens da cidade, a cidade do refúgio, que o Antigo Testamento lega à cidade medieval. Essa função tinha sido essencial nas sauvetés. Por conseguinte, os camponeses, eventuais beneficiários da protecção da muralha urbana, são chamados com bastante frequência, ao que parece, a participar de sua vigilância.
Em Poitiers, os aldeões dos povoados vizinhos colaboravam para a manutenção da muralha e participavam do serviço de espreita. Ressaltou-se que os 6km de muralhas, encerrando uma população relativamente pequena (15.000 habitantes?), requeriam, para ser eficazes, um grande número de vigias, de reparadores e, em certas ocasiões, de defensores. Durante o nosso período as muralhas tiveram relativamente pouca utilidade. A paz prevaleceu quase sempre sobre a guerra e o banditismo organizado em larga escala, como durante a Guerra dos Cem Anos. No entanto as empresas de Filipe Augusto contra os ingleses (conquista da Normandia) e os flamengos (campanha de Bouvines), as expedições militares, sobretudo dos senhores do Norte e, depois, dos reis Luís VIII e São Luís contra as populações meridionais, e enfim as campanhas de Filipe, o Belo, contra os ingleses no Sudoeste e contra os flamengos no Nordeste foram marcadas por um certo número de sítios de cidades». In Jacques le Goff, O Apogeu da Cidade Medieval, 1980, Livraria Martins Fontes Editora, 1989, 1992, ISBN 978-853-360-127-1.

Cortesia de LMartinsFontesE/JDACT

O Segredo do Anel. Kathleen McGowan. «Foi lançada abruptamente no meio de uma multidão. O caos reinava ao seu redor. Havia muitos gritos e empurrões»

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Jerusalém
«(…) Talvez porque a jovialidade tivesse voltado ao tom de Mahmoud e ela se sentisse menos pressionada ou talvez fosse a atracção pelo padrão antigo e inexplicado. Alguma coisa, no entanto, fez com que Maureen enfiasse o disco de cobre no dedo anular direito. Coube perfeitamente. Mahmoud balançou a cabeça, sério de novo, quase sussurrando para si mesmo: como se tivesse sido feito para a senhora. Maureen ergueu o anel para a luz, olhando para a mão. Não consigo desviar os olhos. Isso acontece porque deve ficar com o anel. Maureen fitou-o, desconfiada, sentindo a iminência de uma oferta de venda. Mahmoud tinha mais classe que os vendedores das ruas, mas, de qualquer forma, era um mercador. Pensei que houvesse dito que não está à venda. Ela fez menção de tirar o anel, ao que Mahmoud protestou com veemência, erguendo as mãos. Não. Por favor. Está bem. É neste ponto que começamos a negociar, não é mesmo? Quanto? Mahmoud pareceu ofendido por um momento, antes de responder: não está entendendo. Esse anel me foi confiado até que encontrasse a mão certa. A mão para a qual foi feito. Descubro agora que é a sua mão. Não posso vendê-lo à senhora porque já é seu. Maureen olhou para o anel, depois para Mahmoud, perplexa: eu é que não entendo. Mahmoud ofereceu um sorriso solene. Encaminhou-se para a porta da frente da loja. Não pode entender. Mas um dia vai compreender. Por enquanto, apenas fique com o anel. É um presente. Eu não poderia... Pode e ficará. Deve ficar. Se não o fizer, eu terei fracassado. E não vai querer esse peso na consciência, é claro.
Maureen sacudiu a cabeça, cada vez mais aturdida, enquanto o seguia até à porta. Parou ali. Não sei o que dizer ou como agradecer. Não precisa. Mas tem de ir agora. Os mistérios de Jerusalém estão à sua espera. Mahmoud segurou a porta aberta. Maureen saiu e agradeceu de novo. Adeus, Madona..., sussurrou Mahmoud, enquanto ela se afastava. Maureen parou no mesmo instante. Virou-se: desculpe, mas o que foi mesmo que disse? Mahmoud tornou a exibir um sorriso enigmático. Eu disse adeus, minha cara. Ele acenou em despedida. Maureen retribuiu o gesto e tornou a se afastar, ao sol forte do Médio Oriente. Maureen voltou à Via Dolorosa, onde encontrou a Oitava Estação, exactamente como Mahmoud indicara. Mas estava inquieta e incapaz de se concentrar, sentia-se estranha depois do encontro com Mahmoud. Ao continuar no seu caminho, a sensação de vertigem que já experimentara antes voltou, desta vez mais forte, a ponto de desorientá-la. Era o seu primeiro dia em Jerusalém e com certeza sofria do cansaço da viagem e da alteração dos fusos horários. O voo em que chegara de Los Angeles na noite anterior fora longo e cansativo e ela quase não dormira. Fosse uma combinação de calor, exaustão e fome ou alguma coisa mais inexplicável, o que aconteceu em seguida estava completamente fora do território da experiência de Maureen. Ao encontrar um banco de pedra, ela se sentou para descansar um pouco. Balançou com outra onda de vertigem inesperada, enquanto um clarão ofuscante emanava do sol implacável, transportando os seus pensamentos.
Foi lançada abruptamente no meio de uma multidão. O caos reinava ao seu redor. Havia muitos gritos e empurrões, uma intensa comoção por todos os lados. Maureen conservava o suficiente da mentalidade moderna para perceber que as pessoas enxameando ao seu redor vestiam roupas feitas em tear manual. Muitas estavam descalças, enquanto outras usavam uma versão tosca de sandália, como ela notou quando alguém pisou o seu pé. Quase todos eram homens, barbudos e sujos. O sol omnipresente do início da tarde castigava-os, misturando suor com poeira nos rostos furiosos e aflitos ao seu redor. Ela estava na beira de uma rua estreita. A multidão à frente começava a empurrar, com um vigor crescente. Uma brecha natural surgiu, com um pequeno grupo avançando lentamente pelo caminho. A multidão parecia seguir esse grupo. Quando a massa em movimento chegou mais perto, Maureen viu a mulher pela primeira vez». In Kathleen McGowan, O Segredo do Anel, Editora Rocco, 2006, ISBN 853-252-096-0.

Cortesia de ERocco/JDACT

O Segredo do Anel. Kathleen McGowan. «Uma escolha muito interessante, comentou Mahmoud. A sua atitude jovial mudara. Estava agora intenso e sério, observando Maureen»

Cortesia de wikipedia e jdact

Jerusalém
«(…) Maureen acenou com o guia, embaraçada. Estou procurando a Oitava Estação. O mapa mostra... Mahmoud descartou o livro, com uma risada. A Oitava Estação. Jesus se encontra com as mulheres santas de Jerusalém. Fica aqui perto, logo depois da esquina. Ele apontou. O local é assinalado por uma cruz bem em cima do muro de pedra, mas tem de olhar com muito cuidado. Mahmoud fitou Maureen atentamente por um momento, antes de acrescentar: é como tudo em Jerusalém. Tem de olhar com muita atenção para ver o que é. Maureen observou seus gestos, até ter a certeza de que compreendia a orientação. Sorriu, agradeceu e virou-se para sair. Mas parou de repente, quando alguma coisa numa prateleira próxima atraiu sua atenção. A loja de Mahmoud era um dos estabelecimentos mais sofisticados de Jerusalém. Vendia antiguidades autenticadas, como lampiões do tempo de Cristo ou moedas com a efígie de Pôncio Pilatos. Um delicado tremeluzir de cores passando pela vitrine deixou-a fascinada. São jóias feitas com fragmentos de vidros romanos explicou Mahmoud, enquanto Maureen se aproximava de um mostruário com jóias de prata e ouro com mosaicos coloridos. São deslumbrantes, murmurou Maureen. Ela pegou um pendant de prata. Prismas de cor projectaram-se pela sala, enquanto ela suspendia a jóia para a luz, iluminando a sua imaginação de escritora. Qual seria a história que este pedaço de vidro poderia contar? Quem sabe o que foi outrora? Mahmoud encolheu os ombros. Um vidro de perfume? Um pote de especiarias? Um vaso para rosas ou lírios?
É espantoso pensar que há dois mil anos era um objecto do quotidiano na casa de alguém. Uma perspectiva fascinante. Maureen resolveu examinar mais atentamente a loja e as coisas que oferecia. Ficou impressionada com a qualidade dos itens e a beleza dos mostruários. Isto tem mesmo dois mil anos? Claro. E algumas das outras peças à venda são ainda mais antigas. Maureen balançou a cabeça. Antiguidades como estas não deveriam pertencer a um museu? Mahmoud riu, um som exuberante e efusivo. Minha cara, a cidade de Jerusalém inteira é um museu. Não se pode abrir um buraco no seu jardim sem encontrar alguma coisa muito antiga. A maior parte dos objectos valiosos vai para colecções importantes. Mas nem tudo. Maureen foi até um balcão de vidro, onde havia jóias antigas de cobre marchetado e oxidado. Sua atenção foi atraída por um anel com um disco do tamanho de uma moeda pequena. Mahmoud acompanhou o seu olhar, tirou o anel do mostruário e o estendeu para ela. Um raio de sol, passando pela vitrine, incidiu sobre a peça e, iluminando a sua base redonda, realçou um padrão de nove pontos em torno de um círculo central.
Uma escolha muito interessante, comentou Mahmoud. A sua atitude jovial mudara. Estava agora intenso e sério, observando Maureen atentamente, enquanto ela o interrogava a respeito do anel. Quão antigo é este anel? É difícil dizer. Meus peritos dizem que era bizantino, provavelmente do século VI ou VII, talvez mais antigo. Maureen examinou o padrão dos círculos. Este padrão parece..., familiar. Tenho a impressão de que já o vi antes. Sabe se simboliza alguma coisa? A intensidade de Mahmoud relaxou. Não posso dizer com certeza o que um artesão pretendia criar há mil e quinhentos anos. Mas me garantiram que era o anel de um cosmólogo. Um cosmólogo? Alguém que compreende a relação entre a Terra e o cosmo. Como acima é abaixo. E devo dizer que me lembrou, na primeira vez em que o vi, dos planetas girando em torno do sol. Maureen contou os pontos em voz alta. ...sete, oito, nove. Mas não podiam saber que havia nove planetas naquele tempo ou que o sol era o centro do sistema solar. Isto não é possível, não é mesmo? Não podemos presumir que sabemos o que os antigos percebiam. Mahmoud encolheu os ombros. Experimente o anel. Maureen, notando subitamente a conversa de um vendedor, devolveu o anel. Não, obrigada. É muito bonito, mas eu estava apenas curiosa. E prometi a mim mesma que não gastaria dinheiro hoje. Não tem problema. Mahmoud recusou-se a pegar o anel de volta, numa atitude firme. Porque o anel não está à venda. Não? Não. Muitas pessoas já quiseram comprar esse anel. Eu me recuso a vendê-lo. Sinta-se à vontade para experimentar. Apenas por diversão». In Kathleen McGowan, O Segredo do Anel, Editora Rocco, 2006, ISBN 853-252-096-0.

Cortesia de ERocco/JDACT

quarta-feira, 22 de março de 2017

O Erotismo. Georges Bataille. «Insisto: se às vezes falo a linguagem de um homem de ciência, isto é sempre uma aparência. O cientista fala de fora, tal como um anatomista do cérebro»


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«(…) Podemos admitir somente que eles trabalhavam, uma vez que conhecemos os seus instrumentos. Uma vez que o trabalho, tanto quanto parece, criou logicamente a reacção que determina a atitude diante da morte, é legítimo pensar que o interdito regulando e limitando a sexualidade foi também o seu contragolpe, e que o conjunto dos comportamentos humanos fundamentais, trabalho, consciência da morte, sexualidade contida, remontam ao mesmo período distante. Os vestígios do trabalho aparecem desde o paleolítico inferior e o sepultamento mais antigo que conhecemos data do paleolítico médio. Na verdade, trata-se de tempos que duraram, segundo os cálculos actuais, centenas de milhares de anos: esses intermináveis milénios correspondem à mudança a partir da qual o homem se desvencilhou da animalidade inicial. Ele escapou trabalhando, compreendendo que morria e passando da sexualidade livre à sexualidade envergonhada de onde nasceu o erotismo. O homem propriamente dito, a que chamamos nosso semelhante, que aparece desde os tempos das cavernas pintadas (o paleolítico superior), é determinado pelo conjunto dessas mudanças existentes no plano religioso e que, sem dúvida, ele leva consigo.

O erotismo, a sua experiência interior, e a sua comunicação relacionados com elementos objectivos e com a perspectiva histórica em que estes elementos nos aparecem
Há uma desvantagem nesta maneira de falar do erotismo. Se eu o tomo como a actividade genética própria do homem, defino-o objectivamente. Relego, todavia, para um segundo plano, apesar do meu interesse, o estudo objectivo do erotismo. Minha intenção é, ao contrário, examinar no erotismo um aspecto da vida interior, se quisermos, da vida religiosa do homem. O erotismo, eu o disse, é aos meus olhos o desequilíbrio em que o próprio ser se põe conscientemente em questão. Em certo sentido, o ser se perde objectivamente, mas nesse momento o indivíduo identifica-se com o objecto que se perde. Se for preciso, posso dizer que, no erotismo, EU me perco. Não é, sem dúvida, uma situação privilegiada. Mas a perda voluntária implicada no erotismo é flagrante. Ninguém pode duvidar disso. Falando agora do erotismo, tenho a intenção de me exprimir sem rodeios em nome do seu sujeito, mesmo se, para começar, introduzo considerações objectivas. Mas se eu falo dos movimentos do erotismo objectivamente, devo dizer logo de saída, é que nunca a experiência interior é dada independentemente de visões objectivas. Nós a encontramos sempre associada a determinado aspecto, inegavelmente objectivo.

A determinação do erotismo é primitivamente religiosa e meu livro está mais próximo da teologia que da história erudita da religião
Insisto: se às vezes falo a linguagem de um homem de ciência, isto é sempre uma aparência. O cientista fala de fora, tal como um anatomista do cérebro. (Isto não é inteiramente verdade: a história das religiões não pode suprimir a experiência interior que se tem ou teve da religião... Pouco importa se o cientista fez tudo para esquecê-la.) Quanto a mim, eu falo da religião de dentro, como um teólogo fala da teologia. O teólogo, é verdade, fala de uma teologia cristã. Enquanto a religião de que falo não é, como o cristianismo, uma religião. É a religião sem dúvida, mas ela se define justamente pelo que, desde o princípio, não faz dela uma religião particular. Não estou falando nem de ritos, nem de dogmas, nem de uma comunidade determinados, mas só do problema que toda religião se colocou: assumo este problema, como o teólogo assume a teologia. Mas sem a religião cristã. Mesmo que só houvesse esta religião, apesar de tudo, eu me sentiria mesmo assim afastado do cristianismo. Isto é tão verdadeiro que o livro em que defino esta posição tem o erotismo como objecto. É sabido que o desenvolvimento do erotismo não é em nada exterior ao domínio da religião, mas justamente o cristianismo, opondo-se ao erotismo, condenou a maior parte das religiões. Em certo sentido, a religião cristã é talvez a menos religiosa. Eu queria que entendessem com exactidão a minha atitude. Primeiramente eu quis uma total ausência de pressupostos a fim de que nenhum me parecesse melhor do que outro. Não há nada que me ligue a alguma tradição particular. Assim, eu não posso deixar de ver no ocultismo ou no esoterismo um pressuposto que me interessa na medida em que ele responde à nostalgia religiosa, mas do qual me afasto, apesar de tudo, uma vez que ele implica uma certa crença. Digo que, à excepção dos cristãos, os pressupostos ocultistas são, a meu ver, os mais incómodos, pois ao se afirmarem num mundo em que os princípios da ciência se impõem, deliberadamente os ignoram». In Georges Bataille, O Erotismo, 1957/1968, tradução de João Bernard Costa, L&PM Editores, 1987, Editora Antígona, Lisboa, 1988, ISBN 978-972 608-018-3.

Cortesia de L&PM/E Antígona/JDAC

O Erotismo. Georges Bataille. «O erotismo é um dos aspectos da vida interior do homem. Nisso nos enganamos porque ele procura constantemente fora um objecto de desejo»

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«(…) Em princípio (não é uma regra), a Índia encara com simplicidade a sucessão das diferentes formas de que falei: a experiência mística é reservada à idade madura, quando se está perto da morte: no momento em que faltam as condições favoráveis à experiência real. A experiência mística ligada a alguns aspectos das religiões positivas opõe-se às vezes a essa aprovação da vida até na morte, onde eu vislumbro geralmente o sentido profundo do erotismo. Mas a oposição não é necessária. A aprovação da vida até na morte é desafio, tanto no erotismo dos corações quanto no dos corpos, desafio, por indiferença, à morte. A vida é acesso ao ser: se a vida é mortal, a continuidade do ser não o é. A aproximação e a embriaguez da continuidade dominam a consideração da morte. Em primeiro lugar, a desordem erótica imediata nos dá um sentimento que ultrapassa tudo, de forma que as sombrias perspectivas ligadas à situação do ser descontínuo caem no esquecimento. E, para além da embriaguez que se abre à vida juvenil, é-nos dado o poder de abordar a morte de frente, e de aí ver, enfim, a abertura à continuidade ininteligível, desconhecível, que é o segredo do erotismo e cujo segredo só o erotismo desvenda. Quem me acompanhou até aqui apreendeu com toda a clareza na unidade das formas do erotismo o sentido da frase que citei no princípio: não há melhor meio de se familiarizar com a morte do que associá-la a uma ideia libertina. Falei de experiência mística, não falei de poesia. Não poderia ter feito isto sem antes penetrar num dédalo intelectual: sentimos tudo o que é a poesia. Ela nos funda, mas não sabemos falar dela. Não falarei agora, mas creio tornar mais sensível a ideia de continuidade que quis salientar e que não pode continuar a ser confundida com a do Deus dos teólogos, lembrando estes versos de um dos poetas mais violentos, Rimbaud: foi reencontrada. O quê? A eternidade. o mar de partida com o Sol. A poesia conduz ao mesmo ponto como cada forma do erotismo; conduz à indistinção, à fusão dos objectos distintos. Ela nos conduz à eternidade, à morte, e pela morte, à continuidade: a poesia é l'éternité.

O erotismo, aspecto imediato da experiência interior, opondo-se à sexualidade animal
O erotismo é um dos aspectos da vida interior do homem. Nisso nos enganamos porque ele procura constantemente fora um objecto de desejo. Mas este objeto responde à
interioridade do desejo. A escolha de um objeto depende sempre dos gostos pessoais do indivíduo: mesmo se ela recai sobre a mulher que a maioria teria escolhido, o que entra em jogo é frequentemente um aspecto indizível, não uma qualidade objectiva dessa mulher, que talvez não tivesse, se ela não nos tocasse o ser interior, nada que nos forçasse a escolhê-la. Em resumo, mesmo estando de acordo com a maioria, a escolha humana difere da do animal: ela apela para essa mobilidade interior, infinitamente complexa, que é típica do homem. O animal tem ele próprio uma vida subjectiva, mas essa vida, parece, lhe é dada, como acontece com os objectos sem vida, de uma vez por todas. O erotismo do homem difere da sexualidade animal justamente no ponto em que ele põe a vida interior em questão. O erotismo é na consciência do homem aquilo que põe nele o ser em questão.
A própria sexualidade animal introduz um desequilíbrio e este desequilíbrio ameaça a vida, mas o animal não o sabe. Nele nada se abre que se assemelhe com uma questão. Seja como for, se o erotismo é a actividade sexual do homem, o é na medida em que ela difere da dos animais. A actividade sexual dos homens não é necessariamente erótica. Ela o é sempre que não for rudimentar, que não for simplesmente animal.

Importância decisiva da passagem do animal ao homem
Na passagem do animal ao homem, sobre a qual pouco sabemos, é dada a determinação fundamental. Dessa passagem, todos os acontecimentos nos são subtraídos; sem dúvida, definitivamente. Entretanto, nós estamos menos desarmados do que parece à primeira vista. Sabemos que os homens fabricaram instrumentos e os utilizaram a fim de prover a sua subsistência, depois, sem dúvida, bastante depressa, as suas necessidades supérfluas. Resumindo, eles se distinguiram dos animais pelo trabalho. Paralelamente, eles se impuseram restricções conhecidas como interditos. Essas interdicções essencialmente, e certamente, recaíram sobre a atitude para com os mortos. É provável que elas tenham tocado ao mesmo tempo, ou pela mesma época, a actividade sexual. A data antiga da atitude para com os mortos aparece nas numerosas descobertas de ossos recolhidos por seus contemporâneos. Em todo caso, o homem de Neandertal, que não era inteiramente um homem, que não tinha ainda atingido rigorosamente a posição erecta, e cujo crânio não diferia tanto quanto o nosso dos antropóides, enterrou muitas vezes os seus mortos. As interdicções sexuais não remontam certamente a esses tempos longínquos. Podemos dizer que elas aparecem por toda a parte onde a humanidade surgiu, mas, na medida em que devemos nos ligar aos dados da pré-história, não encontramos nada de tangível que o comprove. O sepultamento dos mortos deixou vestígios, mas nada subsiste que nos dê mesmo uma indicação sobre as restrições sexuais dos homens mais antigos». In Georges Bataille, O Erotismo, 1957/1968, tradução de João Bernard Costa, L&PM Editores, 1987, Editora Antígona, Lisboa, 1988, ISBN 978-972 608-018-3.

Cortesia de L&PM/E Antígona/JDACT

A Rosa Rebelde. Janet Paisley. «Ele nem precisou dizer duas vezes. Ela girou a muleta de madeira e bateu-a, também, na canela do homem. Ele gritou mais uma vez, afastando-se um passo dela»

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«(…) Apoiada no cano do mosquete, ela tocou com a mão a mancha de sangue. Ainda estava húmida. Os lobos normalmente não a teriam incomodado. Eles tinham medo de gente, mas a fome mudara as pessoas e os animais. Por isso ela estava nas colinas, quando deveria estar em casa, e por isso abandonara a segurança da árvore. Sem pensar, havia ido atrás de MacGillivray para proteger a sua caça, mas, nesse meio tempo, ele já poderia ter chegado a Invercauld e ter voltado para buscá-la. Em vez disso, os lobos poderiam encontrá-la enquanto seguiam o rasto de sangue e o cheiro da corça. Com o coração batendo forte, Anne segurou com força o cano do mosquete, virou-se e jogou o corpo para frente, tentando caminhar mais rapidamente. Em vez disso, bateu em algo duro. Sem fôlego e desorientada diante da presença repentina, ela precisou de alguns segundos para perceber que batera num homem. A sua cabeça escura ostentava um cabelo comprido e preto na altura dos ombros; era mais velho, talvez até tivesse uns trinta anos, e desconhecido. Sem falar nada, ele tentou alcançá-la e, embora ela se tenha abaixado, conseguiu colocar a mão no topo da cabeça da rapariga e limpar a marca de sangue da sua testa com o polegar. Seadh, a-nis, falou ele. Então encontrei uma guerreira. Anne estava certa de que o tom da sua voz traíra um sorriso do qual ela não via nem rasto no seu rosto. O ritmo alegre da sua voz confirmou que ele não era daquele vale. Sois um MacDonald?  Ele pareceu achar a pergunta ainda mais engraçada que o sinal de caça que ela trazia na testa, e se abaixou, aproximando os olhos dos dela. E se eu fosse? Usando todo o comprimento e a força do braço, Anne virou o mosquete com força para golpeá-lo. O cano bateu na canela do homem. Ele deixou escapar um grito e se curvou instintivamente para a frente. Mas a força do golpe a fez perder o equilíbrio. Ela soltou o mosquete e cambaleou, quase caindo. O homem segurou-a pelos ombros e a apoiou novamente na muleta improvisada. Uma guerreira deveria saber, falou ele dessa vez sem nenhum sinal de sorriso na voz. Se a sua perna estiver magoada, deve atacar com o braço oposto.
Ele nem precisou dizer duas vezes. Ela girou a muleta de madeira e bateu-a, também, na canela do homem. Ele gritou mais uma vez, afastando-se um passo dela. Ela balançou, mas, como estava pronta dessa vez, equilibrou-se e manteve-se de pé. O homem recuperou rapidamente. Ele franziu as sobrancelhas escuras sobre os olhos raivosos. Furioso, agarrou a muleta, tirou-a dela, quebrou-a em duas partes no joelho, como se fossem gravetos, e jogou-a longe, no bosque. Então pegou o mosquete que caíra da mão de Anne e o apontou na sua direcção; como ela o encarara com olhar desafiador, oscilando sem apoio, ele atirou. Um ganido alto veio detrás dela. Logo abaixo, na trilha, o lobo líder girou quando a bala atingiu o seu ombro. Ele choramingou e saiu de fininho, mancando. Os outros dois ficaram parados e começaram a recuar. Anne olhou para o homem, com a boca aberta, impressionada com a sua rapidez e pontaria. A sua admiração chegou tarde demais. Ele olhou para trás, para ela. Agora és tu, avisou ele.
Em Invercauld, as flautas e tambores soavam lenta e constantemente. Tochas tremeluziam como pirilampos nas colinas. Em todo o lugar em volta da casa de pedra baixa e larga do chefe, pequenas fogueiras utilizadas para cozinhar queimavam no escuro. O ar estava pesado com a tristeza esperada e carregado de murmúrios. Ao lado da porta da casa, a roseira branca de Junho florescia, reflectindo o luar nas suas flores fantasmagóricas e perfumadas. Jean Forbes ficou na soleira da porta assistindo ao retorno daqueles que tinham ido à procura na colina, segurando tochas. Ela estava nervosa, na verdade mais irritada que preocupada. A garotinha que se agarrara a ela percebera o humor da mãe e parecia tentar esconder-se entre as dobras da sua saia. MacGillivray correu até elas. Ela foi embora, explicou ele, respirando com dificuldade. Percorremos a área toda, pelo caminho mais curto. Mas ela não estava lá. Och! Então, onde? MacGillivray estendeu as mãos intrigado. Aquilo era da sua responsabilidade, e, naquele momento, uma responsabilidade enorme. Alguns homens seguiram outros caminhos para casa. Vimos que ela cortou uma muleta e um pisteiro encontrou a sua trilha, mas isso vai demorar. Jean, lady Farquharson, era muito mais jovem que o seu marido moribundo, era a sua quarta esposa, e não era mãe de Anne. A menina nunca poderia ter feito o que lhe contaram, e aquela não era uma noite em que a atenção do clã podia ser dispensada com uma menina rebelde e tola. Meu marido não vai aguentar muito mais tempo, falou raivosa com MacGillivray. Ela tem que ser encontrada!
MacGillivary não tinha como responder à sua ira, mas tentou dar uma resposta. Quando a primeira palavra de desculpa estava pronta para deixar a sua boca, um tiro de mosquete soou atrás dele e o silenciou. Alarmadas, as pessoas viraram-se em direcção ao estampido. No murmúrio que se seguiu, foram pronunciados nomes como McIntosh e Aeneas , nomes ditos com deferência e respeito ao reconhecerem a figura que chegava à luz. Aeneas McIntosh passou pela entrada da porta, com o mosquete na mão ainda soltando fumaça e Anne montada nos seus ombros. Aliviados, os parentes de Anne a cercaram. Lady Farquharson viu a menina primeiro, mas foi a presença do homem que a carregava que lhe trouxe um imenso prazer. Aeneas! Fàilte. Lady Farquharson, respondeu Aeneas. Meu tio sente muito. Com a sua saúde debilitada, passar pela montanha seria impossível. A mulher concordou com a cabeça. O McIntosh era o chefe eleito do clã Chattan, o clã do gato, uma federação a que todos os presentes pertenciam. A morte de Farquharson seria desonrada sem sua presença. Mas ela e Aeneas tinham praticamente a mesma idade e talvez houvesse outros benefícios na sua ausência, portanto ela escondeu a sua decepção diante da notícia. É uma honra estarmos em seus pensamentos, concluiu ela. O senhor vai ocupar o lugar dele junto aos outros chefes Chattan? Aeneas era sobrinho de um chefe, não um deles. Ele viera para prestar seu respeito a um guerreiro merecedor porque assim quisera, não apenas para trazer as desculpas de McIntosh, e estava sendo aguardado com outros membros da família do lado de fora. Mas ele consentiu, aceitando a honra, e tirou Anne, que se revirava, dos seus ombros e a colocou no chão. Lady Farquharson olhou com desdém para a garota suja e manchada de sangue. O seu pai a espera, falou ela, e então se virou, pegou a menina que se agarrava à sua saia e sumiu dentro da casa. Anne encarou MacGillivray, furiosa, os dedos agarrados à cintura. Você não voltou para me buscar! Nós não a achamos. Anne pulou diante dele, e seu ataque foi tão feroz que eles caíram sobre a roseira. Procurámos em todos os lugares, protestou ele, lutando para agarrar os pulsos da menina que o golpeavam». In Janet Paisley, A Rosa Rebelde, Editor Bizâncio, colecção Ilhas Encantadas, 2009, ISBN 978-972-530-421-1.

Cortesia de EBizâncio/JDACT

Nómada. Ayaan Hirsi Ali. «Descobri sobre a doença dele em Junho de 2008, algumas semanas antes da sua morte. Eu tinha recebido uma mensagem de Marco, meu ex-namorado holandês»

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«(…) Ao entrar na Unidade de Terapia Intensiva do Royal London Hospital para ver meu pai, receei ter chegado tarde demais. Ele estava estirado no leito hospitalar, com a boca estranhamente aberta, e numerosas e ameaçadoras máquinas estavam ligadas ao seu corpo. Elas emitiam bipes e tiques, e as linhas que se erguiam e mergulhavam em rápida sucessão nos seus monitores pareciam indicar uma breve contagem regressiva até à sua morte. Abeh, gritei com toda a força. Abeh, sou eu, Ayaan. Apertei a mão dele entre as minhas e, ansiosa, beijei a sua testa; os olhos do meu pai se abriram subitamente. Ele sorriu, e o calor do seu olhar e o seu sorriso encheram toda a sala. Pus a palma das minhas mãos sobre a mão direita dele, e ele as apertou e tentou falar, tentou obrigar algumas palavras a saírem. Mas só o que conseguiu foi emitir um chiado e tossir sem fôlego. Fez esforço para se sentar, mas não era capaz de sustentar o peso do próprio corpo. Ele estava coberto com lençóis brancos, e dava a aparência de estar amarrado na cama. Calvo, parecia ser muito menor do que nas minhas lembranças. Havia um terrível tubo na sua garganta que fornecia a ele oxigénio por meio de um respirador; outro tubo saía dos rins para uma máquina de diálise, e um emaranhado de tubos entrava-lhe pelo pulso. Sentei-me ao lado dele e acariciei-lhe o rosto, dizendo: abeh, abeh, está tudo bem. Abeh, meu pobre abeh, o senhor está tão doente. Ele não pôde responder. Quando tentava falar, caía novamente na cama, com o peito ofegante, e a máquina que lhe fornecia oxigênio sibilava em busca de mais ar. Então, depois de repousar por alguns instantes, ele fazia nova tentativa. Indicava com a mão direita que queria uma caneta para escrever, mas mal era capaz de segurá-la; seus músculos estavam muito fracos, e só conseguia fazer rabiscos no papel. O esforço para segurar a caneta era tamanho que começou a escorregar para fora da cama.
A ala hospitalar era ampla, e as enfermeiras estavam ocupadas trocando lençóis e dando remédios. Percebi que o médico tinha sotaque e, por um instante, pensei que fosse do México. Quando perguntei de onde vinha, ele disse-me que era espanhol. A ala era administrada quase que exclusivamente por imigrantes. Não soube distinguir os enfermeiros dos médicos e, enquanto olhava ao redor, tentei adivinhar a origem dos membros da equipa, dos técnicos e dos auxiliares: a península indiana, negros que pensei serem da África oriental ou ocidental, pessoas que pareciam do norte da África, algumas mulheres com lenços na cabeça sobre os uniformes médicos. Se havia funcionários somalis na ala, eu não os vi nem eles me viram, felizmente. Uma das enfermeiras desenrolou um avental de plástico, amarrou-o ao redor da cintura e pediu que eu me afastasse, mas meu pai não quis soltar-me e tive de forçar seus dedos a largarem minha mão. A enfermeira o deixou numa posição mais erecta, apoiando-o em travesseiros e olhando para mim com interesse. Uma das enfermeiras me disse que tinha lido uma reportagem sobre mim numa revista, e por isso algumas delas sabiam quem eu era. Afastei o olhar e reparei no prontuário médico afixado à cama; meu pai estava registado como Hirsi Magan Abdirahman, apesar de seu nome ser Hirsi Magan Isse. Um jovem médico contou-me que meu pai tinha leucemia. Ele poderia ter sobrevivido por mais um ano se não tivesse desenvolvido uma infecção, que se tornara séptica. Apesar de ter saído do coma no qual entrara alguns dias antes, apenas os aparelhos o mantinham vivo. Perguntei seguidas vezes se meu pai estava sentindo dor, mas o médico disse que não; que havia desconforto, mas não dor. Perguntei ao médico se poderia tirar uma foto com meu pai. Ele respondeu que não. Disse que para isso seria necessário pedir permissão ao paciente, e o paciente não estava em condições de tomar esse tipo de decisão.
Em 1992, quando o deixei em Nairóbi, o meu pai era um homem forte e vivaz. Ele podia ser feroz, até assustador, um leão, um líder entre os homens. Durante a minha infância ele foi o meu lorde, o meu herói, alguém cuja ausência era misteriosa, por cuja presença eu ansiava, cuja aprovação significava tudo e cuja ira eu temia. Agora eram muitas as desavenças entre nós. Eu o ofendera profundamente em 1992, ao fugir do marido somali que ele escolhera para o meu matrimónio. Ele tinha-me perdoado por isso; conversámos sobre o assunto, pouco à vontade, pelo telefone. Uma década mais tarde eu o ofendi novamente, quando me declarei incrédula e critiquei abertamente o tratamento dispensado pelo islão às mulheres. O nosso último conflito, o pior, ocorreu depois que fiz um filme sobre o abuso e a opressão a que são submetidas as muçulmanas, Submission, com Theo van Gogh, em 2004. Depois desse episódio o meu pai simplesmente parou de atender os meus telefonemas; ele recusou-se a falar comigo. Algum tempo depois da morte de Theo, quando tive de me esconder e o meu telefone foi-me retirado, parei de tentar entrar em contacto com ele. Quando as pessoas me perguntavam a seu respeito, eu respondia apenas que éramos distantes.
Descobri sobre a doença dele em Junho de 2008, algumas semanas antes da sua morte. Eu tinha recebido uma mensagem de Marco, meu ex-namorado holandês, dizendo que a minha prima que vivia na Inglaterra, Magool, estava procurando-me com urgência. Ela não é próxima da família do meu pai, mas tem recursos. Quando minha meia-irmã, Sahra, percebeu como o pai estava doente, ela pediu a Magool que tentasse encontrar-me, e Magool telefonou para Marco, a única pessoa de quem eu havia sido próxima que ela conhecera, cinco anos antes, da última vez que havíamos conversado. Telefonei para meu pai no seu apartamento num conjunto habitacional localizado no East End de Londres. Já era tarde, noite, onde ele se encontrava, e fazia uma linda tarde de sol na Costa Leste dos Estados Unidos, onde eu estava. Minhas mãos tremiam. Quando atendeu o telefone. A sua voz era exactamente como deveria ser, forte e enérgica. Ao ouvir a voz dele percebi as lágrimas enchendo os meus olhos e disse a única coisa que quis transmitir, que eu o amava, e pude ouvi-lo sorrir, um sorriso tão poderoso que pareceu atravessar a linha telefónica. É claro que me amas!, irrompeu ele. E é claro que eu te amo! Não reparou como os pais acalentam e se relacionam com os filhos? Não viu na natureza como os animais cuidam das suas crias e as lambém? É claro que eu te amo. És minha filha. Eu disse a meu pai o quanto queria vê-lo, mas expliquei que poderia ser difícil garantir a minha segurança numa visita ao seu apartamento, localizado numa área onde predominam os imigrantes, na sua maioria muçulmanos. Visitar um lugar como aquele, desprotegida, seria como um insecto minúsculo a voar numa sala repleta de imensas teias de aranha: a mosquinha pode chegar ao outro lado sem nada sofrer, mas se for apanhada as consequências são óbvias». In Ayaan Hirsi Ali, Nomad, From Islam to America, Nómade, tradução de Augusto Calil, Companhia das Letras, 2010, ISBN 978-858-086-374-1 e / ou In Ayaan Hirsi Ali, Nómada, Galaxia Gutenberg, 2011, ISBN 978-848-109-928-7.

Cortesia da CdasLetras/GGutenberg/JDACT

Herege. Ayaan Hirsi Ali. «O islão está numa encruzilhada. Os muçulmanos, não dezenas ou centenas, mas dezenas de milhões e até centenas de milhões, precisam tomar a decisão consciente de confrontar…»

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«(…) Os muçulmanos de Medina podem explorar ideias desse tipo e ser uma ameaça para todos nós. No Médio Oriente e em outras partes, a sua visão de um retorno violento à época do Profeta ameaça potencialmente centenas de milhares com a morte e milhões com a subjugação. No Ocidente, implica não só um risco crescente de terrorismo, mas também uma subtil erosão das árduas conquistas das feministas e defensores dos direitos de minorias. Os muçulmanos de Medina também estão solapando a posição dos muçulmanos de Meca que tentam levar uma vida sossegada nos seus casulos culturais por todo o mundo ocidental. Mas a ameaça maior é para os dissidentes e reformistas: os muçulmanos modificados. São eles que enfrentam ostracismo e rejeição, que têm de sofrer todo o tipo de insulto, lidar com ameaças de morte, ou que são mortos. Até agora, os seus esforços têm sido difusos e individuais, em comparação com as acções colectivas altamente organizadas dos muçulmanos de Medina. É nosso dever para com os dissidentes, para com a sua coragem e convicção, mudar isso. Cheguei à conclusão de que a única estratégia viável que pode trazer uma esperança de conter a ameaça representada pelos muçulmanos de Medina é aliar-me aos dissidentes e reformistas e ajudá-los a: 1. identificar e repudiar as partes do legado moral de Maomé oriundas de Medina; e 2. persuadir os muçulmanos de Meca a aceitar essa mudança e rejeitar o chamado dos muçulmanos de Medina à intolerância e à guerra.
Este não é um livro de história. Não procuro dar uma nova explicação para o facto de cada vez mais muçulmanos aderirem aos elementos mais violentos do islão na minha época, por que razão, em resumo, os muçulmanos de Medina estão hoje em ascensão. Tento refutar a ideia, quase universal entre os liberais do Ocidente, de que a explicação reside nos problemas económicos e políticos do mundo muçulmano e que esses problemas, por sua vez, podem ser explicados com base na política externa ocidental. Isso é atribuir importância demasiada a forças exógenas. Há outras partes do mundo que lutam para fazer a democracia funcionar ou para lidar com a riqueza advinda do petróleo. Há outros povos além dos muçulmanos que se queixam do imperialismo norte americano. No entanto, quase não se tem indício de algum crescimento de terrorismo, explosões suicidas, guerra sectária, punições medievais e mortes em nome da honra no mundo não muçulmano. Existe uma razão para que uma proporção crescente da violência organizada no mundo esteja acontecendo em países onde o islamismo é a religião de uma parcela substancial da população.
O argumento deste livro é que as doutrinas religiosas fazem diferença e precisam de reforma. Factores não doutrinários, como o uso pelos sauditas das receitas do petróleo para financiar o wahabismo e o apoio do Ocidente ao regime saudita, são importantes, mas a doutrina religiosa é mais importante. Por mais que para muitos académicos ocidentais seja difícil acreditar, quando pessoas cometem actos violentos em nome da religião, elas não estão tentando dignificar de alguma forma os seus agravos socio-económicos ou políticos básicos. O islão está numa encruzilhada. Os muçulmanos, não dezenas ou centenas, mas dezenas de milhões e até centenas de milhões, precisam tomar a decisão consciente de confrontar, debater e por fim rejeitar os elementos violentos da sua religião. Em certo grau, em grande medida devido à repulsa generalizada pelas indizíveis atrocidades do EI, Al-Qaeda e o resto, esse processo já começou.
Mas, em última análise, ele requer a liderança dos dissidentes. E estes, por sua vez, não têm como conseguir sem o apoio do Ocidente. Imagine se, na Guerra Fria, o Ocidente tivesse apoiado não os dissidentes do Leste Europeu, como Václav Havel e Lech Walesa, mas a União Soviética, como representante dos comunistas moderados, na esperança de que o Kremlin nos ajudasse contra terroristas da estirpe da Facção do Exército Vermelho. Imagine-se um presidente norte-americano sofresse uma lavagem cerebral e saísse dizendo ao mundo que o comunismo é uma ideologia pacífica. Isso teria sido desastroso. No entanto, essa é essencialmente a postura do Ocidente em relação ao mundo muçulmano actual. Nós ignoramos os dissidentes». In Ayaan Hirsi Ali, Herege, tradução de Laura Motta e Jussara Simões, Editora Schwarcz, Companhia das Letras, 2015, ISBN 978-854-380-373-9.

Cortesia de ESchwarcz/CLetras/JDACT

Infiel. Ayaan Hirsi Ali. «Podia fazer a sua própria casinha abobadada de galhos dobrados e esteiras, e depois desmontá-la e carregá-la num mal-humorado camelo de carga»

Cortesia de wikipedia e jdact
«(…) As histórias da avó eram de arrepiar. Havia as de uma bruxa horrorosa, chamada Matadora ou Carniceira, que tinha a faculdade de adoptar a aparência de uma pessoa querida, respeitável e, de súbito, saltava sobre a pessoa, rindo na sua cara, rarararará, e a matava com a comprida e afiada faca que trazia o tempo todo escondida nas dobras do vestido. E comia-a inteira. Minha avó também nos contava histórias da sua juventude, dos bandos de guerreiros que assolavam o deserto, roubando animais e mulheres, incendiando casarios. Falava sobre todos os desastres esquecidos da sua vida e da dos seus pais: sobre a peste endémica, a malária e a seca, que deixavam regiões inteiras despovoadas. Contava da sua vida. Dos bons tempos, quando as chuvas chegavam e tingiam tudo de verde, quando as enxurradas enchiam repentinamente o leito dos rios, e havia carne e leite em abundância. Tentava nos ensinar o que levava à decadência: quando o capim verdejava, os pastores se entregavam à preguiça e as crianças engordavam. Homens e mulheres se misturavam, cantando e batucando na penumbra, e isso lhes minava a precaução, impedindo-os de se prevenir contra o perigo. Tal combinação, dizia, levava à competição, ao conflito, à desgraça.
Às vezes, nas histórias da avó, surgiam mulheres valentes, mães, como a minha, que se valiam da astúcia e da coragem para salvar os filhos do perigo. Isso nos incutia segurança, de certo modo. A minha avó e também a minha mãe eram destemidas e inteligentes: decerto nos salvariam quando chegasse a nossa vez de enfrentar os monstros. Na Somália, as crianças aprendiam cedo a se precaver contra a traição. As coisas nem sempre eram o que pareciam; o menor deslize podia ser fatal. A moral de todas as histórias da minha avó mirava a nossa honra. Devíamos ser fortes, espertas, desconfiadas; devíamos acatar as normas do clã. A desconfiança era recomendável, principalmente para as meninas. Pois elas podiam ser roubadas. Ou podiam ceder. E aquela que perdesse a virgindade manchava não só a própria honra como a do pai, dos tios, dos irmãos, dos primos. Não havia nada pior do que ser agente de semelhante catástrofe. Por mais que gostássemos das suas histórias, geralmente não dávamos atenção à avó. Ela nos pastoreava quase como as cabras que costumava amarrar na nossa árvore, já que éramos mais desobedientes. O nosso passatempo eram as histórias e as brigas; acho que só vi um brinquedo aos oito anos, quando nos mudamos para a Arábia Saudita. Vivíamos implicando uns com os outros. Haweya e Mahad uniam-se contra mim, ou então Haweya e eu nos uníamos contra Mahad. Mas o meu irmão e eu nunca fazíamos nada juntos. Nós nos detestávamos. Minha avó sempre dizia que era pelo facto de eu ter nascido só um ano depois dele: roubei-lhe o colo da minha mãe. Não tínhamos pai, porque estava na prisão. Eu nem me lembrava dele. A maioria dos adultos que eu conhecia tinha sido criada nos desertos da Somália. País mais oriental e um dos mais pobres da África, a Somália se projectava no oceano Índico, resguardando qual mão protectora a ponta da península Arábica antes de mergulhar no litoral do Quénia. Minha família era de nómadas que percorriam constantemente os desertos do norte e do nordeste em busca de pastagens para os rebanhos. Às vezes, fixavam-se durante uma ou duas estações; quando já não havia água ou pastagem suficiente, ou quando as chuvas não chegavam, pegavam a cabana, punham as esteiras nos camelos e partiam à procura de um lugar melhor para manter os rebanhos vivos. Minha avó sabia tecer tão bem a palha seca que as suas moringas eram capazes de levar água por quilómetros e quilómetros.
Podia fazer a sua própria casinha abobadada de galhos dobrados e esteiras, e depois desmontá-la e carregá-la num mal-humorado camelo de carga. O seu pai, um pastor isaq, morrera quando a avó tinha uns dez anos. A sua mãe casara com o tio dela. (Era uma prática comum. Poupava o dote e evitava problemas.) Quando minha avó fez treze anos, um nómada rico chamado Artan, que já passava dos quarenta, pediu a sua mão a esse tio. Artan era um dhulbahante, uma boa estirpe dos darod. Respeitadíssimo, hábil com os animais e bom viandante, conhecia tão bem o ambiente que sempre sabia quando partir e aonde ir para encontrar a chuva. Os membros dos outros clãs pediam-lhe que arbitrasse as suas disputas. Artan já era casado, mas só tinha uma filha com a mulher, uma menina um pouco menor do que a minha avó. Ao decidir tomar outra esposa, escolheu primeiro o pai da noiva: que fosse um homem de bom clã e de reputação ilibada. A moça tinha que ser trabalhadora, forte, jovem e pura. A avó Ibaado era tudo isso. Artan pagou um lobolo por ela. Dias depois de Artan casar com ela e a levar embora, a minha avó fugiu. Tinha percorrido quase todo caminho de volta ao acampamento da mãe quando o marido a alcançou. Ele consentiu em deixá-la descansar um pouco com a família para se recuperar. Uma semana depois, o seu padrasto levou-a ao acampamento de Artan e lhe disse: este é o teu destino». In Ayaan Hirsi Ali, Infiel, 2006, tradução de Luís Araújo, Editora Schwarcz, Companhia das Letras, 2007, ISBN 978-853-591-109-1. 
Cortesia de CdasLetras/JDACT

terça-feira, 21 de março de 2017

Odes Modernas. Dia Mundial. «Impulso universal!, forte e divino, aonde quer que irrompa!, e belo e augusto. Quer se equilibre em paz no mudo hino…»


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Antologia. Panteísmo
«Aspiração..., desejo aberto todo
numa ânsia insofrida e misteriosa...
A isto chamo eu vida: e, d’este modo,

que mais importa a forma? Silenciosa
uma mesma alma aspira à luz e ao espaço
em homem igualmente e astro e rosa!

A própria fera, cujo incerto passo
lá vaga nos algares da deveza,
por certo entrevê Deus, seu olho baço

foi feito para ver brilho e beleza...
E se ruge, é que a agita surdamente
tia alma turva, ó grande natureza!

Sim, no rugido há uma vida ardente,
uma energia íntima, tão santa
como a que faz trinar ave inocente...

Há um desejo intenso, que alevanta
ao mesmo tempo o coração ferino,
e o do ingénuo cantor que nos encanta...

Impulso universal!, forte e divino,
aonde quer que irrompa!, e belo e augusto.
Quer se equilibre em paz no mudo hino

dos astros imortais, quer no robusto
seio do mar tumultuando brade,
com um furor que se domina a custo;

quer durma na fatal obscuridade
da massa inerte, quer na mente humana
sereno ascenda à luz da liberdade...

É sempre eterna vida, que dimana
do centro universal, do foco intenso,
que ora brilha sem véus, ora se empana...

É sempre o eterno gérmen, que suspenso
no oceano do Ser, em turbilhões
de ardor e luz, evolve, ínfimo e imenso!

Através de mil formas, mil visões,
o universal espírito palpita
subindo na espiral das criações!

Ó formas!, vidas!, misteriosa escrita
do poema indecifrável que na Terra
faz de sombras e luz a Alma infinita!

Surgi, por céu, por mar, por vale e serra!
Rolai, ondas sem praia, confundindo
a paz eterna com a eterna guerra!

Rasgando o seio imenso, ide saindo
do fundo tenebroso do Possível,
onde as formas do Ser se estão fundindo...

Abre teu cálix, rosa inalterável!
Rocha, deixa banhar-te a onda clara!
Ergue tu, águia, o voo inacessível!
[…]

In Antero de Quental, Antologia, Odes Modernas

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Sonetos. Dia Mundial. «Era uma coluna de artistas!... Ao lado Tasso medindo as múltiplas conquistas co’as amplidões do espaço!...»

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A Ideia ao Infinito
SONETOS

«Ao estrídulo solene dos bravos!, das plateias,
prossegues altaneira, oh!, ídolo da arte!...
O sol pára o curso p'ra bem de admirar-te,
o sol, o grande sol, o misto das ideias!...

A velha natureza escreve-te odisseias...
A estrela, a nívea concha, o arbusto..., em toda a parte
retumba a doce orquestra que ousa proclamar-te
assombro do ideal, em duplas melopeias!

Perpassam vagos sons na harpa do mistério
lá, quando no proscénio te ergues imperando
oh! Íbis magistral do mundo azul, sidéreo!

Então da imensidade, audaz vem reboando
de palmas o tufão, veloz, febril, aéreo
que cai dentro das almas e as vai arrebatando!...»


«Dizem que a arte é a clamide de ideia
a peregrina irradiação celeste,
e d’isso a prova singular já deste
sorvendo d’ela a divinal sabeia!

Da Georgeta na feliz estreia,
asseverar-nos ainda mais vieste
que és um génio, que te vais de preste
tornando o assombro de qualquer plateia!...

Sinto uns transportes fervorosos, ledos
quando nas cenas de subtis enredos
fulgem-te os olhos co’a expressão dos astros!...

E as turbas mudas, impassíveis, calmas
sentem mil mundos lhes crescer nas almas...
Vão-te seguindo os luminosos rastros!...»

«Um dia Guttemberg c'o a alma aos céus suspensa,
pegou do escopro ingente e pôs-se a trabalhar!
E fez do velho mundo um rútilo alcançar
ao mágico clangor de sua ideia imensa!

Rolou por todo o globo a luz da sacra imprensa!
Ruiu o despotismo no pó, a esbravejar...
Uniram-se n'um lago, o céu, a terra, o mar...
Rasgou-se o manto atroz da horrível treva densa!...

Ergueram-se mil povos ao som das melopeias,
das grandes cavatinas olímpicas da arte!
Raiou o novo sol das fúlgidas ideias!...

Porém, quem lança luz maior por toda a parte
és tu, sublime actriz, ó misto de epopeias
que sabes no tablado subir, endeusar-te!...»

In A Poesia Interminável de Cruz Sousa

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O Pintor Debaixo do Lava-Loiças. Afonso Cruz. «Quem lhe disse isso?, perguntou a parteira. Foi um amigo do coronel. Um escultor que veio um dia cá a casa»

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«Enquanto a água se pode guardar em garrafas, as histórias não podem ser engarrafadas sem que se estraguem rapidamente. Têm de andar ao ar livre como os animais selvagens. Temos de as soltar para que possam correr todas nuas. Sors nasceu em 23 de Novembro de 1895. Foi ele quem, em 1940, pintou o quadro que está pendurado na entrada de uma casa da Rua do Alto da Fonte, na Figueira da Foz. Essa entrada é um espaço relativamente pequeno, com uma arca de madeira do lado direito, mesmo por baixo do quadro pintado por Sors. Em frente há um relógio de pé, um móvel de canto e o bengaleiro feito de metade de uma hélice. Há uma serra de peixe-serra na parede do lado esquerdo, estatuetas africanas, quadros, bengalas, lanças indígenas, máscaras, objectos indecifráveis, pratos pintados. Em cima da arca há algumas presas de elefante e um dente de hipopótamo. O dente, propriamente dito, é grande, mas a raiz é muito maior. Muito da eficiência daquilo que fazemos, daquilo que mastigamos, depende sobretudo do que não se vê. Das raízes. É por isso que estou a contar esta história. Porque são as coisas que estão dentro de nós e em que ninguém repara quando nos olha. Temos uma paisagem muito grande que não se vê, a menos que nos debrucemos para dentro e mostremos aquilo de que nos lembramos. Nada é tão forte como as coisas que não se veem, como as raízes do dente do Behemot. Como um pintor debaixo de um lava-loiças.
Todos os jardins da nossa infância são o jardim do paraíso. A pele suave desses tempos em que se corria com as pernas arqueadas soltando uma espécie de luz pela respiração. Ríamos a correr para os braços dos adultos numa entrega absoluta. Eles, os adultos, atiravam-nos ao ar e apanhavam-nos com mãos ásperas, e, talvez por isso, quando crescemos nunca mais deixamos de, esporadicamente, sonhar que voamos. E de sonhar com gigantes e anões, pois eram essas as nossas proporções. Jozef Sors nasceu numa grande casa onde os seus pais trabalhavam. A propriedade pertencia a um coronel do exército chamado Möller. Nas traseiras havia um grande jardim cheio de flores, cercado por um muro alto, todo em pedra. A mãe de Jozef Sors era engomadeira e o pai era mordomo. Enquanto a mãe era uma figura sem protagonismo, baixa e simpática, com maçãs do rosto salientes, o pai era um homem muito especial. Não havia ninguém tão sincero quanto ele. Ignorava por completo qualquer civilidade e dizia exactamente o que sentia e via. Quando o filho nasceu, mal a parteira lhe havia cortado o cordão umbilical, exclamou: parece um rato. A parteira, que se chamava Marija, olhou-o de lado e mandou-o sair, mas o mordomo quis pegar-lhe ao colo. Estava enternecido e chegou mesmo a passar a mão pelos olhos para os limpar. Os seus braços enormes faziam com que o recém-nascido parecesse ainda mais pequeno. Parece mesmo um rato, dizia ele enquanto lhe acariciava a bochecha com o indicador da mão direita. A senhora Sors sorria de cansaço, com as maçãs do rosto maiores do que era habitual. Marija tirou o bebé das mãos do mordomo e pô-lo nos braços da mãe para que ele mamasse. Quando o bebé adormeceu, Marija comentou que era um belo rapaz, forte como a água do mar e saudável como a água da chuva. O olho esquerdo, que parecia uma lua minguante, revelava que iria ser um artista. Como os do circo?, perguntou o mordomo.
Não, como os outros. A senhora Sors começou a soluçar quando ouviu isto, pois não há nada mais triste do que ser um artista e olhar para o mundo como se o visse pela primeira vez. Quem lhe disse isso?, perguntou a parteira. Foi um amigo do coronel. Um escultor que veio um dia cá a casa. Parece-me uma grande felicidade que, quando se olhe para o mundo, pareça sempre que é a primeira vez que o fazemos. É uma grande tristeza, disse ela a soluçar. É a maior infelicidade. Eu, quando olho para as coisas quero que elas me sejam familiares, como o meu tio e o meu marido, como o pão que se come às refeições. Quero deitar-me sempre com o mesmo homem, com os mesmos lábios. Quero que os lençóis de hoje me pareçam os lençóis de ontem, mesmo que os bordados sejam completamente diferentes. Não quero que os beijos que recebo sejam novos, quero que sejam velhos, quero que sejam os de sempre. Não me quero sobressaltar como quando era jovem. Uma pessoa só pode ter paz quando está ao pé das mesmas coisas, quando nem repara nelas, porque elas já fazem parte de si, como se as tivesse comido e mastigado e engolido e agora fossem carne da sua carne e sangue do seu sangue. Só somos felizes quando já não sentimos os sapatos nos pés. E ao dizer isto adormeceu». In Afonso Cruz, O Pintor Debaixo do Lava-Loiças, Editorial Caminho, colecção Romance Adulto, 2011, ISBN 978-972-212-615-1.

Cortesia de ECaminho/JDACT

Emma. Jane Austen. «Nesta ocasião era mais bem-vindo que o normal, pois acabava de chegar de uma visita ao irmão e à Isabella em Londres»

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«(…) Highbury, o grande e populoso vilarejo, quase uma cidade, ao qual Hartfield de facto pertencia, apesar dos prados e plantações de arbustos separadas, e do nome diferente, não lhe proporcionava companhia de seu próprio nível. Os Woodhouses eram a família mais importante da região, todos os tomavam como modelo. Ela tinha muitas relações no lugar, pois seu pai era educado com todos, mas nenhum deles podia ser aceito no lugar de miss Taylor, nem mesmo por um dia. Era uma mudança melancólica e Emma só podia suspirar e desejar o impossível, até que o pai se apercebesse e ela tivesse que mostrar-se alegre. Ele necessitava de apoio. Era um homem nervoso, que caía facilmente em depressão; apegado a todas as pessoas com quem estava acostumado, detestava separar-se delas e detestava mudanças de qualquer espécie. E o casamento, como fonte da mudança, sempre era desagradável; ainda não se havia conformado com o casamento da própria filha, e só falava dela com compaixão, apesar de ter sido um casamento por amor, e agora era obrigado a aceitar a partida de miss Taylor também. Graças aos seus hábitos de gentil egoísmo, e por não ser capaz de supor que os outros pudessem pensar diferente dele, estava bastante disposto a acreditar que miss Taylor tinha feito uma coisa muito triste, tanto para ela como para eles, e que teria sido muito mais feliz se passasse o resto da sua vida em Hartfield. Emma sorria e conversava tão alegremente quanto podia, para ocultar-lhe tais pensamentos; mas quando o chá foi servido naquele dia ele não pode deixar de dizer, exactamente como dissera ao jantar: pobre miss Taylor! Gostaria muito que ela estivesse aqui. Que pena mr. Weston ter pensado nela! Não posso concordar, pai, o senhor bem sabe. Mr. Weston é tão bem-humorado e agradável, um homem excelente e que merece uma boa esposa; e o senhor acha que miss Taylor iria viver connosco para sempre, aguentando as minhas esquisitices, quando podia ter a sua própria casa?
Sua própria casa! Mas qual é a vantagem de ter a sua própria casa? Esta é três vezes maior; e a menina não é esquisita, minha querida. Podemos visitá-los sempre, e eles também podem vir-nos visitar! Vamos-nos encontrar sempre! Nós devemos visitá-los primeiro, temos que ir logo fazer a visita de cumprimento aos recém-casados. Minha querida, como posso ir tão longe? Randalls é muito distante, eu não poderia andar nem a metade do caminho. Não, pai, ninguém pensou em fazê-lo andar. Vamos de carruagem, é claro. De carruagem! James não vai gostar de preparar os cavalos para uma distância tão pequena. E onde os pobres cavalos vão ficar, enquanto estivermos de visita? Vão ficar no estábulo de mr. Weston, pai. O senhor sabe que nós já arranjamos tudo, falamos sobre o assunto com mr. Weston ontem à noite. Quanto a James, o senhor pode estar certo de que ele sempre ficará feliz de ir a Randalls, pois sua filha trabalha lá como criada. Duvido até que ele goste de nos levar a outro lugar. Conseguir este bom emprego para Hannah foi obra sua, pai. Ninguém pensou nela até que o senhor a mencionou, James está muito grato ao senhor! Fico contente de ter pensado nela. Foi pura sorte, não gostaria que o pobre James se sentisse obrigado por conta disso. E estou certo que ela será uma boa criada, é uma menina educada e fala muito bem, tenho bastante consideração por ela. Todas as vezes que a via, ela sempre me fazia uma reverência e perguntava como eu estava, de modo muito gentil. E quando a chamava ao salão para bordar percebi que ela girava a tranca e fechava a porta do modo certo, sem bater. Tenho a certeza que será uma excelente criada, e é um grande conforto para miss Taylor ter uma pessoa conhecida junto dela. Sempre que James for ver a filha, miss Taylor terá notícias nossas, ele poderá contar-lhe como estamos indo.
Emma não poupou esforços para manter este feliz fluxo de ideias, e, com a ajuda do jogo de gamão, esperava manter o pai em tolerável disposição durante a noite, sem outros pesares além do seu. O tabuleiro de gamão foi arrumado, mas a imediata entrada de um visitante tornou o jogo desnecessário. Mr. Knightley, um homem sensível de trinta e sete ou trinta e oito anos, não era apenas um amigo íntimo da família, mas especialmente ligado a ela, pois era o irmão mais velho do marido de Isabella. Vivia a cerca de um quilômetro e meio de Highbury, era um visitante frequente e sempre bem-vindo. Nesta ocasião era mais bem-vindo que o normal, pois acabava de chegar de uma visita ao irmão e à Isabella em Londres. Voltara depois do jantar, após alguns dias de ausência, e vinha directo a Hartfield para dizer que todos estavam bem em Brunswick Square. Era uma notícia boa e deixou mr. Woodhouse animado por algum tempo. Mr. Knightley tinha um temperamento alegre, que sempre fazia bem ao velho cavalheiro, e respondeu de modo satisfatório às suas perguntas sobre a pobre Isabella e as crianças. Após as notícias, mr. Woodhouse observou, agradecido: é muita bondade sua, mr. Knightley, sair a uma hora tão tardia para nos visitar. Temo que tenha feito uma caminhada horrível». In Jane Austen, Emma, 1815/1816, Relógio de Água, 2016, ISBN 978-989-641-622-5.

Cortesia de RdeÁgua/JDACT

segunda-feira, 20 de março de 2017

A Rosa Rebelde. Janet Paisley. «Quando a lua indicou no céu que já eram onze horas, os lobos encontraram a poça de sangue congelado. Eles também sentiram o cheiro azedo de seres humanos»

jdact e wikipedia
«A batida do tambor e a música baixa e lenta da gaita soavam ao longe. Era um chamado dos clãs para anunciar que o chefe estava a morrer. Nessas horas até inimigos implacáveis se esqueciam dos ressentimentos, deixavam as espadas de lado e iam honrar o chamado. Sem se dar conta da batida distante, uma corça pastava à luz do crepúsculo que se esvaía entre as urzes e as rochas da colina no sopé das Cairngorms. Ouviu-se o estampido de um tiro, depois outro, intercalados apenas pelo som de um batimento cardíaco. O cervo cambaleou e caiu. Trobhad! Vamos lá! Gritando em gaélico, uma jovem garota, de talvez doze ou treze anos, saiu correndo do emaranhado de árvores próximas com o rosto sujo alerta e contente enquanto corria descalça em direcção ao animal ferido, o mosquete nas mãos ainda soltando fumaça. O seu cabelo comprido e preto estava todo bagunçado, mas o vestido, embora típico das Terras Altas, era de veludo e renda. Anne, fuirich! Espere! Um rapaz mais velho, com boina de chefe e kilt xadrez, saiu detrás da menina, com a segunda arma na mão, o brilho do cabelo loiro avermelhado ainda visível na escuridão cada vez mais intensa. Anne não prestou atenção nele, nem hesitou. Derrubou o mosquete enquanto corria, retirou uma adaga do cinto preso na cintura e, para evitar os cascos do animal ferido, pulou sobre ele, a espada curta em punho. Quando a menina pulou, o animal, assustado, debateu-se, tentando levantar-se. Os cascos bateram na canela da menina. Anne ganiu, tropeçando em direcção às urzes. O jovem, dois passos atrás dela, jogou a arma no chão, tirou o punhal, ajoelhou-se e levantou a cabeça do animal para terminar o serviço. Anne pulou para frente, no peito do animal, para enfiar o punhal na garganta da corça primeiro. Apanhei-o, disse ela. Havia um tom de desafio na sua voz. Do outro lado da carcaça que ainda estremecia, o jovem olhou para ela, enquanto o cheiro grosseiro de sangue dominava o ambiente. Tudo bem, MacGillivray, admitiu ela. Nós dois o apanhámos. Então ela enfiou os dedos no corte do pescoço do animal e, com o dedo do meio, desenhou uma linha sanguinolenta no meio da testa. Mas matei-o. Satisfeita por ter o direito assegurado, ela deu um pulo e ficou de pé. A dor percorreu o seu corpo. Soltou um urro antes mesmo que pudesse contê-lo. Anne cambaleou, e o jovem MacGillivray segurou-a. Ela levantou a saia de veludo comprida e olhou para baixo. O seu tornozelo direito havia começado a inchar. Então tentou novamente depositar o peso do corpo sobre o pé, mordendo os lábios para não urrar de dor outra vez. Eu levo-te, ofereceu MacGillivray. E a corça? Vai ter de esperar. Gu dearbh, fhèin, chan fhuirich! Certamente não terá! Ela não ia perder a caça. Havia poucas corças nas colinas, e eles tinham tido sorte de encontrar aquela. Os nativos famintos não eram os únicos possíveis caçadores ali. Os lobos vão pegá-la antes de percorrermos metade do caminho até casa. Eu vou colocá-la em cima de uma árvore. Vou levá-la de volta para Invercauld. Eles vão levar comida, se puderem. Foi um ano escasso para todos nós. Mas ele vai comer. A garganta de Anne fechou-se. E vai recuperar as forças. A sua voz tremeu. Talvez então todos possam ir para casa também. MacGillivray olhou para ela. Aos dezanove anos, ele era uma cabeça mais alto que ela. Poderia lembrar a ela que o chefe não conseguia comer havia dias. Em vez disso, pegou-a pela cintura, levantou-a e a colocou sobre o ombro. Aonde está indo? Ela lutou. Colocá-la na árvore, explicou ele enquanto caminhava de volta para o bosque. Enquanto ela deslizava o traseiro no galho da árvore em que ele a colocara, MacGillivray preparou e carregou o mosquete de Anne antes de a entregar. Mas ainda acho que a corça deveria ficar aí. Vai embora, Alexander? Ele cruzou o seu mosquete no peito e pendurou a carcaça nos ombros. Não estava feliz diante da perspectiva de voltar sem ela. Eles não faziam parte do seu clã. Aquelas não eram as suas terras. MacGillivray chamou-a enquanto ele se distanciava. Ele se virou, ainda pronto para colocar a corça na árvore e tirar Anne de lá. Por ali, mostrou ela. Siga o som do tambor. MacGillivray expirou, virou-se e andou na direcção que ela indicara. A cabeça da corça batia nas suas costas a cada passo, e o sangue do animal pingava. Diga que eu a matei, gritou ela enquanto ele sumia de vista. Agora estava sozinha. Entre as rochas, dois gatos selvagens andavam em círculos, cortejando-se e miando. Uma coruja caçadora piou. A lua crescia por detrás das colinas. O luar fazia a poça de sangue da corça brilhar no escuro. Além do vale, um lobo uivou. Anne mudou de posição na árvore. Se a alcateia viesse naquela direcção, sentiria o cheiro do sangue e iria atrás da corça. MacGillivray havia pendurado o mosquete no ombro; para carregá-lo, teria de soltar a corça. Os lobos se lançariam em cima dele, vorazes. Ele daria um tiro e teria tempo para carregar a arma e atirar de novo enquanto os animais arrastassem a corça, mas, com apenas um punhal, se fossem mais de dois lobos, MacGillivray perderia a caça. Anne olhou ao redor da árvore, pendurou o mosquete num pequeno galho e tirou o punhal do cinto. Quando a lua indicou no céu que já eram onze horas, os lobos encontraram a poça de sangue congelado. Eles também sentiram o cheiro azedo de seres humanos, mas a fome deixa a todos menos reticentes, e era possível ver as costelas dos três animais por baixo da pele magra. Um deles farejou a poça. Outro levantou a cabeça e uivou. O terceiro encontrou o trilho que, para eles, era o caminho que a presa ferida tomara; os demais correram atrás, seguindo-o. O galho onde antes Anne estava sentada agora se encontrava vazio. Perto dele, a madeira branca de um galho indicava um corte recente. Gotas de sangue da corça brilharam no trilho irregular que MacGillivray abrira. Respirando e caminhando com dificuldade por entre as rochas e o bosque, Anne segurava debaixo do braço esquerdo uma muleta improvisada com o galho cortado da árvore, o cano do mosquete em baixo do direito, e trazia o tornozelo inchado enfaixado sem cuidado com um pedaço de pano rasgado da saia. Ela havia ido em direcção a Invercauld, mas ainda estava longe. Atrás dela, bem longe no trilho, um lobo uivava. Ela parou, virou um pouco o tronco e escutou, tentando medir a distância e a velocidade do animal. A luz alta da lua iluminava o chão coberto de urze e as pequenas árvores, formando sombras escuras. A parte da frente do vestido de Anne brilhou de modo ameaçador no luar». In Janet Paisley A Rosa Rebelde, Editor Bizâncio, colecção Ilhas Encantadas, 2009, ISBN 978-972-530-421-1.
Cortesia de EBizâncio/JDACT