domingo, 19 de novembro de 2017

A Cruz de Esmeraldas. Cristina de Torrão. «Zubaida apanhou febre e o seu organismo estava fraco demais para a combater. Agora, esperava-se pelo seu último suspiro»

jdact

«(…) Como já era de esperar, o inglês Hervey de Glanville e o seu prelado Gilbert de Hastings puseram-se ao lado dos portugueses. E no fim todos concordaram em navegar até Lusbuna, pois qual era o mal em ouvir o que Afonso Henriques tinha para lhes oferecer? Levantavam-se as amarras. Todas as naus transportavam agora mais passageiros, incluindo o arcebispo e os três bispos. Konrad apercebia-se preocupado de quantos portugueses, a maior parte deles camponeses e pescadores, que não entendiam nada de combate nem sequer possuíam armas, tencionavam participar no cerco de Lusbuna, como se este fosse assunto já decidido. Tolerava-se a presença de mulheres, como era aliás costume em campanhas militares, pois elas contribuíam para manter a boa-disposição entre os guerreiros. Só Johann teimava em não aparecer! Onde diabo se meteu esse danado?, perguntava-se Konrad desesperado. Confesso que também estou preocupado, replicou Hadwig. O nosso barco está quase a partir. Konrad começou a reunir as suas coisas e as do irmão e o amigo perguntou-lhe espantado: o que te deu agora? Não posso deixar o miúdo aqui sozinho. Hadwig escancarou os olhos azuis: e arriscas-te a ficares aqui também? Só o tempo que levar a encontrá-lo. Está de certeza no bordel, a divertir-se com a rameirita e nem se dá conta do passar do tempo. Assim que o arrancar de lá, dar-lhe-ei uma boa sova. E depois fazemo-nos ao caminho, em direcção a essa..., Lusbuna. Vós os dois sozinhos?
Não nos perderemos, afinal só precisamos de seguir ao longo da costa. Duzentas milhas são, para dois homens, cerca de uma semana de marcha, no máximo dez dias. Como vós ireis ficar algum tempo por lá para negociardes com o rei, nós lá vos apanharemos. Deus queira que sim... Nisto, Gunther bradou: lá vem ele! Konrad virou a cabeça. E não queria acreditar no que os seus olhos viam: Johann vinha numa correria e pela mão trazia..., a rameirita, que transportava uma pequena trouxa! Os dois saltaram a bordo, mesmo antes do barco se descolar do cais. Que significa isto?, berrou Konrad, mal conseguindo controlar a sua fúria. Ela vem comigo, respondeu Johann ofegante. Isso vejo eu. Então porque perguntas? Konrad forçou-se a manter a calma e replicou: não hão-de faltar rameiras rapaz! Para que é que hás-de levar uma? A partir de hoje, ela já não o é. Como? Vou casar com ela! Konrad precisou de algum tempo para recuperar do seu estarrecer, mas depois vociferou: enlouqueceste frangalhote? Como se eu fosse permitir uma coisa dessas! E quem precisa da tua autorização?, berrou Johann. Estou farto de fazer o que tu me mandas. Não sabes o que dizes. Era o que mais me faltava, ir com uma rameira às... Nunca mais a chames assim! A pele clara de Johann enrubesceu até à raiz dos cabelos, as suas mãos cerraram-se em punhos. Ela tem um nome: Ausenda. E é minha noiva! Seu danado!, rugiu Konrad, lançando-se ao irmão. Já te vou ensinar a... Tem calma, homem! Hadwig e Gunther agarraram-no pelos braços e separaram-no do mais novo. Johann pegou na mão de Ausenda e levou-a para o canto onde tinha a manta. Não dá para acreditar!, fungou Konrad. Para que te hás-de exaltar dessa maneira?, retorquiu Gunther. Verás como o miúdo se enche dela num instante.
O mês de Junho aproximava-se do fim e Aischa ainda não casara com Amir. A cerimónia fora adiada, pois a mãe dela jazia moribunda. Zubaida comera cada vez menos, até que chegou a uma altura em que só ingeria líquidos. Os médicos, estupefactos, admitiam que ela sofresse de uma doença misteriosa. Depois de uma semana inteira a prescindir de alimentos, Zubaida apanhou febre e o seu organismo estava fraco demais para a combater. Agora, esperava-se pelo seu último suspiro. Este parecia próximo quando um ataque febril se apoderou do corpo mirrado, mas Zubaida lá se acalmou e adormeceu por algumas horas. Ao acordar, anunciou que o seu último desejo era uma conversa a sós com a filha. Aischa, só por tua causa me custa deixar este mundo. De resto, anseio pela redenção. E sei que irei direita a Deus. Não fales assim! Fazes-me recear pela tua alma. Não receies! Deus Nosso Senhor prometeu-me que me levaria para junto Dele. Apareceu-me em sonho e revelou-me muita coisa. Que estás para aí a dizer? Eu disse-Lhe que não aguentava mais esta minha vida, mas que por outro lado pretendia evitar manchar-me com o pecado do suicídio. Ele aconselhou-me então a recusar os alimentos e a viver em ascese, como muitos dos nossos santos.
Oh será possível? Pedi-Lhe que tomasse conta de ti, mesmo depois dos cristãos terem conquistado Lusbuna. E sabes o que Ele me disse? Assegurou-me que sobreviverias ao cerco e que encontrarias um cavaleiro cristão do teu agrado! Não quero ouvir mais nada! Casarei com Amir e manter-me-ei fiel à fé verdadeira! Viverás o teu futuro ao lado de um cristão, minha filha. El-rei Afonso Henriques manter-vos-á sob a sua protecção. El-rei?! Esse homem horrível, Alá o maldiga! Endoideceste, mãe! Desculpa que o diga nestas circunstâncias, mas acho que a tua doença te roubou o discernimento. Eu falei com Deus, insistiu Zubaida. Não há outro Deus a não ser Alá e Maomé é o seu profeta! A moribunda fechou os olhos. Depois de um breve silêncio, tornou a abri-los e disse: Estou orgulhosa de ti, minha filha. Guardaste o nosso segredo. Mas irei revelá-lo». In Cristina Torrão, A Cruz de Esmeraldas, Edição Ésquilo, 2009, ISBN 978-989-809-261-8.

Cortesia de Ésquilo/JDACT

Singularidades de uma Rapariga Loura. Eça de Queirós. «Nessa tarde Macário achava-se no quarto de uma hospedaria da Praça da Figueira com seis peças, o seu baú de roupa branca e a sua paixão»

jdact

«(…) Macário contou-me o que o determinara mais precisamente àquela resolução profunda e perpétua. Foi um beijo. Mas esse caso, casto e simples, eu colo-o, mesmo porque a única testemunha foi uma imagem em gravura da Virgem, que estava pendurada no seu caixilho de pau-preto, na saleta escura que abria para a escada... Um beijo fugitivo, superficial, efémero. Mas isso bastou ao espírito recto e severo para o obrigar a tomá-la como esposa, a dar-lhe uma fé imutável e a posse da sua vida. Tais foram os seus esponsais. Aquela simpática sombra de janelas vizinhas tornara-se para ele um destino, o fim moral da sua vida e toda a ideia dominante do seu trabalho. E esta história toma, desde logo, um alto carácter de santidade e de tristeza. Macário falou-me muito do carácter e da figura do tio Francisco; a sua possante estatura, os seus óculos de ouro, a sua barba grisalha, em colar, por baixo do queixo, um tique nervoso que tinha numa asa do nariz, a dureza da sua voz, a sua austera e majestosa tranquilidade, os seus princípios antigos, autoritários e tirânicos e a brevidade telegráfica das suas palavras.
Quando Macário lhe disse, uma manhã, ao almoço, abruptamente, sem transições emolientes: peço-lhe licença para casar, o tio Francisco, que deitava o açúcar no seu café, ficou calado, remexendo com a colher, devagar, majestoso e terrível: e quando acabou de solver pelo pires, com grande ruído, tirou do pescoço o guardanapo, dobrou-o, aguçou com a faca o seu palito, meteu-o na boca e saiu: mas à porta da sala parou, e voltando-se para Macário, que estava de pé, junto da mesa, disse secamente: não. Perdão, tio Francisco! Não. Mas ouça, tio Francisco... Não. Macário sentiu uma grande cólera. Nesse caso, faço-o sem licença. Despedido de casa. Sairei. Não haja dúvida. Hoje. Hoje. E o tio Francisco ia a fechar a porta, mas voltando-se : olá!, disse ela a Macário, que estava exasperado, apopléctico, raspando nos vidros da janela. Macário voltou-se com uma esperança. Dê-me daí a caixa do rapé, disse o tio Francisco. Tinha-lhe esquecido a caixa! Portanto estava perturbado. Tio Francisco..., começou Macário. Basta. Estamos a doze. Receberá o seu mês por inteiro. Vá. As antigas educações produziam estas situações insensatas. Era brutal e idiota. Macário afirmou-me que era assim.
Nessa tarde Macário achava-se no quarto de uma hospedaria da Praça da Figueira com seis peças, o seu baú de roupa branca e a sua paixão. No entanto estava tranquilo. Sentia o seu destino cheio de apuros. Tinha relações e amizades no comércio. Era conhecido vantajosamente: a nitidez do seu trabalho, a sua honra tradicional, o nome da família, o seu tacto comercial, o seu belo cursivo inglês, abriam-lhe, de par em par, respeitosamente, todas as portas dos escritórios. No outro dia foi procurar alegremente o negociante Faleiro, antiga relação comercial da sua casa. De muito boa vontade, meu amigo, disse-me ele. Quem mo dera cá. Mas, se o recebo, fico de mal com o seu tio, meu velho amigo de vinte anos. Ele declarou-mo categoricamente. Bem vê. Força maior. Eu sinto, mas... E todos a quem Macário se dirigiu, confiado em relações sólidas, receavam ficar de mal com seu tio, meu velho amigo de vinte anos. E todos sentiam, mas...» In Eça de Queirós, Singularidades de uma rapariga loura, 1873-1874, Contos, 1901, Sopa de Letras, 2013, ISBN 978-972-870-878-8.

Cortesia de SopadeLetras/JDACT

Singularidades de uma Rapariga Loura. Eça de Queirós. «Ora essa! Se acho! Se lhe parece! Uma peça de sete mil réis! Só se o Senhor as semeia! Safa! Eu dava em doudo!»

jdact

«(…) Depois a morte do conde dos Arcos, os desmaios, e até el-rei todo debruçado, batendo com a mão no parapeito, gritava na confusão, e o capelão da Casa dos Arcos que tinha corrido a buscar a extrema-unção. Ela, Hilária ficara atarracada de pavor: sentia os urros dos bois, os gritos agudos das mulheres, os ganidos dos flatos, e vira então um velho, todo vestido de veludo preto, com a fina espada na mão…, debater-se entre fidalgos e damas que o seguravam, e querer atirar-se à praça, bradando cheio de raiva! É o pai do conde. Ela então desmaia nos braços de um padre da Congregação. Quando veio a si, achou-se junto da praça; a berlinda real está à porta com os boleeiros emplumados, os machos cheios de guizos, e os batedores com pampilhos: el-rei já estava dentro, escondido no fundo, pálido, sorvendo febrilmente rapé, todo encolhido com o confessor; e defronte, com uma das mãos apoiadas à alta bengala, forte, espadaúdo, com o aspecto carregado o marquês de Pombal falando devagar e intimativamente, e gesticulando com a luneta: mas os batedores picaram, os estalos dos postilhões retiniram, e a berlinda partiu a galope, enquanto o povo gritava: viva el-rei, nosso senhor!, e o sino da porta da capela do paço tocava a finados! Era uma honra que el-rei concedia à Casa dos Arcos.
Quando dona Hilária acabou de contar, suspirando, estas desgraças passadas, começou-se a jogar. Era singular que Macário não se lembrava o que tinha jogado nessa noite radiosa. Só se recordava que ele tinha ficado ao lado da menina Vilaça, que se chamava Luísa, que reparara muito na sua fina pele rosada, tocada de luz, e na meiga e amorosa pequenez da sua mão, com uma unha mais polida que o marfim de Diepa. E lembrava-se também de um acidente excêntrico, que determinara nele, desde esse dia, uma grande hostilidade ao clero da Sé. Macário estava sentado à mesa, e ao pé dele Luísa: Luísa estava toda voltada para ele, com uma das mãos apoiando a sua fina cabeça loura e amorosa, e a outra esquecida no regaço. Defronte estava o beneficiado, com o seu barrete preto, os seus óculos na ponta aguda do nariz, o tom azulado da forte barba rapada, e as suas duas grandes orelhas, complicadas e cheias de cabelo, separadas do crânio como dois postigos abertos. Ora como era necessário no fim do jogo pagar uns tentos ao cavaleiro de Malta, que estava ao lado do beneficiado, Macário tirou da algibeira uma peça, e quando o cavaleiro, todo curvado e com um olho pisco, fazia a soma dos tentos nas costas de um ás, Macário conversava com Luísa, e fazia girar sobre o pano verde a sua peça de ouro, com um bilro ou um pião. Era uma peça nova que luzia, faiscava, rodando e fazia à vista como uma bola de névoa dourada. Luísa sorria vendo-a girar, girar, e parecia a Macário que todo o céu, a pureza, a bondade das flores e a castidade das estrelas estavam naquele claro sorriso distraído, espiritual, arcangélico, com que ela, gira, gira, seguia o giro da peça de ouro nova. Mas, de repente, a peça, correndo até à borda da mesa, caiu para o lado do regaço de Luísa, e desapareceu, sem se ouvir no soalho de tábuas o seu ruído metálico. O beneficiado abaixou-se logo cortesmente: Macário afastou a cadeira, olhando para debaixo da mesa: a mãe Vilaça alumiou com um castiçal, e Luísa ergueu-se e sacudiu com pequenina pancada o seu vestido de cassa. A peça não apareceu.
É célebre, disse o amigo de chapéu de palha. Eu não ouvi tinir no chão. Nem eu, nem eu, disseram. O beneficiado, curvado como um F, buscava tenazmente, e Hilária mais nova rosnava o responso de Santo António. Pois a casa não tem buracos, dizia a mãe Vilaça. No entanto Macário exalava-se em exclamações desinteressadas: pelo amor de Deus! Ora que tem! Amanhã aparecerá! Tenham a bondade! Por quem são! Então menina Luísa! Pelo amor de Deus! Não vale nada. Mas mentalmente estabeleceu que houvera uma subtracção, e atribui-a ao beneficiado. A peça rolara, decerto, até junto dele, sem ruído, ele pusera-lhe em cima o seu vasto sapato eclesiástico e tachado, depois, no movimento brusco e curto que tivera, empolgara-a vilmente. E quando saíram, o beneficiado, todo embrulhado no seu vasto capote de camelão, dizia a Macário pela escada: ora o sumiço da peça, hem? Que brincadeira! Acha, senhor beneficiado?, disse Macário parando, absorto de impudência.
Ora essa! Se acho! Se lhe parece! Uma peça de sete mil réis! Só se o Senhor as semeia! Safa! Eu dava em doudo! Macário teve tédio daquela astúcia fria. Não lhe respondeu. O beneficiado é que acrescentou: amanhã mande lá pela manhã, homem. Que diabo... Deus me perdoe! Que diabo! Uma peça não se perde assim. Que bolada, hem! E Macário tinha vontade de lhe bater. Foi neste ponto que Macário me disse, com a voz singularmente sentida: enfim, meu amigo, para encurtarmos razões resolvi-me casar com ela. Mas a peça? Não pensei mais nisso! Pensava eu lá na peça! Resolvi-me casar com ela!» In Eça de Queirós, Singularidades de uma rapariga loura, 1873-1874, Contos, 1901, Sopa de Letras, 2013, ISBN 978-972-870-878-8.

Cortesia de SopadeLetras/JDACT

sábado, 18 de novembro de 2017

Camões. A Infanta dona Maria. José Maria Rodrigues. «Ondas, dizia, antes que Amor me mate, tornai-me a minha nympha, que tão cedo me fizestes á morte estar sujeita!»

jdact

«(…) Comecemos por estas redondilhas, escriptas naturalmente antes do mando injusto, que o forçou a embarcar.

Mote
Se me desta terra fôr,
Eu vos levarei, amor.

Voltas

Se me fôr e vos deixar
(Ponho por caso que possa),
Esta alma minha, que é vossa,
Comvosco me ha de ficar.
Assi que, só por levar
A minha alma, se me fôr,
Vos levarei, meu amor.

Que mal pode maltratar-me,
Que comvosco seja mal?
Ou que bem póde ser tal,
Que sem vós possa alegrar-me?
O mal não pode enojar-me,
O bem me será maior,
Se vos levar, meu amor.

Vejamos agora como, alludindo a uma predicção, o poeta nos dá noticia das duas desgraças que lhe aconteceram em um só dia, a perda dos haveres que tinha agenciado no Oriente e com que contava para a velhice, e a morte da sua alegre e doce companheira:

Cantando estava um dia, bem seguro,
Quando passava Sylvio e me dizia
(Sylvio, pastor antigo, que sabia
Por o canto das aves o futuro):

Liso, quando quiser o fado escuro,
A opprimir-te virão em um só dia
Dous lobos; logo a voz e melodia
Te fugirão, e o som suave e puro.

Bem foi assi, porque um me degolou
Quanto gado vaccum pastava e tinha,
De que grandes soldadas esperava;

E, por mais dano, o outro me matou
A cordeira gentil, que eu tanto amava,
Perpetua saudade da alma minha.
(Soneto 172).

E, vagueando pelos logares próximos da terrível catastrophe, de que a custo salvara a vida e o Canto, em que celebrava os feitos dos portugueses, o poeta exprime a sua dor pela morte da cordeira gentil, em versos de incomparável belleza.

O ceu, a terra, o vento sossegado…
As ondas, que se estendem por a area...
Os peixes, que no mar o somno enfreia...
O nocturno silencio repousado...

O pescador Aonio, que, deitado
Onde co vento a agua se meneia,
Chorando, o nome amado em vão nomeia,
Que não póde ser mais que nomeado:

Ondas, dizia, antes que Amor me mate,
Tornai-me a minha nympha, que tão cedo
Me fizestes á morte estar sujeita!

Ninguém responde. O mar de longe bate.
Move-se brandamente o arvoredo.
Leva-lhe o vento a voz, que ao vento deita…
(Soneto 173).

Ah minha Dynamene! Assi deixaste
Quem nunca deixar pôde de querer-te?
Que já, nympha gentil, não possa ver-te!
Que tão veloz a vida desprezaste!

Como por tanto tempo te apartaste
De quem tão longe andava de perder-te?
Puderam essas aguas defender-te
Que não visses quem tanto magoaste?

Nem somente fallar-te a dura morte
Me deixou, que, apressada, o negro manto
Lançar sobre os teus olhos consentiste.

Oh mar! ó ceu! ó minha escura sorte!
Qual vida perderei que valha tanto,
Se inda tenho por pouco o viver triste?
(Soneto 170).

In José Maria Rodrigues, Camões e a Infanta Dona Maria, Separata do Instituto, Imprensa da Universidade de Coimbra, Coimbra, 1910, há memória do Mal-Aventurado Principe Real Luis Philippe (3 1761 06184643.2, PQ 9214.R64 1910.C1.Robarts/.

Cortesia doAHistórico/UCoimbra/JDACT

Camões. A Infanta dona Maria. José Maria Rodrigues. «Esta foi a celeste formosura da minha Circe, e o magico veneno, que pôde transformar meu pensamento»

jdact

(…) No soneto Quando cuido, contemporâneo da canção 6.ª insiste o poeta no receio que tem de se esquecer da infanta:

Quando cuido no tempo que contente
Vi as pérolas, neve, rosa e ouro,
Como quem vê por sonhos um tesouro,
Parece tudo tenho aqui presente.

Mas, tanto que se passa este accidente,
E vejo o quão distante de vós mouro,
Temo quanto imagino por agouro
Porque de imaginar também me ausente.

Já foram dias em que por ventura
Vos vi, Senhora, se, assi dizendo, posso
Co coração seguro estar sem medo.
[……. se isto dizer posso
Co coração seguro, sem ter medo]

Agora, em tanto mal, não me assegura
A própria fantasia, e nojo vosso.
Eu não posso entender este segredo!

Qual a causa porque o poeta receava ausentar-se de imaginar na infanta? Seria effectivamente por ver quão distante della morria?
Mas não se lê na elegia 3.ª:

Uma cousa, Senhor, por certa asselle:
Que nunca amor se afina, nem se apura.
Em quanto está presente a causa delle?

Seria porque estava convencido de que a infanta não era estranha ao seu desterro para as Molucas e castigava com tão grave penitencia tão pequeno erro, como era o ter-lhe amor? Mas não diz elle na canção 6.ª :

... Se tão longo c misero desterro
Vos dá contentamento,
Nunca me acabe nelle meu tormento?

Nota: Veja-se também o soneto 68, já citado:
Dai-me uma lei, Senhora, de querer-vos,
Porque a guarde, sob pena de enojar-vos.
Agora a própria phantasia não assegura o poeta de que não venha a aborrecer a infanta. É isso que elle leme.

É que estas causas, que, por si sós, lhe não arrancariam do coração o seu alto pensamento, começaram a avolumar-se, pela acção do magico veneno, que uma Circe, de celeste formosura, lhe ia ministrando. E, sentindo os effeitos desse veneno, Camões assustava-se com a ideia de olvidar a bem-amada. Como era possível que se lhe apagasse da alma aquelle gesto tão soberano, que lhe havia mudado o ser, de humano em divino? Como era possível que abandonasse aquelle seu pensamento, pelo qual teria morrido contente?

Eu não posso entender este segredo!

exclama o angustiado poeta. Mas o veneno foi produzindo os seus effeitos e operou a receada transformação. Eis como o poeta nos apresenta a estranha creatura, que se lhe apoderou do coração e dos sentidos, a ponto de obliterar a imagem da infanta:

Um mover d’olhos, brando e piedoso,
Sem ver de quê; um riso brando e honesto,
Quasi forçado; um doce e humilde gesto,
De qualquer alegria duvidoso;

Um despejo quieto e vergonhoso;
Um repouso gravíssimo e modesto;
Uma pura bondade, manifesto
Indicio da alma, limpo e gracioso;

Um encolhido ousar, uma brandura;
Um medo sem ter culpa, um ar sereno;
Um longo e obediente sofrimento:

Esta foi a celeste formosura
Da minha Circe, e o magico veneno,
Que pôde transformar meu pensamento.
(Soneto 35).

De quem se trata? Naturalmente de alguma estonteadora formosura oriental, que, com a sua apparente impassibilidade, tão profunda revolução produziu na alma do apaixonado adorador da infanta. Do que me não resta duvida é de que o poeta trazia comsigo a seductora Circe, quando naufragou na costa da Cochinchina, e ahi a viu perecer afogada, sem lhe poder valer. E foi então que elle, ao exprimir a sua dor, attingiu o supremo grau na poesia lyrica». In José Maria Rodrigues, Camões e a Infanta Dona Maria, Separata do Instituto, Imprensa da Universidade de Coimbra, Coimbra, 1910, há memória do Mal-Aventurado Principe Real Luis Philippe (3 1761 06184643.2, PQ 9214.R64 1910.C1.Robarts/.

Cortesia doAHistórico/UCoimbra/JDACT

Camões. A Infanta dona Maria. José Maria Rodrigues. «Que em vós achem abrigo as maguas que aqui digo, emquanto der o sol virtude á lua; porque de gente em gente…»

jdact

(…) Não é para mim motivo de afllicção ou receio, o temor de me esquecer da infanta, pois esse receio seria sígnal de que a esperança ainda não estava de todo morta em mim. Oxalá que neste perigo em que estou de me esquecer da bem-amada, eu tivesse receio de a esquecer.

[…]
Mas triste quem não pôde já perder!
Senhora, a culpa é vossa,
Que, para me matar,
Bastára um’hora só de vos não ver.
Pusestes-me em poder

De falsas esperanças,
E do que mais me espanto:
Que nunca vali tanto,
Que visse tanto bem como esquivanças.
Valia tão pequena

Não póde merecer tão doce pena.
Houve-se Amor comigo
Tão brando ou pouco irado,
Quanto agora em meus males se conhece.
Que não ha mór castigo,

Para quem tem errado,
Que negar-lhe o castigo que merece.
Da sorte que acontece
Ao misero doente,
Da cura despedido,

Que o medico advertido
Tudo quanto deseja lhe consente,
O Amor me consentia
Esperanças, desejos e ousadia.
E agora venho a dar

Nota: Lê-se na 1ª edição (versos 72-78)
E bem como acontesce
Que, assi como ao doente.
Da cura despedido,
O medico sabido
Tudo quanto deseja lhe consente,
Assi me consentia
Esperança, desejo & ousadia.

Conta do bem passado
A esta triste vida e longa ausência.
Quem póde imaginar
Que houvesse em mi pecado,
Digno duma tão grave penitencia?

Olhai que é consciência,
Por tão pequeno erro,
Senhora, tanta pena!
Não vedes que é onzena?
Mas, se tão longo e misero desterro

Vos dá contentamento,
Nunca me acabe nelle meu tormento.
Rio formoso e claro
E vós, ó arvoredos.
Que os justos vencedores coroais

E ao cultor avaro,
Continuamente lêdos,
De um tronco só diversos frutos dais,
Assim nunca sintais
Do tempo injuria algua,

Que em vós achem abrigo
As maguas que aqui digo,
Emquanto der o sol virtude á lua;
Porque de gente em gente
Saibam que já não mata vida ausente.

Canção, neste desterro viverás,
Voz nua e descoberta,
Até que o tempo em ecco te converta.
(canção 6ª)

Nota: Segundo W. Storck, que suppõe esta canção escripta nas ilhas de Banda, trata- se das moscadeiras. Estes diversos fructos, que nascem de um tronco só, não podem ser senão a flor e a noz moscada, o dúplice grão cheiroso da Myrijica aromática, tão bella na sua ramagem laurinea. Não resta, porém, duvida que o poeta falla aqui das palmeiras, que os justos vencedores coroam, e que tanto abundam nas Molucas. Os diversos fructos que provêm d’um só tronco podem significar os variados productos de certas palmeiras. Eis como elle começa: Ruano. Do arvore dos coquos, chamado assim dos Portuguezes, me dizei; que sempre ouvi dizer que era hum arvore que dava muitas cousas nesseçarias á vida humana. Orta. Dá tantas e nesseçarias, que não sey arvore que dê a sesta parte. Ou alludirá o poeta ao facto de terem o nome de palmeiras plantas que dão fructos tão differentes como o coco, a tâmara, a areca, etc.? A leitura de Barros, Década 3.ª, 5, 5, favorece a primeira explicação». In José Maria Rodrigues, Camões e a Infanta Dona Maria, Separata do Instituto, Imprensa da Universidade de Coimbra, Coimbra, 1910, há memória do Mal-Aventurado Principe Real Luis Philippe (3 1761 06184643.2, PQ 9214.R64 1910.C1.Robarts/.

Cortesia doAHistórico/UCoimbra/JDACT

Até que o Amor me Mate. Maria Lopo Carvalho. «Ia cansada de subir toda aquela colina, gozando a companhia do meu querido amigo António Ribeiro, a quem todos chamam Chiado e com quem me havia cruzado na rua»

jdact

Violante Andrade. Xabregas, 20 de Janeiro, 1544
«(…) Não esqueço as rimas que me segreda ao ouvido, enquanto os nossos corpos, endoidecidos, dançam perdidos entre vales luminosos e setas incendiárias:

A violeta mais bela que amanhece
no vale, por esmalte da verdura,
com seu pálido lustre e fermosura,
por mais bela, Violante, te obedece.

Diz-me ele que é minha a culpa; que sou eu a violeta mais bela que amanhece e eu a poesia de que ele é poeta. Cuidava eu que aquele fogo era fugaz, impermanente. Iludia-me. Quando se escapuliu do meu leito, os lençóis guardaram a forma do seu corpo, tomados pelo venenoso sabor da eternidade. Soube-o meu para sempre e, ainda que ousasse morrer, teria de o matar de novo para que não persistisse, para que não perdurasse. Até lá tê-lo-ia tão-só por perto, qual capricho ou devaneio, para o saborear a meu bel-prazer. E assim fiz uma e outra vez, correndo sérios perigos. Mas que gozo posso eu tirar de uma vida sem perigo? Comecei depois a exigi-lo só para mim. Doía-me o tempo que dava a Antoninho, amofinavam-me os olhares deleitosos que lhe lançava Joaninha, enlouquecia-me o tempo que não era meu. O tempo é sempre o que mais me foge e mais partidas me prega: alturas há em que o tempo é líquido, longo e sem sobressaltos, outras em que se torna esquivo, imaterial, sem que o consiga prender. Passei a seguir Luís Vaz por toda a parte, a procurá-lo, a impor-lhe a minha presença. Insisto, até para que me ouça a mim mesma: não se trata de amor mas tão-só de desejo; são coisas bem distintas. E o desejo comanda-me. Por isso meço forças comigo: ou eu ou o desejo. Algum dos dois vai ter de morrer. Serei eu. Fui à missa na igreja das Chagas com essa chaga ir morder-me a pele e a alma. Podia perder tudo: a minha honra, a minha fidalguia, as minhas posses, mas nunca perderia de vista o que queria. Que ninguém ousasse desafiar-me, que ninguém se cruzasse comigo na minha demanda, nem mesmo os meus filhos. Decidi morrer para fazer que vivessem, ilesos, os meus sentidos. Terá agora o poeta pela frente uma desvairada luta com o animal indomável que sou: o que junta a paixão ao ódio, a volúpia à raiva, e sensibilidade à cólera. Assim sou, assim Deus e a vida me fizeram.

Catarina Ataíde. Igreja das Chagas, Sexta-feira Santa, 16 de Março, 1544
Não sou de grandes falas, nem de mostrar o que sinto. Mas um desusado enlevo de alma acometeu-me esta Sexta-Feira Santa, aquando da cerimónia da paixão e morte de Cristo, na igreja das Chagas. Ia cansada de subir toda aquela colina, gozando a companhia do meu querido amigo António Ribeiro, a quem todos chamam Chiado e com quem me havia cruzado na rua. Ser-se jocoso e descarado na Quaresma é coisa contrária ao preceito, ao decoro e à devoção, mas tão bem me dispõe o Chiado, sempre amável e lisonjeiro, sempre com uma palavra perfumada para atirar às donzelas, que não houve como esquivar-me: sabeis o que são beijos tristes? Quereis que vos diga? Senhora, sois tão bela, sois pequena de corpo e engraçada por natureza! Aceitai esta jóia. Insistia, entregando-me, por jóia, mais uma das suas rimas. É certo que a minha condição de dama da rainha dona Catarina e a solenidade da Quaresma não me permitiam a réplica, nem eu me dou a esses motes, mas sorri. Sou por natureza reservada e até tímida, e fui ensinada a nunca mostrar qualquer sentimento, mas sorri. Acresce que ao empurrar a porta lateral por onde nós, damas da Corte, usamos entrar, notei que alguém se adiantara e me segurava a porta, permitindo-me a passagem». In Maria João Lopo Carvalho, Oficina do Livro, LeYa, 2016, ISBN 978-989-741-488-6.

Cortesia de OdoLivro/JDACT

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Até que o Amor me Mate. Maria Lopo Carvalho. «Salvei-o dos braços de uma meretriz. Confidenciou-me depois que queria esquecer o corpo da formosa Leonor que desflorou em Coimbra por detrás do roseiral»

jdact

«(…) Fiquei a cogitar em como saberia o mestre Bento tanto sobre cerejas, amores, apetites e moças de Coimbra, mas deixei para depois a desconfiança. Leonor..., insisti, diz-me ele que Leonor rima com amor, que é fresca e formosa, bonita e reservada e que lhe é penoso deixar de olhar para ela tendo começado a olhar para ela. Será coisa séria? E de Isabel, a quem chama Sibela e Belisa, trocando-lhes as letras para confundir? Diz que tem olhos que por um brando movimento podem dar claridade à noite escura... Fala da mão, do seio, do colo de alabastro... Chama-lhe meu sol, meu belo astro. Leonor, Isabel..., ora, credo, Ana, não dês importância, já to disse. A condessa de Linhares, dona Violante, cortará pela raiz todas as desatenções de Luís Vaz. Diz quem com ela privou que é mulher fria como lâmina de espada. Quando quer uma coisa não se resigna, e, por ora, quer a condessa ter um mestre à altura do futuro titular. Podes crer que o encargo é tamanho que a condessa não lhe dará vagares para devaneios amorosos. Em Xabregas, Luís Vaz há-de apenas ater-se à alta função para que foi chamado. Não estou em crer que assim seja. Conheço o meu enteado como a palma das minhas mãos e a cantiga do mestre Bento, que logo depois tornou a Coimbra, não me aquietou. Para mal dos meus pecados e por mais que me pese dizê-lo, o muito que lhe quero, ao invés de me toldar as vistas e a razão, faz com que melhor o enxergue: Luís Vaz é o pecado em pessoa.

Violande Andrade. Xabregas, 20 de Janeiro, 1544
Salvei-o dos braços de uma meretriz. Confidenciou-me depois que queria esquecer o corpo da formosa Leonor que desflorou em Coimbra por detrás do roseiral. Dei-lhe um ofício. Sendo justa, devo confessar que o meu Antoninho o vê como um pai. Segue Luís Vaz por todo o lado, tentando imitar-lhe as rimas. Com ele aprendeu os grandes poetas gregos e latinos, e até João Barros e Francisco Morais pasmam com os conhecimentos que já revela. Dou graças a Deus Nosso Senhor que assim me quis ponderada e fria. Ninguém me derrete o coração, porém com Luís Vaz..., arrisco. E o risco é tão ténue e fino que quase me dá ganas de o sufocar. Em tudo o que faço uso os sentidos sem peneira, mas jamais consinto que o amor em mim se instale de modo a que de mim verta. Foi em certo sarau em minha casa que tudo se precipitou. Vi-me sentada ao lado do mestre e deixei propositadamente cair um livro. Quando me curvei, pretendendo apanhá-lo, senti a mão de Luís Vaz roçar na minha; depois, uns olhos azul-escuros vieram roubar a luz dos meus. Daí até o ter deixado entrar no meu leito para descobrir as ruas e vielas do meu corpo foi um pequeno passo. Dei graças por estar o senhor conde, meu marido ausente em Paris. Luís Vaz é em tudo raro. Não o amo, digo e repito que, em mim, o coração mora sempre num beco que os sentidos não visitam. Diz ele que é um homem feito de carne e de sentidos, que em várias flamas variamente arde, mas se amar é verbo que não posso nem quero conjugar, já os sentidos nos seus vários tempos e modos em vária chama me ardem». In Maria João Lopo Carvalho, Oficina do Livro, LeYa, 2016, ISBN 978-989-741-488-6.

Cortesia de OdoLivro/JDACT

Até que o Amor me Mate. Maria Lopo Carvalho. «Este amor que vos tenho, limpo e puro, de pensamento vil nunca tocado, em minha tenra idade começado…»

jdact

«(…) Não fiques assim, Ana, não é caso para tanto!, disse Bento, arrancando-me ao redemoinhar das memórias e dando à voz um tom terno e paternal. O moço, ainda que doidivanas, é senhor de um saber refinado. Acaso cuidavas que Luís Vaz serviria na ilustre Casa de Linhares se não mostrasse um conhecimento profundo do latim, das línguas vivas e das ciências modernas? Como pode ele ter tantos saberes se pouco assistiu às lições? Alguma coisa não está conforme, Bento. Meu cunhado, que era de réplica pronta, atirou-me com uma escusa que não me persuadiu: escuta, comadre. Luís Vaz não era moço de frequentar as lições dos mestres, mas, como te disse, não foram raras as vezes que o vi horas a fio na livraria da universidade. Dizem que ao tocar das matinas já por lá andava perdido nas leituras. Clássicos e modernos, de tudo tomou conhecimento. Quando o inquiria sobre os propósitos de semelhante assiduidade à livraria e tão pouca às lições, a resposta era sempre a mesma: é o tédio, tio Bento, para quê ouvir dos outros o que por mim só posso aprender? E o saber de experiência feito, tio Bento, pois não achais que, conjugando experiência e engenho, mais se alcança? Luís Vaz era avesso às rotinas da universidade, folgava com a rapaziada até altas horas em lugar de se recolher e, pela madrugada, depois de uma noite em claro, rumava à livraria. Bastas vezes o vi eu, já o Sol ia alto, a cabecear em cima da estante.
Em nada daquela narrativa podia eu achar consolo. Estava o tio a pagar-lhe os estudos e andava o rapaz a vaguear noite dentro? Não te inquietes, Ana Sá. Estou seguro de que a condessa de Linhares o há-de domar. Tenho por certo que no Palácio de Xabregas vai Luís Vaz aprofundar os seus saberes. A livraria dos condes é de tal sorte valiosa que muito o irá deleitar. Ele que tenha tino e lá se fará erudito. Queira Deus que assim seja! Tinha mais inquietações e não podia ir-me dali sem respostas. E uma tal de Leonor, mestre Bento, alguma vez ouvistes falar de semelhante? E a prima Isabel? Tantos versos lhes vi dedicados... Insisti, porque era coisa que me inquietava. Luís Vaz deixara amores dependurados nas margens do Mondego; iria tentar recolhê-los? Iria a saudade recambiá-lo para Coimbra, abandonando a casa dos condes? "Veja-me estas rimas, mestre Bento, posso não ser erudita, mas percebo o bastante para lhes ver grande sentimento.
Rebusquei nas dobras do saio e estendi-lhe o caderno com a caligrafia apaixonada e inconfundível do meu Luís Vaz. Por ali escorria, em letra miúda, um não-mais-acabar de cantigas, romances, vilancetes, em redondilhas de cinco e sete sílabas, já quase fora de moda, e sonetos, sobretudo sonetos no novo estilo tão em voga.

Este amor que vos tenho, limpo e puro,
de pensamento vil nunca tocado,
em minha tenra idade começado,
tê-lo dentro desta alma só procuro.

Ora, comadre, Leonores, Margaridas, Rosas, Beatrizes, Isabéis..., parece que as estou a ver a passarem-me assim de perfil, todas igualmente deliciosas! Deitou um olhar fugidio às rimas, devolvendo-me logo o caderno. As moças de Coimbra são como as cerejas: colhe-se a primeira, tem-se logo vontade da segunda e da terceira... Difícil é parar. Sabes hem que Luís Vaz é um mancebo que atrai os olhares e as atenções. Que todos os males sejam esses, comadre..., pois pecará carnalmente e tornará a pecar, se for só com essas moças e se for cumprindo com a confissão não virá daí mal ao mundo». In Maria João Lopo Carvalho, Oficina do Livro, LeYa, 2016, ISBN 978-989-741-488-6.

Cortesia de OdoLivro/JDACT

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Os Passos em Volta. Herberto Helder. «Annemarie despiu-se e deitou-se nua sobre o cobertor enquanto eu tentava aquecer um pouco de água. Falamos longamente da chuva, do amor e das leis»

Cortesia de wikipedia e jdact

Polícia
«(…) Nessa manhã de Dezembro em que chovia (eu falaria depois a Annemarie da chuva lenta, longa), M. Maurice começou a duvidar da sua influência e da influência do partido comunista. Disse-me que já nada poderia fazer por mim. Seria melhor eu partir para a Alemanha ou a França, ou arranjar então lugar num barco que saísse de Antuérpia. Considerava as palavras do meu amigo enquanto bebia cerveja num bar perto da estação. No calor do bar a roupa fumegava. Gotas de água à volta. Calma solidão sem dor. Havia música. Meu Deus! A minha alma conhecia os seus caminhos. A terra era grande. Tudo quanto eu fizesse, cada coisa que me acontecesse, não me tomariam maior ou menor que a fé ou o desespero. Pois o desespero era antigo: uma delgada, tenacíssima raiz. Era uma experiência, um pensamento, um destino, algo que eu aceitava, que me induzia talvez a amar a vida. Estava só no meio da chuva tranquila. Podemos sempre beber uma cerveja como se fosse a última. Em cada instante a terra ainda consegue ser completa: é a única, e isso mesmo a renova. Annemarie sentou-se à minha mesa. Vi logo o tamanho da sua solidão: tinha o tamanho do mundo. Ela era a criatura mais só do mundo. E a sua história apareceu, simples, tenebrosa, entre as nossas duas cervejas. Todas as histórias pessoais são simples e tenebrosas. Não me comovi. Comovido já eu estava: com as coisas, comigo, com a chuva sobre a cidade. Talvez houvesse uma irónica alegoria em nós dois ali sentados diante dos belos copos frios, compreendendo ambos tão facilmente o que nos acontecia e iria acontecer que não tínhamos pressa. Poderíamos morrer ali mesmo. Esperávamos.
Annemarie era francesa, de Lyon. Abandonara um filho de dois anos. O marido combatia na Argélia, talvez estivesse morto. (Ela dizia que o amava, e por que não? O amor e o desespero e a desordem, isso é a nossa parte do jogo). Annemarie não queria regressar à França. Mas vivia na Bélgica sem documentos. Fora já posta na fronteira duas vezes: voltara, voltaria sempre. Que pode fazer uma pessoa senão voltar, estar fora, ser completamente estrangeira, não ter papéis? A terra é enorme. Paramos num sítio. E agora estamos sentados e procuramos, com a nossa história simples e desesperada, atrair o cuidado, o fervor alheio. É assim. Renovamos a espera inútil; o milagre onde não há milagres; a luz ao fundo, sempre ao fundo. Somos ilegais, em cada dia criamos uma rápida, brevíssima beleza surpreendente contra a face do pavor. M. Maurice perdera a última esperança de me salvar. O partido comunista, a viagem de ida e volta em comboio até Clabeck, a chuva, uma impossível salvação (que salvação?), embrulhavam-se dentro de mim, e eu sentia-me embriagado, feliz, irresponsável: sentia-me como se estivesse perto de morrer.
Agora uma mulher bebia cerveja na minha solidão, falava do filho que abandonara, do marido que estava na guerra. (Pronunciava as palavras devagar, arrancava-as inexoravelmente a esse sempre vivo e sempre secreto vocabulário do medo e do empenhamento.) Dizia sorrindo que estava perdida. Gostava da cerveja belga, achava Bruxelas insuportável. Sim, queria morrer. Queria morrer anonimamente, no fim do deserto. Eu percebia. Os chuis farejavam à volta da Gare du Nord, farejavam-nos a todos: pu…, chulos, vadios, indocumentados, ilegais. Sabiam que ela voltara: seria presa? Já o fora algumas vezes: não era o pior. Seria mesmo a única forma agora possível de pensar nas coisas, de avaliar o mundo. Mas aí acabava o jogo. Não se podia dizer: sou livre. Não se podia arriscar a liberdade. (E perguntar: que liberdade?) Eu também seria preso, repatriado: andaria depois por Lisboa a dormir em quartos de amigos, em camaratas públicas. À caça de um almoço, uma sopa, um copo de leite. Todos os lugares são no estrangeiro. E eu passaria junto ao rio, olhando a crespa e lívida massa das águas, a outra margem com o fumo vermelho das refinarias a sufocar a branca luz a prumo. E imaginava já a prisão em Bruxelas. Era preciso enganar a polícia. Rebentar de fome, sim, estrangeiramente, mas não perder nunca a liberdade. (E a pergunta: que liberdade?)
Annemarie tinha o dom da poesia subversiva. Subvertia tudo. A seu lado senti que a minha vida era importante. Que a arriscaria, sempre e sempre, que perderia, mas nada cedendo de mim próprio. O amor do perigo embebedava-me. Começávamos então a lutar contra a polícia do mundo inteiro. Quando anoiteceu saímos do bar e fomos a pé, vigilantes, protegidos, até ao meu quarto de Laeken. Contornamos o que nos parecia suspeito: um carro parado, um vulto vagaroso, as sombras, as vozes. Foi ainda preciso subir furtivamente as escadas do prédio, pois a senhoria já me mandara embora, porque 1º eu não lhe pagava a renda, porque 2º não queria complicações com a polícia. Mas depois o quarto foi nosso. Annemarie despiu-se e deitou-se nua sobre o cobertor enquanto eu tentava aquecer um pouco de água. Falamos longamente da chuva, do amor e das leis». In Herberto Helder, Os Passos em Volta, 1994, 2004, Assírio & Alvim, 2009, ISBN 978-972-370-119-7.

Cortesia de AAlvim/JDACT