segunda-feira, 21 de maio de 2018

A Perseguição aos Judeus e Muçulmanos de Portugal. François Soyer. «Para reforçar ainda mais a sua separação física dos habitantes cristãos, foram erguidos muros e portões em redor desses bairros»

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Manuel I e o fim da tolerância religiosa (1496 - 1497)
«(…)
Os judeus
Os primórdios da fixação judaica na Península Ibéria estão envoltos em lendas posteriores. A partir do século XI, vários autores judeus fazem remontar as origens dos judeus sefardiças à destruição do Segundo Templo de Jerusalém pelos romanos em 70 d.C., e às vezes até mesmo à destruição do Primeiro Templo, no século VI a.C., por Nabucodonosor, o rei da Babilónia. Depois das suas vitórias, estes conquistadores terão deportado milhares de judeus para a Espanha. A autenticidade histórica destas afirmações é, obviamente, impossível de confirmar. Como todos os mitos fundadores, estes relatos serviam o duplo propósito de fornecer aos judeus ibéricos uma lenda de origem que estabelecesse as suas ligações à história comum de todos os judeus e, ao mesmo tempo, os distinguisse dos seus correligionários fora da Península Ibérica.
Além das lendas e do folclore, a única certeza é que a presença judaica na Ibéria antecede, em muitos séculos, não só a conquista islâmica mas também a fundação de Portugal. A hipótese mais provável é a de que a fixação de judeus na Península Ibérica tenha ocorrido no primeiro ou segundo séculos da era cristã, quando membros da diáspora judaica se espalharam pelo Império Romano. Já no início do século IV, em 303 ou 306 d.C.. o Concilio de Elvira promulgara legislação antijudaica. A prova arqueológica mais antiga confirmando a existência de judeus na Península Ibérica é uma inscrição descoberta em Toledo e datada do século III d.C.. Por outro lado, os indícios arqueológicos do estabelecimento de judeus na região que mais tarde viria a ser o reino medieval de Portugal remontam ao reino visigótico pós-romano. Uma estela funerária com inscrições hebraicas descoberta em Espiche, perto de Lagos no Algarve, foi datada dos séculos VI ou VII d.C.. Mais recentemente, uma inscrição lapidar em latim exibindo a representação de um candelabro de sete braços, ou menörah, e datada de 480 d.C., foi descoberta em Mértola, no Alentejo.
Entre os séculos VIII e XI, não existem quaisquer dados referentes a judeus vivendo ao longo da costa atlântica da Península Ibérica. Só podemos presumir que os judeus nesta zona permaneceram in situ depois da rápida conquista islâmica de 711-715 e, como outras comunidades judaicas na Península, certamente se adaptaram ao novo poder. Sob o domínio muçulmano, os judeus da região que mais tarde seria Portugal ter-se-iam juntado à população cristã local como dhimmis: povos do Livro protegidos que beneficiavam da tolerância oficial em troca de um imposto individuai especial: a jizya. A primeira prova documental de judeus estabelecidos na zona é uma referência casual a habitantes judeus em Coimbra em 950, durante o período em que aquela cidade se encontrava sob o domínio cristão. O foral de Santarém em 1095 incluía uma lei punindo o homicídio de judeus. Outros forais confirmam plenamente a presença de judeus em Coimbra durante os séculos XI e XII. No entanto, não se sabe se estes judeus chegaram com os conquistadores cristãos ou se pertenciam à população local das cidades conquistadas.

Organização comunitária: judiarias, mourarias e comunas
Os documentos em língua portuguesa dos séculos XIV e XV distinguiam claramente dois conceitos: as comunas de judeus ou de mouros e a judiaria e a mouraria. Embora comuna e judiaria/mouraria sejam muitas vezes confundidas, estes termos, na verdade, tinham dois significados muito diferentes.

Judiarias e mourarias
Os documentos régios e não régios empregavam as palavras judiaria e mouraria para designar zonas geográficas em cidades, ruas, subúrbios e bairros, onde residiam habitantes judeus e muçulmanos. Inicialmente, estes termos foram usados provavelmente para descrever áreas onde membros de uma comunidade tendiam naturalmente a agrupar-se. No século XIV, contudo, as judiarias e mourarias tornaram-se zonas segregadas onde judeus e muçulmanos eram obrigados por lei a residir. Pedro I (1357-1367) decretou, em 1361, que, sempre que a população de qualquer das minorias ultrapassasse os dez indivíduos, estes deviam a partir de então residir apenas nas suas respectivas judiarias ou mourarias. Os membros de ambas as minorias eram obrigados a permanecer nos seus bairros depois de os sinos das igrejas tocarem para as vésperas ao cair da noite e não podiam sair, sob pena de uma pesada multa ou um açoite público para os reincidentes. Para reforçar ainda mais a sua separação física dos habitantes cristãos, foram erguidos muros e portões em redor desses bairros. As judiarias e mourarias maiores gozavam de mais serviços comunitários. As comunidades judaica e muçulmana de Lisboa tinham os seus próprios talhos, hospitais, escolas, banhos públicos e, nalguns casos, até bordéis e prisões. Um cemitério comunitário isolado situava-se, normalmente, a alguma distância da judiaria ou da mouraria». In François Soyer, A Perseguição aos Judeus e Muçulmanos de Portugal, 2007, Edições 70, 2013, ISBN 978-972-441-709-7.

Cortesia de E70/JDACT

Onde Vais Isabel? Maria Helena Ventura. «Fez doze anos nos finais do mês passado, a idade temida pelas princesas a quem os pais destinam varão coroado. Há seis via morrer o avô…»

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«(…) Só me resta voltar ao ponto de partida, esperar que os acontecimentos lançados por meus tios determinem o que vou fazer. Já não os vejo. Só o rapaz dos cavalos varre agora o chão molhado. De novidades não sabe: está tudo na mesma, não me disseram mais nada; e meus tios?; entraram por ali... Indica-me a passagem para os claustros, por onde ambos metemos a primeira vez. Mas vencido o lanço de escadas, feito um troço do passadiço de cerâmica vidrada, não avisto Juan nem Soledad. A porta de acesso à planta superior e às adegas, na de baixo, continua aberta. Gente, pouca. Nem dona Isabel aparece na varanda da sala de bordar. E como poderia, se para lá chegar teria de descer as escadas, atravessar o Salão do Trono, falar aos convidados? O mais certo é aproveitar o silêncio, para forrar o coração de lembranças aconchegantes de Zaragoza, o paço de Aljaferia, trinado de pássaros no roseiral colado às câmaras privadas, murmúrio de fontes nos vergéis em redor. Lembranças boas, sublinhadas com a memória do sol que debruava os telhados do palácio. E dou comigo a desejar que o passado recente lhe atenue o silvo de angústia, que deve manchar a fria claridade desta manhã de Inverno.
Sento-me no bordo da cisterna, a lançar seixos pequenos para o fundo. Lá em baixo, nos círculos concêntricos de líquido escurecido, abrem-se veredas frescas com recendor a rosas e mirto, as vestes airosas da infanta de cabelos soltos, ainda da cor do trigo antes de amadurar. Fez doze anos nos finais do mês passado, a idade temida pelas princesas a quem os pais destinam varão coroado. Há seis via morrer o avô, que a criara desde o nascimento. E nesse momento apagavam-se as estrelas que ele plantara no seu caminho de infância. Havia sempre trechos de O Livro dos Feitos, estranha crónica do nascimento de Jaime, em Montpellier, onde fora criado pelo inquisidor Simon de Montfort, a pedido do pai. Mais tarde seria reclamado pelos templários, como legítimo herdeiro da coroa de Aragão e Catalunha. Uma história complicada, que parte da nobreza e a Santa Sé queriam remediar, confiando aos monges o resgate da criança. A gente do Templo levou-o então para Monzón, onde seria educado para rei predestinado à glória, com apenas oito anos.
Cedo o casavam com Leonor de Castela, de quem nasceria Afonso, morto ainda mancebo. Mas os desentendimentos constantes do casal levariam à anulação do enlace. Entre as possíveis noivas Jaime viria a escolher Yolanda da Hungria, de quem teria oito filhos, entre eles os varões Pedro, pai de dona Isabel, a quem caberiam Aragão, Catalunha, Valência e Jaime, rei de Maiorca e conde de Montpellier. As duas infantas que chegaram a rainhas eram dona Isabel, casada com Filipe III de França, e dona Violante, mulher de Afonso X de Castela, avô do monarca Dinis I por linha materna.
Dizia meu tio Ángel que chamavam santa a Isabel, duquesa da Turíngia, irmã da rainha Yolanda. Até Francisco de Assis, grato por ela ter cedido um pequeno convento aos mendicantes, por fazer uma vida simples, entregue a obras de caridade. Gostava de cultivar rosas. Chegou a mandar as espécies mais raras para o paço de Zaragoza, onde a neta da irmã, a quem deram o seu nome, aprendeu a conhecê-las, a vigiar-lhes maleitas desde a mais tenra infância. Um dia, com a mão enrugada na cabeça da neta, Jaime lamentava não ter mais uns anos de vida para poder levá-la ao altar. Isabel não teria alcançado que o avô lhe anunciava a morte, ávida por colher mais impulsos de mistério nas histórias de vida que ele lhe confiava no paço de Aljaferia. Mas na noite seguinte ouvia a revelação, quando aguardava mais um trecho do livro. O avô preparava-se para partir umas horas depois...» In Maria Helena Ventura, Onde Vais Isabel, Saída de Emergência, 2008, ISBN 978-989-637-034-3.
                                                                                               
Cortesia de SdeEmergência/JDACT

domingo, 20 de maio de 2018

1356. Bernard Cornwell. «Os três tinham metade da idade do frei e, como eram arqueiros, provavelmente possuíam o dobro da sua força, mas frei Ferdinand havia sido um grande guerreiro…»

Cortesia de wikipedia

Carcassonne
«(…) Chamas consumiam tectos de palha que queimavam violentamente, cuspindo fagulhas ao vento nocturno. A fumaça retorcia-se sobre a cidade. Um soldado usando a cruz vermelha de São Jorge estava vomitando nos degraus da igreja, e um cachorro correu para lamber o vómito. O frade virou-se para o rio, esperando atravessar a ponte e subir para a Cité. Pensava que a muralha dupla, as torres e as ameias de Carcassonne iriam protegê-lo porque duvidava de que aquele exército feroz tivesse paciência para realizar um cerco. Eles haviam capturado o bourg, o bairro comercial que ficava a oeste do rio, mas aquele local jamais fora defensável. A maioria dos negócios da cidade era feita no bourg, lá estavam as oficinas de couro, os artesãos de prata, os armeiros, o matadouro de aves e os mercadores de tecidos, mas apenas um muro de terra cercava essas riquezas, e o exército havia passado em bando por cima dessa barreira risível, como uma enchente. Mas a Cité de Carcassonne era uma fortaleza, uma das maiores da França, um bastião cercado por enormes torres de pedra e muros altíssimos. Lá dentro ele estaria seguro. Encontraria um local para esconder la Malice até que pudesse devolvê-la ao dono. Esgueirou-se por uma rua que não tinha sido incendiada. Homens invadiam casas, usando marretas ou machados para arrebentar as portas. A maior parte dos cidadãos tinha fugido para a Cité, mas algumas poucas almas tolas haviam permanecido, talvez com esperança de proteger as suas propriedades. O exército havia chegado tão rapidamente que não houvera tempo de levar cada bem valioso para o outro lado da ponte, até às portas monstruosas que protegiam a cidadela no topo da colina. Havia dois corpos na sarjeta central. Usavam os quatro leões de Armagnac, besteiros mortos na defesa inútil do bourg.
O frei Ferdinand não conhecia a cidade. Agora tentava encontrar um caminho escondido até ao rio, usando becos sombreados e passagens estreitas. Deus estava com ele, pensou, porque não encontrou inimigos enquanto corria para o leste, mas então chegou a uma rua mais larga, muito iluminada por chamas, e viu a ponte comprida, e do outro lado, no alto do morro, as muralhas da Cité reflectindo o fogo. As pedras pareciam avermelhadas pelos incêndios que ardiam no bourg. Os muros do inferno, pensou o frade, e um sopro de vento da noite fez uma grande máscara de fumaça redemoinhar para baixo, amortalhando a sua visão da muralha, mas não da ponte, onde, vigiando a extremidade oeste, havia arqueiros. Arqueiros ingleses, usando as túnicas com cruzes vermelhas e portando os seus arcos longos e mortais. Dois cavaleiros, com cota de malha e elmo, estavam com eles. Não havia como atravessar, pensou. Não havia como chegar à segurança da Cité. Agachou-se, reflectindo. Depois voltou aos becos. Iria para o norte.
Precisou cruzar uma rua importante, iluminada por incêndios ateados recentemente. Uma corrente, uma das muitas que tinham sido colocadas atravessando a rua para conter os invasores, estava jogada na sarjeta, onde um gato lambia sangue. O frei Ferdinand correu à luz do incêndio, enfiou-se noutro beco e continuou correndo. Deus continuava com ele. As estrelas estavam obscurecidas pela fumaça pontilhada de fagulhas. Atravessou uma praça, foi contido por um beco sem saída, voltou e foi para o norte de novo. Uma vaca mugia numa construção em chamas, um cachorro atravessou o seu caminho com algo preto e pingando nos dentes. Passou por um curtume, pulando por cima das peles estendidas nas pedras do calçamento, e mais adiante estava o risível muro de terra que servia como única defesa do bourg. Subiu nele, ouviu um grito e olhou para trás, vendo três homens perseguindo-o. Quem é você?, gritou um deles. Pare!, berrou outro.
O frade ignorou-os. Desceu correndo o barranco, indo para o campo escuro que ficava além do amontoado de choupanas construídas do lado de fora do muro de terra, enquanto uma flecha passava sibilando por ele, errando-o, com a graça de Deus, pela distância de um dedo. Retorceu-se de lado, entrando numa passagem entre dois casebres. Ali havia um monte de esterco. Passou correndo pela bosta e viu que a passagem terminava numa parede. Virou-se de volta, vendo os três homens barrando o seu caminho. Estavam rindo. O que tem?, perguntou um deles. Je suis gascon, disse o frei Ferdinand. Sabia que os invasores da cidade eram gascões e ingleses, e ele não falava inglês. Je suis gascon!, repetiu, indo na direcção deles. É um dominicano, disse um dos homens. Mas porque o desgraçado fugiu?, perguntou outro inglês. Tem alguma coisa escondida, é? Dê aqui, disse o terceiro, estendendo a mão. Era o único que tinha o arco encordoado; os outros dois estavam com os arcos pendurados às costas e seguravam espadas. Anda, seu desgraçado, me dê logo. O homem estendeu a mão para la Malice.
Os três tinham metade da idade do frei e, como eram arqueiros, provavelmente possuíam o dobro da sua força, mas frei Ferdinand havia sido um grande guerreiro, e as habilidades da espada jamais o haviam abandonado. E estava com raiva. Com raiva por causa do sofrimento que tinha visto e das crueldades que tinha ouvido, e essa raiva deixou-o selvagem. Em nome de Deus, disse, e levantou la Malice como um chicote. A espada continuava enrolada na seda, mas a sua lâmina cortou fundo o pulso estendido do arqueiro, partindo os tendões e quebrando ossos. Frei Ferdinand segurava-a pela espiga, que oferecia um suporte precário, mas a espada parecia viva. O homem ferido encolheu-se, sangrando, enquanto os seus companheiros rugiam de fúria e golpeavam com as espadas. O frei aparou as duas com um único movimento e estocou, e la Malice, mesmo após mais de 150 anos na tumba, provou-se afiada como uma lâmina recém-polida. O seu gume frontal atravessou a túnica acolchoada do homem mais próximo, abriu as suas costelas e perfurou um pulmão, e, antes que o sujeito ao menos soubesse que tinha sido ferido, frei Ferdinand girou a lâmina de lado para acertar os olhos do terceiro homem. O sangue brilhou no beco, e agora os três recuavam, mas o frade não lhes deu chance de escaparem». In Bernard Cornwell, 1356, 2012, Editora Record, 2013, ISBN 978-850-140-371-1.

Cortesia de ERecord/JDACT

1356. Bernard Cornwell. «A nave da igreja estava iluminada pelas casas que ardiam na pracinha do lado de fora. Havia três homens dentro da igreja, e um deles gritou interpelando a figura de capa escura que surgiu vinda da escada da cripta»

Cortesia de wikipedia

Carcassonne
«Ele estava atrasado. Havia escurecido e ele não tinha lanterna, mas as chamas da cidade lançavam um brilho sinistro que chegava ao fundo da igreja e iluminava apenas o suficiente para mostrar as lajes de pedra na cripta funda onde o homem golpeava o chão com um pé de cabra. Estava a abrir uma pedra gravada com um brasão que mostrava um cálice cercado por um cinto afivelado onde estava escrito Calix Meus Inebrians. Raios de sol esculpidos no granito davam a impressão de que o cálice irradiava uma luz. O relevo e a inscrição estavam desgastados pelo tempo, e o homem mal os havia percebido, embora ouvisse os gritos vindos dos becos ao redor da igrejinha. Era uma noite de fogo e sofrimento, e os gritos abafavam os ruídos dos seus golpes no extremo da pedra, enquanto ele tentava lascar um pequeno espaço em que poderia enfiar o comprido pé de cabra. Golpeou com a barra de ferro, depois imobilizou-se ao escutar gargalhadas e passos na igreja em cima. Encolheu-se atrás de uma passagem em arco logo antes de dois homens descerem à cripta. Carregavam uma tocha acesa que iluminou o comprido espaço em arco e revelou que não havia saques fáceis à vista. O altar da cripta era de pedra simples, sem nada além de uma cruz de madeira como decoração, não tinha sequer um candelabro. Um dos homens disse algo numa língua estranha, o outro gargalhou, e os dois voltaram para a nave, cujas paredes pintadas e altares conspurcados estavam iluminados pelas chamas das ruas. O homem com o pé de cabra usava capa e capuz pretos. Por baixo da capa pesada havia um hábito branco manchado de pó, e era preso na cintura por uma corda com três nós. Era um frade, um dominicano, mas nesta noite isso não serviria de protecção contra o exército que devastava Carcassonne. Era alto e forte, e antes de ter feito os votos havia sido um homem de armas. Sabia como estocar com uma lança, cortar com uma espada ou matar com um machado. Na época chamava-se Sire Ferdinand de Rodez, mas agora era simplesmente o frei Ferdinand. Antigamente usara cota de malha e placas, cavalgara em torneios e matara em batalha, mas fazia 15 anos que era frade e rezava diariamente pelo perdão dos seus pecados. Agora estava velho, com quase 60 anos, mas ainda tinha ombros largos. Havia caminhado para chegar a esta cidade, mas as chuvas tinham prolongado a sua jornada, inundando os rios e tornando os vaus intransponíveis, e era por isso que estava atrasado. Atrasado e cansado. Enfiou o pé de cabra por baixo da pedra com relevos e fez força de novo, temendo que o ferro se dobrasse antes que ela cedesse, então houve um som áspero e o granito se levantou, em seguida deslizou de lado, oferecendo uma pequena abertura.
O espaço estava escuro porque a luz demoníaca da cidade em chamas não podia entrar na sepultura, de modo que o frade se ajoelhou junto ao buraco e enfiou a mão. Encontrou madeira, por isso usou o pé de cabra de novo. Um golpe, dois golpes, e a madeira lascou-se, e ele rezou para que não houvesse um caixão de chumbo ali dentro. Golpeou com o pé de cabra uma última vez, depois enfiou a mão e puxou pedaços de madeira para fora do buraco. Não havia caixão de chumbo. Os seus dedos, penetrando mais na tumba, encontraram um tecido que se desfez ao ser tocado. Depois sentiram ossos. Os dedos exploraram uma órbita ocular seca, dentes soltos, e descobriram a curva de uma costela. Deitou-se para esticar o braço mais fundo, tacteou no negrume da sepultura e encontrou alguma coisa sólida que não era osso. Mas não era o que ele procurava; tinha a forma errada. Era um crucifixo. De repente soaram vozes altas na igreja. Um homem gargalhou e uma mulher soluçou. O frade ficou deitado imóvel, ouvindo e rezando. Por um momento desanimou, pensando que o objecto que procurava não estava no túmulo, mas então estendeu a mão o mais longe que conseguia e os seus dedos tocaram algo envolto num pano fino que não se desfez. Remexeu-se desajeitadamente no escuro, segurou o pano e puxou. Havia um objecto pesado embrulhado no tecido, e ele puxou-o lentamente, depois segurou-o direito e soltou o objeto das mãos do esqueleto que o estavam prendendo. Tirou a coisa da tumba e levantou-se. Não precisava desembrulhá-lo. Sabia que havia encontrado la Malice e, agradecendo, voltou-se para o altar simples no lado leste da cripta e fez o sinal da cruz.
Obrigado, Senhor, disse num murmúrio, e obrigado, São Pedro, e obrigado, São Juniano. Agora me mantenham em segurança. O frade precisaria de ajuda celestial para se manter seguro. Por um momento pensou em esconder-se na cripta até que o exército invasor deixasse Carcassonne, mas isso poderia demorar dias, e, além do mais, assim que os soldados tivessem saqueado tudo que estivesse ao seu alcance, abririam os túmulos na cripta em busca de anéis, crucifixos ou qualquer outra coisa que rendesse uma moeda. A cripta havia abrigado la Malice durante um século e meio, mas o frade tinha consciência de que ela não lhe daria segurança por mais do que algumas horas. O frei Ferdinand abandonou o pé de cabra e subiu a escada. La Malice tinha o mesmo comprimento do seu braço e era surpreendentemente pesada. Antigamente era equipada com um cabo, mas restava apenas a fina espiga de metal, e ele segurou-a por esse suporte grosseiro. Ainda estava envolta no que ele achou que fosse seda.
A nave da igreja estava iluminada pelas casas que ardiam na pracinha do lado de fora. Havia três homens dentro da igreja, e um deles gritou interpelando a figura de capa escura que surgiu vinda da escada da cripta. Os três eram arqueiros, e os seus arcos longos estavam encostados no altar, mas, apesar da interpelação, não se interessaram realmente pelo estranho, só pela mulher que tinham posto de pernas abertas nos degraus do altar. Por um instante o frei Ferdinand ficou tentado a salvar a mulher, mas então quatro ou cinco outros homens entraram por uma porta lateral e gritaram de alegria ao ver o corpo nu estendido nos degraus. Tinham trazido outra jovem, uma garota que gritava e lutava, e o frei estremeceu ao ouvir o som do seu sofrimento. Ouviu as roupas dela sendo rasgadas, ouviu-a gemer e lembrou-se de todos os seus próprios pecados. Fez o sinal da cruz. Perdoai-me, Cristo Jesus, sussurrou e, incapaz de ajudar as jovens, passou pela porta da igreja e saiu para a pequena praça». In Bernard Cornwell, 1356, 2012, Editora Record, 2013, ISBN 978-850-140-371-1.

Cortesia de ERecord/JDACT

sábado, 19 de maio de 2018

Onde Vais Isabel? Maria Helena Ventura. «Livre de obrigações, a presença agora aceite pelos guardas, exploro o caminho ao longo da Carrer dos Condes, rente à parede dos cómodos onde se aloja gente nobre de Montpellier e Maiorca»

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«(…) Uma porta entreaberta é uma voz que chama para um tempo novo. O que terá esta, para além do fausto que antecipa? Um perfil de princesa em passadas curtas ilumina, de quando em quando, o meu ângulo de visão, fazendo e refazendo a distância entre as gelosias e a parede oposta. Deve ser ela a neta de Jaime I de Aragão e Catalunha, filha de dona Constança de Hoenstaufen. Não parece tão loira como o trigo a ondular nos campos de Zaragoza, conforme se dizia em Penedès, mas o cabelo é claro, quase dourado nas madeixas da frente, ainda caídas de cada lado do rosto. Desliza ainda pela câmara de cabeça no chão, a ensaiar o compasso que daí a pouco marcará o ritmo do cortejo. Aliada ao nome suporta já uma aura de santidade, arrastada pelos feitos da tia avó da Turíngia, abrindo caminho no coração ingénuo da crença popular. Anseio que volte, instantes depois de a saber por detrás das janelas, a vigiar o movimento da praça. E à falta de largo campo, vejo-a como nos meus sonhos, prolongados neste fim de corredor.
De repente sobressalta-me a voz que tantas vezes me ordenou sossego, e me obrigou a rabiscar o pergaminho, a voz de minha tia Soledad. Devia estar nas arrumações do fato da infanta. Com certeza já de posse do recado do moço de estrebaria, porque informa dona Isabel que precisa fazer uma ausência curta, para tratar de um assunto urgente. E já no umbral da porta sossega a noiva: mas não vos enfadeis, senhora dona Isabel, num pronto chegarei; se prometes não demorar... Só tenho tempo de correr pelas escadas e anichar-me no vão da primeira fresta, como um santo de pedra. De pouco adianta. Como se vasculhasse um objecto por ela mesma guardado, o braço de minha tia alcança-me o exacto ponto da orelha a jeito, e obriga-me a olhá-la de pescoço torcido: ousado, como sempre. Estou a ver que seguiste Juan; ele pediu que viesse... ia negar? Ah foi? Mas não foi aguisado que subisses, pois não? Trata de esgueirar-te à minha frente, não quero ser responsável pela intromissão.
Posso agora confessar que Soledad, a menor de todos, minha mãe, a do meio, já falecida, meus tios Ángel e Juan, os gémeos mais velhos, são filhos do pecado de uma monja de Santa Liestra com um nobre trovador da Catalunha. O pecado maior seria de minha avó, escondida para sempre de olhos indiscretos num reino de silêncio. Ao nobre ficava bem exibir o fruto do apetite carnal de uma abadessa, que não lhe resistira. Ainda ouço minha tia pedir a uma criada menor que suba ligeira, para fazer companhia a dona Isabel, enquanto as damas se arranjam. Isto já depois de atravessarmos de novo o Salão do Trono, sem passar despercebidos. Há um cavaleiro fardado de modo estranho, que me lança um olhar surpreendido, depois um sorriso afectuoso. E uns passos adiante desço as escadas do átrio até ao exterior, não muito depois de minha tia. O rapaz esfrega o último cavalo. Juan parece menos agitado, já a cochichar com a irmã na parede da catedral, no lado contrário, mesmo por debaixo de uma das torres. Aí deve sentir-se a salvo de ouvidos indiscretos.
Livre de obrigações, a presença agora aceite pelos guardas, exploro o caminho ao longo da Carrer dos Condes, rente à parede dos cómodos onde se aloja gente nobre de Montpellier e Maiorca. Passo ao lado da porta do jardim de acesso ao scriptorium, entrada cómoda para o interior do paço quando não há guardas façanhudos. Furo a barreira de cavaleiros por entre duas bestas. Contorno sem medo o braço saliente do edifício pela perpendicular de Santa Clara, para entrar na Plaça del Palau, com muita gente concentrada. Mas ao fundo das escadas quatro escudeiros vigiam a ousadia de intrusos, ainda que esteja cerrada a entrada nobre do paço». In Maria Helena Ventura, Onde Vais Isabel, Saída de Emergência, 2008, ISBN 978-989-637-034-3.

Cortesia de SdeEmergência/JDACT

A Princesa Traída por Pedro e Inês. Isabel Machado. «Constança olhou em redor, com a sensação de destino cumprido e a certeza de que não regressaria àquele cativeiro de desonra e dor»

 
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Constança
Castelo de Toro, Castela
«(…) Para onde me levais, meu pai?, quis saber, afastando a atenção da jóia. Saberás em breve. Nenhuma informação será ouvida neste lugar. Os meus domínios são vastos. A filha sorriu timidamente. Só o rei castelhano estava à altura de pedir meças territoriais ao grande senhor que se transformara no seu maior inimigo. Uma das damas chegou-se à porta com uma almofada de veludo onde pousava um diadema em forma de coroa encimado por rubis e safiras, um presente do rei da época dos esponsais. Depois da vénia, lançou, provocadora: o que deverei fazer com a jóia, senhora? Essa coroa nunca me serviu. Senti-a sempre demasiado pequena, respondeu Constança prontamente. Um brilho de orgulho perpassou pelo olhar vivo do infante Juan Manuel. A melancolia da filha não amordaçava a altivez que herdara da sua estirpe. Ser-lhe-ia útil aquela têmpera. As montadas já deverão estar prontas. Ordenei que lhes dessem água e curto descanso, anunciou o fidalgo castelhano, desejoso de se ver dali para fora, não fosse a trégua de Afonso XI expirar subitamente, a boa vontade do rei poderia ter sido apenas um estratagema para o apanhar dentro do Castelo de Toro... Devemos partir, a jornada será longa.
Constança olhou em redor, com a sensação de destino cumprido e a certeza de que não regressaria àquele cativeiro de desonra e dor. Até a mãe lhe morrera, afundada no vexame da única filha, sem ter podido dar-lhe um beijo de despedida. Mas agora era tempo de olhar o futuro. As damas continuavam de olhos no solo, numa inversão de papéis. Endireitou o corpo, pronta para sair. Aceitou a capa de lã com que Violante lhe cobriu o corpo e abandonou a câmara em silêncio, sem olhar para trás.
Saíram sem sobressaltos. Os caminhos empoeirados não tapavam a grandiosidade da escolta, com dezenas de guardas e cavaleiros e o estandarte dos Manuel bem visível, para vincar o regresso a casa da descendente do homem que Afonso XI destratara. Como se cada momento dos dias de viagem entre Toro e o Castelo de Peñafiel, na meseta castelhana, se destinasse a provar que o neto de Fernando III de Castela e filho do infante Manuel não era alguém arredado dos grandes assuntos de Estado castelhanos. O poder precisava de ser visível e aquela viagem tinha uma leitura, independentemente da felicidade de um pai que resgatara a filha das garras do agressor. A algazarra ritmada e intimidante dos cascos dos cavalos sobre a terra fazia parar as gentes na borda dos caminhos. Os homens libertavam a cabeça de gorros e capuzes, as mulheres juntavam as mãos sobre o peito ou apertavam os aventais numa mudez de admiração, os petizes corriam atrás do pó deixado pelos últimos cavalos da comitiva». In Isabel Machado, Constança, A Princesa Traída por Pedro e Inês, A Esfera dos Livros, 2015, ISBN 978-989-626-718-6.
                                                                                                                   
Cortesia de EdosLivros/JDACT

sexta-feira, 18 de maio de 2018

O Vaticano contra Cristo. I Millenari. «Mas lá se deslocaram os papas. Que Igreja via correctamente e que Igreja se enganava, então? O vértice ou a base?»

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Erros da cúpula da Igreja
«(…) Nos primórdios do século que agora termina (século XX), a Virgem Mãe de Deus proferia em Fátima, com grande sofrimento do Papa, impotente, palavras duras sobre o comportamento dos dignitários de topo da Igreja: bispos contra bispos e cardeais contra cardeais. Fazia entender àquelas três crianças analfabetas que a Igreja seria sujeita a violência a partir de dentro, como prostituta honrada, por parte de prelados em escala da para o poder através de conjuras urdidas na corte. Tenta-se esconder o fundamento da acusação, embora o prazo da revelação da mensagem profética já tenha passado. Enquanto a humanidade desliza, uma avalanche de lama e de podridão invade o sinédrio e espalha-se. Poderá a criatura contrariar a ordem do Criador silenciando-o? Na verdade, durante as aparições de Fátima, o patriarca de Lisboa, António Mendes Belo, várias vezes manifestou à opinião pública a sua clara oposição ao que estava a acontecer, chegando a proibir aos seus padres a sua deslocação a Fátima em peregrinação. Mas lá se deslocaram os papas. Que Igreja via correctamente e que Igreja se enganava, então? O vértice ou a base?
Um caso bastante estranho é o do padre Pio de Pietrelcina, que durante cinquenta anos foi simultaneamente considerado um santo taumaturgo pelos fiéis cada vez mais numerosos que a ele acorriam e um mistificador perigoso e corruptor dos costumes, pelo Santo Oficio (maldito). Basta recordar aqui a infamante acusação do dito dicastério que, por diversas vezes, intimou a rodos, mas em especial aos clérigos, a não se aproximar do padre Pio, religioso a evitar pela sua santidade impostora, visionária e milagreira. Por essa razão, aquele pouco santo oficio tomou a estranha iniciativa, jamais repetida nem antes nem depois, de trocar o director espiritual do padre Pio, interditando o religioso de se confessar por escrito, a partir daí (2 de Junho de 1922). Não satisfeita, a mesma suprema congregação, em 31 de Maio de 1923, promulgou um decreto contra o dito Padre, no qual declarava nada constar acerca da sobrenaturalidade dos factos, no respeitante ao fenómeno místico da estigmatização, decreto devidamente publicado no Osservatore Romano de 5 de Julho seguinte, para conhecimento de toda a Igreja. Mas que Igreja, responda, se souber, se enganava: a do vértice que proibia ou a da base que o venerava, se dirigia a ele e contrariava as directivas do vértice? A declaração foi retomada no fascículo Analecta Cappuccinorum através do qual o padre Pio soube da notícia, que lhe dizia respeito, ao abri-lo logo na página exacta, o que o entristeceu e fez chorar.
Para fazer cessar o escândalo, o mesmo dicastério, não satisfeito com a imposição da pena da suspensão sem prazo de celebrar a missa em público (de 1931 a 1933), projectava também a transferência secreta do padre Pio para a Itália Setentrional ou mesmo para Espanha. Atenuadas as condenações, foram, depois, retomadas com maior veemência em 1960, quando aquele religioso, já com73 anos, foi novamente considerado como pessoa imoral, invocando-se relações sexuais com algumas das suas penitentes, segundo constava de bobinas viciadas de um gravador colocado por um padre no confessionário do padre Pio por incumbência do visitador apostólico, que se atribuía, como se vê, poderes que nem o papa podia conferir-lhe». In I Millenari, Via col vento in Vaticano, Kaos Edizioni, 1999, O Vaticano contra Cristo, tradução de José A. Neto, Religiões, Casa das Letras, 2005, ISBN 972-46-1170-1.

Cortesia Casa das Letras/JDACT

quinta-feira, 17 de maio de 2018

A Verdadeira História. Margaret George. «Quem é ele?, perguntou Quezia. Aquele é o filho mais velho, Jesus, respondeu o rapaz que mostrara a família. É o preferido de José. Por quê? É bom carpinteiro?»

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Olá. Após intervenção cirúrgica, estou de volta!

A Mulher que Amou Jesus
«(…) O que é que está olhando?, perguntou Quezia. Então, riu-se e deu-lhe a mão. Vamos lá, vamos continuar a exploração. Encontraram-se com outro grupo que parecia comedido. Quando ouviram que vinha de Nazaré, riram. Não temos de nos preocupar, disse Sara. Ninguém presta atenção aos nazarenos. Eles não contam. Por quê? Não contam, em que sentido?, perguntou Maria. Segurava a sua nova amiga, Quezia, bem próximo a si, como se tivesse encontrado um tesouro perto da estrada e não o largasse. É um vilarejo de gente pobre, disse Sara. Até surpreende como conseguiram juntar um grupo para viajar a Jerusalém. Mas têm uma porção de camelos, disse Maria. E ela achava que pessoas que têm camelos deveriam ser mais interessantes que as que têm jumentos, pois os camelos têm mais personalidade que os jumentos. É verdade, disse Quezia. Vamos lá, vamos tentar juntar-nos ao grupo e aí poderemos saber como é que são.
Com cuidado, foram se aproximando, pouco a pouco, até se juntarem a uma família que caminhava bem devagar. Tentaram começar uma conversa, perguntando sobre Nazaré. Mas as pessoas respondiam com frases curtas, secas. Não temos muitos forasteiros em Nazaré, disseram. Nazaré era uma cidade tranquila. Boa para criar uma família, foi o que disseram. Como não há muito o que fazer, talvez por isso as crianças não se metem em encrencas, disse uma senhora mais velha. Como aquela família ali. Apontou um grupo de pessoas que caminhavam juntas, com duas crianças pequenas sentadas no jumento. Aquele pessoal. José e a sua família. Maria olhou para ver de quem a mulher falava. Um homem ainda jovem, simpático, caminhava na frente, seguido, presumia-se, por sua mulher e várias outras pessoas, com o jumento com as crianças no fim da fila. É carpinteiro, disse um jovem. Não faz a viagem todos os anos, mas com bastante frequência. Tinha um irmão em Cafarnaum cujos filhos ficaram rebeldes e se juntaram àquelas insurreições. Suponho que José queira evitar esse tipo de problemas. Logo atrás de José e da sua mulher, caminhava um jovem, alto, resoluto, quase um homem, mas ainda bem jovem, de cabelo espesso e escuro que parecia ruivo à luz do sol de meio-dia. A seu lado, caminhava outro rapaz e em seguida um bando de outros.
Nesse momento, o jovem voltou-se para olhar Maria e as suas amigas. Tinha olhos escuros e profundos. Quem é ele?, perguntou Quezia. Aquele é o filho mais velho, Jesus, respondeu o rapaz que mostrara a família. É o preferido de José. Por quê? É bom carpinteiro? O rapaz encolheu de ombros. Não sei. Deve ser, senão José não teria orgulho dele. Mas todos os adultos gostam dele. E as pessoas da idade dele? Bom, nós gostamos dele, mas ele é muito... sério. Mas ele gosta de brincar e é um bom amigo. Mas..., riu-se, gosta muito de ler e tenta guardar segredo disso. Talvez por gostar tanto de ler e estudar, quando todos nós achamos tão maçante. Dizem que ele até sabe ler grego. Aprendeu sozinho. Isso é impossível, disse uma moça alta. Ninguém aprende grego sozinho. Bom, talvez o tenham ajudado, mas ele estudou sozinho. E em segredo. Tenho a certeza de que isso não era segredo para os amigos mais próximos dele, disse a moça, com desdém. Maria e as amigas decidiram conhecer de perto aquela família intrigante. Não foi difícil aproximar-se e juntar-se a eles. José, o patriarca, conduzia o grupo, batendo, a cada passada, com o cajado no chão. Maria notou que o cajado tinha uma bela talha e, no castão, tinha esculpida uma tâmara: um toque de artista.Que lindo cajado, disse Quezia, aproximando-se. José olhou para elas e sorriu. Gostou? Fui eu que fiz a talha, mas foi Jesus, este moço aqui, que esculpiu a tâmara». In Margaret George, A Paixão de Maria Madalena, 2002, Saída de Emergência, Edições Fio de Navalha, 2005, ISBN 972-883-911-1.

Cortesia de SdeEmergência/JDACT

segunda-feira, 7 de maio de 2018

A Solidão dos Números Primos. Paolo Giordano. «Eric chamou-a de novo, Alice não respondeu. Enquanto estivesse ali em cima o nevoeiro escondê-la-ia»

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O Anjo da Neve
«(…) Não se via um palmo à frente dos olhos quanto mais sol que rebenta as pedras. Estava tudo branco, só branco, em cima, em baixo, de lado. Era como estar envolvidos num lençol. Era o exacto oposto da escuridão, mas Alice tinha medo na mesma. Deslizou para a beira da pista de esqui em busca de um montinho de neve fresca onde pudesse aliviar-se. Os seus intestinos fizeram um ruído de máquina de lavar a louça a entrar em acção. Voltou-se para trás. Já não via Giuliana, por isso, Giuliana não a podia ver a ela- Subiu a encosta alguns metros, pondo os esquis em espinha de peixe, como a obrigava a fazer o pai quando pôs na cabeça que tinha que a ensinar a esquiar. Para cima e para baixo na pista de esqui infantil, trinta a quarenta vezes num só dia. Subia em passo de escadinhas e descia em estilo limpa-neve, pois que comprar o passe de esqui para uma só pista era desperdício de dinheiro, sem contar que, deste modo, também treinava as pernas.
Alice desapertou os esquis e deu mais alguns passos. Enterrou as botas até meio da barriga das pernas. Finalmente estava sentada. Deixou de reter a respiração e relaxou os músculos. Uma agradável descarga eléctrica propagou-se pelo corpo todo para depois se aninhar nas pontas dos pés. Deve ter sido o leite, seguramente foi o leite. Deve ter sido também por ter as nádegas quase congeladas por estar sentada na neve a mais de dois mil metros de altitude. Nunca tal lhe acontecera, pelo menos que ela recordasse. Nunca, nem uma vez. Aliviou-se pernas abaixo. Não chichi. Não só. Alice borrou-se toda, às nove em ponto de uma manhã de Janeiro. Borrou-se nas cuecas e nem sequer se apercebeu. Pelo menos até ouvir a voz de Eric vinda de um ponto indefinido dentro do banco de nevoeiro, a chamar por ela. Levantou-se num ápice e foi nesse momento que sentiu algo de pesado nas entrepernas das calças. Instintivamente tocou no rabo, mas as luvas tiraram-lhe a sensibilidade. De qualquer modo, não era preciso, pois já percebera tudo. E agora, que faço, questionou-se.
Eric chamou-a de novo, Alice não respondeu. Enquanto estivesse ali em cima o nevoeiro escondê-la-ia. Podia baixar as calças do fato de esqui e limpar-se com neve, ou então, ir ter com Eric e segredar-lhe ao ouvido o que lhe acontecera. Podia dizer-lhe que tinha de regressar à aldeia pois estava a doer-lhe o joelho. Ou então, borrifar-se para o sucedido e esquiar mesmo naquele estado, tendo o cuidado de ser sempre a última da fila. Mas, ao invés, deixou-se simplesmente ficar ali, atenta a não mexer um só músculo, protegida pelo nevoeiro. Eric chamou-a pela terceira vez. Mais alto». In Paolo Giordano, A Solidão dos Números Primos, 2008, tradução de José Serra, Bertrand Editora, Lisboa, 2013, ISBN 978-972-251-834-5.

Cortesia de BertrandE/JDACT

domingo, 6 de maio de 2018

A Sagrada Família. Karl Marx (1818-1883) e Friedrich Engels (1820-1895). «Na realidade há, nas fábricas inglesas, todas as gradações de salário, de um e meio xelim a 40 xelins e inclusive mais; na Crítica paga-se apenas um salário»

Cortesia de wikipedia e jdact

A Crítica crítica sob a feição do mestre encadernador ou a Crítica crítica conforme o senhor Reichardt. Friedrich Engels
«(…) E a intrepidez estilística do senhor Reichardt anda lado a lado com a intrepidez do raciocínio em si. Ele é capaz de entabular transições como as que seguem: o senhor Brüggemann..., ano de 1843..., teoria do Estado..., todo o probo..., a grande modéstia de nossos socialistas..., milagres naturais..., exigências a serem expostas à Alemanha..., milagres sobrenaturais..., Abraão..., Filadélfia..., maná..., mestre-padeiro..., mas porque nós estamos a falar de milagres, Napoleão logrou etc.
Depois dessas amostras, não é de estranhar, nem um pouco, aliás, que a Crítica crítica sempre ofereça uma explicação à frase que ela mesma considera um modo popular de se exprimir. Pois ela apetrecha os seus olhos com a força orgânica de penetrar o caos. E, sendo assim, resta dizer que nem mesmo o modo popular de se exprimir da Crítica crítica pode restar incompreensível no final. Ela se dá conta de que o caminho dos literatos permanece torto, caso o sujeito que o percorrer não se mostrar forte o suficiente a ponto de conseguir endireitá-lo e, por isso, atribui com naturalidade operações matemáticas ao escritor. Per si se compreende, e a história, que prova tudo o que per si se compreende, prova também isso: que a Crítica não se torna massa a fim de permanecer massa, mas para libertar a massa de sua massificação massiva, ou seja, para elevar o modo popular de se exprimir na linguagem crítica da Crítica crítica. Este é o estágio mais estagiário da humilhação, quando a Crítica aprende a linguagem popular das massas e transcende esse jargão tosco para o cálculo superabundante da dialéctica criticamente crítica.

 A Crítica crítica na condição de moinhotenente. Friedrich Engels
Depois de a Crítica se ter rebaixado até ao absurdo em línguas estrangeiras, de ter prestado à autoconsciência os serviços mais essenciais, e ao mesmo tempo ter libertado o mundo do pauperismo através disso, ela se rebaixa também ao absurdo na práxis e na história. Ela se apossa das questões inglesas do dia e nos oferece um esboço da história da indústria inglesa, que é genuinamente crítico. A Crítica, que se basta a si mesma, que se completa e encerra em si mesma, naturalmente não pode reconhecer a história tal como ela de facto aconteceu, pois isso significaria reconhecer a massa ruim em toda a sua massificação massiva, quando se trata justamente de libertar a massa da massificação. Com isso, a história é libertada de sua massificação, e a Crítica, que adopta uma atitude livre em relação ao seu objecto, grita para a história: tu deves ter ocorrido de tal ou qual modo! As leis da Crítica têm, todas elas, efeito retroactivo; antes dos seus decretos, a história ocorria de modo bem diferente do que passou a ocorrer depois deles. Eis aqui por que a história massiva, a chamada história real, desvia-se da maneira significativa da crítica, que passa a acontecer a partir da página 4 do Caderno VI do Jornal Literário Geral.
Na história massiva não houve nenhuma cidade fabril antes de haver fábricas; mas na história crítica, na qual o filho gera o próprio pai, coisa que já acontecia em Hegel, aliás, Manchester, Bolton e Preston são florescentes cidades fabris, antes mesmo de se ter pensado em fábricas. Na história real, a indústria de algodão foi criada sobretudo graças à Jenny de Hargreaves e à throstle (máquina hidráulica de fiar) de Arkwright, ao passo que a mule de Crompton não foi mais que um aperfeiçoamento da Jenny através do princípio descoberto por Arkwright; mas a história crítica sabe distinguir, despreza a unilateralidade da Jenny e da throstle e dá a coroa à mule, fazendo dela a identidade especulativa do extremo. Na realidade, a invenção da throstle e da mule trouxe consigo de imediato a utilização da força hidráulica para esse tipo de máquinas, mas a Crítica crítica diferencia os princípios amontoados e confusos da história bruta e faz com que a utilização apareça apenas bem mais tarde, como se fosse algo bastante particular. Na realidade a descoberta da máquina a vapor precedeu todas as descobertas acima citadas, mas na Crítica vemos que ela ocorre no final, na condição de coroa para o todo.
Na realidade, a aliança de negócios entre Liverpool e Manchester foi, no seu significado actual, a consequência da exportação de mercadorias inglesas; na Crítica essa aliança de negócios é a causa desse fenómeno e ambas, aliança e exportação, a consequência do facto de aquelas duas cidades serem vizinhas. Na realidade, quase todas as mercadorias saem de Manchester, passam por Hull ao continente; na Crítica elas passam por Liverpool. Na realidade há, nas fábricas inglesas, todas as gradações de salário, de um e meio xelim a 40 xelins e inclusive mais; na Crítica paga-se apenas um salário ao trabalhador: 11 xelins. Na realidade a máquina substitui o trabalho manual; na crítica ela substitui o acto de pensar. Na realidade uma união dos trabalhadores com o objectivo de aumentar o salário é permitida na Inglaterra; mas na Crítica ela é proibida, uma vez que a massa tem, ela mesma, de perguntar à Crítica, se quiser se permitir tomar uma atitude. Na realidade o trabalho na fábrica fatiga de maneira significativa o trabalhador e origina enfermidades típicas, há, inclusive, várias obras medicinais que tratam exclusivamente dessas enfermidades; na crítica o esforço excessivo não impede nem estorva o trabalho, pois a força é empreendida toda ela pela máquina. Na realidade a máquina é uma máquina; na Crítica ela é dotada de vontade, pois, uma vez que ela não descansa, o trabalhador também não pode descansar e torna-se súdito de uma vontade estranha». In Karl Marx (1818-1883) e Friedrich Engels (1820-1895), A Sagrada Família, A crítica da Crítica crítica contra Bruno Bauer e consortes, 1844, 1965, Boitempo Editorial, 2003, ISBN 978-857-559-032-4.

Cortesia de BoitempoEditorial/JDACT

A Sagrada Família. Karl Marx (1818-1883) e Friedrich Engels (1820-1895). «A natureza de nosso objecto justifica, portanto, o facto de aqui não avaliarmos esse mesmo desenvolvimento»

Cortesia de wikipedia e jdact

A crítica da Crítica crítica contra Bruno Bauer e consortes
«O humanismo real não tem, na Alemanha, inimigo mais perigoso do que o espiritualismo, ou idealismo especulativo, que, no lugar do ser humano individual e verdadeiro, coloca a autoconsciência ou o espírito e ensina, conforme o evangelista: o espírito é quem vivifica, a carne não presta. Resta dizer que esse espírito desencarnado só tem espírito em sua própria imaginação. O que nós combatemos na Crítica baueriana é justamente a especulação que se reproduz à maneira de caricatura. Ela representa, para nós, a expressão mais acabada do princípio cristão-germânico, que faz sua derradeira tentativa ao transformar a crítica em si numa força transcendental. Nossa exposição se atém principalmente ao Jornal Literário Geral de Bruno Bauer, e seus oito primeiros cadernos estavam a nosso dispor, porque é ali que a Crítica baueriana, e com ela o despropósito da especulação alemã como um todo, alcançam o ápice. A Crítica crítica (ou seja, a crítica do Jornal Literário) torna-se tanto mais instrutiva quanto mais converte a inversão da realidade, empreendida através da filosofia, na mais plástica das comédias. Veja-se, por exemplo, Faucher e Szeliga. O Jornal Literário oferece um material à luz do qual também o grande público poderá ser informado a respeito das ilusões da filosofia especulativa. E é essa a finalidade de nosso trabalho. A nossa exposição naturalmente é condicionada por seu objecto. Em regra, a Crítica crítica se encontra abaixo das alturas alcançadas pelo desenvolvimento teórico alemão. A natureza de nosso objecto justifica, portanto, o facto de aqui não avaliarmos esse mesmo desenvolvimento. Crítica crítica obriga, muito antes, a mostrar a validade dos resultados já disponíveis como tais, opondo-os aos resultados que ela alcançou. É por isso que antepomos essa polémica aos escritos propriamente ditos, nos quais nós, cada um por si, entenda-se, haveremos de expor nossa visão positiva, e com ela nossa atitude positiva ante as novas doutrinas filosóficas e sociais». In Engels – Marx. Paris, Setembro de 1844.

A Crítica crítica sob a feição do mestre encadernador ou a Crítica crítica conforme o senhor Reichardt. Friedrich Engels
A Crítica crítica, por mais que se considere acima da massa, sente uma compaixão infinita pela mesma massa. Foi tão grande o amor da Crítica pela massa que ela enviou o seu próprio filho unigénito a fim de que todos os que crerem nele se salvem e gozem as venturas da vida crítica. E eis que a Crítica se torna massa e habita entre nós, e nós vemos na sua magnificência a magnificência do filho unigénito do pai. Quer dizer, a Crítica torna-se socialista e fala de escritos sobre o pauperismo. Ela não vê um assalto no facto de querer ser igual a Deus, mas apenas renuncia a si mesma e assume a feição de mestre encadernador, rebaixando-se ao nível mais absurdo, sim, ao absurdo crítico em línguas estrangeiras. Ela, que em sua pureza virginal e celeste, retrocedia assustada diante do contato com a massa pecadora e leprosa, dominou-se a ponto de dar importância a Bodz (pseudónimo que Reichardt inventou para Charles Dickens, Boz, na verdade) e todos os escritores-fonte do pauperismo, marchando há anos passo a passo com o mal de nossa época; ela desdenha escrever aos eruditos especializados e escreve para o grande público, afasta todas as expressões de carácter estranho, todo o cálculo latino, todo o jargão corporativo, tudo isso ela afasta dos escritos de outros, pois seria querer pedir demais desejar que a Crítica se submetesse, ela mesma, a este regulamento da administração. Todavia até mesmo isso ela chega a fazer, em parte, pelo menos, desembaraçando-se com admirável facilidade, se não das palavras em si, pelo menos do seu conteúdo; e quem haverá de acusá-la de fazer uso da grande pilha de palavras estrangeiras ininteligíveis, se ela mesma nos obriga a chegar a essa conclusão através de manifestações sistemáticas que dão conta de que essas palavras permaneceram ininteligíveis também para ela? Algumas provas dessa manifestação sistemática:

Por isso lhes são abomináveis as instituições do pauperismo.
Uma lição de responsabilidade, na qual toda emoção do pensamento humano se converte na imagem da mulher de Ló.
Sobre a pedra que coroa este edifício artístico, de facto rico em convicções.
Este é o conteúdo fundamental do testamento político de Stein, que o grande estadista entregou antes mesmo de se despedir do serviço activo do governo e de todos seus escritos.
Este povo não possuía ainda nenhumas dimensões para uma liberdade tão ampla.
Porquanto ele, no fim de seu escrito publicista, parlamentou com relativa certeza, assegurando que falta apenas confiança.
Ao juízo varonil que levanta o Estado, que sabe elevar-se acima da rotina e do temor pusilânime, que se forjou na história e se nutriu com viva intuição nas instituições públicas estrangeiras.
[…]
Ao povo, ao qual também o senhor Brüggemann distribui a certidão de baptismo da sua emancipação.
Uma contradição bastante vivaz contra as demais determinações, proclamadas na obra com respeito aos dotes vocacionais do povo.
O egoísmo enfadonho dissolve todas as quimeras da vontade nacional com rapidez.
A paixão de adquirir muito etc., esse era o espírito que permeou toda a época da Restauração e que se integrou aos novos tempos com uma quantidade bastante significativa de indiferença (as construções bizarras do senhor Reichardt são um dos pontos criticados com dureza por Engels).
O obscuro conceito de significação política, passível de ser encontrado na nacionalidade prussiana de carácter rural, descansa sobre a lembrança de uma grande história.
[…]
In Karl Marx (1818-1883) e Friedrich Engels (1820-1895), A Sagrada Família, A crítica da Crítica crítica contra Bruno Bauer e consortes, 1844, 1965, Boitempo Editorial, 2003, ISBN 978-857-559-032-4.

Cortesia de BoitempoEditorial/JDACT

sábado, 5 de maio de 2018

Roma Antiga. A vida sexual. Géraldine Puccini-Delbey. «Apesar do seu propósito procriador, o casamento romano existe juridicamente mesmo que não seja consumado. A realização do acto sexual não é necessária à sua existência…»

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A finalidade da procriação
«(…) O matrimonium romano é uma instituição que implica uma mãe (mater). Devemos a Benveniste o ter mostrado a singularidade do nome latino do casamento (matrimonium), que significa condição legal de mater: O casamento é o estado de mãe ao qual se destina a rapariga. A ideia que está implícita na palavra é a de que um homem se casa com uma mulher, in matrimonium ducere, para dela obter filhos, segundo a formulação legal. Ele pode ser dissolvido quer pela morte de um dos esposos, quer por separação (repudiação, divórcio). Uma das causas mais frequentes de repudiação de uma esposa pelo marido, a partir do século III a.C., é a sua esterilidade ou uma insuficiente fertilidade.
A mulher é, portanto, considerada pelos homens na sua capacidade para ser mãe. A antropóloga Françoise Héritier estima que todos somos submetidos a um mesmo modelo de representação que vem da nossa pré-história e ao qual chamo modelo arcaico dominante. Os homens têm necessidade de se apropriarem das mulheres para terem descendência e, sobretudo, uma descendência semelhante a eles, isto é, filhos homens. Portanto, elas foram tidas como um recurso. Neste ponto, nada distingue Roma das outras sociedades antigas, nem, de forma mais geral, da quase totalidade das sociedades humanas antes da emancipação das mulheres no mundo industrial contemporâneo. O que mais merece atenção, para além de todas as generalidades sociológicas que podem ser inspiradas pelo tema da mulher-mãe, é um facto de ordem institucional que, ele sim,. é original: o acontecimento que faz uma mulher aceder ao estatuto reconhecido pela sociedade de materfamilias já não é o parto, mas sim o casamento. Yan Thomas sublinha igualmente que o direito, forjando, para designar a esposa legítima, o nome materfamilias, constrói a maternidade da mulher como um estatuto que se realiza no único facto de estar unida a um paterfamilias: o código das dignidades institucionais desnaturaliza a maternidade para a absorver, ideal e ficticiamente, no estado de esposa de um cidadão maior. É a razão pela qual se diz mãe de família até mesmo de uma esposa que ainda não teve filhos.
Os romanos consideram convencionalmente o casamento como uma instituição necessária para o nascimento de filhos legítimos. Uma mulher é dada a um homem com o único intuito de procriar, de continuar a linhagem do esposo com descendentes legítimos. É este objectivo que define a mulher como uma esposa legal e a união como um casamento. No enunciado deste objectivo, é o ponto de vista masculino que predomina, claro e pragmático. A cidade e a sua sobrevivência precisam que os cidadãos se casem e produzam novos cidadãos. A satisfação do instinto sexual não é, portanto, a razão de ser do casamento, porque os homens podem licitamente satisfazer os seus desejos físicos sem recorrer ao casamento. A sexualidade conjugal tem como única finalidade a procriação. No século primeiro da nossa era, uma mulher a que se costuma chamar Túria, mas cujo nome é na verdade desconhecido, ilustra bastante bem a importância deste modelo tradicional do casamento nas mentalidades romanas.
No elogio fúnebre que lhe dirige o esposo, este recorda que ela lhe propôs o divórcio dado o casal ser estéril, mas que a isso ele opôs uma recusa veemente, em nome da fidelidade conjugal que os ligava indefectivelmente. Se um casal falha na tarefa de produzir filhos, a esterilidade é, em geral, imputada à esposa, e o marido pode unilateralmente divorciar-se. Quando Apuleio se casa com a rica viúva Pudentila em Oea, em meados do século segundo da nossa era, a finalidade do casamento ainda não mudou. O casal comporta-se plenamente de acordo com as normas romanas tradicionais, casando-se não ad lubidinem, não por sensualidade, mas com o intuito de ter filhos. Procurando justificar o facto de se ter casado com Pudentila no campo, ele lembra o valor simbólico de um casamento realizado no campo, num solo fértil, enquanto a cidade representa um lugar estéril.

Que aquela que deve ser mãe (mater futura) se case no próprio regaço maternal, por entre o trigo maduro, na gleba fértil [...].

A sexualidade conjugal está, assim, indissociavelmente ligada à procriação. Todavia, se não pode rimar com paixão, mas com razão e dever, ela pode ocupar um lugar importante em Roma. Com efeito, a actividade sexual no interior do casamento é natural, necessária e casta; possui um carácter sagrado. As esposas respeitáveis devem aceitá-la. Os maridos devem cumpri-la para perpetuar a raça, mesmo que lhe ofereça poucos atractivos.
Apesar do seu propósito procriador, o casamento romano existe juridicamente mesmo que não seja consumado. A realização do acto sexual não é necessária à sua existência, como Ulpiano e muitos outros juristas confirmam: não é o facto de se dormir em conjunto que faz o casamento, mas sim o consentimento. Uma outra razão, de ordem médica, pode justificar a necessidade de casamento. Por vezes, as relações sexuais permitem a recuperação da saúde. Pudentila, mulher de Apuleio, é disso um exemplo típico. No seguimento de um período de viuvez de catorze anos, Pudentila tornou-se, nas palavras de Apuleio, letárgica, devido a uma falta demasiado longa de relações sexuais, às quais ela estava bastante acostumada aquando do seu primeiro casamento. Pudentila sofre visivelmente de histeria, ainda que Apuleio não nomeie a doença exacta da esposa. O seu casamento com Apuleio é, portanto, um antídoto para os seus problemas de saúde femininos. Os médicos antigos pensam, de facto, que a abstinência sexual involuntária de uma mulher, se for prolongada, pode acarretar complicações físicas e, em casos extremos, uma sufocação histérica, à qual os latinos chamam doença da vulva (uuluae morbus),para não esquecer a epilepsias». In Géraldine Puccini-Delbey, A vida sexual na Roma Antiga, 2007, Edições Texto e Grafia, 2010, Lisboa, ISBN 978-989-828-515-7.

Cortesia de TGrafia/JDACT

Roma Antiga. A vida sexual. Géraldine Puccini-Delbey. «O casamento romano é ele próprio baseado na noção de societas, comunidade de património e de vida entre duas pessoas de sexo oposto»

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Um fundamento filosófico
«(…) Cícero, na sua obra filosófica Dos Deveres, concordando com os peripatéticos e com os estóicos, considera o casal como o grupo animal original do qual derivam todos os grupos maiores: a sociedade reside primeiro na união conjugal, e depois nas crianças. O casal e os seus filhos formam a unidade de base que serve para fazer nascer a cidade e o Estado. O casamento é, por assim dizer, o viveiro do Estado, e o seu objectivo é gerar crianças, liberorum creandorum causa, de acordo com a fórmula ritual. No princípio de De inuentione, Cicero, interrogando-se acerca da origem da eloquência, descreve o estado natural antes da civilização, quando os homens erravam ao acaso pelos campos à maneira dos animais e quando ninguém vira ainda casamentos legítimos: estes são um critério decisivo de civilização, e Cícero liga todo o desenvolvimento social à união dos dois sexos no seio da instituição do casamento.
Esse tema é igualmente tratado por Lucrécio num texto poético que mostra que o surgimento da civilização humana põe fim ao reino das pulsões sexuais cegas e incontroladas, canalizando-as pela instituição do casamento. Vénus juntava os corpos dos amantes nos bosques; com efeito, cada mulher cedia quer a um desejo recíproco, quer à força violenta do homem e à sua paixão imperiosa [...]. Antes da civilização, os seres humanos eram governados pelas suas pulsões (cupido et libido); conheciam apenas copulações fortuitas, à semelhança dos animais. A civilização traz consigo a vida em comum: a mulher, pelos laços do casamento, torna-se propriedade de um único esposo. Este fundamento filosófico do casamento é ridicularizado, com humor, mas também com uma certa provocação, pelo poeta elegíaco Ovídio, que apresenta, pelo contrário, o primeiro acto sexual como o meio de civilizar os homens primitivos selvagens e que insiste no prazer sentido pelos animais fêmeas ao copularem: no início havia uma massa confusa de coisas, sem qualquer ordem [...]. O género humano errava, solitário, pelos campos [...] e durante muito tempo os homens ignoravam-se uns aos outros. Diz-se que foi a voluptuosidade fagueira que lhes suavizou as almas bravias; um homem e uma mulher encontraram-se num mesmo lugar; o que ambos fizeram aprenderam por si mesmos, sem qualquer mestre; Vénus realizou o seu doce ofício sem qualquer manual.
Não é o casamento que traz a civilização aos olhos de Ovídio, mas sim a paixão sexual, o que Lucrécio, por seu turno, associa ao estado primitivo do homem selvagem. Esta passagem de Ovídio contém algumas evidentes reminiscências do poema de Lucrécio, mas sustentando deliberadamente o oposto da demonstração epicurista a propósito da natureza do amor. Lucrécio pinta a paixão sexual como uma força destrutiva que é preciso evitar a qualquer preço, porque impede o homem de atingir a ataraxia; ele aceita o acto sexual unicamente quando este é necessário para a reprodução. Virgílio, igualmente, mostra no conjunto da sua obra poética que o desejo sexual conduz a um comportamento irracional, violento, que leva à loucura furiosa (furor) e à raiva (rabies). A Vénus ovidiana, pelo contrário, tem o apanágio da doçura e constitui-se como o agente da concórdia entre os amantes. O acto sexual é o melhor meio de apaziguar uma amante ciumenta e irritada. Não são as palavras que podem dissipar uma querela de apaixonados, mas os prazeres de Vénus, gaudia Veneris. Ovídio parece apresentar aqui, de maneira séria, uma doutrina científica segundo a qual o acto sexual é eficaz para trazer a paz aos dois parceiros, mas, na realidade, o jogo intertextual com Lucrécio e Virgílio, que demonstram o contrário, ilustra o carácter incongruente e discrepante das suas afirmações, característica da sua escrita poética.
Apesar deste jogo poético subversivo, o casamento surge habitualmente como uma instituição fundamental sobre a qual assenta o equilíbrio da sociedade romana. O casamento romano é ele próprio baseado na noção de societas, comunidade de património e de vida entre duas pessoas de sexo oposto. Esta parceria entre o homem e a mulher exclui a poligamia, que parece recolher um julgamento negativo, ainda que raros sejam os autores que a ela façam alusão. A poligamia é uma instituição própria dos bárbaros. É Salústio quem exprime mais claramente o seu desprezo pelas sociedades poligâmicas dos númidas e dos mouros, nas quais nenhuma esposa ocupa a posição de parceira igual: [...] cada um, de acordo com os seus recursos, tem o maior número de esposas possível, uns dez, outros mais, e os reis mais ainda. Assim, o espírito é assediado pela quantidade; nenhuma obtém o estatuto de associada, todas são igualmente sem valor. Já Tácito faz o elogio dos casamentos dos germanos, porque estes últimos, quase únicos entre os bárbaros, se contentam em ter apenas uma esposa, com a excepção de alguns que, não por sensualidade (libido), mas devido à sua nobreza, são invadidos por numerosas propostas de casamento». In Géraldine Puccini-Delbey, A vida sexual na Roma Antiga, 2007, Edições Texto e Grafia, 2010, Lisboa, ISBN 978-989-828-515-7.

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